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“A internet não é mais um componente, é o próprio corpo dos movimentos”

7 de Agosto de 2015, 19:19 , por Marcelo D'Elia Branco - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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FSM em Porto Alegre - alterglobais                 Puerta del Sol - Madrid 2011 - indignados #15M

FSM  

 Os movimentos sociais alterglobais, protagonistas nos anos 2000, já tiveram a Internet como um componente estratégico para sua organização e mobilização. A diferença é que agora "a Internet não é mais um componente de comunicação, é o próprio corpo do movimento". Ao invés das organizações sociais constituídas, agora temos um movimento em rede sem intermediários. Se não há intermediários, não há representação. A identidade coletiva é construída diretamente nas conexões humanas que se formam, viralizam nas redes digitais e transbordam para as ruas. São movimentos de multidões multimídia com grande capacidade de comunicação autônoma. É um fenômeno social que sem a Internet, não ocorreria. Pelo menos, desta forma, nesta dimensão e nesta velocidade.

 

primeira onda

 

Há 15 anos atrás, final do século passado e início deste, vivenciei como ativista a primeira onda de movimentos sociais globalizados. Em oposição a ordem econômica mundial neoliberal, emergiram novas organizações sociais, novos movimentos, novas redes e novos protagonistas que extrapolaram a lógica de representação histórica dos movimentos através dos sindicatos e partidos políticos. Com uma identidade coletiva comum anticapitalista sob o lema de “um outro mundo é possível” o Fórum Social Mundial de Porto Alegre foi o terreno para a convergência e diálogo destes movimentos emergentes. No campo institucional a democracia direta, através do orçamento participativo implantado em Porto Alegre, fazia parte da alternativa possível no imaginário dos movimentos e de novas práticas de participação social na gestão do bem comum.  A Internet e as ferramentas de comunicação alternativas se constituíram como componentes fundamentais e estratégicos destes novos movimentos. Os Centro de Mídia Independentes (Indymedia), Ciranda, hacklabs e outras formas de comunicação midialivrista construíram a narrativa dos movimentos de protestos antiglobalização neoliberal e na sequência dos movimentos altergobais.

 

segunda onda

 

Desde 2011 uma nova onda de movimentos sociais globalizados e interconectados sacode o mundo com revoltas, protestos e revoluções. Acontecem em conjunturas políticas e realidades sociais diferentes, mas com elementos tecnopolíticos comuns e que atuam por fora das instituições. Segundo observa Javier Toret, psicólogo e ativista, no estudo “Tecnopolítica e 15M: a potência das multidões conectadas”  sobre os movimentos dos indignados espanhóis de 2011: “Em todas as fases do #15M temos visto e estudado processos de comportamento coletivo que não estão baseados em organizações sociais constituídas, nem em entidades ou vínculos fortes. Isso é, temos observado comportamentos inteligentes de redes de pessoas que majoritariamente não se conheciam, não estavam organizadas por uma autoridade central, por nenhuma orientação secreta, por isso acreditamos ser pertinente situarmos o conceito de enxame para dar conta destes fenômenos”.

Tenho acompanhado, como convidado, o grupo de pesquisas transdisciplinar do Internet Interdisciplnary Institute (IN3) da Universitat Oberta de Catalunya "Redes, Movimentos e Tecnopolitica" dirigido pelo sociólogo Manuel Castells,  que constituiu-se como um laboratório-vivo, articulando a academia e os 'movimentos rede" no estudo das práticas tecnopolíticas emergentes da atualidade: “desde 2011, surgiram numerosos processos de mobilização política em que as redes (tecnológicas e humanas) têem jogado um papel fundamental. Nosso grupo trata de analisar estes processos desde uma perspectiva situada, experimental e transdisciplinar, que incorpora conhecimentos e métodos provenientes das ciências das redes, dados e complexidades, dos estudos dos movimentos sociais, de comunicação, e da ciência, tecnologia e sociedade (STS) assim como dos próprios movimentos, abrindo assim novos territórios narrativos, analíticos e práticos” [2]

