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Liberdade na Fronteira

27 de Maio de 2009, 0:00 , por Desconhecido - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

LaKademy 2017

24 de Maio de 2017, 13:38, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

Foto em grupo do LaKademy 2017

E chegamos à 5ª edição do encontro latino-americano do KDE, o LaKademy. Nesse tempo todo foi perceptível o crescimento da comunidade na região, em especial no Brasil, ainda que mantendo o fluxo típico dos trabalhos voluntários onde participantes vem e vão de acordo com suas demandas.

Dessa vez o evento saiu das praias cariocas e adentrou um pouco mais para o interior do país, subindo o morro urbano de Belo Horizonte. Cidade aprazível conhecida pelas cachaças, queijos, cervejas artesanais, queijos, ladeiras e queijos, Belo Horizonte combina um ar cosmopolita, com diversas opções de lazer, culinária e mais, com um jeito cordial e solícito típico de seus moradores. Adorei a cidade e espero um dia agendar uma viagem que não seja a trabalho para lá.

As atividades do LaKademy ocorreram nas dependências do CEFET, do final de abril ao início de maio, em pleno feriadão do dia do trabalhador combinado a uma greve geral dias antes. Muitos que participaram do evento (eu incluso) defendiam as pautas da greve, mas não podíamos abandonar o evento após todo o investimento feito pelo KDE. Portanto, fica aqui meu mea culpa sobre esse tema. 🙂

A exemplo das demais edições do evento trabalhei bastante no Cantor, software matemático o qual sou mantenedor. Dessa vez as principais tarefas que desenvolvi podem ser resumidas em um grande esforço de triagem: revisões de patches pendentes, uma extensa revisão para fechar todos os bugs antigos e inválidos existentes, deixando abertos apenas aqueles que importam, e outra revisão nas tarefas pendentes, em especial naquelas que estavam abertas há quase um ano mas cujo os desenvolvedores responsáveis não haviam realizado qualquer movimentação durante o referido tempo.

No campo das funcionalidades, finalizei uma refatoração nos backends para apresentar a versão recomendada da linguagem de programação no Cantor. Como cada linguagem tem seu próprio planejamento, é comum que de uma versão para outra o backend do Cantor comece a se comportar de maneira inesperada ou mesmo deixe de funcionar (Sage, estou pensando em você). Essa funcionalidade apresenta a versão “recomendada” da linguagem para o backend do Cantor, significando que essa versão descrita foi testada e sabemos que funcionará bem com a ferramenta. Isso serve como um workaround para manter a sanidade do desenvolvedor enquanto suporta 11 backends diferentes.

Outra funcionalidade que trabalhei mas ainda não finalizei foi a adição de um seletor de backends LaTeX para usar no Cantor. Atualmente existem muitas opções de processadores LaTeX (pdflatex, pdftex, luatex, xetex, …), alguns deles com muitas opções adicionais. Isso aumentaria a versatilidade do Cantor e permitira que processadores modernos possam ser utilizados no software.

Além dessas funcionalidades houveram correções de bugs e auxílio ao Fernando Telles em algumas tarefas sobre esse software.

Outras tarefas que desenvolvi nessa edição, também a exemplo das demais, foram as relacionadas com o gerenciamento e promoção do KDE Brasil. Nelas, pesquisei como trazer de volta o feed do Planet KDE Português (que o Fred acabou desenvolvendo), atualização dos feeds automáticos nas nossas redes sociais, atualização da conta de e-mail que utilizamos para gerenciar nossas redes, port do site do LaKademy para bootstrap (que acho q o pessoal não vai utilizar pois estão migrando para WordPress) e uma pesada triagem das tarefas no workboard do KDE Brasil. Além de tudo isso, ainda tivemos a famosa reunião de promo onde discutimos ações de promoção para o país e região – tudo também documentado no workboard.

E claro, assim como trabalhamos muito e de forma muito intensa esses dias todos, o LaKademy também é um momento de reencontrar amigos e afetos e se divertir bastante entre um push e outro. É sempre reconfortante encontrar a galera inteira, e fica o convite para que os calouros apareçam sempre.

Uma falta da edição desse ano foi a ausência de não brasileiros – precisamos pensar em estratégias de termos latino-americanos de outros países participando do LaKademy. Seria ruim que o evento passasse a ser tão somente um Akademy-BR.

Filipe e Chicão

Para finalizar, deixo meu agradecimento à comunidade e minha disposição para continuar trabalhando para tornar a América Latina uma região cada vez mais importante para o desenvolvimento e futuro do KDE.



