Ir para o conteúdo
ou

Software livre Brasil

Twitter @PartidoPirataBR

410 Gone

Tela cheia Sugerir um artigo
 Feed RSS

Comunidade Partido Pirata do Brasil

23 de Julho de 2009, 0:00 , por Software Livre Brasil - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
O Movimento do Partido Pirata do Brasil, surgiu graças a uma corrente teórica que se espalhou pela região do euro, uma teoria que tenta focar a sociedade para seu desenvolvimento, priorizando o Conhecimento, a Cultura e a Privacidade. Nós queremos apresentar ao povo brasileiro uma nova maneira de se fazer política, mas para isso acontecer precisamos do seu apoio. Venha junte-se a resistência!

Nota de apoio ao trabalho do Intercept

18 de Junho de 2019, 18:49, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

No mundo livre, a informação é um bem comum caro aos indivíduos e a transparência do governo é valorizada, buscada e considerada como um valor, e o papel de um jornalista é apresentar aquilo que não funciona bem no governo, e no seu zelo com a coisa pública, subsidiando a sociedade para cobrar de seus governantes pesadamente sobre ações escusas, ilícitas ou temerárias que eles pratiquem.

Já nas ditaduras, os donos do poder não aceitam que suas posições e suas ações sejam escrutinadas, verificadas e questionadas, buscando por todos os meios possíveis (lícitos ou ilícitos), impedir que jornalistas e pesquisadores consigam lançar luzes sobre aquilo que o governo faz.

O Partido Pirata tem como cláusulas pétreas, entre outras coisas, a garantia das liberdades individuais e de sua plena realização. Nesse espírito, rejeitamos e denunciamos toda e qualquer ameaça que hoje está se fazendo contra o jornalista Glenn Greenwald e a equipe do The Intercept, motivados pela exposição das conversas ilegais entre o juiz (hoje ministro) Sérgio Moro e membros do Ministério Público do Paraná, encarregados da “operação Lava-Jato”. As ameaças, que utilizam muitas vezes questões da intimidade do jornalista ou de sua condição de cidadão não nascido no Brasil, são afrontas não só ao indivíduo Greenwald, mas também à própria sociedade democrática, já que tenta lançar mão da intimidação para silenciar aquele que pôs luz sobre desvios de conduta extremamente sérios de indivíduos que deveriam, em última instância, zelar pela aplicação das leis para todos, sem favoritismo ou direcionamento político.

Preocupam também as diversas ameaças que o deputado federal David Miranda, marido de Glenn, vem recebendo, não só pelo seu trabalho no congresso, mas também e principalmente devido à sua proximidade com o Glenn e o Intercept. Além de fake news envolvendo o seu nome e os diversos ataques de cunho racista e homofóbico perpetrados em diversas redes sociais.
Tendo em vista que há muitas pessoas, de diversas esferas de poder (inclusive “paralelo”, vide milícias), que não querem que a verdade prevaleça, essas ameaças e ataques devem ser levados muito a sério e investigados. Para que não ocorram atentados ou tentativas de intimidação àqueles que tem feito um ótimo trabalho, em busca de expor a verdade à sociedade.

A alegação de que “um hacker” foi o responsável pelo acesso aos materiais guardados em celulares de membros do judiciário para discutir – ilegalmente – questões referentes ao “processo mais ruidoso e importante da justiça brasileira” (como se ouvia em alguns lugares) não deveria servir como argumento contrário à sua divulgação. Pois como o próprio Moro disse (sobre as conversas de Lula e Dilma): “O problema não era a captação do diálogo e a divulgação do diálogo, mas o conteúdo do diálogo em si”. Além da excelente opinião de outro envolvido, Deltan Dallagnol: “no conflito entre direito à informação sobre crime grave e direito à privacidade, ganha interesse público”. Ou seja, não há erro algum em tornar públicas conversas que expõem ilegalidades cometidas por poderosos, ainda mais quando tais ilegalidades interferiram diretamente nos rumos políticos do país. Sem falar que, se a sociedade fosse depender do judiciário para quebrar o sigilo de seus integrantes, provavelmente ninguém nunca teria acesso a essas conversas.



MEC de Bolsonaro quer acessar dados pessoais de estudantes ilegalmente

17 de Maio de 2019, 15:49, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

Bolsonaro quer acessar ilegalmente dados pessoais dos estudantes para patrulha ideológica e prejudicar entidades, levando a queda do novo Diretor do INEP.

por Chemale

Elmer Coelho Vicenzi, nomeado para o posto de presidente do INEP a menos de um mês insistia, com respaldo da equipe do MEC, que o INEP produzisse um parecer técnico que liberasse o acesso a dados pessoais dos estudantes da educação básica e superior

O objetivo do governo era utilizar essas informações sigilosas para fazer diversas ações, como cruzamentos para investigações, conferência com o programa Bolsa Família e a viabilização de uma carteirinha de estudantes que o governo pretende criar para esvaziar a principal fonte de recursos das entidades educacionais como a UNE.

O órgão coleta as informações pessoais de estudantes junto a secretarias de Educação e instituições de ensino superior para produção de estatísticas oficiais, como o Censo educacional. Os dados são protegidos por sigilo, entendimento que a cúpula do MEC não concorda.

Nas últimas semanas, Vicenzi pediu parecer sobre o assunto à Diretoria de Estatísticas Educacionais, que foi contrária à abertura. A Procuradoria do órgão produziu documento na mesma linha, o que desagradou Vicenzi.

Após o episódio, o presidente do instituto decidiu, na última sexta-feira (10), pela exoneração do procurador substituto, Rodolfo Carvalho Cabral (ainda não publicada oficialmente). O ato ocorreu na ausência da procuradora titular, Carolina Scherer Bicca, que estava em viagem.

Toda a equipe da Procuradoria ameaçou abandonar o posto e, de volta ao Inep, Bicca foi ao ministro expor a situação. Nesse queda de braço, Vicenzi colocou o cargo à disposição e acabou demitido — a forma com que ele lidou com o caso, ao exonerar servidor sem a anuência de sua superiora, não foi bem recebida no MEC.

Por outro lado Vicenzi não concordava com a vontade de censurar questões ditas como “ideológicas” na prova do ENEM. A assessoria da pasta informou que Vicenzi pediu para sair sem detalhar os motivos. Com isso, embora o governo negue, é evidente que a realização do ENEM neste ano corre riscos.

*com informações da Folha



Senador dos EUA defende novo Exército contra “Piratas Espaciais”

17 de Maio de 2019, 14:03, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

a maior prova de que afirmações e ideias ridículas não são exclusividade do Brasil.

artigos originais aqui, aqui e aqui (sim, é sério)

O Senador Republicano Ted Cruz destacou um aviso a respeito do perigo de Piratas Espaciais na última quarta-feira, 15 de maior de 2018, em apoio à destinação de verbas para a criação das Forças Espaciais, uma expansão extra-planetária do Exército Americano proposta pelo Presidente Donald Trump.

“Desde que os antigos Gregos se lançaram ao mar pela primeira vez, nações reconheceram a necessidade de forças navais e de manter uma capacidade superior para proteger viagem marítima e o comércio de agentes mal-intencionados”, disse Ted Cruz, líder da sub-comissão de aviação e espaço acrescentando:

“Piratas ameaçaram os altos-mares e o mesmo é possível no espaço. Da mesma maneira, eu acredito que nós também devemos reconhecer a necessidade das Forças Espaciais para defender a nação e proteger o comércio espacial e a exploração civil espacial”.

Para fomentar a iniciativa, a administração Trump está requisitando 2 bilhões de dólares de financiamento do Congresso para a criação das Forças Espaciais. O novo agrupamento militar está previsto para contar com 15.000 participantes, sendo que a maioria deles serão transferidos de posições já existentes. Nos próximos anos o orçamento anual poderá atingir a um valor adicional de 500 milhões a 10 bilhões de dólares que já estão gastos em programas espaciais públicos, reportou o Defense News.

Apesar de Piratas Somalis armados terem aterrorizado as águas do chifre da África uma década atrás, sua atividade diminuiu nos anos mais recentes graças à robusta resposta militar de várias nações, incluindo os Estados Unidos. O declínio da Venezuela no caos político é parcialmente culpabilizado pela ascensão da pirataria no Caribe. Ainda assim, nenhuma dessas ameaças possui os recursos para – por enquanto – montar uma ameaça crível além dos limites da atmosfera terrestre.

Tampouco há qualquer comércio interplanetário que possa se mostrar como alvo lucrativo para Piratas.

Em Fevereiro, Trump assinou uma diretiva ordenando o Pentagono a implementar as Forças Espaciais como o sexto ramo do Exército dos Estados Unidos. Os cinco já existentes são o Exército, a Marinha, a Força Aérea, A Infantaria Naval e a Guarda Costeira. Meses antes, um fundo eleitoral privado (super-PAC) que apoia o presidente pedia a apoiadores para votarem no novo logo para as tropas extra-terrestres.

Quando os Democratas reassumiram controle da Câmara dos Deputados, no entanto, as perspectivas para as Forças Espaciais se tornaram incertas. Em Março, Adam Smith, deputado democrata de Washington, que lidera a comissão de serviços armados domésticos, tentou amenizar as expectativas das Forças Espaciais.

“Será diferente do que a Casa Branca propôs. Três ou mais generais de quatro-estrelas não irão nos fazer mais fortes no espaço”, afirmou Smth.

Mesmo os maiores defensores de Trump entre os Republicanos questionaram a premissa de que os Estados Unidos precisam criar um novo agrupamento militar e repassar a jurisdição do espaço e seus piratas da Força Aérea.

“Isso não estava em minha agenda porque eu não acho que precisamos disso”, disse o Senador Republicano de Oklahoma James Inhofe, líder da comissão de Serviços Armados. “Mesmo quando o assunto veio a tona, eu disse que há duas coisas para analisar. Uma, ela será capaz de fazer um trabalho melhor do que está sendo feito hoje? E dois, isso vai custar mais – quanto dinheiro isso irá custar?”.

Ao ser fortemente ridicularizado no Twitter pela afirmação envolvendo Piratas Espaciais, o Senador Ted Cruz revelou que a verdadeira preocupação dele é com outras nações como a China, que já mostraram ter capacidade de destruir satélites no espaço.

5cdc5bd62100003500d0cb27

Donald Trump segurando a diretiva que determina a criação das Forças Espaciais durante reunião do National Space Council na Casa Branca



Quem está usando seu rosto? A terrível verdade sobre reconhecimento facial

1 de Maio de 2019, 22:49, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

por Madhumita Murgia

Enquanto estava de férias em fevereiro, a ativista americana Jillian York, de 36 anos, recebeu uma mensagem inesperada. Seu amigo Adam Harvey, também ativista e pesquisador, encontrou fotos dela numa base de dados do governo americano usada para treinar algoritmos de reconhecimento facial, e a questionou se ela sabia disso.

Jillian, que trabalha em Berlim para a Electronic Frontier Foundation – uma organização não-governamental sobre direitos digitais – não sabia. Ela ficou estarrecida ao descobrir que essa base de dados continha quase uma dúzia de imagens dela, entre fotografias e frames de vídeos do YouTube, cobrindo um período de quase dez anos. Quando foi atrás de saber para que servia esse banco de dados, ficou claro para ela que seu rosto tinha ajudado a construir um sistema usado pelo governo federal americano para reconhecer feições de interesse – incluindo suspeitos de crimes, terroristas e invasores ilegais.
“O que me ocorreu na hora foi a amplitude de tempo que eles usam”, diz ela. “As primeiras imagens eram de 2008 e iam até 2015”. Duas das fotos, tiradas por um amigo fotógrafo, tinham sido obtidas do Google. “Elas foram tiradas em momentos privados. Eram definitivamente privados no sentido de que era eu me divertindo com amigos, não num palco”, acrescenta.
Mais uma meia dúzia de fotos vinha de vídeos do YouTube em que ela falava em eventos, sobre assuntos que incluíam liberdade de expressão, privacidade digital e segurança. “É perturbador para mim que alguém estivesse assistindo a vídeos de mim e salvando imagens com esse propósito”, diz.