Uma referência importante para análise desta segunda onda dos movimentos sociais globalizados está no livro “Redes de Indignação e Esperança” (2013) de Manuel Castells e concordando com Antonio Alejo “Castells se constitui numa referencia internacional no estudo dos movimentos sociais globais. Sua autoridade acadêmica nesta matéria se sustenta na elaboração de sua teoria sobre os movimentos sociais em rede, que ele expõem amplamente no seu livro “Comunicação e Poder” (2009) . Castells, ao analisar a natureza e as perspectivas dos movimentos sociais em rede, parte de uma premissa básica segundo a qual “as relações de poder constituem o fundamento da sociedade, os que detêm o poder constroem as instituições da sociedade segundo seus valores e interesses”. Neste sentido, os significados mentais são fontes para o poder com qualidade de “estáveis e decisivos”, e se traduzem no desenho das instituições, normas e valores por meio dos quais se estruturam as sociedades. A partir destas ideias, se entende que os processos de comunicação são fundamentais para a perspectiva analítica de Castells, para ele, a “luta de poder fundamental é a batalha pela construção de significados nas mentes”. Castells reconhece nos processos de comunicação uma grande diversidade no momento de construir significados, mas ao mesmo tempo assinala uma característica comum a todos os processos de construção simbólica: a infraestrutura em que descansam as mensagens e marcos criados, formatados e difundidos, isso é, as redes de comunicação multimídias. Na política contemporânea, Castells distingue os componentes que dão vida aos processos de comunicação e supõem uma mudança qualitativa na comunicação ao redor do mundo. A infraestrutura que dá conta dos processos de comunicação contemporâneos se traduz, de acordo com o autor, em uma “autocomunicação de massas” com o uso da Internet e das plataformas de redes sem fio para a comunicação digital. Com este enfoque o conceito de poder da interconexão se torna chave para entender a ideia de poder que Castells utiliza: para ele os movimentos sociais são expressões do contrapoder, o que implica uma reprogramação de redes com  interesses e valores alternativos, que além de interromper as conexões dominantes por meio de redes de resistência e de mudanças sociais. O autor assinala que “os movimentos sociais exercem um contrapoder construindo-se em primeiro lugar a si mesmos mediante um processo de comunicação autônoma, livre do controle de poder institucional” [3].

Foi através deste contexto, que busquei problematizar a realidade brasileira, aproveitando minha vivência como ativista nas ruas de Porto Alegre, durante as “jornadas de junho”, em 2013. Registrei esse histórico acontecimento num artigo para o dossier La Vanguradia “o poder das redes sociais”, Brasil 2013, as ruas e a Presidenta, o qual inicio falando que na esteira “dos protestos que sacudiram o mundo em 2011 como a primavera árabe, indignados na Espanha e OccuppyWallStreet; 2013 ficará marcado como o ano em que o Brasil entra definitivamente na rota dos protestos sociais organizados a partir das redes sociais da internet. As manifestações eclodiram, sem lideranças definidas, sem a participação das organizações históricas e foram mobilizadas via internet tomando de surpresa os políticos, intelectuais e empresas de comunicação.” Não pretendo aqui neste texto aprofundar a análise sobre as particularidades do levante brasileiro de 2013, nem dos legados, pois não é o meu objetivo. Posso fazer em outro artigo. Mas creio importante recolocá-lo aqui para ilustrar a interconexão das novas dinâmicas sociais em nosso país como panorama de um contexto global mais amplo.

Neste mês de julho  do corrente ano, estive em Barcelona, participando de um encontro co-promovido pelo grupo Tecnopolítico da Universiatat Oberta de Catalunya, UOC, “#GlobalRev: uma visão tecnopolítica da conjuntura global de 2011 à 2015. Conexões Globais e diálogos transdisciplinares”. O evento reuniu pesquisadores e ativistas dos movimentos rede da Europa e Américas num agradável e produtivo encontro. Destaco dentre tantas ideias e análises, uma frase da pesquisadora e ativista Guiomar Rovira que me chamou a atenção e passou a ser um componente definitivo para a análise do grupo: os movimentos sociais alterglobais, protagonistas nos anos 2000, já tiveram a Internet como um componente estratégico para sua organização e mobilização. A diferença é que agora “a Internet não é mais um componente de comunicação, é o próprio corpo do movimento” . Ao invés das organizações sociais históricas, agora temos um movimento em rede sem intermediários. Se não há intermediários, não há representação.  A identidade coletiva é construída diretamente nas conexões humanas que se formam, viralizam nas redes digitais e transbordam para as ruas. São movimentos de multidões multimídia com grande capacidade de comunicação autônoma. É um fenômeno social que sem a Internet, não ocorreria. Pelo menos, desta forma, nesta dimensão e nesta velocidade.   Essas diferenças, em relação aos movimentos alterglobais, não são um detalhe, mas uma pista para tentar compreender os movimentos sociais do nosso tempo e as novas formas de participação.

Leia em catalão 

 

 


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