Ainda a busca da narrativa dos heróis da ciência brasileira

29 de Março de 2017, 16:46, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

Semanas atrás fomos brindados com uma importante notícia para a ciência brasileira: João Moreira Salles, documentarista e cineasta, herdeiro da família controladora do antigo Unibanco, e sua esposa Branca Vianna Moreira Salles, linguista e professora da PUC-RJ, lançaram o primeiro instituto privado de fomento à ciência, a Serrapilheira.

Os diversos textos sobre o lançamento do instituto dão a entender que a Serrapilheira apoiará pesquisadores já estabelecidos e com potencial para realizar contribuições relevantes que terão grande impacto em suas respectivas áreas de atuação. O instituto concentrará apoios para pesquisadores das áreas de ciências exatas e naturais, engenharias, e ciências da vida.

Do texto da Folha linkado anteriormente, destaco o seguinte trecho que tem comentário de João Moreira Salles:

Ficaram de fora do guarda- chuva do Instituto Serrapilheira as ciências humanas. A explicação, diz Moreira Salles, é que a área das ciências naturais carece de personagens no imaginário brasileiro e na dramaturgia do país.

“Na cabeça dos jovens, tornar-se um cientista não é algo tão empolgante ou descolado”, diz. Ele cita um ano em que se formaram 30 alunos de cinema na PUC-RJ e apenas dois matemáticos na mesma instituição. “O Brasil será uma tragédia. Uma tragédia bem filmada, mas ainda assim uma tragédia.”

Dos grifos, percebe-se que João Moreira Salles, talvez como alguém ligado às “artes da narrativa” – cinema, literatura – é um adepto da ideia de que a ciência brasileira terá mais atenção, se tornará popular e terá consequentemente mais investimentos, quando tivermos mais “heróis” na área: cientistas reconhecidos pelo público em geral, famosos, cujos trabalhos tem impacto e estão com presença frequente na mídia.

Isso talvez explique o suporte midiático que João Moreira Salles deu a Artur Avila quando o matemático venceu a Medalha Fields. Naquela época, o documentarista realizou diversos curtas como Artur tem uma mala, Artur tem uma gravata e Artur tem uma medalha. Somado a edição especial comemorativa da Piauí (que também é de propriedade de João) sobre o tema, podemos concluir que a experiência com Avila já foi uma tentativa de João colocar em prática a ideia da construção da narrativa de um herói para a ciência brasileira.

Artur Avila mostra como se faz matemática, por João Moreira Salles

A ideia de construirmos narrativas de heróis da ciência brasileira já foi defendida por iminentes cientistas e mesmo ministros de estado. Em 2015 durante reunião da SBPC em São Carlos, o então ministro da ciência e tecnologia (sim, uma vez tivemos um ministério de ciência e tecnologia!) Aldo Rebelo (sim, ele foi ministro dessa pasta) ao comentar um resultado muito ruim de uma pesquisa sobre a popularidade da ciência no país – que dizia que apenas 6 em cada 100 brasileiros lembravam o nome de um cientista – respondeu “Não temos celebridades da ciência”.

No mesmo evento, a presidente da SBPC Helena Nader disse:

“Fico muito triste, nada contra o esporte, mas você fala com meninos e eles querem ser jogadores de futebol. Se a gente conseguir romper essa barreira, as famílias, os jovens, vão falar ‘vou querer ser cientista’, ‘vou querer ser professor’.”

E para finalizar, o matemático ex-presidente do IMPA e presidente da ABC Jacob Palis falou:

“Eu acho que nós precisamos mais de celebridades. Parece uma coisa fútil, cientista não gosta de celebridade, mas a difusão da ciência brasileira passa por aí. Precisamos de heróis.”

Cabe ressaltar que Jacob Palis é muito próximo de João Moreira Salles, também reconhecido como grande doador e divulgador dos trabalhos do IMPA. Os dois, portanto, compartilham a ideia de que precisamos de heróis para a ciência nacional.

Na blogosfera científica o tema é controverso. A época do evento da SBPC, diversos blogueiros questionaram a ideia da necessidade de heróis, outros concordaram, outros disseram que ela pode ser interessante mas não é o suficiente para resolver os problemas da área. Uma coleção de links e extratos de opiniões sobre o tema podem ser encontrados nesse post do Gene Repórter.

Do exposto, a Serrapilheira certamente será um veículo de grande importância para a aplicação da ideia de se criar narrativas de heróis da ciência brasileira. Se esse é o caso, certamente João Moreira Salles, documentarista que sabe bem o poder que uma boa história pode ter, é a pessoa mais indicada para colocar esse plano em movimento.



