Ir para o conteúdo
ou

Software livre Brasil

Twitter @PartidoPirataBR

410 Gone

Tela cheia Sugerir um artigo
 Feed RSS

Comunidade Partido Pirata do Brasil

23 de Julho de 2009, 0:00 , por Software Livre Brasil - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
O Movimento do Partido Pirata do Brasil, surgiu graças a uma corrente teórica que se espalhou pela região do euro, uma teoria que tenta focar a sociedade para seu desenvolvimento, priorizando o Conhecimento, a Cultura e a Privacidade. Nós queremos apresentar ao povo brasileiro uma nova maneira de se fazer política, mas para isso acontecer precisamos do seu apoio. Venha junte-se a resistência!

[Opinião] Cyber-monitoramento de dados de usuários da ID Estudantil

3 de Fevereiro de 2020, 21:52, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

thread por Saulo Carneiro

o texto abaixo é um versão estática da thread desenvolvida por carneirinho poc.

Como havíamos abordado em um texto anterior, o governo Bolsonaro não conseguiu ter acesso à base anterior da carteirinha estudantil, que é a principal fonte de fundos da UNE, e resolveu criar uma carteirinha estudantil digital própria. As últimas informações disponíveis apontavam que a MP que permitiu o lançamento da ID Estudantil estava quase vencendo no Congresso.

1/ O governo federal, por meio do Ministério da Educação, criou em novembro de 2019 o programa ID Estudantil. Segundo o governo, a ideia é fornecer uma carteira de estudante gratuita.

https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/11/25/id-estudantil-mec-lanca-app-da-carteirinha-digital.amp.htm

2/ Até aí, seria maravilhoso, não é mesmo?! Só que esse projeto é muito mais obscuro do que parece. O mais evidente é que ele tem como objetivo retirar a principal fonte de financiamento das organizações estudantis como @uneoficial@ubesoficial

.3/ A @slytherab explicou toda estratégia de desmonte e desmobilização nessa thread:

4/ Mas além do ataque ao movimento estudantil organizado, o projeto do ID Estudantil tem objetivos ainda + obscuros e fascistas. Primeiro de tudo, a coleta, armazenamento e compartilhamento de dados dos usuários do app. O aplicativo faz o reconhecimento durante o cadastro.

5/ Os dados de reconhecimento facial dos usuários podem ser utilizados durante manifestações contra o governo. Em Hong Kong, manifestantes derrubaram postes de reconhecimento facial para evitar prisões e perseguições.

6/ Na Bahia a tecnologia já vêm sendo utilizada pela polícia para prender foragidos da justiça.

7/ O app também solicita autorização do usuário para acessar sua localização, e nos termos de uso o governo deixa claro que pode usar e compartilhar essa informação.

8/ Todas essas informações podem ser utilizadas pelo Governo para reprimir manifestações de estudantes ou estabelecer processos de perseguição. Tudo com a permissão dos usuários e dentro da “lei”.

9/ Com o aplicativo ID Estudantil o Governo atual, além de matar dois coelhos com uma única caixa d’água, pode estar se adiantando a possíveis manifestações e revoltas. Que sempre tem como protagonistas estudantes. É preciso estar atentos aos novos mecanismos de vigilância e >>

10/ controle do atual governo. O que aparentemente parece ser um benefício para os estudantes, esconde uma tecnologia com possibilidade de alimentar a máquina de repressão do estado.

11/ O @saintspablo trouxe uma informação muito boa que deixei passar. O antigo presidente do INEP caiu por querer acessar dados sigilosos de estudantes durante o desenvolvimento desse projeto de ID Estudantil.

12/ Desde 2011 a polícia de SP tem um programa chamado “Olho de Águia” que filma manifestações e armazena em um banco de dados de dados secretos.

13/ Diversas cidades no país já estão usando o reconhecimento facial em eventos com muitas pessoas. São Paulo vai usar no carnaval:

14/ O @ocolunista fez uma matéria no ano passado sobre isso. “O estopim da saída de Vicenzi foi quando Abraham Weintraub pediu acesso a dados sigilosos de estudantes, solicitação que foi negada pelo procurador-chefe do órgão”.

15/ A @uneoficial também denunciou a tentativa de obter os dados dos estudantes no ano passado.

16/ Com a greve dos procuradores do INEP após as tentativas fracassadas de obter os dados, que são sigilosos e envolvem notas e matrículas de estudantes, parece que o governo viu no projeto da ID Estudantil a oportunidade perfeita para atacar a UNE e ter acesso a esses dados.



[Opinião] O “Mercado” é meio burro

30 de Janeiro de 2020, 22:16, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

A lealdade do “Mercado” vai continuar quando os juros pararem de cair?

por Wilson, imagem: O mágico de Oz (1939)

Velhos hábitos nunca morrem. Mesmo que a euforia demonstrada por agentes e analistas financeiros desde o começo do governo Bolsonaro tenha se traduzindo em números decepcionantes para o mercado de trabalho e o restante da economia real, a Imprensa especializada continua a cometer o mesmo erro recorrente: generalizar as opiniões de analistas financeiros como se fossem de uma mesma entidade abstrata denominada “Mercado”, repassando a ideia de que os interesses do Mercado Financeiro sejam necessariamente os mesmos do restante dos trabalhadores e da economia real.

Originalmente, menções ao “mercado” costumavam ser alusões a um espaço concreto específico das cidades ao longo da história. Nas cidades-estado gregas elas eram as Ágoras, espaços públicos onde comerciantes abriam suas tendas, depois substituídas pelas feiras romanas, que, por sua vez, deram origem aos mercados medievais. Todas elas passavam a mesma ideia de ser um local aberto, com discussões públicas e foram considerados como grandes exemplos do exercício da democracia direta.

Hoje em dia, no entanto, quando jornalistas usam o termo “Mercado” fazem referência a um conjunto de opiniões e vozes presos em um debate restrito vindas de fontes anônimas que, apesar de coletadas de maneira esparsa entre operadores do Mercado Financeiro, aparentam apresentar uma coerência interna suficiente para que sejam atribuídas ao tal “Mercado”, essa figura meio onipresente que nunca tem rosto, mas sempre tem voz.

Não é segredo pra ninguém que exista atualmente uma aliança de conveniências entre esse dito “Mercado” e o Governo Bolsonaro, ou, mais especificamente, entre “Mercado” e a dita “agenda liberal” do seu Ministro das Finanças, Paulo Guedes. Isso apesar do termo agenda liberal nunca ter sido usado como mais do que aquilo que ele sugere: um receituário geral que se mantem sempre o mesmo, independente das circunstâncias.

Apesar disso, quando consideramos o governo em seu primeiro ano, essa agenda liberal não parece contar com muitos itens. Como o próprio Paulo Guedes reconheceu em uma palestra entre conhecidos no BTG Pactual, toda a pauta econômica, defendida da mesma maneira desde a época das eleições, pode ser reduzida a três pontos:

1) Controlar a expansão dos gastos. Ex: Previdência, segurando concursos, cortando cafézinho, etc

2) Vender ativos por meio das privatizações para pagar e reduzir a dívida pública,

3) Criar algum tipo de CPMF que não é CPMF para bancar a desoneração da folha de pagamento.

Além desses pontos, temos uma série de reformas que não merecem o nome que carregam:

1) A reforma tributária que não é tributária, pois nem reduz a carga tributária, nem altera a sua composição de maneira a cobrar dos mais ricos, mas apenas simplifica a burocracia para as empresas e se propõe a taxar dividendos, como comentado pelo deputado Marcelo Ramos (PL-AM) no programa Segunda Chamada.

2) A reforma do Pacto Federativo que não reforma Pacto Federativo nenhum, nem, tampouco, cumpre o lema do “Mais Brasil e menos Brasilia” de modo descentralizar os poderes do Governo Federal para Estados e municípios, mas simplesmente se propõe a criar novos limites para os gastos do governo federal, extinguindo centenas de prefeituras, regulamentar um órgão centralizador, o Conselho Gestor Fiscal, para controlar os gastos dos três poderes, além de se propor a distribuir uma porção da cessão onerosa do pré-sal para estados e prefeituras.

Talvez esse projeto, cuja importância já destacamos anteriormente, ganhe alguma outra proporção com as colaborações e debates no Congresso, pois tudo que foi proposto até agora representam passos muito tímidos, sendo muito mais focados na questão da gestão e limitação de gastos público do que numa re-alteração dos poderes e responsabilidades das esferas federal, estadual e municipal que seria esperado em uma reformulação do Pacto Federativo.

Em um momento em que o governo não possui reservas ou espaço no orçamento para expandir seus gastos de qualquer maneira, a atual política econômica é justificada na mesma palestra pelo ministro Paulo Guedes como “seguir algo próximo do caminho correto” ao invés de “seguir com segurança e certeza o caminho errado”, em uma referência ao governo Dilma, que gerou a atual crise econômica.

Com generosas doses de boa vontade, poderíamos até concordar que o núcleo econômico do Governo é um dos poucos núcleos dotados de racionalidade no governo Bolsonaro, por se o único capaz de propor políticas factíveis em nosso contexto, mas considerando o papel de “fiador” da campanha de todo esse processo junto ao “Mercado” assumido pelo Ministro Paulo Guedes durante a eleição, será que os atrasos e regressos gerados em diversas outras áreas como Educação, Cultura e Relações Exteriores se justificam diante de uma condução da Economia que se proponha a fazer tão pouco?

E, acima de tudo, o que o governo Bolsonaro representa como um todo está fazendo na Economia, que candidatos da última eleição também não poderiam ter feito, mas sem as demais bobagens e aberrações produzidas pelos demais núcleos do governo?

 

Entendendo a geopolítica de interesses dos Faria Limers

De maneira bem resumida, para combater uma crise econômica todo Governo recorre a uma mesma arma que só carrega duas balas: a primeira envolve aumentar gastos do governo, como parte de uma medida contra-cíclica para estimular uma economia que mostra sinais de retração. Já a segunda, envolve reduzir o nível de gastos e participação do Governo para ficar conduzindo a Economia por meio de política monetária.

Isso é algo que não começou agora, mas no governo Temer, período em que começou a tradição de escolha de Ministro para a Economia com perfil mais voltado pra presidente do Banco Central, como era na época o Ministro Henrique Meireles. Desde a aprovação do Teto dos Gastos o país tem sido conduzido exclusivamente por uma política monetária tão brusca que lembra quando se usa o freio de mão do carro para dar um cavalo de pau, como mostra o gráfico com a variação dos juros que ocorreu no Brasil desde então.

O que o governo Bolsonaro tem buscado fazer desde então foi apenas aprofundar esse processo de repressão aos gastos, retomando ativos dos bancos públicos, como o BNDES, para abater a dívida de curto prazo, abrindo espaço para uma queda maior dos juros, uma vez aprovada a reforma da previdência. Por um lado, isso é uma boa notícia para controlar a explosão da dívida, por outro lado tais medidas são feitas ao custo da não implementação de políticas de demanda, que poderiam ajudar a reduzir o nível de desemprego mais rapidamente.

A pergunta que os analistas tem feito agora é “Uma vez vez que os juros caiam, eles vão continuar nesse mesmo patamar?”. Esse é o “novo normal” com câmbio mais alto e juros mais baixos, como defende Paulo Guedes? Para responder adequadamente, talvez devamos analisar menos os aspectos propriamente econômicos e mais os interesses políticos dos diversos grupos ue compõem o tal “Mercado”.

Até o momento, a estratégia de foco na redução tanto da inflação quanto da taxa de juros tem se mostrado positiva para todos os grupos financeiros de maneira unânime, o que inclui tanto os “rentistas” que compraram títulos pré com remuneração de 15% e que passam a ganhar uma margem maior contra uma inflação menor, quanto os intermediários e corretores financeiros que passam a negociar mais ações de empresas como forma de compensar pela menor remuneração dos novos títulos Bolsa de Valores que vem batendo recordes, assim como dos donos das empresas que passam a registrar um aumento do seu patrimônio com o aumento dos valores das ações de suas empresas.

Ou seja, é um momento amplamente favorável, desde que você tenha dinheiro ou atue profissionalmente na área, é claro. Algo que, aliás, também ajuda a explicar o recente fenômeno dos “Faria Limers”, que vivem seu momento auge. De certa forma, é uma situação oposta àquela de 2015, quando o baque foi sentido pela classe média logo pelo baque da variação cambial e dos diversos reajustes que ocorreram no começo do ano, mas que os trabalhadores só foram sentir o efeito no nível emprego lá pro final de ano.

Essa unanimidade entre os interesses dos diversos agentes do “Mercado”, no entanto, se encerra uma vez que a taxa de juros atinjam o seu ponto mínimo. A partir disso os investidores serão obrigados a assumir riscos na Economia Real. Com isso, ficam abertas todas as apostas, pois embora, ao menos em teoria, as condições necessárias para uma suposta retomada do crescimento, como juros baixa e taxa de câmbio alto, fiquem dadas, nada garante que é isso que irá ocorrer.

Isso porque a Economia frequentemente se orienta menos como uma planta que germina e cresce de maneira saudável se estiver em condições ideais e mais parecido com o espírito de um animal de grande porte, como um cavalo dotado de personalidade própria. E você pode até colocar um cavalo na frente de uma fonte, mas nada garante que ele irá beber daquela água.

No final claro que o “Mercado” não é uma entidade muito fiel, mas muda de opinião fácil. E todo esse processo de aparente blindagem que os agentes financeiros proporcionam hoje ao governo Bolsonaro não apenas deixarão de existir, como também níveis de cobranças por resultados na Economia serão muito maiores e mais amplos do que ocorrem hoje.

Até mesmo apoiadores que hoje se mostram incondicionais, como recentemente demonstrou ser Paulo Skaf da Fiesp, podem passar a ser vistos cobrando algum tipo de política mais focado em estimular a demanda.

 

Reformas necessárias: depósitos remunerados e fim das LFT’s

O fato dos juros atingirem seu patamar mais baixo podem parecer um avanço importante em um país que já foi denominado de “paraíso dos rentistas”, mas os juros só caíram ainda mais após a reforma da previdência porque ela acompanhou uma inflação que serve como termômetro de um paciente que foi sendo colocado cada vez mais sob uma espécie de “coma induzido”.

A principal justificativa para isso, que eram as reformas estruturais necessárias, focaram apenas na redução de custos de trabalho para os empresários, mas até o momento pouparam aquele que um dos maiores co-responsáveis pela última crise econômica, que é o nosso sistema bancário, nosso sistema de credito e, consequentemente sistema de gestão da dívida pública, que continua nas mãos dos maiores bancos do país.

Mesmo medidas importantes como a criação da modalidade “Empresa Simples de Crédito” e a limitação dos juros cobrados pelos bancos no cheque especial definido pelo Banco Central representam pouco mais do que paliativos que geram resistência em um sistema que continua sendo estruturalmente injusto, pois continuam a garantir uma remuneração excessiva aos grandes bancos como único meio de garantir estabilidade ao mercado monetário como um todo.

E esses pequenos paliativos ainda são acompanhados por projetos que querem entregar ainda mais facilidades ao nosso monopolizado sistema bancário, como o que legaliza o Banco Central a adquirir enormes quantidades de ativos como feito pelos EUA no auge da crise de 2008, quando houve a socialização pública do risco dos bancos privados.