Para ensinar uma máquina a reconhecer e interpretar melhor um rosto humano, ela precisa ser “treinada” usando centenas de milhares de rostos. Para alimentar esse sistema faminto, surgiu um abundante repositório de rostos, contendo imagens de fontes que iam de campi universitários a cafés e redes sociais. Jillian é uma das 3.500 pessoas nesse banco de dados, chamado de Iarpa Janus Benchmark-C (IJB-C). O Iarpa é um órgão do governo americano que financia pesquisa de inovação voltada a fornecer uma vantagem competitiva aos serviços de inteligência, e Janus – referência ao Deus romano de duas caras – é o seu projeto de reconhecimento facial.
O conjunto de dados, compilado por um subcontratante do governo chamado Noblis, tem um total de 21.294 imagens de rostos (e também outras partes do corpo), sendo em média seis imagens e três vídeos por pessoa, e está disponível para pesquisadores dessa área. Em suas próprias palavras, seus criadores escolheram “pessoas com diversas ocupações, evitando a armadilha de focar em celebridades da mídia, o que pode ser menos representativo da população global.”

O banco de dados também inclui três membros do conselho do EFF, um jornalista da Al-Jazeera, um escritor e futurista de tecnologia, e ao menos três ativistas políticos do Oriente Médio, incluindo um cientista que participou dos protestos da praça Tahir em 2011, todos confirmados pelo Financial Times. Nenhuma dessas pessoas estava ciente de sua inclusão nesse banco de dados. Suas imagens foram obtidas sem consentimento explícito, pois foram compartilhadas sob os termos de licença Creative Commons, um tratado de direitos autorais na internet que permite a cópia e uso de imagens para uso acadêmico e comercial por qualquer pessoa.
O principal uso das tecnologias de reconhecimento facial é em segurança e vigilância, tanto por empresas privadas, como de revendedores e casas de eventos, quanto por órgãos públicos como forças policiais à procura de criminosos. Governos tem continuamente ampliado o uso dessas tecnologias para identificar pessoas em segurança nacional e de fronteiras.
O maior entrave tecnológico a um reconhecimento preciso, até agora, é a incapacidade dos equipamentos em identificar rostos humanos quando estes estão apenas parcialmente visíveis, envoltos em sombras ou cobertos por vestuário, ao contrário dos retratos frontais em alta resolução que foram usados para treinar os computadores.

Para ensinar um computador a ler e reconhecer melhor um rosto nessas condições, ele deve ser treinado usando centenas de milhares de rostos de todas as formas, tamanhos, cores, idades e gêneros. Quanto mais naturais, variados e espontâneos são os rostos, melhor eles simulam cenários reais do cotidiano nos quais poderá haver vigilância, e mais precisos serão os modelos para o reconhecimento facial.
Para alimentar esse sistema faminto, uma abundância de repositórios de rostos – como o IJB-C – foi surgindo, com imagens selecionadas e agrupadas manualmente de fontes variadas como campi universitários, praças, mercados, cafés, registros de polícia e redes sociais como o Flickr, Instagram e YouTube.

Para entender o que esses rostos vem ajudando a construir, o FT trabalhou com Adam Harvey, o pesquisador que foi o primeiro a perceber as fotos de Jillian no IJB-C. Americano radicado em Berlim, passou anos acumulando mais de 300 bancos de dados de rostos e identificou aproximadamente 5.000 artigos em que são citados. Descobrimos que as imagens são usadas para treinar e fornecer referências a algoritmos voltados a diversos fins relacionados a dados biométricos – reconhecimento facial no controle de passaportes, vigilância de multidões, direção automatizada, robótica, até mesmo análise de emoções para fins publicitários. Esses dados foram citados em artigos de empresas comerciais incluindo o Facebook, Microsoft, Baidu, SenseTime e IBM, assim como por acadêmicos ao redor do mundo, do Japão aos Emirados Árabes Unidos e Israel.
“Temos visto os propósitos do reconhecimento facial mudarem”, diz Dave Maass, um pesquisador investigativo sênior no EFF, que ficou chocado ao descobrir que as feições de seus próprios colegas estavam no banco de dados da Iarpa. “Eram usados inicialmente para de identificação…Agora o rosto da pessoa está sendo usado como um código de rastreio para que seja vigiada enquanto ela se move por vários locais no vídeo, o que é uma grande mudança. Pesquisadores não precisam pagar às pessoas por seu consentimento, não precisam procurar por modelos, nenhuma firma tem de pagar para coletar esses dados, todo mundo consegue de graça.”

O pacote de arquivos contendo o rosto de Jillian é um entre vários compilados em nome da Iarpa (as primeiras séries sendo IJB-A e -B), que foram citados em trabalhos acadêmicos de 21 países diferentes, incluindo a China, Rússia, Israel, Turquia e Austrália. Foram usados por empresas como a de inteligência artificial chinesa SenseTime, que vende produtos de reconhecimento facial para a polícia local, e a empresa japonesa de inteligência artificial NEC, que fornece softwares para agências de aplicação das leis nos EUA, Reino Unido e Índia.
As imagens nesses pacotes chegaram a ser polidas pela Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa da China, que é controlada pelo maior órgão militar da China, a Comissão Central Militar. Um de seus estudiosos participou, no ano passado, de um projeto que usou o IJB-A, entre outros pacotes, para desenvolver um sistema que, nas palavras de seus idealizadores, “permitiria um entendimento melhor de pessoas multidões”, com aplicações como “análise de comportamento de grupo” e “re-identificação da pessoa”.

Na China, um software de leitura facial teve papel importante na vigilância de massa e detenção de muçulmanos uighurs no extremo Oeste de Xinjiang. Câmeras fabricadas pela Hikvision, uma das maiores empresas de CFTV do mundo, e Leon, um antigo parceiro comercial do SenseTime, foram usadas para rastrear muçulmanos por toda a região, atuando no que defensores de direitos humanos descrevem como repressão sistemática de milhões de pessoas.
Essa semana, foi descoberto, que a SenseTime tinha vendido sua participação de 51% de ações em uma joint venture de segurança com a Leon em Xingjian após crescentes protestos internacionais na questão dos uighurs.
“Isso foi o mais chocante”, diz York, enquanto pondera as maneiras como múltiplas empresas e agências usaram esses dados. “Não é porque minha imagem está sendo usada, mas como”.

“As pessoas não esperavam que suas fotos numa festa pudessem rodar pelo mundo e nunca mais ser apagadas”, diz Adam Harvey, pesquisador de tecnologia e ativista pela privacidade radicado em Berlim
Adam gosta de estar fora do mapa; prefere pagar em dinheiro, usa o navegador anônimo Tor e se comunica pelo aplicativo criptografado Signal, onde as mensagens desaparecem após algumas horas. Depois de estudar engenharia e fotojornalismo na Universidade do Estado da Pensilvânia, trabalhou como fotógrafo em eventos privados em Nova York.
“Na época, cada vez mais pessoas estavam colocando fotos online, porque câmeras digitais eram relativamente novas. O que me incomodava é que você não conseguia remover essas fotos uma vez que estivessem lá”, ele diz. “As pessoas não esperavam que suas fotos numa festa pudessem rodar pelo mundo nunca mais ser apagadas. Você perde controle sobre os seus dados, você perde controle sobre sua própria narrativa.”
Sua fascinação por tecnologia de vigilância resultou no CV Dazzle, seu primeiro projeto em biometria, em 2011, em que ele desenvolveu uma série de maquiagens e estilos de cabelo para permitir a pessoas comuns se esconderem de sistemas automáticos de reconhecimento facial. Seu último projeto, MegaPixels, para o qual recebeu financiamento da Mozilla Foundation, também visa dar poder aos cidadãos para que compreendam esse novo mundo que habitam.: foi lançado essa semana como uma base de dados buscável de qualquer artigo citando cada base de dados que ele foi capaz de escavar.
Ao longo dos próximos meses, ele pretende desenvolver uma ferramenta de busca que permita às pessoas descobrirem pelo nome se seus traços faciais foram usados para treinar um sistema de inteligência artificial em qualquer parte do mundo. “Quando todos falam em reconhecimento facial e vigilância, estão normalmente falando sobre a implementação. Mas se você recuar alguns passos, nada disso existiria sem os rostos, e esse projeto olha para a origem desses dados”, explica.
Um dos primeiros bancos de dados de grande escala foi criado pelo departamento de defesa americano nos anos 1990, pagando ao pessoal das forças armadas para posar para fotografias em estúdio. Em 2007, pesquisadores começaram a se dar conta de que as fotos de estúdio eram muito artificiais para usar como treinamento, e que sistemas de reconhecimento que se baseassem nessas fotos estavam fadados ao fracasso no mundo real. O que eles precisavam era de mais imagens “selvagens” – naturais, borradas e sem pose.

O mercado de reconhecimento facial vem crescendo 20% por ano nos últimos três anos, e seu valor está estimado em 9 bilhões de dólares até 2022. A velocidade e precisão desse software avançou graças a grandes saltos em aprendizagem de máquina.
Naquele ano, um novo pacote foi lançado pela Universidade de Massachussets, Amherst, chamado Labeled Faces In The Wild (LFW – Rostos Catalogados na Natureza, em tradução livre), um pacote de imagens recolhidos de notícias na internet, com cada rosto etiquetado. Essas imagens “naturais” mostravam indivíduos em diferentes posições e expressões faciais, em condições de iluminação variadas, e pesquisadores perceberam que tinham em mãos uma mina de ouro: a internet. Ali estava uma fonte de dados faciais que era variado, irrestrito e fácil de acesar. O LFW passou a ser a referência de bancos de dados faciais mais usada no mundo.
Depois do 11 de setembro, quando agências de defesa e inteligência foram incentivadas a investir mais em reconhecimento facial, milhões de dólares foram injetados em laboratórios com o objetivo explícito de coletar mais fotos naturais, para obter perfis biométricos mais robustos. Hoje, se você precisar de um pacote para treinar um sistema, a maneira mais comum é usar ferramentas de busca como o Google ou Bing, ou redes sociais como Flickr e YouTube, onde arquivos multimídia normalmente são exportados sob uma licença Creative Commons, e pegar o que precisar.

O mercado de reconhecimento facial vem crescendo 20% por ano nos últimos três anos, e seu valor será de 9 bilhões de dólares até 2022, de acordo com estimativas do Market Research Future. A velocidade e precisão do software avançou graças a saltos recentes em aprendizagem de máquina, a tecnologia pela qual computadores podem aprender a reconhecer objetos específicos – como rostos – treinando com grandes conjuntos de dados como o IJB-C.
“Em 2019, há dúzias de bancos de dados criados desse jeito que foram compartilhados pelo mundo, alguns deles financiados por departamentos de defesa, outros financiados diretamente por empresas de reconhecimento facial comercial, e algumas delas trabalhando com regimes controversos e ciber-autoritários como a China”, diz Adam. “Mas ninguém parou para pensar se era ético coletar fotos de casamento das pessoas e de álbuns de família com crianças, ou se as pessoas que subiram as fotos sequer sabiam o que estavam fazendo quando aceitaram aquela licença.”

Hoje, enquanto órgãos da lei e forças de repressão de governos estão interessados em ultrapassar os limites do reconhecimento facial para reduzir os custos e o tempo necessários para identificar suspeitos, o consenso é de que mesmo na internet os rostos não são tão “selvagens” porque as pessoas tendem a exibir fotos editadas. O apetite por dados faciais mais variados levou a um buraco cada vez mais fundo para capturar imagens tão naturais das pessoas quanto possível, muitas vezes sem o seu conhecimento.
Vamos pegar como exemplo o pacote UnConstrained College Students. Mais ou menos 1.700 alunos da Universidade do Colorado, em Colorado Springs, foram fotografadas em 20 dias diferentes, entre fevereiro de 2012 e setembro de 2013, usando uma “câmera de vigilância de alta resolução e longo alcance sem que eles soubessem”, de acordo com o criador do pacote, professor Terry Boult, cientista da computação na Universidade.

“Mesmo as fotos do LFW não são tão naturais porque as pessoas sabem que estão sendo fotografadas e expostas na internet. Mas neste caso, são alunos andando nas calçadas do campus, que não tem noção de que são parte de um banco de dados”, Boult me conta. “Quando você está vendo os alunos andando por ali, uma quantidade terrível deles está olhando para baixo para o celular. No Colorado, quando está frio e nevando, eles se enrolam naturalmente com chapéus e cachecóis. Nosso objetivo é fazer o sistema de reconhecimento facial mais irrestrito e realista do mundo.

