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junho de 2013 e as eleições presidenciais

19 de Setembro de 2014, 21:06 , por Marcelo D'Elia Branco - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Legado de junho de 2013 e as eleições presidenciais V0.8
(uma atualização do artigo, Brasil 2013: as ruas e a Presidenta)


Fui provocado, pelo sociólogo Manuel Castells, a escrever algumas notas sobre a continuidade dos movimentos sociais em rede, que sacudiram o Brasil em junho de 2013, e seus desdobramentos nesta conjuntura política das eleições presidenciais em nosso País. Aceitei o desafio, mesmo que essas opiniões possam estar contagiadas pela carga emocional que carrego, em função do processo de disputa eleitoral ao qual eu tenho um lado bem definido. 

No texto que escrevi ano passado especialmente para o “Dossiê La Vanguardia”terminei com uma avaliação positiva da proposta que a presidenta Dilma fez durante as manifestações de junho, propondo uma assembléia nacional constituinte e um plebiscito pela reforma política: "Meu governo está ouvindo as vozes democráticas que pedem mudanças", garantiu. Na ocasião, Dilma defendeu um “grande pacto ”por maiores investimentos nos serviços públicos de saúde, educação, transporte coletivo e propôs um plebiscito sobre a realização de uma reforma política através da convocação de uma assembléia nacional constituinte.

Avaliei, no final, que “o êxito político da presidenta Dilma dependeria em muito da forma como resolveria, na prática, o tensionamento gerado pelas velhas estruturas, alianças e práticas políticas que pressionam o governo contra as reformas anunciadas e os novos ventos e furacões que vêm das ruas gritando por mais participação e democracia direta.”

Na verdade, a proposta de Dilma não teve respaldo parlamentar, nem força para seguir adiante. Bombardeada por todos partidos de oposição e pelos principais meios de comunicação massmedia, encontrou também resistências nos partidos da base aliada, principalmente no PMDB, e um deputado do PT de São Paulo, Candido Vaccarezza, mesmo contra a orientação partidária, se apressou em fechar um acordo com a oposição e com o PMDB para enterrar de vez qualquer possibilidade de uma reforma política ampla, através de uma constituinte exclusiva validada por um plebiscito, ainda em 2013.

A idéia que defendi é que a pressão das ruas poderia ser uma grande aliada para impulsionar as reformas necessárias na nossa estrutura política e a possibilidade de avançarmos mais ainda nas reformas iniciadas por Lula e Dilma. Afinal, foi a energia das manifestações sindicais e das mobilizações massivas, nas ruas, iniciadas nos anos 80, que viabilizaram a derrubada da ditadura militar e acumularam para uma vitória do projeto político liderado por Lula. As reformas importantes realizadas pelos governos Lula e Dilma só foram possíveis porque beberam e se apoiaram nessas manifestações passadas, mas não conseguiriam seguir adiante sem uma nova energia e pressão das ruas, agora encabeçada pelos novos manifestantes nativos digitais que tomaram as ruas em 2013. Um contraponto fundamental ao conservadorismo das estruturas vigentes e de sua lógica que bloqueiam qualquer possibilidade de novos avanços. 

As reformas, as mudanças, o novo sistema político impulsionado pela energia das ruas, não foi devidamente compreendida e priorizada pelos partido políticos de esquerda, que não valorizaram essa rica experiência de milhões de jovens que, pela primeira vez nas suas vidas, tiveram uma participação política ativa e que, na sua maioria, tinham de quatro a seis anos de idade quanto Lula chegou ao governo. 

Ao invés de um diálogo, de um aprendizado, incorporando as novas necessidades e formas de participação desses novos sujeitos políticos, a escolha foi por minimizar e até hostilizar (os chamando de "coxinhas") o poder dessa nova geração. Priorizou-se, por parte da esquerda, um diálogo com o passado, comparando a situação atual com os governos anteriores. Comparação necessária, mas não suficiente para projetar um futuro mais digno no imaginário popular. O sentimento de mudanças, das novas utopias revolucionárias, antisistema, do #mudamais, não foi incorporado pelos partidos de esquerda, nem pelas campanhas eleitorais. Ficamos órfãos. 

O ano de 2014 iniciou com um favoritismo quase absoluto da Presidenta Dilma para a reeleição. Ganharia no primeiro turno pois o principal adversário da oposição, Aécio Neves, apoiado pelo poder econômico, financeiro e midiático, não poderia representar o sentimento de mudanças. A novidade política imprevisível e que poderia mudar este quadro eleitoral estava no que poderia acontecer durante a realização da Copa do Mundo. Se ocorressem novas manifestações massivas, como em 2013, ou se a organização do evento fosse um fracasso, isso poderia desequilibrar contra governo e influir decisivamente na disputa eleitoral.

Aqui faço uma critica fraterna à tática adotada pelas lideranças dos manifestantes e pelos aliados do governo: @s governistas apostaram todas as suas fichas no fracasso das manifestações e assumiram uma posição passiva diante de tudo que representa a Copa da FIFA. Nenhuma crítica à podridão, a representação corrupta e corruptora que a FIFA desperta no imaginário popular. Nenhuma crítica à arrogância e prepotência do secretário-geral Jérôme Valcke, que cada vez que pisava no Brasil desqualificava e debochava do esforço do governo e da sociedade para realizar a copa em nosso País. A linha política majoritária assumida foi a de vestir a camiseta canarinho, torcer pela seleção brasileira e exaltar o sucesso na organização do torneio e o término das obras a tempo. Via de regra, não houve nenhum diálogo, valorização ou avaliação positiva das manifestações de junho de 2013. 

