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Carta Aberta da ASL.Org ao Sr Boaventura dos Santos

20 de Janeiro de 2016, 17:11 , por Lis Rodrigues - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Caro companheiro Boaventura dos Santos,

Somos técnicos/ profissionais militantes políticos da ASL - Associação Software Livre.Org (www.softwarelivre.org/asl) integrante brasileira da Risol – Rede Internacional de Software Livre com presença no espaço ibero-americano, reunindo entidades nacionais congêneres do SL. A ASL.Org é uma entidade cuja origem é comum com o FSM – Fórum Social Mundial. O Fórum Internacional de Software Livre – FISL, realizado anualmente nessa cidade de Porto Alegre, teve sua primeira edição no ano 2000 com o mesmo espírito alteromundista do FSM 2001, realizado meses depois, nessa nossa Porto Alegre. Ambos foram patrocinados pelos governos do Estado do Rio Grande do Sul e da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, cujos respectivos executivos, além da identificação com o espírito alteromundista, eram referências importantes desse espírito, com maior destaque para a Administração Popular de Porto Alegre então governando a cidade há uma década.

A ASL.Org tem escopo técnico bem definido mas seu forte viés político é nosso diferencial no espaço da técnica. Viés político referenciado no espírito alteromundista que anima fortemente o movimento Software Livre e, especialmente, o que torna nós brasileiros muito especiais no tratamento político dos temas de Ciência & Tecnologia e de Pesquisa & Desenvolvimento. No Brasil o corte classista demarca o debate e a gramática política desse debate e das construções políticas que ele encaminha. Isso explica o porquê desses temas, quase ausentes do espaço político de países com "economias" dependentes tecnologicamente, entre nós mobilizarem e apaixonarem, se tornando mais importantes na agenda política do que as ações que podem efetivar. Essa valorização política explica a resiliência de ações e projetos, que mesmo duramente golpeados em diferentes momentos ao longo das últimas cinco décadas – desde o golpe da Ditadura de 1964 -, permanecem "impolutos" prontos para ser reativados. Essa hiper politização desses temas pode ser explicada pela perseguição obstinada movida pela Ditadura a cientistas e quadros acadêmicos e técnicos comprometendo a continuidade das ações e projetos mas preservando a aura de "integridade" e "competência" dos mesmos.

Esse é o caso da Informática Pública, conceito enunciado a primeira vez em 1979 pelas APPDs – Associações de Profissionais de Processamento de Dados para substituir o conceito da Ditadura de Informática como pilar da “Segurança Nacional”. No período que se estende de 1979 até 1990, o conceito inicial de Informática Pública como um elemento da "democracia substantiva" – democracia da LIBERDADE COM IGUALDADE - evoluiu e se desdobrou acompanhando o esforço muito presente na "transição democrática" para a construção do Estado Providencial da LIBERDADE COM IGUALDADE E FRATERNIDADE. A democracia teve avanços importantes nesse período mas em 1990 a guinada neoliberal desvinculou os temas de C&T (Ciência e Tecnologia) e P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) dos temas políticos nacionais. C&T e P&D agora passavam a ser instrumentos voltados exclusivamente para "melhorar" a competitividade "brasileira" na "Globalização". Nem a C&T e P&D foi "exitosa" e nem a competitividade brasileira melhorou, mas novamente os temas se hiper politizaram e hoje é o conceito de Informática Pública que possibilitará reestruturar o debate e reconfigurar as ações e projetos nesses respectivos temas.

Isso é particularmente alvissareiro porque com a emergência da IoT - Internet das Coisas, conferindo poder desmedido às "máquinas" e por extensão às corporações "proprietárias" dessas máquinas, a nossa Informática Pública torna possível reconfigurar a TI e TICs e Internet para neutralizar essa ameaça e substituir a IoT pela Internet das Pessoas – restaurando e priorizando as conexões locais em deterimento das conexões globais que devem ser supletivas e complementares nas ações e projetos locais.

Descrito dessa forma parece ingênuo demais, mas temos mais do que apenas este pequeno panfleto para apresentar a nossa tese. Temos um trabalho de décadas no Brasil - desde 1979 – construindo ações e projetos consonantes – consistentes e coerentes – com o conceito de Informática Pública que enunciamos e fizemos evoluir. Reunimos um conjunto de textos ilustrando a nossa práxis de implementação da Informática Pública, que numa perspectiva econômica equivale ao macrossetor da TI – Tecnologia de Informação e TICs – Tecnologias de Comunicação e Informação e Internet, mas que graças ao nosso aprendizado a ferro e fogo na "Globalização" pode e deve ser reproduzida e multiplicada para abarcar a totalidade dos processos comunitários, culturais, sociais e políticos.

Nós que estamos assinando esta carta constituímos hoje o núcleo pensante do que recentemente nomeamos como Antroponomia, que revela e possibilita restaurar o PROTAGONISMO DO TRABALHO neste mundo que "aparentemente" graças às "novas tecnologias" propagou e impôs a ideia de que o Trabalho é dispensável. A Antroponomia tem enorme potência analítica e de desenho e projeto, sendo uma descoberta importante integralmente decantada do trabalho sindical - maioria das contribuições -, e do trabalho comunitário e do trabalho político com os temas das relações de trabalho, organização profissional, relações de gênero, questão racial, democracia, participação, cooperativismo, economia solidária, desenvolvimento, "Globalização" e tantos que estiveram e permanecem na agenda política dos movimentos populares.

Nosso propósito é comunicar este trabalho que julgamos importante e vital para superar a crise civilizatória, sensibilizando para que usem, abusem e desenvolvam os saberes, tecnologias e conhecimentos de que nos apropriamos, descobrimos, "inventamos" e estamos desenvolvendo.

Estamos certos que sabendo o que estamos fazendo, o companheiro imediatamente formará conosco neste trabalho comum e arregimentará mais companheiros com o mesmo propósito.

Um grande abraço.

 

Carlos Alberto Jacques de Castro

Elaine Paz

Felisberto Seabra Luisi

Margareth Rossal

Ricardo Fritsch

Sady Jacques

Edson Simões Corrêa

Djalma Araujo Ferreira

José Henrique Schwengber

José Francisco Nunes Fernandez

Pedro Muller Hoff

 

 

 

Fórum Social Temático/Educação Popular

 

Porto Alegre, 18 de janeiro de 2016.

 


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