O laboratório de Boult foi financiado pela marinha americana, assim como a Iarpa, que enviou sua pesquisa sobre reconhecimento facial ao Departamento de Segurança Nacional e outros órgãos do governo. Como estava filmando os estudantes em locais públicos (ainda que dentro da Universidade), ele diz que não necessitava de sua permissão contanto que não soubesse suas identidades, de acordo com a legislação do Estado do Colorado.
“Não deixamos nada publicamente disponível para download. Eles precisam entrar em contato por um site – e verificamos se são pesquisadores”, diz Boult. “Não é para uso comercial, mas se pesquisadores corporativos estão tentando melhorar o reconhecimento facial para os produtos de suas empresas, estamos de acordo que façam isso desde que publiquem [suas pesquisas].”
Essa relação aparentemente porosa entre o uso “acadêmico” de informações obtidas sem consentimento e a exploração comercial dos mesmos dados evidencia as complexas questões éticas em torno dos pacotes de dados faciais. O artigo para o qual que Boult utilizou esses dados foi citado em seis universidades no Chile, Itália e nos EUA e foi baixado por ao menos quatro empresas privadas situadas na Europa, China e EUA, nenhuma das quais parece ter publicado seus trabalhos.
Outro conjunto de dados de campus, a Duke-MTMC, foi coletado na Universidade Duke na Carolina do Norte. Parcialmente financiada pela Agência de Pesquisa do Exército dos Estados Unidos, acabou se tornando um dos kits de treinamento com pedestres mais populares, e foi citado por 96 instituições ao redor do mundo.

Pesquisadores usaram oito câmeras para filmar estudantes andando pelo campus, e os notificaram através de pôsteres espalhados pelo perímetro da área vigiada. Ergys Ristani, um dos autores, disse que o trabalho havia sido aprovado por um conselho institucional e, apesar dos cartazes, nenhum aluno pediu para ser excluído. Pelas filmagens, não está claro se os estudantes viram os cartazes ou estavam cientes de estar sendo filmados.
Em um terceiro caso, filmagens de clientes em um café chamado Brainwash [Lavagem Cerebral, em tradução livre], no distrito do Baixo Haight em São Francisco, obtidas por uma câmera de transmissão ao vivo, foram transformadas em um conjunto de dados de pedestrtes – o Brainwash – que foi citado por empresas incluindo a Huawei e a Qualcomm.
“Quando você está num espaço urbano você tem uma expectativa razoável de anonimato, o que é reconhecido na jurisprudência americana; é algo que é tão enraizado no senso comum que isso interfere na nossa capacidade de entender que nossas empresas de tecnologia estão afetando nossa privacidade, mesmo em espaços nominalmente privados”, aponta Adam Greenfield, escritor de tecnologia e urbanista. Greenfield recentemente se descobriu parte de um banco de dados de um milhão de rostos, chamado MSCeleb, criado pela Microsoft.

Pesquisadores apontam que tecnologias de análise facial não são apenas para vigilância – poderiam ser usadas para monitoramento de saúde, por exemplo, escaneando rostos para verificar se um indivídup está desenvolvendo demência ou diabetes tipo 2, ou para verificar sonolência ou embriaguez em motoristas.
Se os conjuntos de dados não fossem compartilháveis, corporações como o Google e Facebook, que possuem bilhões de fotos e vídeos de usuários enviados para os sites todos os dias, seriam as únicas organizações com acesso a um mar de dados de rostos em alta qualidade e portanto teriam os melhores algoritmos de reconhecimento facial, de acordo com alguns pesquisadores.
“Não estou preocupado com o governo, estou preocupado com o Google e o Facebook”, diz o professor Karl Ricanek, da Universidade Wilmington da Carolina do Norte, que montou dois conjuntos de dados faciais de acesso público. “Na minha opinião, eles tem mais informação sobre os cidadãos que o próprio governo, e não conseguimos influenciar a direção dessas empresas. Acho que o nosso governo pelo menos tem uma boa missão. De uma perspectiva acadêmica, estamos tentando resolver problemas que achamos que vão melhorar a vida das pessoas no mundo. A maioria de nós não está tentando fazer dinheiro.”

Apesar de empresas comerciais normalmente terem suas próprias fontes de dados, elas também vem progressivamente buscando na internet conjuntos de dados maiores e mais naturais usados como referência e treinamento de algoritmos. Por exemplo, o Facebook criou um pacote de dados chamado Pessoas nos Álbuns de Fotos, consistindo em mais de 37.000 fotos de 2.000 indivíduos, incluindo crianças, de fotos em álbuns pessoais do Flickr. “Enquanto houve recentemente muito progresso no reconhecimento facial frontal, vistas não-frontais são muito mais comuns em álbuns de fotos do que as pessoas imaginam”, descreveram pesquisadores do Facebook em seu artigo.
Seu conjunto de dados escolhe especificamente fotos com “grandes variações de posição, vestuário, resolução de imagem e iluminação”, e o artigo descreve um novo algoritmo que consegue reconhecer rostos com precisão mesmo quando parcialmente ocultos.
“Esperamos que esse conjunto de dados conduza a comunidade ao problema muito relevante e ainda não resolvido do reconhecimento de pessoas em ambiente aberto”, concluem os pesquisadores do Facebook. Esse conjunto no momento já foi reutilizado pelo mundo todo, incluindo pela Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa da China para aprimorar a tecnologia de vigilância em vídeo.
“Para deixar claro, não estamos colaborando com o governo chinês no reconhecimento facial e nunca o fizemos”, diz uma fonte do Facebook. “Porém, sempre haverá um questionamento sobre se avanços nessa tecnologia deveriam ser amplamente compartilhados ou guardados a sete chaves. O Facebook e outras empresas líderes do setor acreditam que a comunidade científica pode compartilhar seus aprendizados para avançar na tecnologia, enquanto também trabalham para evitar abusos.”
Maass, o pesquisador da EFF, pontua: “Não é uma questão de legalidade mas de moral e ética. Não tenho certeza onde um projeto de pesquisa como esse iria parar, mas me pergunto se criar um kit para treinar equipamentos de segurança não é o mesmo que promover vigilância você mesmo.”
Nos casos em que as imagens foram escavadas da internet, os pesquisadores – mesmo de gigantes como Microsoft, IBM e Facebook – contaram com que as licenças Creative Commons servissem para substituir o consentimento do usuário. Mas a utilização dessas fotos como dados de treinamento para monitoramento e análise facial está tão distante do que a licença foi inicialmente criada para proteger que o próprio Creative Commons, uma organização sem fins lucrativos, recentemente divulgou uma nota para esclarecer a mudança.
“As licenças CC foram pensadas visando uma restrição específica, o que fazem muito bem: desbloqueando direitos autorais restritivos. Mas direitos autorais não são uma boa ferramenta para proteger privacidade individual, visando ética de pesquisa em inteligência artificial, ou para regular o uso de ferramentas de monitoramento empregadas online”, escreveu o chefe executivo Ryan Merkley em março. “Esses assuntos pertencem por direito à esfera das políticas públicas […] esperamos discutir com aqueles que estão usando nosso conteúdo de maneira objetiva, e falar a respeito das […] questões importantes sobre privacidade, vigilância e inteligência artificial que afetam o compartilhamento de trabalhos na web.”

Em última instância, especialistas acreditam que é tarde demais para colocar essas informações de volta no armário, ou para restringir sua movimentação através de fronteiras. “Precisamos confiar na instituição que reúne ou obtém essas informações, e talvez tenhamos consentido com uma imagem inicial, mas a custódia sobre esses dados acaba vazando”.



Democracia Pirata – Parte 1

24 de Abril de 2019, 12:15, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

texto por Kenneth Maxwell

imagem: “Pirate Crew Defy a Naval Warship” (Tripulação Pirata desafia um navio de guerra) por Bernard F. Gribble

o texto a seguir é uma livre tradução de um dos ensaios do livro “Naked Tropics”, sobre o Brasil e a América Ibérica.

Os primeiros livros sobre piratas apareceram surpreendentemente logo após a pirataria que descreveram. O mais bem sucedido de todos os primeiros piratas foi Henry Morgan, que saqueou a cidade colonial espanhola do Panamá em 1671, sendo retratado como um monstro de depravação e crueldade nos “Buccaneers of America” (Bucaneiros da América), de Alexander Exquemelin, publicado pela primeira vez em holandês em 1678 e em inglês em 1684.

Morgan entrou com um processo por difamação de caráter. Ele se opôs fortemente a uma passagem que dizia que ele tinha ido primeiro às Test Indies como um servo e argumentou que, pelo fato de o governador da Jamaica, Sir Thomas Modyford, ter autorizado seus ataques contra as possessões espanholas, ele não era, portanto, um pirata. O assunto foi resolvido fora do tribunal e Morgan recebeu reparações substanciais.

Retornando a Londres para acalmar os espanhóis, Morgan logo foi condecorado por Carlos II e depois retornou à Jamaica como vice-governador, onde adquiriu propriedades fundiárias e mais de cem escravos. Ele morreu como um homem rico. Foram suas bebedeiras colossais que o mataram. Cansado de seu antigo modo de vida e não dar ouvidos a nenhum conselho contrário, sua barriga inchou até não ficar contida em seu casaco: – Hans Sloane, que o atendia, relatou o acontecido. Em seguida, Morgan foi até um xamã africano que o engomara com lama e o fez beber urina. “Mas ele definhava e, ao aumentar sua tosse, morreu logo depois.”

O governador da Jamaica ordenou um funeral de estado para Sir Harry. Um serviço solene ocorreu na Igreja de São Pedro, da qual Morgan era um benfeitor. Quando os navios de guerra no porto honraram o velho vilão com uma saudação de vinte tiros, os canhões dos navios mercantes responderam com sua própria barragem desordenada, mas trovejante.

Mas em meio a tudo isso, Henry Morgan era uma exceção. A maioria de seus colegas piratas tiveram carreiras curtas, morreram prematuramente, tendo perdido seus espólios nas tavernas e bordéis de Port Royal, capital da Jamaica, e um dos grandes paraísos do Caribe, até que foi destruído por um terremoto em 1692, uma punição adequada para seus crimes passados e contravenções, disseram alguns na época.

Uma coisa, no entanto, parece certa: livros sobre piratas tendem a fazer mais dinheiro do que a maioria dos piratas. O Museu Marítimo de Londres fez uma exposição em 1992 chamada “Piratas: fato e ficção”, um show planejado para durar quatro meses e que permaneceu aberto por três anos devido à demanda popular. Portanto, não foi surpresa que um agente literário de Nova York tenha encorajado David Cordingly, um dos curadores, a retomar o tema da exposição em um livro contrastando a imagem fictícia dos piratas com a realidade histórica.

Em última análise, Cordingly concentra-se principalmente na grande era da pirataria entre a última metade do século XVII e início do século XVIII, essencialmente entre 1650 e 1725. Para o “mundo real” dos piratas, ele examinou fontes contemporâneas da língua inglesa, principalmente os diários de bordo dos navios da Marinha Real enviados contra os piratas, relatórios de governantes coloniais e depoimentos de piratas capturados e suas vítimas.

Ele também tem muito a dizer sobre a imagem popular dos piratas baseado em três séculos de cantos, melodramas, poemas épicos, filmes e romances, bem como os dois clássicos do folclore dos piratas, Ilha do Tesouro (1883), de Robert Louis Stevenson e Peter Pan (1904), de J. M. Barrie. Ele extrai elementos extensivamente, como ele próprio reconhece, do trabalho dos historiadores Robert Ritchie, Marcus Rediker, Peter Earle e Nicholas Rodger, cada um dos quais, cada um a sua maneira, revolucionou o estudo da vida cotidiana no mar durante esse período.

Cordingly Reconhece quase de imediato que a concepção popular de como os piratas se vestem revela-se surpreendentemente precisa. Como outros marinheiros nesse período, eles usavam paletós azuis curtos, uma camisa quadriculada, um par de calças de lona compridas ou calções de anágua largos e, muitas vezes, um colete vermelho e um lenço de pescoço.