Em outras palavras, o paciente continua em coma induzido, mas a operação de ponte de safena que seria necessária não foi realizada. Então, quando o paciente for reanimado não terá nem como reclamar quando os mesmos problemas voltarem a correr. O que não quer dizer que os juros voltarão a explodir novamente acima dos dois dígitos, algo que já foi superado, mas que podemos estar ensaiando os primeiros passos de um novo vôo de galinha e não de um crescimento econômico mais sustentado.

Os problemas que nossos sistema bancário e monetário enfrentam já são bastante conhecidos, ainda que restritos a um grupo extremamente especializado e desconhecidos do grande público. Entre eles está o atual tripé macroeconômico, que precisa ser reformulado, pois as operações compromissadas negociadas nas operações de open market do Banco Central acabam sendo muito onerosas para a gestão da dívida como um todo.

Para resolver esse assunto, é preciso retomar a discussão do projeto PL 9.248/2017, que se encontra paralisado na câmara dos deputados desde que foi recebido em dezembro de 2017. Esse projeto estabelece o sistema de depósitos remunerados entre Bancos e demais Instituições Financeiras junto ao Banco Central em um sistema semelhante ao Fed Funds que tradicionalmente opera há muitos anos nos Estados Unidos.

Isso é algo que apenas ajudaria a reduzir os custos excessivos gerados pelas operações compromissadas quanto daria um grau de autonomia para as novas Fintechs e outros bancos digitais fazerem frentes aos maiores Bancos de Varejo e auxiliando a aumentar a competição do mercado como um todo.

A percepção geral que o Governo expressou alguma vezes sobre o assunto é a de que o mercado bancário brasileiro já se encontra sob uma grande revolução digital e que já irá se modificar radicalmente nos próximo anos. Isso em parte é verdade, pois as propostas de Open Banking realmente irão alterar drasticamente a relação das pessoas por produtos financeiros que poderão ser oferecidos de maneira online por uma grande diversidade de instituições independentes, mas adotar novas tecnologias é um procedimento que o mercado financeiro sempre seguiu sem que isso implicasse em alterações estruturais, da mesma maneira que a adoção de caixas eletrônicos ou do online banking não tornaram nosso mercado bancário menos concentrado.

Esperar a revolução digital ocorrer para depois aprovar as reformas estruturas necessárias significa apenas acomodar essas novas tecnologias digitais sob um mercado bancário que já se encontra pré-sorteado.

Outro ponto importante é reduzir a quantidade de LFT’s (Letras Financeiras do Tesouro) que são emitidas pelo Banco Central no mercado financeiro. Para reduzir o debate técnico ao essencial, o grande problema das LFT’s é que elas acabam gerando uma espécie de indexação nas bases monetárias, fazendo com que os aumentos nas taxas de juros acabem sendo mais altos do que seria necessário. É isso que explica esse estranho vício na trajetória dos juros, que sobem muito rápido, mas acabam levando muito tempo para cair.

As LFT’s foram inventadas ainda na década de 80, durante a implementação do plano cruzado pela equipe do Andrea Lara Rezende como uma forma de oferecer algum tipo de mecanismo de salvaguarda ao Mercado Financeiro para que mantivesse o dinheiro no país no período de inflação explodiu.

Com o passar do tempo a inflação foi controlada, outros mecanismos de correção monetária coneguiram ser debelados, mas as LFT’s continuaram sendo aproveitadas embutidos em outros tipos de operações financeiros, como os contratos de swap cambial.

Se houvesse uma redução de LFT’s no Mercado Financeiro, fosse seja possível alongar tanto a duração quano prazo médio dos títulos públicos, que no Brasil operam tradicionalmente sempre pensando no curto prazo.

Nossos jornalistas e analistas políticos vivem reclamando que nossos políticos sempre pensam no curto prazo e com a cabeça focada na próxima eleição, mas que sentido faz essa crítica se o “Mercado” também opera pensando igualmente no curtíssimo prazo?

Bibliografia

BACHA, Edmar Lisboa; DE OLIVEIRA FILHO, Luiz Chrysostomo. Mercado de capitais e dívida pública: tributação, indexação, alongamento. ANBID, 2006.

BACHA, Edmar. A crise fiscal e monetária brasileira. Civilizaçao Brasileira, Rio de Janeiro, 2016.



Utopia é um ideal perigoso. Melhor buscar a Protopia

23 de Janeiro de 2020, 20:35, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

por Michael Shermer

pirateado da Aeon

Utopias são visões idealizadas de uma sociedade perfeita. Utopianismos são aquelas ideias colocadas em prática. É aí que o problema começa. Thomas More cunhou o neologismo Utopia para o seu trabalho de 1516, considerado como aquele que lançou o gênero literário moderno por uma boa razão. A palavra significa “nenhum lugar” porque quando humanos imperfeitos buscam a perfeição – pessoal, política, econômica e social – eles falham. Portanto, o espelho negro das utopias são distopias – experimentos sociais que falharam, regimes políticos repressivos e sistemas econômicos opressivos que resultam de sonhos utópicos postos em prática.

A crença de que humanos são capazes de atingir a perfeição levam, inevitavelmente, a erros quando ‘uma sociedade perfeita’ é desenvolvida para uma espécie imperfeita. Não há uma maneira melhor do que todas a outras para viver porque há muitas variações de como as pessoas querem viver. Portanto, não há uma sociedade que seja melhor, apenas múltiplas variações de um conjunto de temas como ditados pela nossa natureza.

Por exemplo, utopias são especialmente vulneráveis quando uma teoria social baseado na propriedade coletiva, trabalho comunal, governo autoritário e uma economia sob estrito controle colidem com nosso desejo natural por autonomia, liberdade individual e escolha. Além disso, as diferenças naturais em habilidades, interesses e preferências dentro de qualquer grupo de pessoas levam a desigualdades produtivas e condições de vida e trabalho imperfeitos que utopias comprometidas com igualdade de renda não podem tolerar. Como um dos cidadãos originais da comunidade New Harmony em Indiana, no século 19 de Robert Owen, uma vez explicou:

Nós tentamos toda forma concebível de organização e governo. Nós tínhamos um mundo em miniatura. Nós havíamos reencenado a Revolução Francesa diversas vezes com corações desesperados ao invés de cadáveres como resultado… parecia que a própria lei da diversidade inerente na natureza que havia nos conquistado… nossos interesses ‘unidos’ foram direcionados para uma guerra com as individualidades das pessoas e suas circunstâncias, assim como o instinto de auto-preservação.

A maior parte dos experimentos utópicos do século 19 foram relativamente inofensivos porque, sem um grande número de membros, eles careciam de poder político e econômico. Mas acrescente esses fatores e sonhadores utópicos podem se tornar assassinos distópicos. Pessoa agem de acordo com suas crenças e se você acreditar que a única coisa que impede você e/ou sua família, clã, tribo, raça ou religião de atingir os céus (ou de alcançar a terra no céu) são os outros ou algum outro grupo, então as ações não conhecem limites.

Do homicídio ao genocídio, o assassinato de outros em nome de alguma crença religiosa ou ideológica é responsável pelas maiores contagens de corpos na história dos conflitos, das Cruzadas, Inquisição, caça as bruxas e guerra religiosas dos séculos passados aos cultos religiosos, guerras mundiais, pilhagens e genocídios do século passado.

Nós podemos ver que o cálculo entre a lógica utópica e o agora famoso “problema do bonde” (trolley problem) no qual a maioria das pessoas afirma que estariam dispostas a matar uma pessoa para salvar cinco. Aqui está a configuração: você se encontra próximo da bifurcação de um trilho de trem com uma alavanca para desviar o vagão do bonde que está a prestes a matar cinco pessoas no caminho.

Se você puxar a alavanca, ela irá desviar o bonde para um trilho paralelo onde matará uma pessoa. Se você não fizer nada, o bonde mata cinco. O que você faria? A maior parte das pessoas dos países ocidentais esclarecidos hoje concordam que seria moralmente permissível matar uma pessoa para salvar cinco, imagine o quão fácil seria convencer pessoas vivendo em estados autocráticos com aspirações utópicas que matar 1.000 pessoas salvaria 5.000 ou exterminar 1.000.000 para que 5.000.000 talvez prosperem. O que é alguns zeros quando estamos falando sobre felicidade infinita e bençãos eternas?

A falha fatal no utopianismo utilitarista é encontrado em outro experimento mental: você é um espectador saudável passando pela sala de espera de um hospital no qual o médico do Pronto Socorro tem cinco pacientes morrendo de diferentes condições, todas as quais podem ser salvas ao sacrificar você e recolhendo seus órgãos. Alguém gostaria de viver em uma sociedade na qual eles pudessem ser aquele espectador inocente? É claro que não, que é porque qualquer médico que tentasse tal atrocidade seria julgado e condenado por assassinato.

Ainda assim, isso é precisamente o que aconteceu com os grandes experimentos do século 20 em ideologias socialistas utópicas como manifestadas a Russia Marxista/Leninista/Stalinista (1917-1989), Itália Fascista (1922-1943) e Alemanha Nazista (1933-1945), todas tentativas em larga escala de atingir perfeição política, econômica, social (até mesmo racial), resultando em dezenas de milhões de pessoas mortas por seus próprios Estados ou assassinadas em conflito com outros Estados percebidos como bloqueando a estrada para o paraíso. O teorista e revolucionário marxista Leon Trotsky expressou a visão utópica em um panfleto de 1924:

A espécie humana, o Homo Sapiens coagulado, irá uma vez mais entrar em um estado de transformação radical e, por suas próprias mãos, irá se tornar um objeto dos mais complicados métodos de seleção artificial e treinamento psico-físicos… O ser humano médio irá ascender aos limites de um Aristóteles, um Goethe ou um Marx. E sobre esse cume novos picos irão surgir

Esse objetivo irrealizável levou a bizarros experimentos como aqueles conduzidos por Ilya Ivanov, que foi designada por Stalin em 1920 em cruzar seres humanos e gorilas com o objetivo de criar ‘um novo ser humano invencível’. Quando Ivanov falhou em produzir o híbrido de homem-gorila, Stalin a havia sido presa, encarcerada e exilada para o Kazaquistão.

Já quanto a Trotsky, uma vez que ele ganhou poder como um dos sete membros fundadores do Politburo soviético, ele estabeleceu campos de concentração para aqueles que se recusaram a se unir em seu grande experimento utópico, em última instância levando ao arquipélago de gulags que matou milhões de cidadãos russos que também eram creditados como obstáculos no caminho do paraíso utópico que estava à vista. Quando sua própria teoria Trotskista opôs aquela do Stalinismo, o ditador teve Trotsky assassinado no México em 1940. Sic semper tyrannis.

Na segunda metade do século 20, o Marxismo revolucionário em Cambodia, Coreia do Norte e numerosos estados na América do Sul e África levaram a assassinatos, pogroms, genocídios, limpezas étnicas, revoluções, guerras civis e conflitos patrocinados pelo estado, todos em nome de estabelecer um céu na Terra que requeriu a eliminação de desertores recalcitrantes. Tudo somado, algo como 94 milhões de pessoas morreram nas mãos dos Marxistas revolucionários e comunistas utópicos na Russia, China, Coreia do Norte e outros estados, um número abismante quando comparado com os 28 milhões mortos pelos fascistas. Quando você precisa assassinar pessoas nas dezenas de milhões para atingir seu sonho utópico, você alcançou apenas um pesadelo distópico.

A jornada utópica por felicidade perfeita foi exposta como um objetivo falho que segue aquele feita por George Orwell em seu review de 1940 de Mein Kampf:

Hitler … percebeu a falsidade da atitude hedonística em relação a vida. Quase todo o pensamento ocidental desde a última guerra certamente todo pensamento ‘progressista’, assumiram de maneira tácita que seres humanos não desejavam nada além de facilidades, segurança e evitar a dor … [Hitler] sabe que seres humanos não apenas querem conforto, segurança, horas de trabalho curtas, higiene, controle de nascimento e, em geral, senso comum, eles também, pelo menos de maneira intermitente, querem conflito e auto-sacrifício…

Sobre o amplo apelo do Fascismo e Socialismo, Orwell acrescentou:

Enquanto Socialismo e até mesmo capitalismo de maneira mais crua, disseram para as pessoas ‘Eu lhe ofereço um bom tempo’ Hitler disse a eles ‘eu ofereço conflito, perigo e morte’ e como resultado toda a nação se acomodou aos seus pés … nós não devemos subestimar o seu apelo emocional.

O que, então, deve substituir a ideia de utopia? Uma resposta pode ser encontrada em outro neologismo – protopia – progressos incremental com passos buscando aperfeiçoamento, não a perfeição. Como o futurista Kevin Kelly descreve em sua definição:

Protopia é um estado que é melhor hoje do que era ontem, ainda que talvez apenas um pouco melhor. Protopia é muito mais difícil de visualizar. Como a protopia contem tanto novos problemas quanto novos benefícios, essa interação complexa de trabalhar é muito difícil de prever.

Em meu livro ‘The Moral Arc’ (2015 – sem versão em português), eu mostro como progresso protópico descreve melhor os monumentais sucessos morais dos séculos passados: a atenuação da guerra, a abolição da escravidão, o fim da tortura e da pena de morte, sufrágio universal, democracia liberal, direitos civis e liberdades, casamento do mesmo sexo e direitos dos animais. Esses são todos exemplos de sucessos protópicos no sentido que todos eles aconteceram um passo por vez.

Um futuro protópico não é apenas prático, ele é realizável

Michael Shermer é editor do jornal Skeptic, colunista mensal do Scientific American e associado à Universidade de Chapman na California.

Esse ensaio é baseado em Heavens on Earth: The Scientific Search for the Afterlife, Immortality, and Utopia publicado pelo autor em 2018



Utopia é um ideal perigoso. Melhor mirar pela Protopia

23 de Janeiro de 2020, 20:35, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

por Michael Shermer

pirateado da Aeon

Utopias são visões idealizadas de uma sociedade perfeita. Utopianismos são aquelas ideias colocadas em prática. É aí que o problema começa. Thomas More cunhou o neologismo Utopia para o seu trabalho de 1516, considerado como aquele que lançou o gênero literário moderno por uma boa razão. A palavra significa “nenhum lugar” porque quando humanos imperfeitos buscam a perfeição – pessoal, política, econômica e social – eles falham. Portanto, o espelho negro das utopias são distopias – experimentos sociais que falharam, regimes políticos repressivos e sistemas econômicos opressivos que resultam de sonhos utópicos postos em prática.

A crença de que humanos são capazes de atingir a perfeição levam, inevitavelmente, a erros quando ‘uma sociedade perfeita’ é desenvolvida para uma espécie imperfeita. Não há uma maneira melhor do que todas a outras para viver porque há muitas variações de como as pessoas querem viver. Portanto, não há uma sociedade que seja melhor, apenas múltiplas variações de um conjunto de temas como ditados pela nossa natureza.

Por exemplo, utopias são especialmente vulneráveis quando uma teoria social baseado na propriedade coletiva, trabalho comunal, governo autoritário e uma economia sob estrito controle colidem com nosso desejo natural por autonomia, liberdade individual e escolha. Além disso, as diferenças naturais em habilidades, interesses e preferências dentro de qualquer grupo de pessoas levam a desigualdades produtivas e condições de vida e trabalho imperfeitos que utopias comprometidas com igualdade de renda não podem tolerar. Como um dos cidadãos originais da comunidade New Harmony em Indiana, no século 19 de Robert Owen, uma vez explicou:

Nós tentamos toda forma concebível de organização e governo. Nós tínhamos um mundo em miniatura. Nós havíamos reencenado a Revolução Francesa diversas vezes com corações desesperados ao invés de cadáveres como resultado… parecia que a própria lei da diversidade inerente na natureza que havia nos conquistado… nossos interesses ‘unidos’ foram direcionados para uma guerra com as individualidades das pessoas e suas circunstâncias, assim como o instinto de auto-preservação.