Por outro lado, as lideranças dos manifestantes apostaram todas as suas fichas na resumida hashtag #NãoVaiTerCopa. A riqueza das manifestações de junho tinha na pauta das ruas, de forma explícita ou implícita, a luta por um novo sistema político, por mais participação e democracia direta, contra a corrupção, por melhoria e qualificação dos serviços públicos e pela reapropriação dos espaços urbanos privatizados. No entanto, essa gama de reivindicações ficou empobrecida pela aposta monotemática do #NãoVaiTerCopa. 
Algumas lideranças entraram na onda de enfatizar a nossa incapacidade, como povo brasileiro, de realizar um evento desta magnitude. Investiram, explicitamente ou implicitamente, na baixa auto-estima e potencializaram o “complexo de vira-lata”.  A oposição neoliberal, a direita e até apoiadores da volta do regime militar no Brasil, aproveitaram a onda e somaram-se as iniciativas dos manifestantes #nãovaitercopa. Os manifestantes anti-sistema não conseguiram se diferenciar à altura desses aliados do velho sistema. Além disso, algumas lideranças passaram a idolatrar as ações black bloc como uma alternativa de manter o movimento vivo e como contraponto à brutal violência policial. 

Então veio a Copa da Fifa, as obras ficaram prontas a tempo, a organização do evento foi impecável e a #CopaDasCopas foi um sucesso, com reconhecimento internacional, apesar do vexame da seleção brasileira. A alegria tomou conta das cidades, embaladas por milhares de torcedores estrangeiros que tomaram às ruas e foram contagiando, pouco a pouco, @s brasileir@s que estavam céticos ou assustados diante do possível cenário de caos e desordem pública, anunciado pelos grandes meios de comunicação de massa do País. 

Nesse clima de alegria e festa do povo brasileiro, os manifestantes ficaram isolados e a tática #NãoVaiTerCopa passou a ser impossível de ser crível pela maioria esmagadora da população. O medo da violência policial e das ações black bloctambém somou contra a massificação dos protestos. Houve protesto em todo o Brasil, mas com baixa participação social, a violência policial também se manteve num nível inaceitável numa democracia, mas o saldo não foi positivo para acumulação política dos movimentos, na minha modesta opinião.

Tudo alinhava para uma vitória de Dilma no primeiro turno, até que a trágica morte do socialista Eduardo Campos, com apenas 8% das intenções de votos, dois meses das eleições, mudaria tudo.  Marina Silva, que já tinha sido um fenômeno eleitoral em 2010, alcançando 20% dos votos e levando o pleito para um segundo turno, passa a ser a candidata no lugar de Campos.
A comoção nacional com a tragédia reascende um sentimento por mudanças e “a escolhida” Marina Silva acaba com as chances do conservador Aécio Neves de ser uma alternativa concreta nessas eleições. Pela primeira vez, duas mulheres ex-ministras de Lula, Dilma e Marina, se enfrentam como favoritas nesta equilibrada e emocionante disputa eleitoral.
Uma derrota contundente e derradeira para o projeto do PSDB. Uma ameaça à continuidade dos governos Lula e Dilma. Uma incógnita?

Neste momento, quase às vésperas das eleições, eu não tenho dúvida de que Marina não é uma incógnita. Respeito o passado dela, mas as suas últimas guinadas e posicionamentos públicos a colocam como a favorita dos conservadores para derrotar o projeto do PT e aliados. Conta com o apoio dos banqueiros e dos especuladores financeiros, dos militares golpistas e dos grandes meios de comunicação de massas. Se não fosse o suficiente, ela tem incorporado nas suas propostas e alianças o que tem de mais conservador e tacanho do fundamentalismo religioso de nosso país. Malafaias, Felicianos e cia. Uma candidata contra a união estável de pessoas do mesmo sexo, contra o aborto, contra as pesquisas e o uso das células tronco. Contra a partilha dos royalites do pré-sal, que destinarão trilhões de reais nos próximos anos, 70% para a educação e 30% para a saúde. Isso poderá provocar uma revolução na educação e na saúde de nosso país. Uma candidata que defende a autonomia do Banco Central, isto é, que a política econômica seja ditada pelos banqueiros e não mais pelos que forem eleitos pelo povo pra governar. Uma candidata que propõe a terceirização desenfreada de serviços públicos estratégicos. Uma candidata que defende uma nova legislação trabalhista com alteração das conquistas históricas dos trabalhadores brasileiros. Isto não é uma “nova política”, é a volta do velho, do reacionário. 

Por outro lado isso ajudou também a presidenta Dilma e a campanha a se posicionarem politicamente, além dos efeitos especiais dos marqueteiros. Dilma retoma na campanha, com força, a proposta da assembléia nacional constituinte com plebiscito, a defesa clara dos direitos civis e humanos dos homossexuais, da garantia das conquistas históricas dos trabalhadores previstas na CLT, da continuidade dos projetos sociais, de novas formas de participação social diretamente pela população para a tomada de decisão do governo federal. 

Não tenho dúvida, tô com Dilma pro Brasil continuar mudando e na expectativa de que a voz das redes e das ruas predomine no próximo governo em relação à lógica política caduca representativa que temos em nosso País. 

Marcelo D'Elia Branco
19 setembro de 2014


Tags deste artigo: #dilma #lula #marina #naovaiterecopa #copadascopas #brasil

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