Os piratas de fato amarravam lenços ou grandes lenços ao redor de suas cabeças (uma proteção sensata e prática dos raios do sol no mar ou nos trópicos); eles penduraram várias pistolas em faixas ao redor de seus ombros (também uma sábia precaução, já que as pistolas de pederneira não eram confiáveis no mar e, se uma delas falhasse devido a uma carga úmida, um segundo ou terceiro armamento reserva vinha a calhar); eles usavam cutelos e seus chefes eleitos eram personagens extravagantes e carismáticos.

O capitão pirata Bartolomeu Roberts, conhecido como “Black Bart”, disse ter capturado quatrocentos navios, tendo travado sua última batalha marítima em 1722, vestido com “um valioso colete e calças cor de damasco vermelho, uma pena vermelha no chapéu, uma corrente de ouro” em volta do pescoço com uma cruz de diamante pendurada nela.

Mas a vestimenta é uma coisa, o comportamento é outro. Os piratas que encontramos no livro de Cordingly são sanguinários, distante dos grandes e difíceis tempos representados por W.S. Gilbert e Sir Arthur Sullivan em seu livro “Pirates of Penzance”. A Boston Gazette de março de 1726 deu uma descrição gráfica de Philip Lyne, o notório pirata que, quando foi julgado em Barbados, confessou ter matado trinta e sete senhores de navios e um número não especificado de marinheiros.

O comandante foi a julgamento com cerca de 20 outros piratas, com a bandeira negra feita de seda diante deles… como estavam muito feridos e não se importavam em vestir-se, eram muito ofensivos e fediam à medida que avançavam, particularmente Line, o comandante; ele tinha um olho saltado, que com parte do nariz pendia de seu rosto.

Pirata “era uma designação muito específica e a distinção entre pirata e corsário era importante pelo menos na lei (se não na prática). Um “corsário” era um navio armado, ou o comandante e a tripulação de um navio que estava licenciado para atacar e apreender os navios de uma nação hostil. A licença tomou a forma de uma “carta de marca e represália”.

No século XVI, o sistema de licenciamento fornecia a todas as nações marítimas europeias uma maneira barata de atacar o transporte marítimo inimigo em tempos de guerra. A carta de marque era um impressionante e importante documento legal, e esperava-se que o capitão dos corsários mantivesse um diário e entregasse o navio e os bens que ele apreendera em um tribunal do Almirantado, onde o soberano pegava sua parte (ou a parte dela, como no caso da rainha Elizabeth que sempre mostrava um interesse ganancioso em tais divisões de espólio).

O resto do saque era dividido entre os proprietários de navios, o capitão e a tripulação. Um “pirata”, por outro lado, foi legalmente definido na Inglaterra desde o tempo de Henrique VIII como alguém que rouba e saqueia no mar; e as leis contra a pirataria previam punição para “crimes, roubos e assassinatos cometidos em qualquer refúgio, rio, riacho ou local onde o Alto Almirante tivesse jurisdição”.

Piratas tinham nomes regionais diferentes. O “bucaneiro” era usado no Caribe e ao longo da costa atlântica das Américas. O termo foi aplicado primeiramente a caçadores nas florestas e vales do oeste de Hispaniola (atual Haiti) que viviam de rebanhos de porcos e gado, cujo número aumentou rapidamente depois que os primeiros espanhóis os introduziram em uma terra sem predadores naturais. Sendo principalmente franceses de fronteira, esses caçadores cozinhavam e secavam tiras de carne em churrascos abertos, um método emprestado dos habitantes indígenas arawak.

A palavra para esse processo, boucaner (que significa secar ou curar fumaça) deu aos homens seu nome. Vestiam-se de couro e, com suas facas e aparência manchada de sangue, “olhavam e cheiravam como um homem de um matadouro”, segundo Cordingly. Na década de 1630, os bucaneiros se estabeleceram em Tortuga, na costa norte do que hoje é o Haiti; um local de lançamento ideal para ataques às embarcações mercantes usando a passagem de barlavento entre Hispaniola e Cuba. Lá os bucaneiros formaram uma confederação livre chamando a si mesmos de “Irmãos da Costa”.

Muito do que se sabe dos piratas caribenhos da época de Harry Morgan vem dos Buccaneers of America de Alexander Exquemelin. Ele alegou em seu livro “não dar relatos sobre boatos, mas apenas sobre aqueles aos quais eu fui testemunha ocular”. Nascido no porto do canal francês de Honfleur, Exquemelin chegou em Tortuga por volta de 1666 como servo contratado.

Ele foi vendido a um cirurgião-barbeiro, aprendeu o ofício de seu mestre e ganhou sua liberdade. Sendo “nu e desprovido de todas as necessidades humanas”, escreveu ele, “decidi entrar na ordem dos piratas”. Por cinco anos ele serviu com os bucaneiros ao o comando de Henry Morgan e Francois l’Olonnais. juntando-se a eles em suas incursões em Tortuga e Port Royal, sendo bem pago por suas habilidades médicas. Ele rompeu com Morgan após o ataque ao Panamá, no qual ele participou. Como muitos dos bucaneiros, ele acreditava que Morgan o enganara.

Após o ataque, Exquemelin retornou à Europa, onde, em Amsterdã, publicou seu best-seller. Mais tarde, ele retornou ao Caribe e em 1697 juntou-se no ataque combinado francês e bucaneiro em Cartagena, novamente servindo como cirurgião para os piratas.

O relato de Exquemelin das atividades de François l’Olonnais, nascido Jean-David Nau no oeste da França em Les Sables d’Olonne (daí seu apelido, “o homem de Olonne”), justificava plenamente a outra designação de l’Olonnais: ” Fleau des Espagnols: “ou Flail dos espanhóis. Ex-servo tal como Exquemelin, ele se juntou aos caçadores de gado em Hispaniola e depois virou bucaneiro. Ele era um psicopata cuja tortura e assassinato de prisioneiros tornou-se tão temida em todo o Caribe que ele começou a se deparar com uma oposição muito mais determinada do que a maioria dos outros piratas. ”Os navios mercantes, disse Exquemelin,“ lutaram até não poderem mais lutar”.

E assim eles fizeram, já que o homem de Olonne era implacável. Era uma prática comum para os piratas torturarem seus prisioneiros, como os homens de Morgan haviam feito no Panamá para obter informações. A tortura pirata favorita ficou “ultrapassada” após o aparecimento de um novo método em que usavam cordas ao redor de um mastro. Exquemelin descreve como cordas finas eram “torcidas sobre as cabeças, até que os olhos saíssem do crânio”. Mas l’Olonnais claramente gostava de torturar homens tanto quanto de obter seus bens:

“Quando l’Olonnais tinha uma vítima para torturar, se o desgraçado não respondesse instantaneamente às suas perguntas, ele cortaria o homem em pedaços com seu sabre e lamberia o sangue da lâmina com sua língua, desejando que pudesse ter sido o último espanhol no mundo que ele havia matado.

“Eventualmente, l’Olonnais encontrou um destino adequadamente bizarro, se é que podemos acreditar na história de Exquemelin de que ele foi capturado no Golfo de Darien, perto do Panamá, por canibais, cortado em pedaços e assado membro por membro.

Juntamente com o livro de Exquemelin, a outra fonte principal é a História Geral dos Piratas, do capitão Charles Johnson, de 1724. Desde o início da década de 1930, este livro foi atribuído a Daniel Defoe e está listado na maioria dos catálogos de bibliotecas. Essa atribuição é mantida por Jan Rogozinski em sua abrangente enciclopédia Pirates! Mas Cordingly, seguindo a pesquisa de P. N. Furbank e L. R. Owens, afirma que nem uma única documentação relaciona Defoe à História Geral.

Infelizmente, nada se sabe muito sobre o misterioso Capitão Johnson, embora sua história seja a origem dos relatos mais recentes, roteiros de filmes e mitos sobre piratas; por isso, mesmo que Defoe não seja o autor, o problema de distinguir o fato da ficção permanece. Em um caso notório, no entanto, o de Edward Teach, o famoso Barba Negra, Cordingly demonstra convincentemente que a descrição de Johnson estava próxima da verdade.

O tenente Maynard, que lutou contra ele até a morte no convés de seu navio na enseada de Ocracoke em Pamlico Sound, Carolina do Norte, em novembro de 1718, escreveu mais tarde sobre o capitão Teach que ele “recebeu o nome de Barba Negra porque deixava crescer a barba e a amarrava com fitas pretas”.

De acordo com Johnson, Teach usava essas fitas para enrolar a barba em pequenos rabichos sobre as orelhas e enfiava fósforos acesos sob o chapéu quando estava pronto para a ação, de modo que “seus olhos naturalmente ferozes e selvagens o transformavam em uma figura tão completa” que a imaginação não pode sequer formar uma ideia de sua fúria infernal que pareça mais assustadora”.

Os piratas mediterrâneos da costa de Barbary eram chamados de corsários e operavam desde a Argélia, Tunis, Sale e outros portos do norte da África, onde os governantes muçulmanos lhes davam licenças para atacar os marinheiros cristãos. Usando galés rápidas equipadas com remos e velas, eles atacaram mercadores pesados e lentos; saquearam as cargas, capturaram os passageiros e a tripulação e os mantiveram como reféns ou os venderam como escravos.

Desde que ele foi licenciado, o corsário era tecnicamente um corsário e o termo foi usado sem uma designação geográfica particular em francês, italiano e português, mas em inglês aplicou-se mais restritivamente aos invasores bárbaros. A pirataria era um negócio para os governantes de Barbary, e os corsários formaram uma associação que tentou regulá-la. Embora os estados de Barbary justificassem suas ações como uma forma de guerra religiosa, muitos renegados cristãos eram proeminentes na frota de corsários.

Os corsários de Barbary prosperaram na zona marítima inconstante e ambígua entre a potência marítima otomana e espanhola no Mediterrâneo. Suas bases estavam estrategicamente posicionadas para atacar os navios mercantes usando o Estreito de Gibraltar. Eles estiveram mais ativos entre 1580 e o final do século XVII, e retornaram com maior poder de fogo durante as longas guerras europeias entre 1792 e 1815. “As depredações cometidas pelos corsários argelinos com o comércio dos Estados Unidos” forneceram a justificativa para uma resistência relutante do congresso em 1794 para aprovar a construção das fragatas que marcaram o início da Marinha permanente.

Os Estados Unidos travaram uma série de combates navais indecisivos com os corsários entre 1801 e 1815, quando a frota de Barbary era liderada pelo escocês Peter Lisle, que se converteu ao Islã, tomou o nome de Murat Reis e se casou com a filha do paxá de Trípoli. A frase no hino dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos “às margens de Trípoli” refere-se aos sete fuzileiros navais que participaram de uma angustiante marcha pelo deserto da Líbia para capturar Derna em 1805 sob ordens do presidente Thomas Jefferson.

Apesar dessa vitória, os Estados Unidos ainda foram obrigados a pagar um resgate humilhante de US $60 mil pela tripulação da fragata Filadélfia, capturada por Peter Lisle quando o navio encalhou em um banco de areia enquanto tentava montar um bloqueio ao porto de Trípoli.

A imagem literária dos piratas bárbaros, como a dos bucaneiros, emergiu com sua crescente notoriedade. O Corsário Lord Byron contou a história em versos do orgulhoso e tirano pirata Conrad, que, observa Cordingly, tinha “os vícios de um vilão gótico com os ideais do nobre fora da lei”. Em seu dia de publicação em 1814, The Corsair, que mais tarde inspiraria obras de Verdi e Berlioz, vendeu 10 mil cópias e passou por sete edições dentro de um mês. Ironicamente, em 1816, apenas dois anos depois, uma frota combinada britânica e holandesa bombardeou a Argelia, destruindo virtualmente os verdadeiros corsários como uma séria ameaça à navegação mercante.

Cordingly usa a pintura “Bombardment of Algiers” por George Chambers do National Maritime Museum em Londres como a ilustração da capa de seu livro, apesar de ele ter muito pouco a dizer sobre os corsários e criticar os cineastas de Hollywood por colocarem seus piratas precisamente em grandes embarcações de três mastros pesadamente armadas de uma fase posterior da guerra, que estava longe dos navios menores e mais rápidos, preferidos pelos bucaneiros no Caribe.