A maior parte dos experimentos utópicos do século 19 foram relativamente inofensivos porque, sem um grande número de membros, eles careciam de poder político e econômico. Mas acrescente esses fatores e sonhadores utópicos podem se tornar assassinos distópicos. Pessoa agem de acordo com suas crenças e se você acreditar que a única coisa que impede você e/ou sua família, clã, tribo, raça ou religião de atingir os céus (ou de alcançar a terra no céu) são os outros ou algum outro grupo, então as ações não conhecem limites.

Do homicídio ao genocídio, o assassinato de outros em nome de alguma crença religiosa ou ideológica é responsável pelas maiores contagens de corpos na história dos conflitos, das Cruzadas, Inquisição, caça as bruxas e guerra religiosas dos séculos passados aos cultos religiosos, guerras mundiais, pilhagens e genocídios do século passado.

Nós podemos ver que o cálculo entre a lógica utópica e o agora famoso “problema do bonde” (trolley problem) no qual a maioria das pessoas afirma que estariam dispostas a matar uma pessoa para salvar cinco. Aqui está a configuração: você se encontra próximo da bifurcação de um trilho de trem com uma alavanca para desviar o vagão do bonde que está a prestes a matar cinco pessoas no caminho.

Se você puxar a alavanca, ela irá desviar o bonde para um trilho paralelo onde matará uma pessoa. Se você não fizer nada, o bonde mata cinco. O que você faria? A maior parte das pessoas dos países ocidentais esclarecidos hoje concordam que seria moralmente permissível matar uma pessoa para salvar cinco, imagine o quão fácil seria convencer pessoas vivendo em estados autocráticos com aspirações utópicas que matar 1.000 pessoas salvaria 5.000 ou exterminar 1.000.000 para que 5.000.000 talvez prosperem. O que é alguns zeros quando estamos falando sobre felicidade infinita e bençãos eternas?

A falha fatal no utopianismo utilitarista é encontrado em outro experimento mental: você é um espectador saudável passando pela sala de espera de um hospital no qual o médico do Pronto Socorro tem cinco pacientes morrendo de diferentes condições, todas as quais podem ser salvas ao sacrificar você e recolhendo seus órgãos. Alguém gostaria de viver em uma sociedade na qual eles pudessem ser aquele espectador inocente? É claro que não, que é porque qualquer médico que tentasse tal atrocidade seria julgado e condenado por assassinato.

Ainda assim, isso é precisamente o que aconteceu com os grandes experimentos do século 20 em ideologias socialistas utópicas como manifestadas a Russia Marxista/Leninista/Stalinista (1917-1989), Itália Fascista (1922-1943) e Alemanha Nazista (1933-1945), todas tentativas em larga escala de atingir perfeição política, econômica, social (até mesmo racial), resultando em dezenas de milhões de pessoas mortas por seus próprios Estados ou assassinadas em conflito com outros Estados percebidos como bloqueando a estrada para o paraíso. O teorista e revolucionário marxista Leon Trotsky expressou a visão utópica em um panfleto de 1924:

A espécie humana, o Homo Sapiens coagulado, irá uma vez mais entrar em um estado de transformação radical e, por suas próprias mãos, irá se tornar um objeto dos mais complicados métodos de seleção artificial e treinamento psico-físicos… O ser humano médio irá ascender aos limites de um Aristóteles, um Goethe ou um Marx. E sobre esse cume novos picos irão surgir

Esse objetivo irrealizável levou a bizarros experimentos como aqueles conduzidos por Ilya Ivanov, que foi designada por Stalin em 1920 em cruzar seres humanos e gorilas com o objetivo de criar ‘um novo ser humano invencível’. Quando Ivanov falhou em produzir o híbrido de homem-gorila, Stalin a havia sido presa, encarcerada e exilada para o Kazaquistão.

Já quanto a Trotsky, uma vez que ele ganhou poder como um dos sete membros fundadores do Politburo soviético, ele estabeleceu campos de concentração para aqueles que se recusaram a se unir em seu grande experimento utópico, em última instância levando ao arquipélago de gulags que matou milhões de cidadãos russos que também eram creditados como obstáculos no caminho do paraíso utópico que estava à vista. Quando sua própria teoria Trotskista opôs aquela do Stalinismo, o ditador teve Trotsky assassinado no México em 1940. Sic semper tyrannis.

Na segunda metade do século 20, o Marxismo revolucionário em Cambodia, Coreia do Norte e numerosos estados na América do Sul e África levaram a assassinatos, pogroms, genocídios, limpezas étnicas, revoluções, guerras civis e conflitos patrocinados pelo estado, todos em nome de estabelecer um céu na Terra que requeriu a eliminação de desertores recalcitrantes. Tudo somado, algo como 94 milhões de pessoas morreram nas mãos dos Marxistas revolucionários e comunistas utópicos na Russia, China, Coreia do Norte e outros estados, um número abismante quando comparado com os 28 milhões mortos pelos fascistas. Quando você precisa assassinar pessoas nas dezenas de milhões para atingir seu sonho utópico, você alcançou apenas um pesadelo distópico.

A jornada utópica por felicidade perfeita foi exposta como um objetivo falho que segue aquele feita por George Orwell em seu review de 1940 de Mein Kampf:

Hitler … percebeu a falsidade da atitude hedonística em relação a vida. Quase todo o pensamento ocidental desde a última guerra certamente todo pensamento ‘progressista’, assumiram de maneira tácita que seres humanos não desejavam nada além de facilidades, segurança e evitar a dor … [Hitler] sabe que seres humanos não apenas querem conforto, segurança, horas de trabalho curtas, higiene, controle de nascimento e, em geral, senso comum, eles também, pelo menos de maneira intermitente, querem conflito e auto-sacrifício…

Sobre o amplo apelo do Fascismo e Socialismo, Orwell acrescentou:

Enquanto Socialismo e até mesmo capitalismo de maneira mais crua, disseram para as pessoas ‘Eu lhe ofereço um bom tempo’ Hitler disse a eles ‘eu ofereço conflito, perigo e morte’ e como resultado toda a nação se acomodou aos seus pés … nós não devemos subestimar o seu apelo emocional.

O que, então, deve substituir a ideia de utopia? Uma resposta pode ser encontrada em outro neologismo – protopia – progressos incremental com passos buscando aperfeiçoamento, não a perfeição. Como o futurista Kevin Kelly descreve em sua definição:

Protopia é um estado que é melhor hoje do que era ontem, ainda que talvez apenas um pouco melhor. Protopia é muito mais difícil de visualizar. Como a protopia contem tanto novos problemas quanto novos benefícios, essa interação complexa de trabalhar é muito difícil de prever.

Em meu livro ‘The Moral Arc’ (2015 – sem versão em português), eu mostro como progresso protópico descreve melhor os monumentais sucessos morais dos séculos passados: a atenuação da guerra, a abolição da escravidão, o fim da tortura e da pena de morte, sufrágio universal, democracia liberal, direitos civis e liberdades, casamento do mesmo sexo e direitos dos animais. Esses são todos exemplos de sucessos protópicos no sentido que todos eles aconteceram um passo por vez.

Um futuro protópico não é apenas prático, ele é realizável

Michael Shermer é editor do jornal Skeptic, colunista mensal do Scientific American e associado à Universidade de Chapman na California.

Esse ensaio é baseado em Heavens on Earth: The Scientific Search for the Afterlife, Immortality, and Utopia publicado pelo autor em 2018



[Opinião] Da cruz de caravaca ao olavismo cultural

19 de Janeiro de 2020, 22:45, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

Buscando entender de onde saiu a última loucura do governo bolsonaro

por @rrobinha

Quando explodiu a polêmica envolvendo o agora ex-secretário Roberto Alvim, que parafraseou trechos e copiou estéticas do propagandista nazista Joseph Goebbels durante o anúncio do Prêmio Nacional das artes, os Piratas postaram em sua fanpage um meme com intenções cômicas comparando indiretamente a cruz com dois braços da cruz que estava em cima da mesa do ex-secretário Alvim com o símbolo do grupo liderado pelo Alto-Chanceler Adam Sutler, vilão do filme V de Vingança.

Após a explosão da polêmica, no entanto, surgiram alguns artigos interessantes na Imprensa explicando a origem da cruz e, ao que tudo indica, a cruz utilizada no filme V de Vingança é uma referência à cruz de Lorena, enquanto que a cruz pousada ao lado do ex-secretário Alvim era a cruz de Caravaca.

Seriam, portanto, duas cruzes diferentes, com origens distintas, mas que compartilham a mesma ideia de estarem associadas ao ideal das cruzadas, de uma ativa expansão da fé cristã e em especial com a figura dos templários.

As preferências de Roberto Alvim pelos ideais das cruzadas já eram claros há bastante tempo, como mostra a expressão abaixo “Deus Vult

Deus vult (“Deus o quer!” em latim) foi o grito do povo quando o papa Urbano II declarou a Primeira Cruzada no Concílio de Clermont, em 1095, quando a Igreja Ortodoxa pediu ajuda ao ocidente para interromper a expansão islâmica.

No Brasil, essa referência cruzadista vem sendo utilizada pelo movimento que se formou na Internet em volta de Bolsonaro ainda antes da eleição, copiando e emulando os mesmos memes que a direita alternativa norte-americana passou a produzir a partir do jogo Crusader Kings 2 – Holy Fury, um jogo para PC de 2012 que se passa na época das Cruzadas na Europa.

Também conhecido como alt-right, esse movimento originário da Internet apoiou ativamente a eleição de Trump. Grande parte da eleição de Bolsonaro envolveu memes de Internet que emularam técnicas utilizadas na eleição de Trump, como já notamos em artigo anterior.

Mas o que o Brasil tem a ver com as Cruzadas e os Templários?

Quando as pessoas pensam nas cruzadas em geral, elas associam o termo apenas com os eventos que ocorreram na cidade de Jerusálem, mas diversas das Ordens Militares formadas na Europa para lutar pela cidade de Jerusalém foram utilizadas para dar combate aos mouros (como eram chamados genericamente os muçulmanos na época) que controlavam territórios na própria Europa há algumas centenas de anos, especialmente na penísula Ibérica, região que engloba o atual território de Portugal e Espanha, desde pelo menos o século VI.

O próprio jogo “Cruzader Kings 2”, que originou os memes originais de Deus Vult, possui entre suas opções de jogo a campanha “Reconquista Portuguesa”, que busca emular como Portugal formou e consolidou seu território, na mesma época das cruzadas, a partir dos territórios europeus que estavam em controle dos muçulmanos desde o século VI.

A reconquista, que se iniciou junto com as cruzadas de 1095, foi concluída em 1385 em Portugal, enquanto que na Espanha foi concluída apenas com a tomada de granada dos Mouros em 1492, sendo que a cidade de Caravaca, onde surgiu a cruz Caravaca, fica na Espanha próximo de Granada e está ligada à figura de um rei mouro que se converteu ao cristianismo dvido ao surgimento milagroso dessa cruz.

Esse conflito militar entre cristãos e muçulmanos, que durou centenas de anos, se prolongaria ainda pelas décadas seguintes, mas se transferiria ao meditarrâneo e envolveria os Piratas Bérberos, ou Piratas da Barbária, que controlavam diversas cidades na costa de Madagascar, no norte da África.

Entre os conflitos náuticos mais famosos da época estão os conflitos entre os cruzados e o Pirata Barba-Ruiva, que secretamente não era um, mas sim dois irmãos originários da ilha de Lesbo na Grécia, que atuaram como corsários a serviço do Império Otomano. em defesa dos ataque dos cruzados cristãos, em especial da Ordem de São João.

Todo esse período esteve associado a ele a uma série de reformas na Igreja Católica, que buscaram reforçar a pureza da fé e se iniciaram ainda no inicio das cruzadas, como a instituição do celibato entre os clérigos e monges da igreja. O símbolo máximo desse período, que envolvia militarismo e castidade, é representado pela figura do templário, que carrega consigo a imagem de soldado de Deus: o monge celibatário que combate os hereges.

Poucas pessoas sabem, mas Portugal foi provavelmente o país que contou com a maior proporção relativa de Templários atuando em seu território em conflito contra os mouros, especialmente quando consideramos a população e território mais reduzidos de Portugal. Embora tenha sido originalmente criada para orientar e defender os peregrinos que seguiam para Jerusalém, os templários passaram a ganhar cada vez mais prestígio junto ao Papa e passaram a atuar na reconquista da península ibérica.

Os templários tiveram um papel ativo na conquista de Lisabona, atual Lisboa, sob controle dos muçulmanos e chegaram a possuir três fortes diferentes sob seu controle, como o castelo-convento na cidade de Tomar, além de ter recebido diversas doações de terras da nobreza.

Como descreve Jorge Caldeira, quando a ordem Templária foi abolida após acusação de heresia feita pelos partidários do rei da França, Felipe o Belo, o Rei de Portugal resistiu à ideia restituir os bens doados para os Templários para o vaticano e decidiu transferi-los para a Ordem de Cristo, que estava a serviço da Coroa Portuguesa e passou a ser controlada pelos Jesuítas, que tiveram papel importante não apenas na colonização do Brasil, mas em toda a expansão do Império Português.

A própria cruz de caravaca foi incorporada pelos Jesuítas no Brasil, passando a ser denominada de cruz missioneira e a ter outro significado ligado ao zelo humilde da fé cristã. A própria história de Inácio de Loyola, fundador da ordem, que na juventude era aficcionado por romances de cavalaria e que passou a ler a história dos santos enquanto se recuperava após ter a perna esmagada por uma bala de canhão mostra como os ideais cavalarescos agressivos que existiam entre os templários passaram a ser traduzidos no humanismo devotado da Ordem de Cristo.

O resultado final é que o espírito cruzado de expansão militar em nome da fé está diretamente associado tanto ao processo de formação de Portugal, quanto ao processo de expansão do Império Português, assim como a própria descoberta no Brasil por Pedro Álvares Cabral, que carregava nas velas de seu navio a cruz da Ordem de Cristo, que originalmente havia sido ostentada pelos templários de Portugal durante a reconquista.

Ainda assim, esse sentimento de orgulho nacional calcado em elementos religiosos continuaria patente dentro dos limites dos domínios portugueses, como mostra a esperança do Padre Antônio Vieira de que o término da disputa entre Madri e Lisboa na época da União Ibérica pudesse permitir que os portugueses vitoriosos pudessem banhar suas espadas “no sangue dos hereges da Europa, no sangue dos muçulmanos na África, no sangue dos pagãos da Ásia e na América, conquistando e subjugando todas as regiões da Terra debaixo de um único império para que pudessem todas, sob a égide de uma só coroa, ser gloriosamente colocadas aos pés do sucessor de São Pedro”

As cruzadas e o Olavismo

Fica patente, portanto, que quando Roberto Alvim decidiu incorporar a cruz de caravaca ao seu projeto cultural imbuído de um caráter “heróico”, como ele mesmo descreve, ele decidiu dar a ela um significado associado com o lema “Deus Vult”, de maneira análoga à bandeira Imperial do Japão, que apresenta raios se expandindo do sol vermelho presente na bandeira clássica. Um conceito de expansão dos ideais cruzados de altos valores ocidentais e alinhados aos valores cristãos.

