Ir para o conteúdo
ou

Software livre Brasil

PSL Brasil

 Voltar a FISL
Tela cheia Sugerir um artigo

No ninho gelado dos pingüins, debates quentes

3 de Junho de 2009, 0:00 , por Software Livre Brasil - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
Visualizado 683 vezes

No ninho gelado dos pingüins, debates quentes André Machado Enviado especial PORTO ALEGRE

Um caldeirão de idéias em perpétuo debate. Assim se poderia definir o burburinho que tomou conta do Centro de Eventos da PUC-RS durante os três dias do III Fórum Internacional de Software Livre, na capital gaúcha, no início do mês. Gnus e pingüins desfilaram à vontade (houve mesmo quem se vestisse a caráter — de pingüim — para apresentar sessões internacionais na sala 41A). Falou-se de tudo: uso de software aberto em telecom, sistemas livres para gerenciamento de conteúdo na internet, evolução de interfaces gráficas como KDE e Gnome e seus respectivos ambientes de desenvolvimento, arquiteturas de rede mais velozes e até projetos em Linux nas Forças Armadas. Mas dois temas, em especial, proporcionaram debates quentes: a questão do Fust e a (in)segurança na urna eletrônica.

Microsoft e monopólio na mesa de discussões

A eterna questão da inclusão digital teve como luminares na mesa o deputado federal Sérgio Miranda (PC do B-MG), atuante no Congresso na questão do edital da Anatel, o professor Wagner Meira, do Departamento de Ciências da Computação da UFMG, universidade onde se desenvolveu o micro popular, e o empresário Carlos Rocha, da Samurai. Este último deu ao presente repórter um depoimento para lá de contundente:

— A única razão de ainda existir qualquer polêmica sobre o Fust (até porque já há uma lei federal determinando que nele sejam usadas soluções que dêem acesso a SOs alternativos) são os interesses econômicos violentíssimos por trás disso, conduzidos de maneira pouco ética — diz. — E infelizmente há setores do governo que não tratam assuntos de interesse nacional com a devida transparência e os devidos cuidados legais. A Justiça bloqueou o processo várias vezes, acatando recursos de parlamentares e cidadãos, e a Anatel tentou derrubar isso sucessivamente. Depois os técnicos do TCU deram pareceres favoráveis às teses dos deputados que questionaram o edital da Anatel. Em suma, sem que eu precise entrar no mérito da questão, a Justiça e o TCU já julgaram, em diversas instâncias, que o processo, no mínimo, merece censuras e que preceitos legais foram atropelados pelo caminho.

Para Rocha, se um órgão público tem uma aplicação que roda melhor num software proprietário e não há outra alternativa, tudo bem.

— Agora, quando você está montando um sistema novo que influenciará milhões de jovens na próxima década, ver isso ser tratado com a superficialidade e a leviandade que se viu no MEC, na Anatel, no governo federal como um todo, é um absurdo — dispara. — Isso só acontece porque o governo não tem, como teve no passado, um órgão de discussão de planos estratégicos para a área de tecnologia da informação no longo prazo. O Brasil tem obrigação legal de manter o Conselho Nacional de Informática e Automação, com a representação de diversos segmentos da sociedade e vários órgãos públicos. Nos EUA, há o PTAC (President’s Technology Advisory Committee), que assessora diretamente o presidente do país. Lá, o comitê conta com representantes de órgãos do Departamento de Estado, reitores de universidades, presidentes de empresas, representantes de entidades de classe e associações de usuários. Assim, obtém-se num amplo debate a definição de políticas de longo prazo para o país. Já no Brasil, por determinação legal que o governo não cumpre, o Conin deveria propor ao Congresso planos nacionais de informática e automação — planos trienais a serem discutidos e atualizados anualmente na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados.