Robert Louis Stevenson foi mais preciso em “Ilha do Tesouro” com o papagaio de Long John Silver, “Capitão Flint”; “como quando Silver disse a Jack Hawkins que o pássaro estivera “em Madagascar, e em Malabar, Suriname, Providência e Portobello. Ela estava na pesca dos navios naufragados. É lá que ela aprendeu sobre as “Peças de Oito (Pieces of Eight) algumas coisas mais; trezentos e cinquenta mil deles, Hawkins!”

Peças de oito eram as moedas mais famosas associadas com o folclore dos piratas. Essas moedas eram oito moedas de reais-prata. Peças de oito cunhadas no Peru e no México tinham o brasão de armas espanhol de um lado e um desenho representando os pilares de Hércules do outro, simbolizando os limites do mundo antigo no Estreito de Gibraltar.

Para este projeto, no século XVIII, dois hemisférios foram adicionados no espaço entre os pilares, representando o Novo e o Velho Mundo. As peças de oito se tornaram tão familiares no comércio oceânico que os pilares gêmeos acabaram se tornando o símbolo do dólar (moedas de ouro eram escudos e os famosos dobrões (doubloon) era uma moeda de ouro com oito escudos).

Kenneth R. Maxwell é um historiador britânico. É especialista em História Ibérica e no estudo das relações entre Brasil e Portugal no século XVIII, sendo um dos mais importantes brasilianistas da atualidade (Fonte: Wikipedia)



The Pirate Bay ainda vive, uma década depois de condenação

21 de Abril de 2019, 11:28, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

 


 

por Andy do Torrent Freak, artigo original aqui

 

 

Dez anos atrás, nessa mesma semana, quatro homens foram considerados culpados e sentenciados à prisão por administrar o site The Pirate Bay. Na época, Peter Sunde disse que o site iria continuar, custe o que custar. Uma década depois ele se provou absolutamente certo e isso em si é algo completamente incrível.

Na manhã de 3 de Março de 2009, Fredrik Neij, Gottfrid Svartholm, Peter Sunde e Carl Lundström estavam todos aguardando pelo dia final do agora infame julgamento envolvendo o The Pirate Bay.

Na noite anterior, o “notório site” tinha ficado fora do ar, preocupando as massas. Mas como já havia feito incontáveis vezes antes, o site reapareceu mais uma vez depois de Fredrik (TiAMO) ter trabalhado sua mágica – de dentro da corte de Justiça.

“Eu consertei o The Pirate Bay de dentro da corte há alguns minutos atrás. O site está de volta ao ar”, disse ele.

Esse tipo de ousadia, antes e depois do quarteto ser eventualmente sentenciado à prisão e a enormes multas uma década atrás nessa mesma semana, se tornou uma marca registrada dos três principais acusados. Enquanto o financiador prévio Lundstrom rapidamente foi pra escanteio, o trio composto por Sunde, Neji e Svartholm pareceram somente ter ganhado energia a partir daquele evento memorável.

Todos os três expressaram surpresa ao receber sentenças de prisão, mas todos juraram nunca pagar um centavo para as autoridades.

“Nós não podemos pagar e nós não iriamos pagar mesmo que pudêssemos”, disse Sunde “Se eu tivesse esse dinheiro eu preferiria queima tudo que eu possuo”.

Enquanto milhões esperavam que o próprio The Pirate Bay fosse imediatamente desaparecer, Sunde jurou que aquilo nunca iria acontecer. De maneira incrível e contra todas as chances, suas palavras ainda tem peso hoje. Qualquer um pode visitar ThePirateBay.org e ver a mesma homepage que eles sempre viram, como se o julgamento dos operadores do site nunca tivesse acontecido.

Para eles, no entanto, a vida se provaria menos direta nos anos seguintes.

Em 26 de novembro de 2010, seguindo um inevitável pedido de recurso, a corte reduziu as sentenças de prisão para os três acusados (Sunde, Neij and Lundström), mas aumentou as reparações a serem pagas para as representantes das indústrias de entretenimento. Svartholm, que esteve ausente da audiência de recurso por motivos de saúde, teriam que lidar com isso mais tarde.

No final, todos os quatro homens cumpriram suas sentenças, mas Sunde, Neiji e Svartholm o fizeram de maneira desafiadora. Ninguém esperava menos desses nórdicos iniciantes, que aguentaram toda a pressão de Hollywood e da industria da música esperando vencer, apenas para perder no final.

Ou será que foi isso mesmo?

Enquanto ninguém pode declarar tempo na prisão como uma vitória, Sunde, Neij and Svartholm (ou brokep, TiAMO, e Anakata, para usar seus codinomes) permaneceram firmes em sua oposição. Nenhum deles prosseguiram silenciosamente, nenhum deles cavaram cedeu à enorme pressão, nenhum deles voltou atrás em sua palavra

Essas são qualidades desprezadas pelo proprietários de copyrights quando vistos sob o ponto de vista do “roubo” de sua propriedade intelectual. Mas para milhões de seguidores no mundo pirata, havia uma chance deles, da mesma maneira, navegarem o alto-mar através das experiências de seus heróis, pelo menos por alguns anos.

Todos os três haviam se deslocado furtivamente para os bastidores da história do The Pirate Bay, mas não é nada muito distante do inacreditável que o site exista ainda hoje. Apesar dos esforços sem limites de executar a prisão em todo o mundo, ele ainda é um dos mais visitados sites de torrent no planeta.

Honestamente falando, os gráficos, o sistema de busca e tudo mais continuam presos ao passado. Mas diferente de alternativas mais vistosas tais como o KickassTorrents e o ExtraTorrent, a plataforma existe até hoje, enquanto continua servindo milhões de usuários com o últimos lançamentos.

The Pirate Bay se tornou a própria incarnação da lendária hidra. Hoje o domínio principal ainda existe, mas outras dezenas de tentáculos continuam a replicar o site, se não em sua totalidade, a algo mais próximo o possível disso. Enquanto seu corpo talvez seja encontrado e dilacerado, não há sinais de que esse dia está próximo.

O site de BitTorrent mais resistente da Galáxia? É difícil argumentar contra isso.



O legado mais preocupante de Trump

20 de Abril de 2019, 18:03, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

Se aprendemos algo com as eleições de 2018 é que, como uma vez disse Mangabeira Unger, se nós queremos saber o que vai acontecer no Brasil, devemos primeiro olhar para os Estados Unidos.

.

texto por Joseph E. Stiglitz, link original aqui

Os ataques do Presidente dos Estados Unidos contra instituições orientadas por evidências ameaçam sua contínua prosperidade e até mesmo habilidade de funcionarem como uma democracia. Enquanto gigantes corporativos capturam as instituições que supostamente deveriam proteger cidadãos ordinários, uma distopia uma vez imaginada somente pelos escritores de ficção científica está emergindo diante dos nossos olhos.

Nova Iorque – a resignação forçada da Secretária de Segurança Nacional não tem razões para ser celebrada. Sim, ela é presidida sob a separação forçada das famílias na fronteira Norte-Americana, que se tornou notória por hospedar crianças em gaiolas de arame farpado. Mas não é provável que a partida de Nielsen vá trazer qualquer melhora, já Donald Trump quer substitui-la por alguém que irá carregar suas políticas anti-imigração de maneira ainda mais ríspida.

As políticas de imigração de Trump são pavorosas em quase todos os aspectos. Ainda assim, elas talvez não sejam o pior aspecto de sua administração. De fato, identificar seus aspectos mais macabros se tornou o passatempo mais popular nos Estados Unidos. Sim, ele chamou imigrantes de criminosos, estupradores e animais. Mas e quanto à sua profunda misoginia ou vulgaridade e crueldade sem limites? Ou seu tímido apoio a grupos supremacistas brancos? Ou sua retirada do acordo de clima de Paris, o acordo nuclear iraniano e o Tratado de força nucleares de médio alcance? E, claro, existe sua guerra ao meio-ambiente, ao sistema de saúde e ao sistema internacional baseado em regras.

Esse jogo mórbido nunca acaba, é claro, porque novos desafiantes em busca do título emergem quase diariamente. Trump é uma personalidade disruptiva e depois que ele se for, nós talvez possamos refletir sobre como uma pessoa tão moralmente danosa e perigosa pode ter se eleito Presidente do país mais poderoso do mundo.

Mas o que mais me preocupa é a disrupção de Trump das instituições que são necessárias para o funcionamento da sociedade. A agenda MAGA (Make America Great Again – façamos a América grande novamente) de Trump é, claro, não sobre restaurar a liderança moral dos Estados unidos. Ela incorpora e celebra egoísmo sem limites e narcisismo. MAGA é sobre a economia. Mas isso nos força a nos perguntar: qual é a base da riqueza dos Estados Unidos?

Adam Smith tentou responder essa pergunta em seu clássico livro de 1776, a Riqueza das Nações. Para os países, percebeu Smith, padrões de vida se tornaram estagnantes e então, a partir do fim do século dezoito elas começaram a declinar. Por que?

O próprio Smith era uma luz guia do grande movimento intelectual conhecido como iluminismo escocês. O questionamento da autoridade estabelecida que seguiu a Reforma anterior em uma sociedade forçosamente Européia a se perguntar: Como saberemos a verdade? Como nós podemos aprender sobre o mundo à nossa volta? E como podemos e devemos organizar nossa sociedade?

Da busca pelas respostas à essas questões que envolvem uma nova epistemologia, baseado no empirismo e ceticismo da ciência, que veio a prevalecer sob as forças da religião, tradição e a superstição. Ao longo do tempo, as Universidades e outras instituições de pesquisa se estabeleceram para ajudar a buscar a verdade e descobrir a natureza do nosso mundo. Muito do que nos foi dado hoje – de eletricidade, transistores e computadores a lasers, medicina moderna e celulares – é resultado dessa nova disposição, apoiada pela pesquisa científica básica (a maior parte dela financiada pelo governo).

A ausência de uma autoridade real ou eclesiástica para ditar como a sociedade deve ser organizada para garantir que as coisa vão bem, ou da melhor maneira que poderia, significa que a sociedade teve que descobrir como fazer isso por si mesma. Mas desenvolver instituições que iriam garantir o bem-estar da sociedade se tornou um assunto mais complicado do que descobrir a verdade sobre a natureza. Genericamente falando, ninguém poderia conduzir experimentos controlados.

Um estudo próximo de experiências passadas poderia, no entanto, ser informativa. É necessário se apoiar em racionalismo e discurso – reconhecendo que nenhum indivíduo possui um monopólio sobre nossas compreensões da organização social. Externo a esse processo emergiu uma apreciação que instituições de governança baseadas no Estado Democrático de Direito (rule of law), o devido processo legal e pesos e contra-pesos apoiados como valores fundamentais como liberdade individual e justiça para todos sejam mais prováveis para produzir decisões boas e justas. Essas instituições talvez não sejam perfeitas, mas elas foram desenhadas mais provavelmente para que as falhas sejam descobertas e eventualmente corrigidas.

O processo de experimentação, aprendizado e adaptação, no entanto, requer compromisso com a busca da verdade. Americanos devem muito do seu sucesso econômico a um rico conjunto de instituições baseadas na busca por evidências e instituições que verifiquem a verdade. As principais entre elas está a liberdade de expressão e a mídia independente. Como todas as pessoas, jornalistas são falhos, mas como partes um robusto sistema de pesos e contra-pesos sob aqueles em posições de poder, elas tradicionalmente proveram um bem público essencial.

Desde os dias de Smith, foi demonstrado que a riqueza de uma nação depende da criatividade e produtividade de seu povo, o qual pode ser avançado apenas ao abraçar o espírito científico da descoberta e inovação tecnológica. E isso depende de melhorias constantes na organização social, política e econômica, descobertas através do discurso público racional.

O ataque de Trump e sua administração contra cada um dos pilares da sociedade Norte-Americana – e especialmente sua agressiva vilificação das instituições baseadas em evidências do país – ameaça sua contínua prosperidade e sua própria habilidade de funcionar como uma democracia. Nem sequer parece haver pressão sobre os esforços dos gigantes corporativos em capturar as instituições – as cortes, legislaturas, agências regulatórias e lojas de atacado – que supostamente devem preveni-los de explorar trabalhadores e consumidores. Uma distopia previamente imaginada apenas pelos escritores de ficção científica está emergindo sob nossos olhos. Isso deveria dar arrepios ao pensar sobre aqueles que “vencem” nesse mundo e quem ou o que nós deveríamos nos tornar, apenas na luta pela sobrevivência.