Mestrado em Ciência da Computação na UFPA: Sistemas Multiagentes e Smart Grids

20 de Dezembro de 2016, 14:28, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

Ainda não divulguei por aqui (é mais um de tantos textos pendentes) mas me tornei Professor Adjunto na Universidade Federal do Pará, campus Belém. Estou vinculado ao Instituto de Ciências Exatas e Naturais, Faculdade de Computação.

O ritmo de trabalho está bem rápido e já fui cadastrado no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação do instituto. Com o início do processo seletivo para ingresso de novos alunos no período 2017.1, tive 1 vaga alocada para minha supervisão. Será meu primeiro aluno ou aluna de mestrado.

Essa vaga está vinculada ao tema Inteligência Computacional. Especificamente, procuro alguém com interesse em inteligência computacional distribuída (sistemas multiagentes) e suas aplicações para sistemas elétricos de potência no cenário das redes elétricas inteligentes (smart grids). Desenvolvi estudos nesse tema durante meu mestrado e doutorado, e espero continuar a pesquisá-lo através da criação de um grupo de pesquisa sobre o tema na UFPA.

O candidato irá realizar trabalhos relacionados com o desenvolvimento de funcionalidades esperadas para os smart grids através da modelagem de equipamentos das redes elétricas como agentes em um sistema multiagente. As análises e simulações ocorrerão em uma rede computacional formada por computadores Raspberry Pi conectados entre si. O candidato deverá ter disponibilidade para estudar temas relacionados com engenharia elétrica e há a possibilidade de parcerias com outras instituições de ensino e empresas de energia para desenvolvimento dos estudos.

A pesquisa será desenvolvida em Belém, portanto o candidato deverá morar na cidade durante o período. As bolsas serão distribuídas apenas ao final do processo de seleção.

Aos interessados, todas as informações sobre o ingresso e processo seletivo estão disponíveis no edital. Maiores informações sobre a área de pesquisa, por favor verifique artigos publicados na minha página pessoal. Para qualquer informação ou dúvida, por favor me contate via e-mail através do endereço saraiva em ufpa.br.



Senhor Filipe a TIM tem uma oferta especial para o senhor

2 de Dezembro de 2016, 11:13, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

A história abaixo é real

14:35h de um primeiro de dezembro nublado em Belém. Toca o telefone, o número é 031973001065. Vem de Minas Gerais.

— <tuuuuuuuuuu> Alô boa tarde senhor Filipe?

— Olá boa tarde, sou eu sim.

— Boa tarde senhor Filipe aqui é da TIM tudo bem com o senhor?

— Sim, tudo bem.

— Senhor Filipe estou analisando no meu sistema o senhor usa muito internet e faz ligações interurbanas?

— Nem sempre mas algumas vezes sim.

— Pois senhor Filipe a TIM tem uma oferta especial para o senhor, baseado em seu perfil de…

— Desculpe, não tenho interesse.

— Mas senhor Filipe é uma ofert…

— Desculpe, realmente não tenho interesse.

— Mas o senhor nem quer ouvir a oferta?

— Olha prefiro nem ouvir, realmente não tenho interesse tá?

— Tudo bem então boa tarde e muito obrigada pela sua falta de educação.

— Ei!

— <tu> <tu> <tu> <tu> <tu> <tu> <tu>



A PEC 55 e a Ciência

29 de Novembro de 2016, 11:21, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

Estamos a poucas horas da votação em primeiro turno da PEC 55, projeto de emenda constitucional popularmente conhecido como “PEC do Teto dos Gastos”. O líder do governo no Senado, Romero “tem que mudar o governo para estancar essa sangria” Jucá, estima que a proposta será aprovada por 62 à 65 votos.

Poderíamos alterar o nome popular do projeto para termos maior clareza do tipo de impacto que ele terá no país. A PEC congelará por 20 anos não só os gastos mas também os investimentos em todos os setores do poder público federal exceto o pagamento da dívida. Nesse intervalo de tempo, o reajuste no orçamento em cada setor será realizado tomando-se por base apenas o IPCA – índice da inflação – do ano anterior.

Quando aprovado, a lei ficará em vigor por 20 anos mas poderá ser reavaliada em 10 anos, apenas para alterações no índice de reajuste estabelecido – ou seja, nada muito significativo. Uma ausência também chama atenção no texto da PEC, onde não há qualquer dispositivo que permita aumento nos investimentos mesmo no caso do país voltar a crescer e exibir números positivos na economia – estaríamos ainda presos ao reajuste exclusivo pela inflação do ano anterior.