Embora ainda existam analistas que ainda insistem em associar o episódio do ex-secretário Alvim a um possível equívoco (ou “trolagem”) feito pelo “estagiário” da área que, por acaso, copiou o discurso do nazista Goebbels, basta ouvir a live feita no dia anterior ao lado de Bolsonaro, que elogia o projeto do seu secretário quando o mesmo anuncia o intuito do projeto de promover uma arte “sadia”. O conceito de uma arte sadia está diretamente ligado ao conceito de “arte degenerada” e de resgaste dos valores clássicos presentes no fascismo, mas principalmente nas ideias de Hitler, que condenava os valores da arte moderna, como as abstrações de Picasso ou Salvador Dalí, que acabavam contribuindo para a degeneração dos valores morais da sociedade.

Ironicamente, aquele que talvez tenha mais se surpreendido com a suposta confusão feita pelo secretário não tenha sido nem Bolsonaro, mas Olavo de Carvalho, que poucas horas depois do anúncio do secretário, já havia havia demonstrado a opinião de que “o secretário provavelmente não está batendo bem da cabeça”.

E é irônico porque Olavo sempre propôs como parte do seu projeto filosófico um resgate de uma arte e uma literatura de altos valores e ligada a uma defesa dos nossos valores ocidentais. O velho simplesmente não gosta de nada que tenha ocorrido depois de maio de 68, colocando no mesmo balaio a cultura hippie, a filosofia pós-moderna e as músicas de Chico Buarque e Caetano Veloso como associadas a um tipo de cultura popular rasteira que estimula o banditismo.

Não é difícil entender, portanto, porque a proposta de uma forma de cultura heroica, associada a valores superiores e ao resgate dos valores culturais associadas a uma cultura de combate tenha desaguado em uma emulação das estéticas nazistas, pois o nacional-socialismo de Hitler se propunha a exatamente esse mesmo tipo de projeto.

Isso quer dizer que qualquer defesa de uma cultura pautada no nacionalismo ou de um projeto nacional irá necessariamente implicar em um projeto nazista? Não, isso não ocorreu devido a uma proposta de uma arte ligada a valores nacionais, mas sim de uma cultura de resgate dos valores imperiais, ou, mais especificamente, da busca de uma expansão desenfreada dos valores de um grupo restrito para todos os demais.

Esse mesmo conceito de resgate da ideia de Império também estava presente no movimento fascista italiano, que buscava resgatar a cultura e a glória da Itália durante o Império Romano, assim como do nazismo alemão, que buscava instituir o Terceiro Reich por meio de um grande Império que duraria mil anos, exatemente como ocorreu com o Império Romano.

O conceito de Império, por sua vez, está diretamente associado com o conceito original de Dominium, que foi originalmente implantado em Portugal ainda na época do Império Romano. O prefixo “Dom”, associado aos reis de Portugal – ex: Rei Dom João, Rei Dom Sebastião – significava que ele era um líder limitar responsável pela proteção de um determinado território dentro do regime de vassalagem medieval.

O conceito de Império, no entanto, é ainda mais amplo do que o domínio de um território restrito e está associado principalmente com a disposição de um determinado Regime em exercer autoridade até mesmo sob aqueles que se encontram além das fronteiras e das propriedades exclusivas que delimitam aquele dominium, juntamente com a vontade de expandir os limites de seu próprio território, sempre se voltando contra um inimigo externo.

A principal diferença é que aqui, com a exceção da Guerra do Paraguai e a participação do Exército nas duas guerras mundiais, o Brasil nunca cultivou o inimigo externo, mas sim o inimigo interno, dentro da doutrina desenvolvida originalmente pelo General Golberi e mais tarde propagandeada pela Escola Superior de Guerra no mesmo período em que Bolsonaro atuou como cadete do Exército.

Bibliografia

Policante, Amedeo – HOSTIS HUMANI GENERIS Pirates and Empires from Antiquity until Today, 2012

Da Silva, Ademir Luiz – OS CAVALEIROS DA CRUZ VERMELHA A Ordem dos Templários na Reconquista e Expansão Urbana Portuguesa ( séculos XII e XIII ) – Dissertação de Mestrado, 2003

Leite, João Gabriel Ayello – Competição, Instituições e o Declínio do Império Português na Ásia, Dissertação de Mestrado, 2015

Mattos, Luiz – Apogeu e Decadência do Império Português: o profetismo bandárrico



[Opinião] Crítica ao Totalitarismo Stalinista

11 de Janeiro de 2020, 16:37, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

E à tentativa de normatizar o absurdo

por Bruno Lima Rocha

Existe uma nova onda na internet brasileira, especificamente o uso político da rede, que é interessante e ao mesmo tempo merece um alerta. Há um esforço considerável e reconhecido para normalizar os crimes de Stálin, e não só, de recuperar toda a experiência do Leste Europeu e ligar simbolicamente à presença da China hoje, como a Superpotência Mandarim. Neste breve artigo, compilo observações dos embates recentes os quais participei neste início de outubro de 2019. A divisão por tópicos pode facilitar a leitura embora reconheça que na tradição mais “ortodoxa” dos textos das esquerdas, quebra o ritmo da narrativa. Entre prós e contras, seguimos.

A NEP ANTISSOVIÉTICA, A CHINA CAPITALISTA E A ALUCINAÇÃO DA “ESQUERDA” VIÚVA DO LESTE EUROPEU

Os “amigos” que defendem e se escoram na NEP (Nova Economia Política, “nova” no paradigma do marxismo russo) – a segunda grande traição Bolchevique, com Lenin vivo e Trotsky e Stálin trabalhando lado a lado – usam um argumento que cola no delírio pós Guerra Fria de mistificação dos processos históricos. Entre a falsificação do século XX e as ilusões no século XXI resta uma conclusão. Se não passar a limpo a NEP e fizer uma crítica sem dó, alucinados como esses vão “interpretar” a Gazprom (ou a Huawei, talvez a Cargill) como uma etapa necessária, de repente “intermediária” esperando que um Estado autocrata de base capitalista se “autodissolva” um dia por passe de mágica com “razão dialética” ou qualquer outro jogo de palavras sem sentido. Como não pensar que a tradição autoritária floresce nas cloacas da história?

STÁLIN, A NOMENKLATURA E O HOBBESIANISMO POR ESQUERDA

Sempre pergunto em aulas de Política se a turma, hipoteticamente, aceitaria viver numa sociedade de pleno bem estar, com todos os direitos assegurados, todos mesmo (trabalho, saúde, moradia, cultura, lazer, gestação, desporto etc.), mas com absoluto controle e cerceamento dos direitos políticos. Ou seja, ditadura de partido único e a filiação ao partido como a única forma de acesso a postos-chave no aparelho de Estado. As quatro elites formais na antiga URSS, a política, a acadêmica, militar e econômica (na gestão das empresas estatais) tinham como critério de entrada a filiação ao PCURSS. Em geral não digo que esta sociedade existiu e o exemplo dado é no período soviético da Nomenklatura, especificamente nos governos Kruschev e Brejnev. Ou seja, reforço o mito da “tentação autoritária”, o que geralmente no Brasil é associado a posições imaginárias como sendo conservadoras e à direita.

Surpreendentemente, a imensa maioria diz que NÃO, JAMAIS ACEITARIA, pois na ausência de direitos políticos não teriam certeza da garantia ou ao menos da possibilidade de lutar por estes direitos. Quando digo que este mundo existiu e sua era de ouro durou quase quarenta anos há muita surpresa. Hobbes, coitado, é muito mal interpretado e ficaria feliz em ver o direito à vida plena em termos materiais aplicado na antiga União Soviética. Mas, e o direito político? Então, quando a elite da Nomenklatura virou de lado (a partir de 1988) e dilapidou o patrimônio público, o Estado ruiu em menos de quatro anos. Parafraseando nosso poeta maior “E agora José, a festa acabou e teu ‘ônibus da história’ despencou barranco abaixo”. Para não parecer terra arrasada de toda a experiência, apesar ao menos deixa o exemplo de que uma economia planificada, mesmo que estupidamente centralizada, pode gerar bem estar social.

AS CARACTERÍSTICAS ESTRUTURANTES DESSA FORMA DE PENSAMENTO POLÍTICO POR “ESQUERDA”

São mais que reconhecidos os crimes do stalinismo, seus asseclas e clones mundo afora (como Enver Hoxha na Albânia, Nicolae Ceausescu na Romênia, Kim Il Sung na Coreia do Norte e a lista segue conforme a perspectiva histórica e ideológica). Infelizmente, parece que o mito supera o fato e a compreensão perde para a interpretação. Vejamos alguns problemas fundamentais, de estrutura mesmo.

Quais fenômenos da interna política levam ao culto à personalidade? Como forças políticas enormes dependem necessariamente de um grupo muito reduzido de “dirigentes”? O culto da liderança não é também um elogio ao individualismo, às lutas mais mesquinhas pelo poder?

Também cabe perguntar. Qual o maior equívoco da esquerda, não da ex-esquerda, mas da esquerda restante? Determinismo sociológico (em busca da classe ou fração de classe prometida) ou ilusão com as próprias análises que levam a algum tipo de autoproclamação?!

Sobre a degeneração e a liderança política esse é um tema clássico e aqui vai só um início de debate. Reconhece-se que existe liderança política e algumas atribuições facilmente identificáveis como: carisma, oratória, exemplo, dedicação, trajetória, capacidade resolutiva. Mas, quando estas características se cristalizam em uma estrutura de poder permanente?! Piorando. É quando isso se torna culto à personalidade e já não há mais volta atrás!

Vale o debate e mais ainda a preocupação.



[Opinião] E quando o Estado se torna terrorista?

10 de Janeiro de 2020, 0:24, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

Discutindo o conceito e a ausência de consenso sobre terrorismo 

por @rrobinha

Ao longo dos 2000, como consequência direto clima gerado pelos ataques de 11 de setembro e das guerras do Afeganistão e do Iraque, o governo Bush buscou aprovar na assembleia das Nações Unidas da ONU algum tipo de norma internacional que tipificasse a prática de terrorismo. A medida, no entanto, não foi pra frente por um motivo muito simples: não há e nem foi possível então estabelecer um consenso ou uma definição de “terrorismo” que possa ser aceita internacionalmente.

Não é difícil entender o porquê. Qualquer definição mais ampla de terrorismo acabaria abarcando e, consequentemente, também criminalizando diante toda a comunidade internacional, movimentos de insurreição ou resistência popular genuínos que se levantam contra ditaduras ou governos despóticos, assim como agrupamentos étnicos ou movimentos que busquem maior autonomia. Algo que entra em confronto direto com um dos princípios internacionais mais básicos que é o da auto-determinação dos povos. Embora, na prática, ela possa ser mais desrespeitada que a primeira diretriz no seriado Star Trek, o princípio de auto-determinação estabelece que o povo de cada localidade é quem deve determinar o futuro do seu próprio país, de maneira soberana

Esse foi o caso, por exemplo, do próprio Estados Unidos, que durante a Revolução Americana entrou em um longo conflito, o qual envolveu uma guerrilha tanto rural quanto urbana, contra seus antigos colonizadores ingleses. Esse também foi o caso de Israel, cujos grupos para-militares praticaram diversos atentados contra fortificações e bases militares da Inglaterra na atual região do Jordão, que, na época, era parte de um protetorado britânico formado após a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial.

E, sinto informar aos nerds mais conservadores, esse também é o caso de Luke Skywalker, Han Solo e outros componentes da ficcional aliança rebelde da franquia de filmes de Star Wars – antigo Guerra nas Estrelas. Explodir o patrimônio público da Estrela da Morte, construída com dinheiro do contribuinte de todo o Império e cuja destruição levou a uma vitória temporária e pouco significativa, que não acabou definitivamente com o conflito, mas apenas ajudou a gerar instabilidade política e insegurança jurídica em toda a Galáxia.

Aparentemente, o Império estava certo desde o início.

E isso é extremamente irônico, pois poucos países no mundo hoje são mais capazes de emular o terrível poderio militar e a capacidade de destruição em massa concentrados nas mãos de uma figura sinistra motivada por uma agenda particular, como no Império Galático de Star Wars do que os Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump. Até mesmo a Rússia de Putin, que também apresenta um poderio nuclear semelhante, é liderado por Vladimir Putin que, por ter emergido dos quadros da antiga polícia secreta Soviética acaba se mostrando mais coerente com os desejos e anseios do restante da tecnocracia russa.

Devido a isso, os Estados Unidos, que emergiram como “polícia do mundo ocidental” logo após a Segunda Guerra Mundial, representam hoje, com a liderança de um presidente pressionado por um processo de impeachment e diretamente interessado na sua campanha de reeleição esse ano, uma ameaça à estabilidade internacional muito maior do que qualquer outro grupo terrorista hoje possa representar.

Isso porque Donald Trump não apenas ordenou o assassinato de um oficial de um governo estrangeiro, algo que pode ser considerado como um ato de guerra ilegal, algo feito sem a aprovação ou envolvimento do Congresso no assunto, mas porque ele também ameaçou bombardear sítios arqueológicos do Irã com milhares de anos, mostrando uma postura agressiva pessoal contra o Irã, ao ameaçar cometer um crime que apenas o Estado Islâmico se mostrou capaz de cometer

o terrorismo midiático e o espetáculo do engajamento

Entre os que discordam dos argumentos dispostos até agora, certamente haverá aqueles que irão argumentar que terrorismo não envolvem apenas atos para derrubar um governo, mas ações organizadas com um caráter midiático de modo a promover um sentimento de pânico e insegurança generalizados contra a população civil de um outro país, como foi o caso do próprio 11 de setembro.

E esse argumento está correto. Grande parte da estratégia que orientou Osama Bin Laden e outros membros da Irmandade Muçulmana envolvia contar com a bem aparelhada indústria midiática norte-americana para reproduzir repetida e continuamente as imagens daquele atentado de modo a produzir uma resposta militar por parte do governo dos Estados Unidos que acabaria o exaurindo no longo prazo.

E, ironicamente, essa estratégia foi um completo sucesso, pois os esforços financeiros envolvidos para financiar a Guerra do Irã e do Iraque foram tão altos, que acabaram indiretamente fomentando a crise financeira de 2008 e pegando a Europa no ricochete. Isso porque a explosão de gastos militares pelos Estados Unidos tentou ser compensada por uma redução dos seus juros, levando à formação de uma formação da bolha no mercado de crédito Sub-prime.

Verdade seja dita, a relação existente entre reeleição de um presidente estadunidense e guerras ao longo da história dos Estados Unidos é algo bastante conhecido. O atual caso talvez seja mais gritante pela futilidade como o ato foi cometido: primeiro por ter sido feito remotamente, por meio de um drone, como se fosse uma espécie de videogame voltado para adultos sádicos.

Segundo, como o caso foi tratado pelo próprio Trump em suas redes sociais, mostrando que até mesmo a estreita fronteira que hoje existe entre política e o espetáculo vêm se tornando cada vez mais fina. Uma característica marcante dessa nova geração de líderes nacional-populistas, como Trump e Bolsonaro, que se destacam não por suas opiniões ponderadas, mas por suas atitudes extremadas que visam gerar “engajamento” e memes na Internet, de modo a mobilizar as pessoas a se posicionarem contra ou a favor delas.

E não existe nada que gere mais engajamento ao espírito patriótico dos Estados Unidos do que dar combate aos terroristas e outros inimigos da nação, fazendo com que muito do espírito belicista que é encontrado apenas em células extremistas acabe se tornando parte do discurso oficial do Estado.