JOSEPH E. STIGLITZ

Joseph E. Stiglitz é prêmio Nobel em Economia, professor da Universidade de Columbia e Chefe Economista do Instituto Roosevelt. Seu último livro, “People, Power, and Profits: Progressive Capitalism for an Age of Discontent” (Pessoa, Poder e lucros: Capitalismo Progressista para uma era de descontentes), será publicado em Abril.



[Opinião] Corra, a Tecnocracia Neoliberal Evangélica vem aí!

18 de Abril de 2019, 14:37, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

texto por @rrobinha e alguem anon

leia o manifesto da Bancada Evangélica na íntegra aqui

No final do ano passado, a bancada evangélica lançou um documento chamado “Manifesto à Nação: O Brasil para os Brasileiros”, que implicam em uma série de pontos que aparentemente irão nortear as ações da bancada evangélica nos próximos anos.

O resultado final foi um documento de 60 páginas com uma peculiar salada-mista de ideias retiradas de diferentes fontes, como: meritocracia, “Ética do protestantismo” de Weber, tecnocracia, uma apologia a livros de gestão corporativa, uma salada-mista de doutrinas neoliberais e, por fim, teorias da conspiração sobre a doutrinação ideológica nas escolas pelo marxismo cultural que foram claramente copiadas de Olavo de Carvalho (ver glossário no final do texto)

Nem todas as ideias no documento estão equivocadas. Longe disso, mas uma parte delas, caso implementadas, gerariam efeitos colaterais tão graves que certamente farão com que todo mundo tenha saudades da época em que a bancada evangélica se metia exclusivamente em questões morais.

Para analisarmos de maneira apropriada as propostas da bancada evangélica, nós iremos prosseguir com uma lenta, porém satisfatória degustação desse documento.

Mas se você só estiver interessado em dar uma risadas pode pular diretamente para o Eixo IV – Revolução na Educação.

.

Introdução e Eixo I – Modernização do Estado

A introdução do texto começa alertando sobre o problema do “Monopólio da Representação” exercido pelos partidos políticos, o que acabou levando à uma “privatização do espaço público” por grupos particulares. Ou seja, da captura do Estado por grupos políticos.

Em seguida afirma que o Estado Brasileiro se tornou “muito grande” e “um fim em si mesmo”, tornando-se excessivamente patrimonialista – ou seja, de que órgãos e poderes públicos passaram a ser conduzidos pelo interesses privados – e que o mesmo deve ser modernizado para operar de maneira mais eficiente. Para isso se deve reduzir burocracia para permitir que o empreendedorismo possa crescer.

Essas ideias parecem partir de uma leitura rasa ou superficial do conceito de patrimonialismo frequentemente encontrada na mídia, que enxerga a corrupção como algo essencialmente Estatal, quando ela, na verdade, envolve uma série de interesses orgânicos que tem origem na esfera particular. Além disso, ela parece se apoiar no conceito de modernização, na qual existiria um caminho óbvio e único para o progresso e o desenvolvimento, bastando “tirar o atraso” que foi provocado pela adoção de medidas e receituários desenvolvimentistas.

As seções 1.1 e 1.2 do documento seguem na mesma linha. Os problemas mesmo começam com a seção “1.3 – Governo Digital e efetividade do serviço público”, que basicamente propõe criar uma espécie de plataforma digital para as ações do governo, disponibilizando tanto documentos da burocracia interna, quanto documento de cidadãos na “nuvem”, ou seja, na Internet. Algo que parece já estar começando a ser implementado.

Apesar do potencial inegável dessas medidas, o maior risco associado a elas vem das denúncias feitas por Edward Snowden em 2013 de que o Governo dos EUA vem metodicamente espionando as ações do Governo Brasileiro, pois todas as comunicações no Brasil passam por satélites norte-americanos ou cabos submarinos que estão ligados ao território dos Estados Unidos. Uma acusação que, embora tenha causado repercussão na época, parece nunca ter sido levada a sério.

Logo, o aumento dos documentos governamentais na Internet pode aumentar o nível de exposição de decisões governamentais sensíveis a governos estrangeiros, tornando o Brasil na prática em uma espécie de protetorado digital norte-americano.

E isso não é algo exclusivo dos EUA, pois como a maior parte do hardware mundial é produzida na China, até mesmo eles não estão alheios a problemas. Embora o assunto ainda esteja sendo testado por pesquisadores, reportagens recentes demonstraram que várias peças de hardware que haviam sido produzidas na China e que estavam presentes em empresas do Google, Amazon e Apple continham minusculos chips espiões que serviam como backdoors para capturar informação. Logo, mesmo a simples digitalização de documentos sensíveis pode representar um potencial perigo de disponibilizar informações para outras potências estrangeiras. (veja mais sobre essas suspeitas aqui e aqui)

.

Eixo II – Segurança Jurídica

Esse eixo começa afirmando que “a história da civilização nos mostra que a segurança jurídica é a nota distintiva do desenvolvimento econômico e social perene”. O que envolve uma certa ode e excessiva idealização do legalismo Romano de que no império da justiça não existiria espaço para a força, algo como a solução mediada de conflitos e a confiança na autoridade do judiciário. Quando se invoca isso no Brasil geralmente é para tentar legitimar decisões do judiciário ou invocar sua ação perante grupos políticos que estejam influenciando as cortes.

A seção “2.1 – Segurança Jurídica como valor fundamental” propõe que “segurança jurídica” seja adicionada como um dos direitos fundamentais na constituição, o que equivale a uma tentativa de igualar direitos individuais a direitos econômicos. Algo que só faz sentido diante da adoção do conceito de “cidadão-cliente”, também presente no documento e que vê o Estado como um mero provedor de serviços e não como a instância de participação política por excelência.

É também uma compreensão extraída da postura norte-americana sobre a judicialização da vida cotidiana, a questão aqui é enxergar a justiça como capaz de prover igualdade social através da cobrança do Estado, que já acontece bastante no campo da saúde com processos de planos e do governo quando há delonga ou rejeição de um tratamento devido a filas ou ao custo.

Em outro ponto, o documento propõe que os agentes públicos possam ser responsabilizados diretamente por algum dano, fazendo com que aqueles que atuam em nome do Estado sejam diretamente responsabilizados pelos problemas que eles mesmo fazem.

Se por um lado isso potencialmente reduz muito as garantias e autonomia de diversos agentes públicos no cumprimento do seu dever, por ouro isso é algo que pode até mesmo ser ser desejável, já que instituições como a polícia frequentemente julgam seus membros através de critérios internos próprios ou através por tribunais militares como no caso do Rio de Janeiro.

Essa medida, portanto, talvez possa ser vista como uma resposta judicial aos abusos frequentemente cometidos pelos agentes do Estado para que os mesmos passem a se responsabilizar por suas ações. O problema é que isso não pode ser feito de uma maneira a isentar totalmente o Estado. Algo que, na prática, acabaria fortalecendo o sentimento corporativista e incentivando ainda mais esses agentes a tomarem medidas “por debaixo dos panos”.

Já a seção “2.3 – O devido processo legal e o novo processo administrativo brasileiro” propõe a formulação de um Tribunal Administrativo composto por funcionários públicos e membros da sociedade civil e que poderiam anular decisões administrativas internas. Não está muita clara a proposta, mas ela parece envolver uma espécie de “poder moderador” da administração pública, além de estabelecer sanções mais claras contra funcionários públicos em ações fiscalizadoras.

Isso mostra que, para a bancada evangélica, a Segurança Jurídica implica necessariamente em uma redução do grau de fiscalização do Estado em Empresas e contratos privados entre as partes. Isso, no entanto, na prática tornaria esses tribunais administrativos em uma forma de controle político das autarquias da administração pública, de forma que as decisões dos técnicos, aqui servidores públicos, fossem alvos de posterior escrutínio e represália.

.

Eixo III – Segurança Fiscal

Esse eixo começa com afirmações bastante genéricas como “o sistema tributário deve ser simplificado, e a tributação deve ser deslocada do consumo para a renda, não apenas por questão de justiça social como para impor dinamismo à economia brasileira” e “a modernização previdenciária deve ter como princípios a contributividade e a sustentabilidade financeira, lastreada em robusto cálculo atuarial”. Até aqui, tudo ok.

As três primeiras seções estão bem estruturadas e todas tem boas propostas, ainda que de complexa e difícil execução. Os problemas mesmo começam na seção “3.4 Modernização Comercial. A nova abertura dos portos às nações amigas”, cujo próprio título já entrega o tipo de visão ingênua que provavelmente irá imperar durante todo o mandato do Bolsonaro em em relação ao Comércio Exterior e as Relações Internacionais.

Aqui a ideia de modernização entra em contato com a síndrome do vira-lata, pois flerta com a ideia que de que a modernidade ainda precisaria desembarcar em terras brasileiras, faltando apenas uma receptividade do comércio e ideias estrangeiras.

É como se a mera facilitação da entrada de produtos estrangeiros fosse capaz de possível uma simbiose ou educação a partir da absorção dos padrões de qualidade internacional, o que, consequentemente, deixaria clara a inferioridade de ideias e produtos nacionais e a consequente necessidade de modernização da Economia

As primeiras propostas propõem alterações diretas na composição interna do Ministério das Relações Exteriores, no uso de especialistas externos nos corpos diplomáticos e até mesmo defendendo uma formação mais especializada dos diplomatas, mostrando que eles duvidam das qualificações dos membros do Itamaraty.

Quando consideramos os demais pontos presentes nessa seção, no entanto, fica claro que são os diplomatas é que poderiam ajudar na qualificação dos membros da bancada evangélica.

Isso porque as demais propostas fazem parte das linhas de política externa já defendidas por Bolsonaro, com maior enfase em tratados bilaterais em contraposição aos os acordo em bloco sempre vinculados ao Mercosul, além da redução das alíquotas gerais de importação registradas na OMC.

O que os deputados que escreveram esse documento parecem ignorar é que mesmo que a maior participação do Brasil no comércio internacional seja realmente algo positivo, a abertura do comércio não pode ocorrer de maneira unilateral. A reciprocidade diplomática é algo que envolve tanto acordo políticos quanto econômicos. E mesmo a prosperidade experimentada pelo comércio renovado entre Estados Unidos e Europa após a Segunda Guerra Mundial só deu frutos porque o corte de tarifas foi algo que ocorreu simultaneamente em ambos os lados do atlântico, exatamente a partir da consolidação de acordos de comércio por meio do GATT, que mais tarde se tornou a OMC.

A ideia portanto, de que o Brasil possa gozar de maior prosperidade meramente reduzindo as alíquotas de importação de maneira unilateral chega ao próximo do absurdo.

.

Eixo IV – Revolução na Educação

Finalmente, a última parte é a mais divertida, pois se as seções anteriores continham geralmente apenas uma ou duas seções mais problemáticas no meio de uma série de propostas bastante válidas e até mesmo importantes, a seção sobre a Educação é onde os níveis de fanatismo e teoria da conspiração atingem níveis de mais oito mil.

O texto começa falando que esse é o assunto com maior arco de tempo e aquele que garante a sustentabilidade dos ganhos e avanços dos eixos anteriores. Além disso, fala em investir em educação como uma forma de agregar valor ao cidadão e garantir a ele um fator de emancipação dele mesmo e do país.

Até aí lindo. Só que aí a página seguinte começa com a seguinte afirmação:

“A tragédia que se instituiu no Brasil nas últimas décadas teve como uma das causas o desprezo pelo esforço, pelo estudo, pelo mérito conquistado ao longo do tempo, em benefício do caminho mais curto da demagogia, do uso político-partidário das escolas e universidades públicas, que se tornaram instrumentos ideológicos que preparam os jovens para a Revolução Comunista, para a ditadura totalitária a exemplo da União Soviética e demais regimes sanguinários. “

Ou seja, o problema da educação é a falta de estrutura das escolas? De base curricular? De preparo dos professores? De apoio aos estudantes? Não, não, claro que não…

É tudo culpa dos professores comunistas que destruíram a meritocracia com a revolução comunista.

O interessante observar, por exemplo, que políticas como aprovação continuada, que retiram a repetência do sistema educacional foram propostas por políticos e não pelos professores, como forma de diminuir a evasão escolar e assim produzir índices que elevassem a educação brasileira em rankings educacionais internacionais. Não como fruto da benevolência dos professores comunistas brasileiros com os alunos oprimidos.