Isso significa que importantes investimentos no país passarão duas décadas sem reajuste real, não importa o que aconteça com nossa sociedade e economia. As famílias que dependem de escola e saúde públicas serão as mais afetadas, principalmente porque aquelas que hoje não utilizam esses recursos passarão a demandá-los a medida que o desemprego continuar em alta, impactando significativamente esses sistemas. O aumento no número de idosos também exigirá mais investimentos na saúde, enquanto a redução nos investimentos do Estado em infraestrutura poderá nos legar mais atrasos em desenvolvimento econômico e mais desemprego.

Sendo muito claro, estamos diante de uma lei excessivamente radical. Nem digo que a estratégia de congelar investimentos seja de todo equivocada, mas o prazo estipulado, o índice utilizado, a falta de um dispositivo para aumentar investimentos em um cenário de crescimento econômico, fazem dessa proposta uma das mais radicais que já acompanhei desde quando me interessei por política. Por que não uma lei que limitasse os investimentos por 2~5 anos, para em seguida ser avaliada e realizar correções? Por que não aumentar significativamente o orçamento quando o país registrar 2 anos consecutivos de crescimento econômico positivo? Enfim, há muitas possibilidades de alterações na lei que poderiam deixá-la menos radical, mais palatável e realista, mas a pressa em aprová-la e a submissão de um legislativo implicado em todo tipo de escândalo, junto com um presidente tampão que com seus principais assessores dificilmente estará aqui para ver as consequências dessa lei, fazem o perfeito cenário para um triste desastre que nós pagaremos.

Como professor universitário me interessa sobremaneira o impacto da PEC 55 na ciência do país. Em reportagem para o blog de ciência do Estadão, o jornalista Herton Escobar escreveu duas matérias especiais sobre a crise na ciência brasileira. Na parte I o jornalista trata do corte no orçamento que ocorreu esse ano e o impacto no que restou do ministério da ciência fundido ao das comunicações, além de órgãos relacionados como os laboratórios de luz síncotron e o de computação científica. A parte II investiga a situação do CNPq e da FINEP. Atentem que essas matérias foram escritas em agosto, meses antes da proposta da PEC.

Um diferencial das reportagens citadas é a presença de gráficos com os valores do orçamento para diversas entidades que compõe o setor de ciência no Brasil de 2006 para cá, devidamente corrigidos pela inflação. E a constatação não poderia ser mais lamentável: os investimentos em ciência hoje no Brasil estão menores que 10 anos atrás.

Na última década tivemos um aumento expressivo no ensino superior no país, tanto na graduação quanto na pós. Diversas novas universidades foram criadas, novos programas de pós-graduação foram instalados, os Institutos Federais se adensaram e promoveram um forte programa de interiorização, foram formados milhares de novos mestres e doutores, houveram recursos para internacionalização da ciência produzida aqui. E depois de todas essas mudanças positivas, estamos sustentando um sistema com menos recursos do que o que tínhamos disponível quando ele era muito menor, 10 anos atrás.

Agora as projeções: com a aprovação da PEC 55, esse irrisório orçamento da ciência que é o menor em 10 anos e que não sustenta o atual sistema de ciência do país, será congelado por mais 20 anos.

O orçamento da ciência representa recursos que estão bem próximos de quem trabalha na área. São nossas taxas de inscrição, passagens e diárias para participarmos de congressos, são nossas diárias para participarmos de bancas de trabalho de conclusão de curso, mestrado e doutorado, são os valores disponíveis para compra de material e equipamentos, expansão e manutenção de laboratórios, construção de estruturas físicas nos campi universitários, são nossas bolsas de produtividade e também as bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado de nossos alunos, entre outros investimentos.

Passar as próximas duas décadas com esse orçamento congelado em um nível tão baixo representará o desmonte da ciência no país. Sem incentivos para renovar laboratórios e equipamentos, sem bolsas para os alunos, como fazer ciência? A perspectiva é que, nesse cenário, o país terá uma nova onda de “fuga de cérebros”, quando cientistas deixam seus postos para trabalhar em ambientes mais propícios em outros países. Inclusive isso já acontece hoje, com o caso recente mais emblemático sendo o da Suzana Herculano-Houzel.

Contra a PEC 55 diversas reitorias estão ocupadas, técnicos e professores estão em greve, e as principais sociedades científicas como ABC e SBPC estão pressionando senadores a votarem contra o projeto. Estou perfilado ao lado desses companheiros nessa luta justa e necessária dado a radicalidade dessa lei, ainda que infelizmente eu seja um dos poucos professores a encampar a greve na faculdade de computação da UFPA.

Caso a PEC venha mesmo a ser aprovada do jeito que está, vamos acompanhar o impacto em nossa sociedade e ver o que acontece. Espero não ter que recorrer a um aeroporto para trabalhar com dignidade no que gosto e me preparei anos para fazer.