Existem certos paralelos entre esse caso e o conceito de necro-estado desenvolvido pelo pensador Georgio Agamben, o qual envolve estados pós-coloniais tão enfraquecidos que na prática o único poder que eles tem é o poder de exercer seu “monopólio da violência”, determinando quais grupos devem morrer.

Embora seja presidente da nação mais poderosa do planeta, Donald Trump se encontra em uma situaçao muito semelhante. Em seu último ano de um mandato que o colocou em constante conflito com o restante da burocracia estatal e com as mãos atadas no Congresso devido ao processo de impeachment instaurado, Trump só tem como única opção de ação optar por uma via mais extrema no seu papel de comandante das forças armadas.

E isso não exige muito esforço, pois não poucas vezes o próprio Trump confessou que sempre havia algum general ou conselheiro de alguma agência de segurança interessado em vender a ideia dos Estados Unidos abraçarem alguma guerra ou conflito em algum lugar distante do mundo.

O resultado é que ele, ainda no fim do primeiro mandato de Barrack Obama, acusou no Twitter que para garantir sua reeleição Obama iria provocar algum conflito com o Irã, decidiu aparentemente seguir sua própria sugestão

Não precisa de advogado do diabo

Há ainda aqueles que, para defender a atitude de Trump, estão dispostos a apontar dedos para o Irã por ser um país que financia e estimula o terrorismo em outros países, enforca gays e oprime mulheres, sendo governado por uma espécie de regime militar islâmico.

E tudo isso é verdade. As mulheres sofrem restrições sobre como devem se vestir, quais assuntos podem estudar e até mesmo para viajar precisam de autorização do marido. N

O problema é que se Irã é hoje governado por um regime opressor, isso também é culpa dos Estados Unidos. Pois na década de 50 a CIA organizou um golpe de Estado para depor um governo democraticamente eleito que planejava nacionalizar a produção de petróleo. O resultado final foi a instauração de uma monarquia autocrática, mas que atuava de acordo com as premissas defendidas pelo Ocidente.

O resultado é que na década de 70, mesma época das grandes crises do petróleo, começaram uma série de manifestações populares. Inicialmente elas foram incitadas por uma classe média crítica que abarcava grupos de esquerda e liberais contra o governo, mas foram se radicalizando até levar à formação da Revolução Iraniana, que levou à formação de uma República Islâmica Teocrática.

Portanto, se hoje o Irã tem um governo opressor é algo de responsabilidade direta dos seus Estados Unidos, que apenas considerou os seus interesses estratégicos de curto prazo. Exatamente como está fazendo hoje.

Além disso, grande parte das críticas direcionadas ao Irã, o que inclui opressão contra mulheres e gays, além de financiamento a grupos terroristas, também podem ser estendidas à Arábia Saudita, o que não o impede de ser um aliado estratégico de longa data dos Estados Unidos.

O que, por fim, nos leva à pergunta mais importante: será que matar um representante oficial de um governo estrangeiro vai levar a uma estabilidade maior e evitar possíveis ataques a diplomatas ou oficiais norte-americanos? Especialmente no longo prazo? Ou será que apenas irá criar mais um mártir que pode motivar novos ataques?

A resposta parece óbvia.

 



Finalmente uma dose saudável de antissistema

26 de Dezembro de 2019, 18:42, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

traduzido daqui

fotos tirados do Flickr

Entrevista com Ivan Bartos, líder do Partido Pirata na República Tcheca pelo portal Krytyka Poirlityczna

Ivan Bartoš, líder do Partido Pirata da República Tcheca: Podemos fazer a entrevista em meia hora, por favor?

Sławek Blich do Krytyka Poirlityczna: O Dever Chama?

Não – minha esposa. Nós compartilhamos um presente de Natal – Eu tenho uma tatuagem para terminar em meu peito. E não posso me atrasar hoje. Aliás, você sabia que Lydie, que também é membro do Partido Pirata, organizou o protesto negro em Praga em defesa dos direitos da mulheres polonesas?

Nossos bons amigos do A2larm.cz cobriram o evento, sim.

Foi exatamente assim que tudo começou – nós eramos ativistas, manifestantes que não suportavam mais o status quo.

Eu vim aqui ver você porque nós não sabemos se vocês são uma boa ou má notícia para a esquerda.

Nós atingimos um sucesso histórico nas últimas eleições parlamentares. Agora somos a terceira maior força política do país. Nós temos alguns senadores, 22 deputados, nós temos pessoas em algumas regiões, assim como o prefeitura de Mariánské Lázne na parte ocidental da República Tcheca.

Você confundiu diversos comentaristas com esse resultado. Nós sabiamos que vocês eram anti-establishment, liberais, que vocês encapsulavam uma mudança geracional no cenário político. Oh e que vocês produziam os melhores clipes de toda a região de Visegrad, como aquele que você toca acordeão e dirige o ônibus.

Nós não somos um partido populista, no entanto. Alguns de nossos críticos argumentaram que aparentemente nós eramos os mais agressivos de toda a campanha eleitoral. Então nós testamos essa afirmação com uma simples análise linguística pós-eleitoral que provou que os Piratas eram o grupo mais se baseava em evidências concretas.

Entre as palavras mais utilizadas na nossa campanha estavam “futuro” e “igualdade”. Agora, vamos olhar para os Democratas Cristãos. Adivinha o que eles usavam? “Medo”, “Raiva”. Outros partidos eram ainda piores. É a mesma coisa que outros populistas fizeram em toda a Europa: na Alemanha, Austria e Reino Unido. Mesmo os partidos centristas na República Tcheca, como os sociais democratas, usavam essa retórica agressiva. E agora eles estão surpresos. Adivinha? Foram eles que fizeram as pessoas votarem para o SPD e o Senhor Okamura.

Análise línguística pós-eleitoral provou que os Piratas foram o partido mais razoável e baseado em evidências

.

Agora, vocês arrombaram os portões da política tradicional, mas muitos comentaristas lutam para definir os Piratas politicamente. Por que você acha que é assim?

Porque eles cometem o erro de nos mensurar da mesma maneira que fazem com a política tradicional. Mas eu entendo isso. 8 anos atrás, nós começamos um partido político baseado no exemplo dos Piratas Suecos, mas muito rápido nós percebemos que apenas os posicionamentos suecos sobre assuntos como liberdade na Internet e liberdades civis sozinhos não ia funcionar para nós.

Por que?

A messagem que estavamos entregando estava atingindo talvez 15% porcento da população total. E muito rápido nós nos enrolamos.

O que você quer dizer?

É como um efeito bola de neve – os Piratas são um movimento social construído em volta de um grupo de círculos muito concretos da área social e ambiental. Sob tais circunstâncias, os Piratas da esquerda do Partido influenciavam os Piratas da direita o tempo todo, discutindo e deliberando. Nós empacamos no último loop de feedback de um grupo que já se encontrava persuadido. A qualquer momento que tentavamos dar um passo a frente para atingir novos eleitores ou apenas simplificar nossa menssagem como partido, nós eramos acusados por nossos principais apoiadores: você disse B ao invés de A, você usou a expressão errada, você simplificou demais…

Tudo isso parece muito familiar para um editor Polonês de Política da Esquerda, eu lhe garanto.

Era uma desvantagem. E política é complicado, sabe? Uma explicação aprofundada das soluções que nós propormos para problemas comuns é especialmente ineficiente no curto espaço de tempo que as pessoasl conseguem devotar para efetivamente prestar atenção nos políticos e ler os seus programas eleitorais.

Ninguém lê programas eleitorais, sejamos francos.

4 principais motivos para votar nos Piratas” – isso é algo que você leria, não? Então a primeira coisa que nós decidimos fazer como Piratas foi simplificar nossa mensagem. Nós mantivemos tudo que era fundamental no Programa Pirata, mas nós o convertemos em algo digerível e em um formato fácil de entender. Nós removemos todos os hyperlinks. De repente, nossa mensagem se tornou compreensível para pelo menos metade da população.

Nós ainda somos um partido 100% democrático e baseado no princípio de participação e transparência

Na campanha vocês jogaram como um time, mas havia um líder forte e reconhecível.

Hoje nós ainda somos um partido 100% democrático baseado no princípio de participação e transparência. Você pode me tirar do cargo em duas semanas se eu cometer um erro terrível como líder.

E como você concordaram no que deveria ser simplificado em sua mensagem para que vocês pudessem persuadir novos eleitores assim como impedir os antigos de fecharem as portas

É assim que começamos nossa campanha – nós envolvemos um monte de pessoas, amigos de amigos. Eles fizeram pesquisas com 1500 pessoas sobre os pros e os contras de votar nos Piratas. As pessoas realmente sabem o que os Piratas defendem?

Então nós tomamos os resultados e os misturamos com nossas principais crenças políticas para formular um objetivo de comunicação bem simples: introduzir os Piratas como um partido democrático, liberal, racional com um foco especial em tecnologia e honesto sobre os problemas sociais das pessoas na região.

Então quais tipos de problemas sociais vocês querem adereçar primeiro e o mais importante?

Quando sua máquina de lavar quebra e você não pode se dar ao luxo de conserta-la e tudo que você pode fazer é emprestar dinheiro do sistema de crédito, quando você não tem guardado o suficiente para fazer coisas básicas – isso significa que há algo de errado no seu país. Na maioria dos países ex-comunistas essa liberdade básica essencial – que nós podemos colocar na base da pirâmide de necessidades – não se encontra suficientemente satisfeita. Eu não diria que as pessoas estejam em dificuldades na República Tcheca, mas as receitas aqui ainda estão realmente baixas, as pessoas tem quase nenhuma poupança, enquanto dezenas de milhares de pessoas são despejadas a força de suas casas.

Você consegue ver por quê o copia-e-cola dos Piratas Suecos não funcionou imediatamente na República Tcheca? Como você pode pregar para as pessoas sobre liberdade na internet ou democracia enquanto eles estão focados em chegar até o fim de cada mês? Não é que as pessoas das regiões não estejam interessadas nas liberdades, em pautas filosóficas ou políticas, mas eu estou convencido que uma política progressiva tem que começar com trazer uma segurança básica para as pessoas que estão passando pela camada baixa da pirâmide primeiro

O Partido Libertário dos Cidadãos Livres é apenas nonsense neoliberal

Alguns círculos esquerdistas criticam seu partido por não ter um conjunto coerente de crenças políticas. Como Marie Hermanová escreve para o A2larm, alguns membros do Partido Pirata não estão muito longe das visões libertantes de Petr Mach sobre a economia. Você é Petr Mach disfarçado com dreadlocks?

O Partido Libertário dos Cidadãos Livres (Strana svobodných občanů) é apenas nonsense neoliberal. Piratas preferem cooperação ao invés de competição

Muito bem, vou pular a linha libertária então.

Eu respeito os caras do A2larm, mas eu não compartilho a opinião de que a divisão tradicional direita e esquerda seja a solução para os problemas modernos. A menos que você seja dogmático, não há jeito de você acreditar que você esteja sempre certo.

Não não somos demagogos. Nós somos um partido flexível que pode revogar suas decisões prévias baseado na informação que não estava acessível para nós antes. Nós não fazemos teatrinho para o público. Nós sempre assumimos uma abordagem liberal para o tópico discutido e tentem fazer a melhor decisão possível. É por isso que nós podemos aceitar o fato de que grandes negócios sejam parte da sociedade. Similarmente, eu não me importo com políticos se encontrando com lobistas, desde que eles registrem oficialmente e revelem isso para o público.

Vocês mesmos fazem isso?

Sim. Como Piratas nós compartilhamos publicamente uma gravação dos encontros que fazemos com lobistas e representantes de grupos de interesse. Essa também é uma tarefa fundamental do partido: fornecer o máximo de informação para as pessoas para que elas possam tomar as melhores decisões. Nós fazemos isso porque a única maneira que você pode lutar contra as patologias do capitalismo “cowboy-style” ou a influência de corporações globais é na verdade revelar como o sistema funciona.

No seu documento de estratégia pós-eleitoral você propõe uma taxa progressiva, mas apenas acima de 130.000 CZK. O que é muito dinheiro.

Porque na verdade o que nós temos hoje é um sistema de impostos regressivo. Quanto mais dinheiro você ganha, menos taxas você paga. Nós somos criticados pela esquerda por querermos introduzir uma taxa única no Imposto de Renda, mas isso não é justo.

Vocês não querem uma taxa única?

Nós queremos simplificar o sistema de pagamento de taxas para todos, incluindo os mais pobres e minimizar os deveres que os pagadores de impostos tem diante do Estado. Nós certamente não somos libertários ou neoliberais na nossa maneira de pensar sobre isso.

Nós estamos colocando nossos ideais em prática através de soluções pragmáticas

Então o que vocês são?

Nós estamos colocando nossos ideais em prática através de soluções pragmáticas. Nós temos ambos os pés firmes no chão. Como Partido Pirata, nós estamos interessados em permitir pessoas a ter mais, ter uma renda decente e crescente. Então o que nós estamos oferecendo é na verdade um passo à esquerda da situação atual.

Então se nem a esquerda ou a direita podem nos salvar, o que irá? Tecnologia?

Nós não estamos dizendo que a tecnologia irá salvar nossas vidas, apesar de que possa afetar o meio ambiente à nossa volta de maneira positiva. Nesse sentido nós somos tecno-otimistas. Mas os Piratas não vivem em algum tipo de Futurama – nossa agenda é uma resposta racional para o mundo a nossa volta. Nós já estamos online. Mesmo se você mesmo não usar o sistema, seu plano de saúde ou registro fisval já se encontra lá. É por isso que já é hora do e-governo como supostamente deve ser – um serviço livre e acessível para os cidadãos.

Eu vou dar duas razões para destrui-los agora

Eu sou todo ouvidos

AirBnb ou Uber.

Estar online e lidar com tecnologia moderna não implica em aceitar tudo o que vem junto. Especialmente quando nós lidamos com a instabilidade do mercado imobiliário ou as condições de trabalho dos motoristas de taxi.

Mas o mais importante, eu quero enfatizar que a atual luta contra essas plataformas também é uma abordagem errada. Se você realmente quer regula-las, você precisa de duas coisas: transparência e uma legislação poderosa. A abordagem correta é forçar essas plataformas a revelar todos os seus dados financeiros e dados sobre seus funcionários. Essa é a única maneira que você pode controla-los. Mas o último ponto não pode ser feito por um único Estado- Nação isolado.

O fato é que um pequeno país como a República Tcheca não pode encarar isoladamente as corporações globais

Você precisa da União Européia. Vamos em frente discutir o lugar da Europa no mundo Pirata. Partidos populistas, de direita e anti-imigrantes ganharam proeminência na política Européia nos anos recentes. A Europa Central e Oridental está liderando essa corrida.

Isso vai parecer clichê, mas para nós a cooperação Européia é a única maneira de manter paz na Europa – agora e no futuro. Nós não somos Euro-federalistas, mas diferente de outros líderes Visegrados nós tampouco forçamos o jogo de interesses do Estado-Nação. Nós estamos interessados em fatos, e o fato é um pequeno país como a República Tcheca não podem encarar as corporações globais sozinha. Além disso, a legislação de um único país é muito facilmente algo do lobby de corporações. Um Estado-Nação também não tem meios suficientes para resolver a massiva crise global, como a recente crise de imigração.

A República Tcheca é uma das sociedades mais islamofóbicas da Europa. Você não está tentando a tomar vantagem política disso, como eles fizeram na Polônia e Hungria?