Outra afirmação que gera horrores é como a educação atual preparando as mentes dos nossos jovens para algum tipo de ditadura totalitária/revolução comunista. Além de ser uma afirmação muito pouco explicada, ela chega a ser irônica quando vemos tantos Estados adotando de escolas militar. E essas sim contam com frequentes instrumentos de imposição disciplina e obediência em suas grades.

Talvez na cabeça deles a revolução comunista/ditadura totalitária não precise de hierarquia e nem de disciplina.

E não para por aí, veja o trecho seguinte:

A destruição dos valores e princípios do mérito escolar e do mérito acadêmico-universitário contribuiu para a violência contra a civilização judaico-cristã, atingindo duramente o Cristianismo, tal como aconteceu na URSS e demais Estados totalitários, como na Itália Fascista e na Alemanha Nacional-Socialista, China, Cuba etc. O mérito é rigorosamente democrático, todos podem conquistá-lo

Aqui é feito um ataque velado às cotas e é feito um malabarismo para relacioná-las aos governos não democráticos do mundo. Só que os Estados Unidos, que são uma democracia e não está entre os países citados, são um exemplo da adoção de cotas raciais e de renda. Além disso, já foi demonstrado em diversas pesquisas que, em média, o cotista frequentemente apresenta desempenho superior ao não cotista.

O democratismo comunista é a destruição do ensino de qualidade, pois, quanto mais ideológico, mas ele se torna improdutivo, ineficiente e corrupto. O populismo educacional gerou incompetentes em todas as profissões, e as pessoas só conseguem superar esse atraso quando resistem a essa pressão e estudam por si mesmas.

Agora o comunismo é democrático, parecem que não se decidem se é ditadura/revolução ou o problema é o democratismo.

O que a afirmação acima parece deixar de lado é que a produção de artigos acadêmicos cresceu no país, somos um dos que mais publica no mundo, a CAPES, órgão de fomento a pesquisa foi criada baseada em incentivo a publicações e visibilidade em periódicos dos Estados Unidos e Europa, duas regiões aparentemente super comunistas e mais incompetentes do mundo.

Os estudantes brasileiros hoje não ocupam espaços entre empresas e universidades de ponta no mundo inteiro? Seriam os profissionais formados nas universidades federais e escolas técnicas do país de qualidade inferior aos das escolas e universidades privadas? Muito difícil defender esse ponto e mais difícil ainda acreditar que as pessoas só conseguiriam superar o “atraso” quando estudassem sozinhas. Não há registro histórico de cientistas ou empresários que produziram inovações, grandes empresas ou descobertas de forma isolada.

.

Sobre patentes

O Brasil é muito forte em Commodities, mas na criação de tecnologia temos somente 0,1% das patentes mundiais. O Brasil não cria patentes. Para começarmos a vencer esse atraso impressionante é necessário termos um sistema de ensino fundado na meritocracia, em permanente ascensão de conhecimento, sempre visando a mais alta qualidade em todas as etapas, da Educação Básica ao Doutorado.

Sinceramente nunca vimos um professor de História Marxista registrar uma patente. O que nos leva a crer que os comunistas se implantaram secretamente também nos cursos de engenharia, química e Farmácia (malditos comunistas, mal consigo ver seus movimentos).

A produção de patentes não é um índice educacional, além do fato de que o mero registro de patente gera custos que não são cobertos por nosso governo em todos os casos. Geralmente essas patentes registradas pelo Brasil são referentes a parcerias entre empresas e universidades onde funcionários fazem cursos e produzem estudos direcionados como parte do acordo, gerando patentes ao final da sua graduação.

O problema da baixa produção de patentes, portanto, é algo relacionado com o baixo investimento e o baixo nível de formação bruta de Capital Fixo no país. Não uma consequência do nosso modelo educacional ou do marxismo que seriam ensinado por professores de História e Geografia no segundo grau.

Vale lembrar também que número de patentes não implica em valor das patentes, muitas patentes no mundo são inócuas, gerando apenas custos, e sua existência não garante qualquer segurança jurídica ou econômica, pois patentear um produto por todo o planeta é caríssimo e estaremos sempre sujeitos ao sistema de justiça de outros países.

.

Seguindo…

O mundo contemporâneo no Século XXI é e será cada vez mais competitivo e exigente. Portanto, todas as sociedades que ainda praticam uma educação ideológica, populista e demagógica, vão cada vez mais ficando para trás, e jamais conseguirão superar o abismo crescente que as separam das mais avançadas, já que estas sempre avançam mais, melhor e mais rápido.

A proposta aqui é enxergar o mundo como uma corrida justa entre os países, onde as posições ocupadas neste ranking refletem o quanto as sociedades tem povos não ideologizados e competentes (meritocracia para países inteiros agora).

A afirmação não dá espaço para as centenas de anos de guerras, embargos econômicos, golpes de estado financiados por agências de inteligência e espionagem internacional. É tudo uma questão de consciência limpa e trabalho duro. Quem não se adaptar ao jogo irá ficar cada vez mais “para trás” é de novo a ideia da modernidade e de um fim último que todos os países concordam que deve ser alcançado de uma única maneira.

Além disso, o texto ainda está mal escrito, como mostra o trecho “um país avançar melhor que outro”.

Avançar melhor que o outro?! Parece que alguém faltou na escola…

A próxima seção já começa abordando a questão da Escola sem Partido:

Libertar a educação pública do autoritarismo da ideologia de gênero, da ideologia da pornografia, e devolver às famílias o direito da educação sexual das suas crianças e adolescentes. Defender o direito à inocência da criança como direito humano universal.

É interessante como ensinar educação sexual nas escolas se traduz em autoritarismo para a bancada evangélica. Aliás, que raios é ideologia da Pornografia???Aparentemente eles acreditam que a pornografia está na escola e não na internet, na televisão ou nas revistas e jogos. Ou talvez para eles exista uma pornografia ideológica e uma não ideológica, seja lá o que for isso (alguém pergunta isso pro Alexandre Frota, por favor?)

Além disso, a ideia de que “A criança ter direito a inocência” parece partir da visão de que qualquer discussão ou educação sobre sexo é maliciosa e vai criar uma criança tarada, ainda que essa educação seja focada em doenças, desigualdades e violências. Assuntos extramente necessários como parte de um trabalho de educação sexual dos jovens.

Na verdade, ou temos Escola ou temos Ideologia. São inconciliáveis. Teremos que reinserir a Escola e a Universidade públicas em seu leito tradicional e conservador: ensinar. Assim é desde a Mesopotâmia, considerada o berço da escola mundial. A instrumentalização das escolas e universidades públicas a serviço de ideologias totalitárias e ditaduras comunistas envenenou a alma e o espírito das últimas gerações, e destruiu a qualidade de ensino.

Ideologia parece ser um conceito extremamente mal compreendido pela bancada evangélica. Sendo originalmente um conjunto de ideias que estruturam sistemas de dominação política, ela hoje parece ser usada coloquialmente como sinônimo de “manipulação”.

Além disso, a Mesopotâmia nunca foi referência de ensino, no que parece ser uma tentativa de ligar a ideia da educação a religião cristã, que teve berço nessa região.

O que o documento não parece se atentar é que as universidades brasileiras são extremamente conservadoras, nossos currículos de engenharias e ciências exatas não tem espaço para humanidades, esportes ou qualquer tipo de formação interdisciplinar liberal, cada campo do conhecimento é fechado em si mesmo e pouco dialoga com outras áreas e saberes. Já os currículos americanos e chineses apresentam essa presença de filosofia, esportes, artes e outras humanidades mesmo nos cursos mais técnicos.

A ideologia de gênero é a mais nova invenção do pensamento totalitário, que imediatamente foi adotada pelas autoridades dos Governos do PT, e demais frações de esquerda autoritária. Ela desvia a escola das suas atribuições normais e investe na subversão de todos os valores e princípios da civilização.

Sim, a mais nova invenção do pensamento totalitário depois do Fascismo, Nazismo e Comunismo foi a ideologia de gênero. Aquele bigodinho do Hitler nunca me enganou.

É interessante o medo a nível civilizacional da discussão de gênero, será que discutir os papéis de homens e mulheres na sociedade e a homo-afetividade nos levará ao fim do mundo? Ditaduras dependem disso? Os estudos de gênero, frequentemente apelidados “ideologia de gênero”, é onipresente nos currículos dos países desenvolvidos, mas aqui é considerada como um fator de atraso.

O ataque às crianças, adolescentes e suas famílias tem por objetivo destruir os alicerces da Civilização como condição prévia para a criação das condições objetivas de instituir uma ditadura totalitária, escravizando as consciências pela força do Estado. A sociedade civil fica refém do Estado. Com isso, introduziram nas escolas todo tipo de pornografia, licenciosidade, perversão etc. Será necessária uma campanha ininterrupta de combate à sexualização e erotização das crianças e adolescentes em todo o Brasil, utilizando-se todos os meios possíveis, e punindo severamente todos que atentarem contra a inocência infantil.

Fica a pergunta se alguém acredita que o maior risco ao nosso país, ou melhor, a civilização é a criança pensar ou falar sobre sexo, esse sexo que todos os ancestrais da humanidade necessariamente tiveram que praticar. Será que uma vez debatido ele será a semente da ruína? A quem serve essa preocupação? Será que falar de sexo escraviza, prende, limita a mente? Existe diferença entre pornografia e educação sexual? É fácil assim se confundir os dois?

Sinceramente, temos que repensar como todos esses tabus e como eles servem de cortina de fumaça e paranoia nos tiram a possibilidade de uma conversa séria sobre o assunto. Se não for a escola, será a internet que educará sexualmente nossas crianças, com nenhum controle, nenhum filtro, nenhum profissional da educação preparado para o debate e a resposta de perguntas,

Especialmente quando a Internet em grande parte já conta com um banco de dados virtualmente infinito de vídeos e fotos de todo tipo de tara sexual ao alcance de uma busca de menos de clique.

O resto desse eixo trata sobre políticas para a Universidade e são bem mais sóbrios, mas que são basicamente trechos copiados de um estudo do Banco Mundial.

O mais importante é que, independente das eventuais boas ideias presentes na primeira parte desse documento, essa última parte garante ao documento o selo oficial de psicodelia argumentativa do Olavo de Carvalho.

olavetes piram

.

Conclusão

Depois do esforço envolvido em estudar esse documento, a maior pergunta que fica é: como é que as pessoas que escreveram os primeiros três eixos do documento, que contém propostas relativamente razoáveis, permitiram que colocassem todos aqueles absurdos na última parte sobre educação básica?

Tal questionamento parece nos deixar apenas duas alternativas: ou os demais membros da bancada evangélica aceitaram de maneira relutante essa situação apenas pra poderem chegar a um consenso mínimo ou eles conscientemente estão querendo lucrar politicamente com toda a polêmica e atenção que a pauta da Escola sem Partido vem provocando na imprensa.

Provavelmente as duas alternativas são verdadeiras em alguma proporção, mas o mais importante é que mesmo o tom absurdo da última parte desse documento deixa bem claro que por trás dessa suposta pataquada de cruzada contra os professores marxistas e a revolução comunista estão interesses bastante claros dos grupos evangélicos de se tornarem parte do sistema educacional.

Não é difícil entender o porquê. Comunidades religiosas possuem uma capilaridade muito grande na sociedade e as igrejas estão frequentemente conseguem estar presentes nas periferias e outros locais tão afastados de uma maneira que nenhum grupo político ou instituição consegue competir.

Esses pastores talvez mostrem um interesse genuíno de querer participar do processo educacional e conseguir desenvolver um modelo educacional que seja mais baseado em uma formação mais comunitária e mais antenado com os problemas locais, já que a estrutura educacional brasileira, assim como o restante do Estado por motivos históricos, é excessivamente centralizado.

O problema é que se há alguma coisa que a retórica da última parte desse documento conseguiu demonstrar é que, atualmente, esses pastores não possuem a menor condição de poder propor ou mesmo participar da reforma educacional que eles tanto almejam querer implementar.

Talvez seja hora deles voltarem ao banco da escola.

.

