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‘O Linux é um novo paradigma de software’

3 de Junho de 2009, 0:00 , por Software Livre Brasil - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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John “Maddog” Hall é um gigante de quase dois metros de altura e barba messiânica. Apesar do apelido (“cachorro louco”, em inglês), é uma figura afável e tem muitas histórias para contar sobre o emprego do Linux mundo afora. Autor do livro “Linux for Dummies” e diretor executivo da Linux Internacional, associação de empresas que buscam promover o Linux, Maddog já esteve sete vezes no Brasil e foi uma das atrações principais do III Fórum Internacional de Software Livre. Para ele, o Sul do país é um dos melhores exemplos de união entre autoridades, empresas e a comunidade no uso do software open-source. Um exemplo que volta e meia cita em seus keynotes internacionais. André Machado PORTO ALEGRE

Você veio ao fórum para falar do futuro do Linux. Como ele se apresenta? Como está o atual kernel?

JOHN “MADDOG” HALL: Como o próprio Linus Torvalds diz, o kernel é a parte mais chata da história ( risos ). Mais interessante é o que acontece fora do kernel, no sistema operacional e nas várias distribuições, em seus diferentes usos. Vi muitos usos do sistema pelo mundo, e gosto de lembrar sua utilização em lugares em que as pessoas não pensam muito. Por exemplo, na Universidade do Pacífico Sul, onde se treinam estudantes que vão trabalhar em países como Tonga e as Ilhas Salomão, começou-se a usar o Linux como um meio de ensinar os alunos sobre sistemas operacionais. Em Cuba também se usa o pingüim. Há 1.600 médicos na ilha cujos livros de consulta estavam caindo aos pedaços, de modo que lhes era difícil obter informações médicas mais recentes. Mas, com o Linux instalado em velhos 386s, eles conseguiram acesso a elas via web e hoje se mantêm atualizados. Aqui mesmo, na USP, se trabalhou num programa que permite reduzir o tempo de análise de um mamograma de 20 horas para 10 minutos, através de um sistema de cluster Beowulf com Linux. Foi mais fácil interconectar 160 CPUs do que comprar um supercomputador.

No cinema também se usa o pingüim, não?

‘MADDOG’: Em “Titanic”, se eles tivessem pegado uma única CPU para a renderização das imagens, levariam 160 anos para concluir o filme ( risos ). Em vez disso, usaram 160 CPUs rodando ao mesmo tempo, com software livre. Se tivessem comprado um sistema proprietário, comercial, gastariam US$ 1,5 milhão a mais. E há exemplos até em ecologia. Uma firma que trabalha com biodiversidade aqui em SP me mandou um email há poucos dias dizendo que o software que usavam era muito caro, produzido apenas nos EUA e todo em inglês. Começaram a usar software livre e conseguiram duplicar o que faziam com o outro sistema. E agora trabalham com tudo em português. Outro caso: cientistas em Chicago que pesquisam a menor partícula possível no universo subatômico, o quark, usaram o Linux, via Beowulf, para que seu acelerador de partículas gerasse 200 vezes mais dados. Este ano terão 4.096 processadores trabalhando juntos para que consigam ver com que o quark se parece, afinal.

E quanto à comunidade que desenvolve o open-source? Ela está mesmo crescendo?

‘MADDOG’: Conheço meninos de 12 anos que programam em Linux. Descobri um de 13 que é administrador de sistemas em Linux. E estudantes ginasiais que ajudaram suas próprias escolas a montar sua rede de computadores com software livre. Eles aprenderam a fazê-lo usando Linux. Também conheci um adolescente de 15 anos que usava o sistema desde os 10 e trabalhava em drivers de dispositivos para o kernel desde os 12. Você sabia que há uma distribuição que foi desenvolvida por dois garotos de 14 anos? É a PHAT Linux. Os dois nunca se encontraram, e fizeram tudo através da internet. Criaram sua versão do Linux e eu comecei a distribuí-la. Seus pais sequer sabiam o que eles estavam fazendo ( risos ). Cheguei a me encontrar com o pai de um deles na Linux Expo de Nova York três anos depois do lançamento do sistema. Ele parecia em estado de choque, porque olhava em volta, para todas aquelas pessoas e empresas... E logo que descobriam quem era seu filho, cumprimentavam-no e agradeciam por tudo, etc, etc. E eu lhe perguntei: “Você tinha idéia do que estava acontecendo até vir aqui?” E ele: “Não, eu não tinha a menor idéia. E ainda estou achando muito difícil entender tudo isso”. É esse o maior aspecto da coisa: é preciso entender que se trata de um novo paradigma de produção de software. As pessoas só compreenderão a dimensão da mudança quando começarem a se envolver mais com o open-source e a trabalhar com ele, quando começarem a sacar todas as suas ramificações. Creio que os dias do software pré-empacotado, que você compra de uma prateleira e não modifica, estão contados. É só uma questão de tempo.

Quais são os atuais projetos da Linux Internacional?

‘MADDOG’: Estamos nos concentrando nos chamados mercados verticais — bancos, saúde, polícia, forças armadas... Dentro dessa área, vamos focar as telecomunicações, porque se trata de um mercado gigantesco. Até agora, as empresas de telecom adquiriram hardware proprietário com software proprietário, gastando enormes somas de dinheiro. Queremos mostrar-lhes que elas podem usar hardware mais simples com software open-source, e assim economizar muito. Pode-se esperar que repassem, então, tal economia a seus consumidores, baixando o custo das operações e permitindo a mais gente compartilhar mais informação pela internet, por exemplo. Com mais informação fluindo, teríamos a base para formular novos empregos, novas empresas, e assim por diante.

Como vê o movimento open-source no Brasil?

‘MADDOG’: O movimento open-source está indo bem aqui no Rio Grande do Sul, e de vários modos repercute a partir deste estado. Outros estados estão observando bem o que acontece aqui. Na verdade, já faz dois anos venho citando esta região do Brasil em minhas conferências pelo mundo como exemplo de como o governo, a iniciativa privada e o movimento open-source deveriam trabalhar juntos para prover soluções. E o pessoal vem recebendo isso muito bem.

Os destaques da festa

Alguns dos mais instrutivos keynotes do fórum:

PINGÜINS E DINHEIRO: Paul Everitt, co-fundador da Zope, que desenvolve o ambiente homônimo de gerenciamento de conteúdo web, mostrou que se pode faturar com software livre: “As empresas querem pagar caro pelo seu produto. Se você pede pouco, elas ficam preocupadas. Existem grandes oportunidades nessa área, pois qualquer preço de solução baseado no trinômio hardware-software-consultoria cai a 2/3 quando se usa software livre”.

TELECOM LIVRE: David Sugar, fundador da Open Source Telecom Foundation, explicou como funciona o servidor de telecomunicações do projeto GNU, o GNU Bayonne, que permite o uso de hardware mais simples, é facilmente escalável e deixa as empresas livres para incrementar serviços.

GRÁFICOS ELEGANTES: O alemão Ralf Noldem deu uma aula sobre o ambiente gráfico KDE, mostrando seus vários aplicativos, como a suíte KOffice, o browser Konqueror, o gerenciador de janelas Kwin, o servidor de áudio aRts e muitos outros. Há inclusive programas para quem enxerga pouco. Um aplicativo funciona como uma poderosa lente de aumento da área de trabalho. Mas divertido mesmo foi ver Noldem lendo em voz alta seus slides, que estavam em português (ele não fala um pingo do idioma).


Tags deste artigo: fisl2002
Fonte: http://www.softwarelivre.org/news/414

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