Nós discordamos com o abuso do influxo de refugiados por propositos políticos e a disseminação do medo, pânico moral e a incerteza na sociedade. Mas nós queremos uma solução racional ao real problema das migrações em massa e para isso ser possível nós precisamos uma União Europeia reformada e cooperativa

Reformada de que maneira?

Nós lutamos por uma reforma fundamental em direção a mais transparência e democratização. Nós também gostariamos de ver mais decisões políticas sendo feitas através do Parlamento Europeu democraticamente eleito. E acima de tudo, nós apoiamos o princípio da subsidiariedade que é uma política chave para os Piratas.

Você pode explicar melhor?

Isso significa que o processo de tomada de decisão não deveria envolver instituições centrais da UE, desde que os problemas possam ser melhor resolvidos pelas estruturas nacionais, regionais e locais. Eu sou o líder do Partido Pirata, mas isso não implica que eu governe diretamente a região do Moravian do Norte. Nossas estruturas locais fazem muito mais ao conhecer e confiar nos seus candidatos para dirigir uma política independente para suas regiões. Na Europa, muitas coisas podem ser feitas dessa maneira.

Se o Sr Orban ou Kaczynki os chamassem para oferecer um acordo político diferente que atenda pelo nome de Visegrad vs a União Europeia, o que você diria?

Eu diria não.

A República Tcheca deveria deixar o Visegrad Four? (o V4 é uma Aliança Política e Cultural entre República Tcheca, Hungria, Eslovaquia e Polônia que começou em 1993)

No Partido Pirata, nós somos liberais progressistas e respeitamos as liberdades individuais, diferente dos países que estão no governo na Polônia ou Hungria.

Colocar o Diem25 na capa do jornal conservador Lidovky não é uma tarefa fácil

E quanto à Eslovaquia?

Fico pelo menos agiu de maneira esperta, ele foi o primeiro a dizer: “Ei Europa, nós somos os mais liberais desses quatro, então você pode falar conosco, deixe-nos governar e mediar com eles”.

Mas no que se refere a Visegrad, eu respeito a significância da cooperação através das fronteiras entre nossos países nas principais áreas, como comércio exterior e educação, mas não é de nenhuma maneira uma boa posição para qualquer país estar ao lado dos poloneses e húngaros nesse momento

Enquanto isso, vocês acabaram de eleger um novo primeiro ministro – um oligarca acusado de corrupção séria. O Sr Babis é frequentemente comparado com Donald Trump ou Silvio Berlusconi. Estão corretos?

No que se refere a assuntos Europeus, o Sr Babis é uma grande incógnita porque ele mudou seus pontos de vista diversas vezes. Mas ele está tão forte no momento – através de suas relações públicas e seus próprios canais de mídia – que ele pode facilmente se safar disso. À luz de como eu me sinto sobre política, eu prefiro retornar aos velhos dias tradicionais quando a corrupção e um claro conflito de interesses era considerado algo ruim.

Lidové noviny”, um jornal influente que pertence ao Império de Mídia do Sr Babis, recentemente divulgou a história de que o Partido Pirata flertou com o Marxista Grego radical Yanis Varufakis. Como anda esse caso de amor?

Eu estou especialmente orgulhoso desse artigo, porque conseguir com que o Diem 25 (Movimento Democracia na Europa, lançado por Yanis Varoufakis) na primeira página do jornal conservador Lidovky não é uma tarefa fácil.

Obviamente nós não somos marxistas e eu fiz meu melhor para transmitir isso para os jornalista do Sr Babis, mas sem sucesso. Ainda assim, todo liberal honesto é contra a governança das grandes corporações, contra o lobby e contra a ascensão de qualquer movimento nacionalista. É por isso que o terreno comum entre nós e o Diem25 é algo próximo de 80%. Muitas pessoas que nós respeitamos assinaram seu manifesto, incluindo Julian Assange. Se o Diem25 é uma plataforma política comum e transparente para os verdes, a esquerda e os liberais, nós estamos prontos para agir no papel de liberais.

Você realmente acredita que qualquer força progressista pode atingir sucesso eleitoral significativo nesse momento histórico difícil?

O que eu realmente acredito é e num processo de abertura, educação e não patronizar os outros. Em meu mundo Pirata liberal eu posso aceitar que haja riqueza no mundo. No mundo conservador do Sr Orban e do Sr Kaczynski, seria muito diferente: eu não seria capaz de coexistir com pessoas de opiniões diferentes, eu seria forçado a raspar o cabelo ou ir para igreja como os outros. Eu mesmo sou um cristão, um protestante Hussita. Eu estudei teologia e fui batizado quando tinha 19. Eu apenas acredito em uma mensagem religiosa: Jesus é amor. É provavelmente o mesmo que Kaczynski adora, mas eu acho que eu o entendo melhor.

Pergunte a ele alguma hora se a esquerda na Polônia irá jamais ganhar uma eleição de novo.

A esquerda continua caindo porque ela escolhe pregar e julgar as pessoas. É por isso que os verdes falharam na República Tcheca. Eu não culpo os conservadores. Talvez seja por isso que nós atingimos sucesso? Nós aceitamos os medos e as crenças das pessoas como elas são, porque você pode apenas muda-las através de uma postura aberta, educação e uma discussão honesta. Eu estava nas regiões, eu viajei em toda a República Tcheca. Quando você vai para a região do norte da Boêmia, você irá encontrar pessoas culpando a comunidade de Roma por todos os problemas sociais. Claro, eu poderia ter facilmente retornado a Praga e ido para um programa de televisão e dizer que essas pessoas eram racistas. Mas minha cabeça está focada em uma tarefa maior e que consome muito tempo.

E qual é?

Eu realmente quero que eles mudem de ideia um dia.



Nota sobre a liberação pelo TSE da coleta de assinaturas por meios digitais

25 de Dezembro de 2019, 23:40, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

O Partido Pirata recebeu com certa surpresa a notícia de que por 4 votos a 3 os ministros do Tribunal Superior Eleitoral aprovaram a obtenção de assinaturas de apoiamento para criação de novos partidos através de algum tipo de assinatura digital. Essa é uma bandeira que os Piratas vêm defendendo desde a criação do movimento no Brasil sem, contudo, termos nenhum tipo de parecer positivo, até o julgamento da última terça 03/12/19.

A resolução do TSE ainda carece de uma regulamentação mais detalhada e no momento, respondendo a todos que tem nos consultado nos últimos dias, não muda nada em relação ao processo de registro do Partido Pirata. Na Assembleia Pirata Nacional de 2018 aprovamos uma resolução política de suspender temporariamente todo o processo de coleta de assinaturas de apoiamento, tendo em vista a minirreforma eleitoral que limitou o processo de coleta de assinaturas em 2 anos e que invalida assinaturas de eleitores filiados a outros partidos. Quem nos acompanha há vários anos deve se lembrar que quando lançamos nosso processo de coleta de assinaturas, recebemos o apoiamento de diversos políticos de vários partidos durante eventos como o Fórum Internacional de Software Livre e a Campus Party.

Ocorre que pouca gente sabe que o processo de coleta de assinaturas é bastante custoso e complexo e isso se deve ao fato de que, depois de coletada a assinatura, o partido deve ir até o cartório eleitoral DA CIDADE E BAIRRO DO ELEITOR para validar uma a uma as assinaturas coletadas. Ou seja, demanda muito tempo e viagens de representantes do partido a cidades de todo país. Diante disso identificamos a possibilidade de desenvolver um sistema capaz de receber as assinaturas em um processo 100% digital incluindo a validação do cartório como algo fundamental para viabilizar o registro do PIRATAS e de outros novos partidos.

Desde 2001, quando o certificado digital foi regulamentado no Brasil a tecnologia mudou totalmente de modo que hoje é possível usar blockchain e uma infinidade de outras formas de comprovar a identidade e validade de uma assinatura eletrônica. Neste sentido o Partido Pirata entende que o presidente pode resolver não apenas o seu problema específico de criar um partido, mas também o problema dos mais de 200 milhões de brasileiros que não possuem um certificado digital.

Para isso defendemos especialmente a revogação dos dispositivos da medida provisória nº 2.200-2, que regulamenta e dá o monopólio de emissões de certificados digitais ao Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI).

Isso vai permitir uma real democratização do acesso à certificação digital, que poderão ser criadas tanto pelo poder público como pelo setor privado. Com isso, além de facilitar o caminho para criação dos novos partidos teremos como legado desse processo um recurso fundamental para revolucionar a eficiência dos serviços públicos e transações privadas no país.

MAS E AGORA, QUANDO O PIRATAS VAI DISPUTAR UMA ELEIÇÃO?

A boa notícia é que, independente do processo formal de registro do Partido Pirata, estamos trabalhando em um modelo de candidatura pirata coletiva que vai possibilitar que o Partido Pirata tenha candidaturas às câmaras municipais já nas eleições de 2020.

E isso também é uma consequência indireta da minirreforma eleitoral que, com o fim das coligações proporcionais, nos abriu uma possibilidade mais segura de estabelecer uma parceria com partidos que já possuem legenda e que tenham interesse em receber os Piratas em algum formato de candidatura solidária.

Estamos em processo de discussão interna e de conversa com partidos. Muito em breve estaremos divulgando mais informações sobre como se dará o processo de criação das candidaturas Piratas para 2020 e também a discussão e aprovação do Programa Pirata para as Cidades que servirá de base para todas candidaturas apresentadas.

Nos vemos nas urnas em 2020!

Ahoy P-)



Opinião: A hora de soltar as mãos

14 de Setembro de 2019, 21:39, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

por Galdino

link original aqui

I started a joke, which started the whole world crying
But I didn’t see that the joke was on me, oh no
I started to cry, which started the whole world laughing
Oh, if I’d only seen that the joke was on me

I looked at the skies, running my hands over my eyes
And I fell out of bed, hurting my head from things that I’d said
’Til I finally died, which started the whole world living
Oh, if I’d only seen that the joke was on me.
(Bee Gees)

“Passamos a amar nossas paixões e razões de esquerda, nossas análises e convicções de esquerda, e as amamos mais que o mundo existente que supostamente estamos tentando modificar nesses termos […] A melancolia de esquerda, de maneira resumida, é o nome que Benjamin dá a um apego conservador, fúnebre e orientado para o passado que tem como objeto um sentimento, uma análise ou uma relação que se coisificou e congelou no coração da pessoa que se reconhece de esquerda” — Assim Wendy Brown apresenta a melancolia de esquerda em 1999, em um texto chamado “Resisting Left Melancholy” (“Resistindo à Melancolia de Esquerda”).

Todo o ponto do texto é oferecer um diagnóstico da esquerda de seu tempo a partir de uma perspectiva psicanalítica: há uma perda, essa perda não é reconhecida ou compreendida adequadamente, o apego ao objeto dessa perda dolorosa permanece de alguma forma, o sujeito não segue em frente e passa a viver estranhamente orientado para o passado. E a coisa não para aqui: “A ironia da melancolia, é claro, está no fato de que o apego ao objeto de uma perda dolorosa ultrapassa qualquer desejo de recuperação dessa perda, de viver uma vida livre dela no presente, de deixar esse fardo para trás” (W. Brown).

No caso em questão, o objeto de amor que se perde não tem mais a ver com relacionamentos humanos, mas com a relação entre sujeitos e objetos especificamente políticos: “Certamente, as perdas — relatáveis ou não — da Esquerda são muitas em nosso tempo. A desintegração literal dos regimes socialistas e a perda de legitimidade do Marxismo talvez sejam os menores dos problemas.

Estamos submersos na perda de uma análise e um movimento unificados, na perda do trabalho e da classe como predicados invioláveis de análise e mobilização políticas, na perda de um movimento progressivo da história que seja científico e inexorável, e na perda de uma alternativa viável à política econômica do capitalismo. E, montadas nessas perdas, temos outras: perdemos qualquer senso de uma comunidade internacional de esquerda, e, frequentemente, até de uma comunidade local; […] não temos uma visão político-moral rica para orientar e sustentar o trabalho político. Assim, sofremos não apenas com o sentimento de um movimento perdido, mas também de um momento histórico perdido; não apenas uma coerência teórica e empírica perdida, mas também um modo de vida e um curso de atividades perdidos” (W. Brown).

O passar do tempo não trouxe a emancipação prometida e as chances foram perdidas em projetos de governo que não trouxeram qualquer utopia dos Céus. Essa utopia não veio pois é isso que fazem as utopias: esquemas imaginários que apresentam mundos justamente como bons demais para nós. Ainda assim, o sonho acabou. Aquele sonho e aquela promessa. Há uma perda profundamente dolorosa para a esquerda na ruptura do fio que ligaria um passado povoado de revoluções, internacionais e proletários a um futuro emancipado.

É claro, essa promessa nunca se fundamentou em nada além de más análises, desejos e esperanças. Ainda assim, havia algo de insuperável em seu valor. Como diz W. Brown: “Mas, no núcleo vazio de todas essas perdas, talvez no lugar de nosso inconsciente político, não há uma perda que não é reconhecida — a promessa de que o compromisso e a análise de esquerda forneceriam aos seus adeptos um caminho claro e certo em direção ao bom, ao certo e ao verdadeiro?

Não é essa promessa que formou a base de boa parte de nosso prazer em estar na Esquerda, de nosso amor próprio enquanto pessoas de esquerda e de nossa afeição pelas outras pessoas de esquerda? E, se esse amor não pode ser deixado para trás sem uma demanda por uma transformação radical do próprio fundamento de nosso amor, de nossa própria capacidade de nos apegarmos ou amarmos politicamente, não estamos nos condenando à melancolia de esquerda, uma melancolia que certamente produzirá efeitos que não são apenas dolorosos, mas também autodestrutivos?”.

Seja por um desdobramento inevitável da História, seja pelas desventuras messiânicas da classe trabalhadora, seja pela relação imaginada natural entre a racionalidade de esquerda e o progresso, há um futuro que a esquerda pensa estar sempre porvir desde que nada fique no caminho. Mas, esse futuro nunca chegou, e sua perda nunca foi propriamente assimilada porque dezenas de explicações e tentativas de racionalização — eventualmente transformadas em receitas argumentativas e em modelos para análise de conjuntura — foram mobilizadas para cobrir o vazio, sempre no mesmo sentido: ‘não podemos estar fundamentalmente errados, nosso fracasso veio pelas mãos de outro’. A perda do fio histórico não impediu que se formasse toda uma fantasmagoria a partir do “era para ser” e do “deveria ter sido”. Todo o violento ressentimento que encontramos na esquerda contra o “povo” ou a “massa” pode ser traduzido como ‘se não fosse por vocês, estaríamos no Paraíso!’ (como na fórmula que encontramos no desenho animado Scooby-Doo).

Há uma certeza de que ser de esquerda, de alguma forma, é aquilo que nos torna superiores e dignos de um futuro melhor. Essa certeza se desdobra em outra: depois que nos tornamos de esquerda, basta continuarmos sendo de esquerda e fazendo coisas de esquerda e o progresso virá (porque já encontramos o Caminho).

Mas, o presente que efetivamente temos é caracterizado justamente pelo fracasso dessas certezas — quando se age sem assimilar esse fracasso, é como se o que se perdeu permanecesse de alguma forma invencível. Os comportamentos imaginados de esquerda evidentemente mudam. Mas, o amor ao “ser de esquerda” (à identidade de esquerda) é uma constante. Mundos podem frequentemente mudar sem que certas identidades mudem também. Uma identidade frutífera em um mundo pode nos deixar politicamente impotentes em outro. E, além disso, uma melancolia pode nos capturar e podemos nos apegar de maneira intensa e violenta a uma identidade que já não podemos mais carregar porque transformações significativas são exigidas.