Glossário

Meritocracia – a ideia de que as ações dos indivíduos e os resultados obtidos por essas ações podem ser medidos e avaliados de acordo com o esforço empregado por este indivíduo. Dessa forma, o mundo seria regido de forma justa e todos estariam em posições de poder e possuiriam riquezas correspondentes ao grau de esforço empregado em suas vidas, desconsiderando desigualdades históricas, relações de força entre países e acúmulo de renda transmitido através de herança.

“Ética do protestantismo” de Weber – Sociólogo alemão, Weber escreveu a obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, procurando explicar por que a revolução industrial e a economia capitalista teriam surgido na Europa ao invés de outras épocas e regiões do planeta que também concentraram riqueza e grandes populações. Em sua obra, Weber encontra como diferencial a ética do protestantismo, que equivalia o trabalho a uma atividade de inspiração divina, e o enriquecimento como resultante do favor divino, de forma que era possível motivar o trabalho e a busca do sucesso financeiro como algo sempre desejável e moralmente superior.

Tecnocracia – se refere à ideia de que qualquer ramo da atividade humana possui algum grau de especialização que produz pessoas altamente dedicadas àqueles campos, e esses especialistas/técnicos seriam capazes de produzir decisões mais eficazes que pessoas não instruídas. Essas decisões supostamente seriam tomadas de forma racional, independente de alinhamento político, paixões ou interesses pessoais. É uma forma de negação da política como parte indissociável da atividade humana.

Neoliberalismo – um resgate de ideias antigas liberais de forma restrita ao campo da economia, onde o Estado deveria exercer a enas atividades fundamentais como saúde, educação e segurança pública, deixando de regular a economia. No entanto, além de deixar de lado todas as liberdades individuais defendidas pelo liberalismo clássico, essa linha de pensamento do Estado mínimo ignora tanto a competição desigual entre Estados no plano global quanto a necessidade de intervenções periódicas em tempos de crise, como as milionárias isenções e incentivos que ocorrem em casos de quebra do mercado financeiro, que não são condenadas por estes pensadores.



Ciências Econômicas são uma perda de tempo

15 de Abril de 2019, 20:39, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

por Peter Radford, em dois artigos originalmente publicados aqui e aqui

O texto abaixo foi composto de dois artigos do blog do autor. Escritos em um tom de desabafo, eles descrevem muito bem a frustração atual dos pesquisadores e estudantes da área de economia em aplicar seus conceitos em problemas do dia a dia

 

Pronto, falei.

Existe um ponto quando todos nós temos que parar de bater a cabeça contra a parede e apenas dar um passo para trás. Por que, nós nos perguntamos em tais momentos, ainda estamos perdendo nosso tempo? A muralha é irremovível. Ela é indiferente aos nossos esforços. Ela é sólida. Ela tem a aparência de permanência. Ela não irá se mover.

Então se afaste.

Faça alguma outra coisa.

Ao invés de Ciências Econômicas, vá e estude a Economia.

Muitas pessoas estão perdendo muito tempo falando sobre economistas como se eles estudassem a economia. Eles não estudam. Eles realmente e verdadeiramente não o fazem. Eles vivem em um mundo pós-fatos. De fato, antes que se tornasse moda gritar essa frase – Trump e seu regime é em grande parte “pós-fato” – economistas tem repetidamente negado fatos, ignorado a realidade e vivendo em um mundo de fantasia de suas próprias criações.

Economistas estudam ciência econômica. E ciência econômica não é a economia. É um conjunto auto-contido de ideias, modelos, teorias, intricamentos matemáticos e axiomas que são desenvolvidos para prover um excitante passatempo intelectual àqueles inclinados a ocupar a si mesmos com tal atividade. É cuidadosamente construída para parecer como se tocasse a realidade. Ela ainda contem palavras que fazem parecer como se ela se relacionasse com a realidade. Economistas discursam de maneira confiante sobre assuntos do dia a dia. E economistas preenchem todas as principais posições chave relacionadas com condução, regulação e mensuração da economia.

Mas tudo isso é uma ilusão

De uma checada no que eles aprendem na escola. De uma espiada no conteúdo do que eles acreditam. Observe o que é levado em conta para se tornar um economista respeitado.

E então tente conectar isso com o que você vê à sua volta.

Existe pouca ou quase nenhuma conexão. É como se os meteorologistas previssem o tempo sem sequer olhar pela janela. Ou como se físicos insistissem que a gravidade jogasse coisas para cima mesmo diante de evidência contrária. Alice e seu espelho não relatam nada sobre a habilidade dos economistas de questionar o mundo em que eles mesmo vivem.

Mas talvez não se trate de questionar ou não.

Outro atributo de economistas é a sua pose de observador desinteressado da sociedade descrevendo de maneira rebuscada as “profundas leis” que os humanos são tolos o suficiente para se lançarem contra. Eles projetam um ar de análise sóbria. Eles buscam injetar disciplina e rigor na confusa arena de interação humana. Eles querem que nós acreditemos que o que eles descrevem é inevitável. E então eles assumem para si mesmos o papel de guardiões de como aquilo deveria ser.

Não, não é questionamento. É ativismo.

Ao se aventurar em um ambiente intelectual selvagem e ao se absterem de nutrir da diversidade e complexidade da realidade, eles retornaram convencendo a si mesmos em seu delírio de fome que eles descobriram as maneiras pela qual a sociedade deve conduzir seus afazeres.

As Ciências Econômicas, em todas as suas tonalidades dominantes, é profundamente normativa. É uma tentativa de ditar as formas em que nós ordenaremos nossa atividade econômica.

Nós sabemos disso pela maneira como ela lida com a ação coletiva. Ela desaprova esse tipo de atividade em cada abertura e fissura visível. Ela é totalmente comprometida com o indivíduo atuando como agente central. E ao indivíduo é presumido atuar de maneira desumanamente racional.

É por isso que as ideias Keynesianas sobre a eficácia de se se examinar macro ou meta temas foram consideradas apóstatas e tiveram que ser radicadas ou mutiladas de modo a serem neutralizadas politicamente.

É por isso que a crítica marxista é ignorada, como se relações de poder não tivessem nenhuma significância social.

É por isso que considerações sobre gênero e minorias são vistos como irrelevantes.

É por isso que instituições são desprezadas em sua importância teórica.

É por isso que o conhecimento nunca encontrou seu caminho dentro do núcleo da tão chamada “função de produção”.

É por isso que variadas fantasias do equilíbrio geral são toleradas pelas pessoas com vastas habilidades analíticas e os quais, portanto, deveriam saber mais.

É por isso que teóricos do crescimento se mostram contentes com modelos que preveem apenas uma pequena porção do crescimento – o restante eles afirmam ser um mistério.

É por isso que teorias da firma são desesperançosamente conflitantes com as as firmas em que eles trabalham.

É por isso que peculiaridades como a noção de “análise marginal” existem. Construtos maravilhosos e interessantes intelectualmente, mas não encontrados na natureza, eles nos distraem de localizar explicações melhores, mais práticas e reais sobre os artefatos econômicos.

E a lista segue em frente.

Tudo isso já foi dito antes. Só que de maneira muito mais eloquente.

Portanto, meu conselho é que você estude economia ao assistir aulas de política, sociologia, filosofia, negócios e teoria organizacional. Informe-se sobre teoria da informação. Construa aqueles modelos baseados em agentes. Vá e fale com trabalhadores, lojistas e todas as outras pessoas do mundo real.

Mas fique longe de Ciência Econômica.

Especialmente se você é sério sobre a economia.

.

Equilíbrio, uma erva-daninha que precisa ser arrancada

Quão negativo você precisa ser pra conseguir atenção? Existem certas coisas bobas na economia que precisam ser removidas para que algo melhor possa emergir. Algumas vezes, eu apenas afirmei que a coisa toda é uma perda de tempo. Afinal, economia não é simplesmente um corpo de conhecimento, mas também um fenômeno social que possui sua própria linguagem, suas próprias estimativas de qualidade, sua própria hierarquia e sua própria história que está amarrada de maneira firme ao longo de um caminho específico.

E, francamente, esse caminho já se perdeu.

Leia essa trecho bem humorado de um dos grandes pensadores da área:

“Da mesma maneira que nós mensuramos gravidade e seus efeitos através do movimento do pêndulo, talvez nós possamos estimar a igualdade ou a desigualdade dos sentimentos pelas decisões da mente humana. A vontade é nosso pendulo e suas oscilações são meticulosamente registradas pela relação de preços dos mercados. Eu não sei quando teremos um sistema estatístico perfeito, mas o desejo por isso e o único obstáculo insuperável no caminho de fazer da Ciência Econômica uma ciência exata” – William Stanley Jevons

Bem, nós não sabemos do que se trata o “sistema estatístico perfeito” do Jevons. Nós nunca o teremos. Um sistema econômico é complexo demais para se encaixar em qualquer estatística que Jevons poderia imaginar. Talvez ele estivesse sugerindo isso ao dizer que sua ausência fosse um “obstáculo insuperável”.

De qualquer forma, toda essa busca pelo equilíbrio já confundiu a Ciência Econômica por tempo suficiente. Essas referências mecânicas para sistemas perfeitamente oscilantes que vão vagarosamente se reduzindo sob a influência da gravidade são totalmente inapropriados para alguma coisa como a economia. Equilíbrio é uma perversa erva-daninha. Ela infesta o nosso jardim. Ela nos distrai da realidade. Arranque ela fora!

A medida que vou ficando velho eu tenho cada vez mais desprezo pela estupidez incorporada pela noção de equilíbrio. É algo que economistas usam para evitar conflito com a complexidade da realidade. Era uma ideia ousada e popular antigamente, quando economistas estavam abobados pela sua inveja da Física. Ela é irrelevante e provavelmente gera ilusões no contexto de nossa moderna compreensão da realidade. Ela se encontra disponível junto ao ferramental intelectual não porque ela é útil, mas porque ninguém ousa falar a verdade: ela é uma erva-daninha. Arranque fora.

Se nós queremos seguir em frente nós precisamos parar de usar a palavra e a ideia que ela introduz. Certamente a inclusão de uma referência ao equilíbrio deve ser um motivo de desqualificação na escrita acadêmica das Ciências Econômicas daqui por diante. Exceto, naturalmente, quando ela for incluída na história desse assunto como um exemplo de algo que deveria ter sido jogada fora como impeditivo para o progresso.

Além disso, ainda que alheio acerca de quais sejam suas origens, equilíbrio se tornou uma ferramenta ideológica. A futilidade de se opor ao supostamente inexorável movimento do livre mercado como inevitavelmente entrando em equilíbrio é um grande e poderoso argumento daqueles que negam a validade do governo como um agente econômico positivo. E, já que o governo são “Nós, o povo” agindo de maneira organizada, equilíbrio se tornou, consequentemente, uma ferramenta anti-democrática. Nossa resistência não tem outro propósito que não seja nos impedir de ter qualquer tipo de pensamento não alinhado ao mercado que possa surgir.

Equilíbrio começou como sua vida ilusória como uma iluminação sobre a magia luminosa do mercado. Ela então se tornou um companheiro distópico por trás dos panos no qual os oponentes da democracia passaram a agir.

É uma erva-daninha. Ela é tóxica. Arranque fora.

 

Peter Radford é editor da Radford Free Press, trabalhou como analista em bancos por mais de quinze anos e tem diplomas tanto da London School of Economics, quanto da Harvard Business School.



Decisão da Comissão Julgadora sobre o caso do associado Hare Brasil

13 de Abril de 2019, 13:56, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

Decisão da Comissão Julgadora

A Comissão Julgadora do Partido Pirata instaurada pelo Portaria 0001/2019 , delibera:

1) Que a Secretaria Geral do Partido notifique o desligamento/ expulsão do senhor Hare Brasil do quadro de membros do Partido Pirata, bem como a exclusão do usuário do Loomio e reiterando a não presença nos espaços comuns do Partido Pirata devido à atitude que contraria as cláusulas pétreas, programa e estatuto do partido, levando à necessidade de tal ação.

Reiteramos que o partido pirata não tolera machismo, principalmente quando envolve violência física.

Cumpra-se.

13 de abril de 2019

Iuri Guilherme – Primeira Tesouraria-Geral;
Marcos Aurélio – Primeira Secretário-Geral;
Paulo Crosara – Representante de Grupo Nacional de Trabalho Jurídico



Tags deste artigo: pirata partido pirata partido