E isso tudo, segundo ele, sem se tocar na controversa questão do monopólio MS:

— Primeiro, a Anatel se propõe a fazer 14 licitações, em vez de tratar a coisa de modo mais uniforme. E aí esse negócio vai ao MEC e, em vez de ser tratado de maneira integrada, o que se procurou fazer foi privilegiar uma empresa que por acaso, no seu país de origem, na Europa e na Ásia, vem sendo sucessivamente processada por práticas ilegais de monopólio. No Brasil, a Secretaria de Defesa Econômica tem uma ação contra a Microsoft por práticas ilegais de monopólio aqui. Não vou entrar no mérito se o produto dela é bom ou ruim. Inclusive acho que deve haver acesso a seus programas e soluções nas escolas, pois os alunos têm de conhecê-las. Agora, como brasileiro, não posso admitir que se consolide um monopólio que prive nossos milhões de futuros cidadãos de conhecer as alternativas.

Durante o debate, uma das questões levantadas foi justamente a do dual boot , que permitirá acessar, nas escolas, tanto Windows quanto Linux. Os adeptos do pingüim perguntaram: por que não ficou só o software aberto? O deputado Sérgio Miranda respondeu:

— Negociamos com a Anatel e conseguimos garantir a inclusão da expressão “PREFERENCIALMENTE” software livre no texto da lei — disse. — É claro que vai haver pressão da Microsoft sobre as escolas. Mas deve-se levar em conta que o percentual de estudantes a serem atingidos corresponde àqueles que nunca tiveram acesso a nada, portanto estarão mais propensos a experimentar o Linux. Fizemos todo o possível, e defendemos: o Linux tem que estar lá, mesmo que não seja usado!

Segundo Wagner Meira, a MS não esperava que, nas negociações no Congresso, os defensores do software livre pedissem o dual boot:

— Praticamente preparamos uma armadilha para eles. Não imaginavam que pediríamos os dois sistemas na mesma tela — contou. — E no fim das contas, as máquinas vão acabar rodando Linux. O Windows vai ficar lento com o boot remoto via terminal server ( risos ) e os alunos vão perceber que a web, os programas, tudo é mais rápido com o Linux. E aí haverá uma seleção natural.

Flashcard e terminal versus microcomputador pessoal

Além do micro popular desenvolvido pela UFMG, foram discutidas outras soluções. Rocha defendeu com fortes argumentos a idéia de terminais públicos com flashcards:

— Compare o acesso à informação com o transporte público — pede. — Se você quer dar transporte à população, não distribuirá uma motocicleta para cada um, mas aumentará o número de ônibus. E como você compartilha essa infra-estrutura? Eu saio daqui, entro num ônibus qualquer entre dezenas que passaram à minha frente, ocupo um assento qualquer e pronto: contratei a função transporte. Para voltar, a mesma coisa, num ônibus diferente, num outro assento. É indiferente que ônibus pego, em que lugar sento, ok? Com a informação digital, a solução é equivalente: eu terei centenas ou milhares de servidores de aplicações, e em cada servidor haverá dezenas de seções para uso de aplicações possíveis. Cada vez que uso o sistema, acesso uma seção de trabalho qualquer num servidor de aplicação qualquer. Isto é compartilhamento de infra-estrutura. O equipamento da ponta deixa de ser um computador pessoal e passa a ser uma estação de acesso multi-serviço. E o custo será por uso, por pessoa. Já temos pontos em produção nesse sentido. Um em São Paulo, em Santo Amaro, num projeto com o governo do estado chamado Povo na Internet. É uma rede de acesso público compartilhado de 20 estações que já está atendendo 600 pessoas por dia. Tudo baseado em software livre.

O flashcard entraria nesta equação para suprir a personalização do ambiente.

— Não é preciso um micro inteiro para armazenar a identificação, o perfil de uso e o conteúdo pessoal do usuário. Basta um flashcard, o que reduz o custo do acesso à informação em mais de 20 vezes — pondera


Tags deste artigo: fisl2002
Fonte: http://www.softwarelivre.org/news/413

Eventos de Software Livre no Brasil