Assim, nosso amor pode ficar aprisionado em um realismo que vai aparecer como idealismo para o resto. Não se enxerga outra possibilidade que não o apego de sempre às coisas de esquerda de sempre: se deixarmos certos fardos para trás, vamos acabar com a possibilidade do futuro desejado vir. Mas, como um olhar voltado para o passado e informado por fantasmas de um mundo que não vivemos poderia sequer reconhecer esse futuro? Como se pode construir um futuro radicalmente distinto quando o passado é arrastado de um lado para o outro e o presente é sumariamente ignorado quando contradiz o desejo?

A ausência de reconhecimento do que significa a perda política que se sofreu é justamente aquilo que permite um apego excessivo ao que já foi derrotado— como se pudéssemos tentar de novo e de novo até aparecer uma verdade no real correspondente à verdade do ideal. Com isso, só podemos cair novamente no lugar onde já estamos, só que menos potentes. Quando foi que o grito “não passarão” se tornou uma expressão de fraqueza e certeza da própria força ao mesmo tempo? Quantas pessoas precisarão passar até que esse grito ritualizado seja abandonado junto com o que o sustenta? Percebe-se ao menos que elas estejam passando sem maiores dificuldades? É mais fácil deixar passar que abandonar o rito.

O circuito de gozo da desalineação

O que se poderia chamar de “ativismo” da maior parte da esquerda se encontra em um circuito de gozo que só não parece detestável para quem está gozando (como como manda a cartilha de educação sexual de nossa sociedade patriarcal): piadas sobre como as pessoas de direita (e todas as pessoas do mundo que não se identificam como sendo de esquerda são automaticamente heteroidentificadas como de direita) são estúpidas, ignorantes, alienadas; piadas sobre como nosso presidente é estúpido, ignorante, alienado; um mar de “nós avisamos” e “eu avisei”; culpabilização recorrente de algum outro fantasmático; constante reprodução de confirmações midiáticas de que o governo é aquilo que dizemos que ele é (e que ele mesmo diz que é); obsessão em apontar contradições para demonstrar racionalmente que o pior é o pior; análises paranoicas e teorias da conspiração; demarcação de território e exibição estética de uma identidade de esquerda mesmo quando já sabemos definitivamente quem se imagina o quê; e por aí vai. E já se pode até mesmo gozar através do gozo alheio: a nova tendência é compartilhar outras pessoas praticamente anônimas ironizando, “lacrando” ou questionando algo que o presidente, seus ministros e seus filhos dizem.

Em certo sentido, tudo isso se enquadra em demarcação e exibição identitária: é preciso mostrar diariamente a “superioridade” moral, estética, política e cognitiva da esquerda. Não importa se esses inferiores nos governam, devemos rir deles como se fossem garotos encurralados no canto da sala, incapazes de qualquer coisa além de nos reconhecer como poderosos. Não importa se não somos suficientemente inteligentes sequer para sair do lugar, os idiotas só podem ser os outros

A defesa engessada de uma hierarquia espiritual, que parece indispensável para uma identidade de esquerda, apenas revela a falta de qualquer projeto de emancipação que não seja uma variação do delírio iluminista: vamos emancipar as pessoas tornando elas desalienadas e racionalmente purificadas — mas como? Tornando todas elas de esquerda. E há quem se pergunte por que esse narcisismo excessivo não convence. Citando W. Brown: “[…] um narcisismo no que diz respeito aos apegos políticos e às identidades políticas do passado que excede qualquer investimento contemporâneo em mobilização política, alianças e transformação”.

Sobra um excesso de culpa que não parece apropriado nem para uma igreja e que lança o discurso para o campo da moralidade e do moralismo. E não apenas os que estão fora da esquerda que devem ser culpados: há sempre a própria esquerda para punirmosO pós-modernismo, as políticas identitárias, os degenerados, os que fazem o “jogo da direita”, as pessoas que duvidam, o sectarismo… Os outros dentro do Mesmo, que se juntam aos outros que estão fora: do capitalismo ao Whatsapp, da ignorância de uma sociedade colonial aos excessos democráticos das pessoas que se revoltam sem partido. Há sempre algo rondando a missão de esquerda, um sabotador indestrutível que se torna o alvo infinito do discurso oposicionista.

Ocasionalmente, a espectralidade da coisa ganha contornos inacreditáveis: como as tais milhões de pessoas que se ausentaram das eleições e que não fizeram a coisa certa. Por algum motivo, há quem acredite que todas essas pessoas são algum tipo de agente político unificado e deliberadamente covarde (em cima de um muro imaginário). No entanto, ninguém se preocupou em interrogar esses sujeitos ou mesmo saber quem são — eles são perfeitos enquanto uma massa de modelar para castigarmos pelo tempo que quisermos. Como disse W. Brown: a “estrutura desejante é punitiva”.

É curioso como o mais fantasmagórico dos inimigos consegue inviabilizar todos os sonhos da esquerda. Há um ódio constantemente mobilizado contra fantasias que devem pagar pela perda do objeto amado, pela impossibilidade de cumprimento da promessa. Mas, justamente por conta da estrutura melancólica em operação, o fracasso e a impossibilidade não levam a uma transformação. É preciso dizer “eu avisei” mais uma vez em meios às cinzas do mundo que foi. Também impressiona a quantidade de vezes que algo pode ser repetido, pela mesma pessoa e para as mesmas pessoas.

Esse espetáculo do mesmo, que nada tem a ver com não mexer no time que está ganhando, estabelece o recorde de impotência com o discurso que se limita a dizer que uma pessoa terrível fez ou disse mais uma coisa terrível. Se Žižek tem razão quando recomenda que nos afastemos da pressão por um pseudoativismo, talvez esse seja o melhor exemplo. Há urgência em dizer o óbvio e irrelevante. “Olha, um fascista disse algo fascista! Vamos dizer que ele é um fascista! Não é preciso agir ou dizer qualquer outra coisa!”. Para que serve todo esse ativismo tautológico? Para que dizer as mesmas coisas por oito meses? Para que se manter na impossibilidade de que esse mesmo resulte em diferença?

Há uma quantidade assustadora de discursos congelados e prontos para consumo, argumentos pré-definidos, respostas, “críticas”, slogans e receitas de manifestação e organização — e zero preocupação com a eficiência disso tudo. Temos “[…] uma Esquerda que opera sem uma crítica radical e profunda do status quo ou uma alternativa atraente à ordem atual das coisas.

No entanto, e isso talvez seja ainda mais perturbador, trata-se de uma Esquerda que se tornou mais apegada à sua impossibilidade que à fecundidade que tem em potencial, uma Esquerda que está mais confortável habitando sua própria marginalidade e fracasso […]” (W. Brown). O desejo da própria marginalidade, em um contexto político como o nosso, não pode ser visto como um desejo pelo obscuro, pelo estranho ou gritantemente alternativo. Em geral, a esquerda é viciada em visibilidade, em aparecer a todo custo mesmo sem ter nada além da própria aparição para mostrar, em exibir todo o mesmo de sempre que já é irritantemente familiar e afastar as alternativas.

Na falta do estranho, perigoso ou surpreendente, ficamos com o óbvio, o autoevidente, o tradicional. A previsibilidade colabora com a patrulha, com a pseudocrítica e com a punição. Está tudo muito claro — então onde pode haver marginalidade? Nos objetivos maiores. O sucesso nos ritos internos não tem garantido o sucesso do empreendimento. Não importa quantas pessoas sejam recrutadas semestralmente para a esquerda, os fracassos se acumulam e os que “não passarão” permanecem passando de forma tranquila.

A esquerda se imagina marginal porque está sempre sendo combatida pelo status quo e pelas pessoas que se deixam contaminar por ele, e não faltam pessoas descompromissadas com o conhecimento se fantasiando hackeadas pelo governo, até mesmo diante de problemas técnicos banais nas tecnologias de uso cotidiano. Os outros não apenas são os culpados pelos seus fracassos, mas se encontram alinhados a algo maior e mais poderoso. Não é por acaso que há tanta teoria da conspiração circulando por perfis progressistas: filósofos trabalhando para a CIA, infiltrações nazistas, manifestações compradas etc.

Por outro lado, esses comportamentos todos (religiosos, políticos, mágicos e mesmo os humorísticos) não guardam qualquer mal intrínseco. O humor e as piadas, por exemplo, não são condenáveis por si. Combater o tédio e a chatice deveria ser algo fundamental na esquerda. Mas, quando rimos por desespero e por falta de perspectiva, não revelamos algo alegre — exibimos nossa tristeza e impotência. É perfeitamente compreensível que abusemos de mecanismos de defesa que nos permitam rir mesmo nas situações mais sombrias. Mas, o humor, assim como outras coisas, anda servindo excessivamente para manter nosso estado melancólico. O outro lado não nos manda rir menos, mas “chorar mais”. Nós somos a piada.

A ideia de que algo é necessariamente ruim frequentemente aparece no discurso de esquerda como se algumas coisas fossem necessariamente de direita. Trata-se de um essencialismo nocivo por razões simples: grupos de direita não se importam em geral com isso e se apropriam constantemente de “coisas de esquerda”; a desconsideração radical das consequências do comportamento contribui para a impotência política e para o enfraquecimento; o tempo e a história perdem qualquer relevância quando não confirmam o familiar. Mas, o familiar deve ser sempre o primeiro alvo do discurso crítico. Quando algo congela ou se coisifica, para usar os termos de W. Brown, o pensamento crítico desaparece. Assim, a mera oposição ao que se imagina negativamente é mascarada para assumir o lugar do que desapareceu. “Senso crítico” é o que atualmente associamos às pessoas que simplesmente repetem todas as fórmulas principais da “oposição” (e aí imagina-se que não há nada de crítico no discurso que não é de esquerda).

Assim, a esquerda cada vez mais parece o inverso do que ela imagina e diz ser. E essas armadilhas podem capturar também as pessoas que não se identificam com o essencialismo ou que evitam o discurso essencialista. Como o ponto inicial desse tipo de preocupação normalmente é uma metafísica opressora, o essencialismo pode frequentemente parecer um problema que afeta apenas minorias políticas. Só que a essencialização pode se voltar para qualquer identificação.

E, quando o cotidiano político é afetado pela identificação cristalizada com todo um mundo de coisas imaginadas e recebidas como sendo de esquerda, a ação política perde seus poderes mais perturbadores e o discurso fica excessivamente leve. O resultado disso é que, de maneira geral, o cotidiano das pessoas comprometidas com todo esse “ativismo” de esquerda cobre o acampamento inimigo — não como uma sombra ameaçadora, mas como um campo de proteção. O governo não parece se sentir ameaçado pela esquerda, embora imagine que o mundo esteja constantemente ameaçado por ela.

A inversão proposta por Žižek me parece indispensável: parar de tentar transformar o mundo e começar a pensar. Pensar em como o que tem sido feito e exibido incessantemente como sendo de esquerda tem sido inútil para transformar. ‘Mas é preciso fazer alguma coisa’. Certamente não é preciso continuar afundando na mesma areia movediça — a não ser que se deseje isso. O desejo de transformar precisa ser emancipado. E isso significa emancipá-lo das identidades impotentes de esquerda. “Bem, mas é melhor fazer algo que nada”. Esse nada só pode assombrar quem não enxerga além da própria satisfação melancólica — e só pode fazer sentido como oposição ao que se faz por uma distorção narcísica. Podemos simplesmente nos afastar de todos esses “pelo menos é alguma coisa”. Nada mais liberal que um “pelo menos” individual, como se toda a política se resumisse a dizer ‘eu economizo água’ para supostamente salvar o planeta.

Há muitas pessoas, organizações, coletivos, comunidades por aí realizando um trabalho cotidiano sem precisar gritar aos quatro ventos “eu sou de esquerda!”, sem precisar exibir de modo constante e discursivo todo o seu pertencimento essencializado a uma categoria, sem precisar do nome “esquerda” para poder dizer que algo é politicamente bom, sem precisar discutir sem parar o que e quem é de esquerda ou não é. E, frequentemente, esse trabalho é deslegitimado, ridicularizado ou rejeitado porque não encontramos ali uma sinalização clara de esquerda (ou uma abertura para isso). Até mesmo o desinteresse em todos os slogans, panfletos, ritos, vícios discursivos e narcisismos atrelados à identidade de esquerda chega a ser compreendido como um sinal de pertencimento à uma direita idealizada. 

‘Como é possível que essas pessoas não queiram ouvir a Palavra?’. E, quando esse desinteresse não é respeitado e o conflito emerge, vem também a tentação de classificar as pessoas como “fascistas”. Por conta da fantasia de que ser de esquerda ou direita é uma questão de cálculo e construção de gráficos, perde-se de vista que o que queremos dizer quando dizemos “sou de esquerda” passa longe de se resumir às pautas ou causas que defendemos. E, quando encontramos alguém que simplesmente não se identifica com o que aparece para ela como sendo de esquerda e de direita (e isso pode sequer envolver pautas e causas), ela logo é transformada em uma pessoa de direita em uma manobra que só parece fazer sentido se pensada como uma tentativa de dizer que uma boa pessoa só tem uma escolha: assimilar a nossa identidade e entrar em nossos circuitos de gozo.

As instituições e a guerra contínua

Até quando a esquerda, especialmente a institucional, vai fingir que não há guerra e, consequentemente, não há necessidade de uma lógica de guerra? Enquanto o outro lado se empenha em destruir tudo que a própria esquerda valoriza e faz isso sem qualquer oposição significativa dessa mesma esquerda, encontramos uma repetição constante e vazia de “é preciso resistir” e “serei resistência”, gritos de “não passarão” vindo de observadores distantes, gráficos e dados sendo exibidos como se fosse ainda preciso convencer alguém de alguma coisa. 

De que serve um soldado que vai à guerra carregando resultados de estudos sobre o fato de que o inimigo deve ser combatido? Sua ineficiência não reside intrinsecamente no que carrega, mas em sua falta de atenção ao que ocorre em seu redor (como uma pessoa que responde com toda seriedade uma pergunta retórica). Na urgência de entregar um resultado, vemos uma apresentação correta, porém inútil. O tempo de dizer algo sobre o mundo já deveria ter acabado.

O problema da cristalização de valores, discursos, hábitos, identidades etc. é precisamente esse: não se considera mais a possibilidade de abandonar qualquer uma dessas coisas em nome da eficiência e da mudança. Há um apego a certo heroísmo que é compreensível: queremos morrer gritando que estamos do lado certo da história. Normalmente o foco da ficção é no herói e nas pessoas ao seu redor, que podem se inspirar nesse gesto simbólico — e não vemos o que acontece com todo resto. E é nesse todo resto que vamos verificar a ininteligibilidade do gesto, de modo que ele não pode servir de símbolo a não ser para as pessoas que também o realizariam.

Pessoas dispostas a defender com todo vigor as fronteiras da própria identidade enquanto o mundo desmorona se tornam supérfluas. Formar alianças militares com quem essencializa estratégias é simplesmente um erro. E, quando as pessoas se tornam dispostas a deixar tudo morrer para gritar “eu avisei”, elas passam a ser parte do problema, e não de uma solução ineficiente. O uso do termo “pessoa” se deve apenas à economia da linguagem: o que há para ser combatido é a disposição, e uma disposição pode sempre estar em nós.

“Não é hora para críticar”

O caso recente de A. Frota é exemplar: insatisfeito com os rumos do governo e de seu ex-partido, não fingiu que nada acontecia por medo de “fazer o jogo da esquerda” ou “dar munição para o discurso de esquerda”. Frota não apenas teve a coragem de questionar o partido e exigir uma prestação de contas, como não esconde seu passado por conta de um moralismo cristão qualquer. E, mesmo as comunidades cristãs são capazes de receber pessoas arrependidas ou que decidiram mudar suas vidas — elas não criam páginas para ridicularizar tudo isso e manter distância. E é preciso sempre lembrar o óbvio: ninguém nasce de esquerdaOs tribunais virtuais estão abarrotados de pessoas que agem como se não houvesse nada além do presente.

De todo modo, ainda encontramos medo de autocrítica e crítica em abundância nos círculos e organizações de esquerda. Há ainda quem se desespere com a possível exposição de fragilidades (como se elas não estivessem disponíveis para todo mundo ver) ou com danos irreparáveis a uma unidade inexistente (e que, do modo como é imaginada, nunca existiu e nem poderia existir). “Não é hora para criticar” se tornou um mantra. Novamente, a ciência do momento serve para que nunca aconteça qualquer coisa.

O medo de perder ainda mais é injustificável quando há cada vez menos a perder. E ele poderia até ser justificado se fosse acompanhado de uma tentativa sóbria de vencer. Aqui, ele revela apenas um apego à marginalidade e um desejo conservador. A melancolia é inimiga da construção de futuros. Temos cada vez menos a oferecer. A lógica do “mal menor” está nos acostumando com a mediocridade, a covardia, o clichê. “Antifascismo” e “resistência” se tornaram termos praticamente vazios que podem ser associados a qualquer coisa: de ler livros a policiais. Não é mais preciso agir politicamente: basta falar, fazer coisas usuais, fazer propaganda, tirar uma selfieÉ possível, para quem quer que assim deseje, adotar uma identidade antifascista sustentada exclusivamente no discurso, de modo que a ação antifascista pode ser plenamente substituída. Afinal, “pelo menos é alguma coisa”.

A aversão à utilidade e à eficiência, um dos elementos mais importantes da herança iluminista, cai bem quando não há uma guerra em curso, ainda que, há muito tempo, ela tenha servido a uma guerra cultural promovida contra a burguesia e seus valores. Mas, com o enraizamento da melancolia, essa aversão encontra um outro medo. O medo de vencer. E de vencer coletivamente, de sair desse “pelo menos é alguma coisa” e abandonar o gozo da masturbação intelectual e identitária.

É preciso também gozar com vitórias — no lugar de celebrar o “menos pior” ou todo tipo de mudança que não move estrutura alguma. Uma guerra entre formas de vida, entre mundos, demanda algum abalo estrutural. Trata-se de algo que já foi mais significativo em uma política de esquerda e atualmente se encontra apropriado pelo novo populismo de extrema-direita. É ele que pode se dizer contra o sistema, ainda que isso não vá além de um posicionamento discursivo, e de um poder dizer que, assim como na esquerda, não se fundamenta na ação.

Para todos os efeitos, a esquerda institucional ocupa uma posição conservadora: a imagem que se tem dela é a de alguém que deseja isso tudo que está aí, seu discurso é excessivamente voltado ao presente e ao medo do futuro, suas políticas parlamentares não vão muito além de um reformismo tímido. Felizmente, a nova direita também não tem nada radical e positivo para oferecer para além da sensação de que o sistema está sendo enfrentado. Infelizmente, quando isso se tornar autoevidente para além da esquerda e dos arquitetos do Movimento, ainda será preciso propor algo no lugar.

As pessoas odeiam isso que chamamos “sistema”. As pessoas vivem as crises enquanto os bancos são salvos. Steve Bannon sabe disso. Ainda assim, o diagnóstico usual de esquerda é que essas pessoas são as “alienadas” que morreriam pelo sistema. Mas, já não se diz tanto isso porque há um esforço de esquerda que visa combater esse sistema, pois o esforço é direcionado à defesa dessas velhas instituições sob a justificativa da ameaça fascista. Defendem-se eleições, tribunais, mídia corporativa, códigos arcaicos de ética e decoro, ensino escolar. Contra o fascismo, só é possível defender a democracia, essa máquina que só funcionou até agora quando alimentada pela destruição ambiental, pelo genocídio das populações indígenas e negras, pela reprodução de todo tipo de violência e precarização. Onde foi parar o discurso que coloca isso tudo em questão?

Não há mais tempo para ele: torna-se urgente retornarmos ao ponto onde o problema começou, como se o futuro cancelado do iluminismo fosse finalmente aparecer depois de reiniciarmos o jogo mais uma vez. Enquanto isso, o fascismo desce e sobe no seio da mesma democracia (e isso ocorre desde antes da Segunda Guerra). De que serve uma “resposta nas urnas” em 2022 (a esquerda institucional é especialmente encantada com a própria ciência do momento oportuno) se tudo pode retornar em 2026? Ou, da próxima vez, a esquerda no governo finalmente fará alguma coisa para combater a extrema-direita, ao invés de facilitar sua circulação enfraquecendo o real movimento antifascista?

E, ainda que isso ocorra, será minimamente suficiente? E se for, isso significa que finalmente viveremos o sonho social-democrata? E, de todo modo, o que fazemos com a guerra que ocorre neste exato momento? A melancolia de esquerda a torna radicalmente conservadora em termos de futuro e especialmente impotente para uma batalha. Isso não se resolve recuperando o que foi perdido, mas construindo novas análises, tarefas, coerências e formas de vida a partir deste mundo e do que há entre ele e outros mundos.

O núcleo da melancolia da esquerda

“A minha ênfase na lógica melancólica de certas tendências contemporâneas de esquerda não significa que recomendo terapia como uma forma de responder a essas questões. No entanto, ela sugere que sentimentos e emoções — incluindo mágoa, raiva e ansiedade envolvendo promessas não cumpridas e bússolas perdidas — que sustentam nossos apegos às análises e aos projetos de esquerda devem ser examinados por conta dos aspectos potencialmente conservadores e até mesmo autodestrutivos de encontramos por trás de objetivos políticos aparentemente progressistas” (W. Brown).

A terapia sequer poderia ser uma recomendação aqui por um motivo simples: ela é individual. Há um excesso individualista na esquerda que nos desorienta a todo momento, especialmente pelo individualismo pertencer ao terreno ideológico deste mundo. Se nos colocamos a pensar sobre o que fazer diante de uma crise, há sempre quem tente congelar esse pensamento para poder dissecá-lo pseudocriticamente. Como se tudo se resumisse a uma disputa entre indivíduos ou entre organizações imaginadas como indivíduos.

No presente momento, pouco importa quem faz a análise correta. A análise é uma ficção. A conjuntura é uma ficção. Chega a ser assustador que passe pela cabeça de alguém que uma única pessoa ou organização pode realmente oferecer uma análise fechada de uma realidade como a nossa. Como consequência disso, todo tipo de reducionismo, distorção e idealização pode ser tomado como retrato do real. Além disso, toda a análise que eu poderia oferecer não passaria de um convite: “vamos nos encontrar e pensar esse tipo de coisa?”. Toda ficção é um convite. Textos não são soluções e as soluções não existem: elas precisam ser encontradas coletivamente.

Por outro lado, parece cada vez mais inútil (ou mesmo desesperador) fazer certos convites. Ainda no período eleitoral, quando se tornou praticamente incontornável a vitória do atual governo, abundaram soluções individuais e agradáveis para o narcisismo de esquerda: convencer pessoas aleatórias na rua, discutir com parentes e apresentar dados sobre como a esquerda era melhor. Houve quem defendesse (publicamente!) que as tais “massas alienadas” não fossem tratadas como tais durante o convencimento, como se a melhor tática de esquerda fosse fingir a inteligência do outroEvidentemente, esses outros foram rapidamente descartados quando o pesadelo se consolidou, retornando ao seu lugar usual como alvos de ressentimento.

Desde então, passados oito meses de governo, praticamente nada mudou. Podemos imaginar a surpresa das pessoas que ouviram que o fim do mundo estava próximo quando elas perceberam que ninguém passou a agir como tal. E, não apenas isso, continua o discurso de que o pior está sempre porvir: ‘estava ruim, mas ficará pior com essa nova lei’. Esse tipo de análise seria inofensiva se não servisse para dizer que nada está insustentável. O inaceitável está sempre no futuro. 

Em oito meses, nada serviu para perturbar suficientemente a esquerda: ela pode continuar com o espetáculo do mesmo e nenhuma transformação se fez necessária. E o mesmo de um lado revela o mesmo do outro: nosso inimigo continua sendo nosso inimigo, continua falando coisas terríveis, continua destruindo tudo que amamos. Mas, há mais amor pelas identidades e análises de esquerda e isso ele não pode destruir. Fazendo as contas, não há mais o que dizer: queremos o governo que temos e só deixaremos de querer quando outro pior aparecer. Só podemos nos confundir com uma imagem cristalizada se as mudanças no mundo não nos demandarem mais nada, pois é ele que deve girar ao nosso redor.

Ninguém quer ouvir que deseja algo assim. ‘Somos oposição ao governo!’. São? Que compromisso podemos encontrar e que revele, sem nenhuma sombra de dúvida, que a esquerda, especialmente a institucional, esteja fazendo qualquer coisa para acabar com o governo? E as seitas que acreditam que o governo deve seguir até 2022 para que a sua “derrota” seja democrática? Até mesmo o apocalipse se tornou modismo, palavra vazia, marca a ser valorizada. Todo o terror que esse governo nos traria e nos trará não é suficiente? Não viveríamos o retorno da ditadura, finalmente? Alguém certamente dirá: ‘ainda não é a ditadura, mas, se isso aqui ocorrer, aí sim’. Há toda uma hermenêutica especializada nos sinais desse retorno. Os sacerdotes da esquerda anualmente nos dizem: a ditadura finalmente voltará.

Depois que se percebe que as profecias não se cumprem, e que há coisas muito piores que ditaduras para acontecer (especialmente na história do Brasil), sobra uma questão muito simples: que tipo de desejo está envolvido nesse ativismo profético? Podemos olhar para o modo como todo movimento pela liberdade do ex-presidente Lula recusa qualquer engajamento com algo que possa realmente libertá-lo, ao mesmo tempo que recusa seguir em frente. Essa dupla recusa reside no núcleo da melancolia de esquerda. As pessoas chegam mesmo a confiar na exata mesma justiça que elas acusam, da mesma forma que acreditam que nossas instituições democráticas podem nos salvar do fascismo, mesmo quando ele é recebido democraticamente.

E há também um limite de espera pelo luto. Deve-se esperar mais oito meses? Até quando vamos continuar segurando a mão de pessoas que simplesmente não abrem mão do que são? Se elas amam mais suas identidades que as outras pessoas ao seu redor, então até onde vale a pena o esforço? Esse misto de cristianismo com liberalismo que tanto nos consome sempre exige salvação universal para que não salvemos nada e ninguém.

Ele demanda que carreguemos, de um lado para o outro da trincheira, os fantasiados de herói, os que carregam gráficos, os armados com título de eleitor, os que olham para trás, os crentes iluministas, e todos os que não aceitam que governos de esquerda não levam necessariamente a lugar algum, que democracias não se desdobram logicamente em utopias racionalistas etc. Todos esses realistas esclarecidos afundados em melancolia, narcisismo e ressentimento nos querem impotentes, dependentes de suas leituras de conjuntura, cheios de raiva dos “inferiores”.

Até quando segurar a mão de quem ainda deseja a manutenção da crise como forma de manutenção identitária? Até quando a solidariedade reforçará melancolias coletivas? O espetáculo do mesmo promovido pela esquerda trará resultados diferentes nas próximas eleições ou nos trará algo ainda pior? Quem tem o privilégio de esperar para ver? E o que chamamos de “bolsonarismo” como fenômeno cultural, sem o qual não haveria guerra alguma? E, mais importante: de onde vêm os discursos que adotamos cotidianamente? Discursos não surgem no vácuo. 

É preciso sempre perguntar se uma nova orientação, análise, demanda ou “crítica” que nos aparece como sendo de esquerda se adequa à nossa experiência do mundo — e não realizar o movimento contrário. Isso é especialmente relevante quando as preocupações veiculadas afetam primariamente membros de um alto escalão qualquer da política. Se chega até nós que “não é hora” de tal ou tal coisa, até onde devemos tomar os argumentos que sustentam essa afirmação como nossos, por medo de não sermos suficientemente de esquerda?

E, é claro, não faz sentido imaginarmos que tudo aquilo que nos imobiliza vem de um novo outroMais importante que a engenharia reversa das nossas construções discursivas é enfrentar o impossível em nós: aquilo (que imaginamos) que sabemos ser impossível dizer respeito ao nosso cotidiano político. É abrir todas as portas marcadas com um “V”, investigar tudo que há de não-pensado no pensamento, como dizia Foucault (e não é por acaso que a ortodoxia conspiratória o transformou em uma espécie de agente do imperialismo — o “fazer o jogo da direita” de antigamente).

Assim, a própria identidade política pode se tornar uma questão. Uma questão real, e não o fantasma de um “identitarismo” ou “política identitária”, recorrentemente conjurado pela mais tradicional esquerda — que, nos dias de hoje, dificilmente encontra tarefa mais relevante que a manutenção e exibição de sua própria identidade, algo que não poderia deixar de envolver a afirmação de que a política identitária é sempre do outro. Pode parecer abstrato, mas não há nada de incomum em se acusar o oponente político daquilo que se é.

Os que reclamam de sectarismo costumam trabalhar continuamente pela manutenção desse mesmo sectarismo, por exemplo: basta tornar a unidade inviável sem a submissão violenta do outro. De todo modo, é apenas tornando a identidade uma questão que podemos sair da perspectiva que nos mostra aquilo com o qual nos identificamos como sendo a única possibilidade para nós. Nosso realismo é o que deve mudar, como ocorre com uma pessoa negra que se liberta de todo tipo de identificação com teses metafísicas racistas sobre a natureza humana, com destinos impostos pela hegemonia, com atribuições de lugares e funções sociais etc. E isso serve para toda e qualquer pessoa que se identifica politicamente de uma maneira ou outra.

A melancolia de esquerda funciona porque a identidade permanece inviolável. Mesmo com a perda dos objetos de nosso amor político, temos certeza de que ainda precisamos deles para nos orientarmos no mundo, para nos relacionarmos com outras pessoas e para nos olharmos no espelho. Há até quem sinta prazer em se ver como um sujeito deslocado no tempo, uma máquina obsoleta, uma ruína que se preserva em nome do que deveria ter sido. O que é preciso descobrir não é a falta de necessidade de certos vínculos imaginários, mas a contingência dos objetos. “Até que eu finalmente morri, o que fez com que o mundo começasse a viver”, dizem os Bee Gees.

O que nós tomamos como sendo o que somos agora pode morrer — e deve morrer para a emancipação do desejo de transformação. Talvez seja necessário soltar certas mãos para que elas façam o luto adequado desse futuro esclarecido que nunca veio e de todo o resto que ficou no passado. Talvez seja preciso soltar certas mãos para que elas não nos puxem de volta para os circuitos, vícios e automatismos que enclausuram o gozo e o desejo de esquerda — ou o gozo e o desejo ainda sem nome.



Tags deste artigo: pirata partido pirata partido