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Conto: Bonecas, por Flávio Costa

12 de Julho de 2015, 17:25 , por Patrícia Conceição da Silva - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Boneca

 

Fotografia de Noilton Santos

Fotografia: Noilton Pereira

Texto: Contos em Chamas

Autor: Flávio Costa

Renata diz que exagero somente para impressioná-la. O mundo é feio, mas está longe de ser tão terrível assim, porque há luz e nós aceitamos a palavra. Eu seguro com força a mão dela, pois gosta disso, da segurança que o gesto transmite pela escuridão da minha sala. O mundo é muito feio, sim, repito, apenas para manter a conversa nessa toada infantil, tal um ventríloquo, como se afinasse a voz para simular as respostas dela, emitindo algumas frases simples, com o objetivo de levá-la ao final desejado. Mas essa boneca tem autonomia, foge do roteiro quando rejeita delicadamente sentar no meu colo: o sofá é macio o suficiente. Disfarço a frustração ao continuar com meus relatos.


Desde o batismo, eu parei de mentir; pelo menos, desde que a encontrei. Eu desconhecia a atração da sinceridade, usava astúcia para obter prazer. Mas Renata me fez confessar atos que neguei aos ouvidos do pastor, pois com ela descubro que posso ser um homem bom. Quando a conquistei, tocou-me a revelação: deveria me purificar. Não poderia compartilhar um caminho, sem antes de expurgar a imundície do meu passado. Confessei como seduzia minhas bonecas nessa mesma sala, depois de semanas de conversas sussurradas nas saídas das escolas; empregava delicadeza em pegar uma pequena mão macia e trêmula, e a ensinava a empunhar e manobrar até que nascesse o primeiro calo; os beijos aplicados com sofreguidão, a cheirada no azedume, os preparativos com os dedos. E, por fim, sentava-as no colo exigindo segredo ao estender as notas, prometendo outras maiores e de cores diferentes, já sabendo que eram estrelas de única sessão. Era perigoso repetir; então procurava outra escola, outra boneca.

Meus pecados se estendiam ao meu local de trabalho. Repetia a mesma história a Renata: mataram um delegado pela manhã e passamos a noite toda trabalhando e escondendo projéteis, rasgando e queimando documentos, carregando volumes em sacos plásticos para dentro dos carros. Outro delegado agradeceu e passou um envelope para Artur. Ele dividiu as notas em três partes iguais. Deixou o envelope na mesa do Doutor Rabo-de-Cavalo. Tomamos banho e fomos para Amaralina comer uma feijoada, pouco antes de o sol nascer. De barriga cheia, banhei-me sem pudor, e depois fui de táxi para casa. Naquele ano, foi a única vez em que estive num táxi. Pare, não quero mais saber, ela se aconchegava, cravando sem perceber todas as unhas nos meus antebraços.  

Aquele tempo já passou, eu disse para confortá-la, continuo a executar minhas funções, e não repetiria o que já fiz. Artur sabe que estou fora do esquema, sempre me protegeu, e respeitou minha conversão, pois se um homem encontra a Verdade, ele deve desprezar tudo o que é sórdido e mentiroso. Só quero receber meu salário, mesmo minguado para um trabalho cada vez mais estafante: todo dia encontro quatro ou cinco apenas para mim. E por mais que me lave, que use perfume, aquele cheiro adocicado persiste, integrou-se ao meu corpo, se confunde com o gosto da comida, e, acredito, mancha os dentes, turva a urina, escurece as fezes.

Ela agora percebe os pequenos arranhões nos antebraços, pede desculpa, diz que meu cheiro é bom, entrelaça seus dedos nos meus. Você sabe que vai ter que esperar. Papai não vai aceitar tão cedo, ainda mais você sendo homem feito. Ele quer que eu estude. Sou muito nova, mas no meu coração respeito o nosso compromisso. Eu sei que vou esperar muito. Estou resignado. Papai ficou sabendo de umas histórias suas. Aquele era outro tempo. O tempo da Mentira... Isso não existe mais, confesso que elas eram parecidas com você, mas não vou te fazer mal... eu mudei, o pastor... o pastor falou com Papai que você mudou mesmo, mas até ele acha que não se pode avançar para o próximo passo, que você vai ter que esperar. Eu espero. O que estamos fazendo aqui sozinhos? Não é outra coisa que não esperar?

Desconhece tudo do mundo. É muito ingênua, e essa ingenuidade me salvou, me libertou para esta nova vida, este nascer de novo, e creio que meu Senhor não ficará contrariado se eu admitir que só busquei a redenção porque, para mim, a redenção se materializava no sorriso tímido de dentes separados, mas de branco imaculado, nas suas duas tranças longas e grossas, as duas pintinhas no rosto de mulata; creio que meu Senhor ficará contente em saber que ela agiu como um anjo que guia o insensato para a luz. Antes eu desejava inocência, hoje a quero bem, a protejo. Abraço.

Qualquer ceguinho da praça enxerga mais do que meus instrumentos. Para com isso, que coisa! Você toda hora fala disso. Não quero saber. Eu quero saber do presente e do futuro. Mas insisto no passado. Já tem dois anos que o chefe do departamento afirma que vão entregar instrumentos novos. Sinto a ferrugem desfazendo-se nos meus dedos quando lavo os velhos na torneira. Na época da insegurança cortei um dedo ao serrar uma cabeça. Artur jogou álcool na minha mão e disse que cuidaria do resto do trabalho. O Doutor Rabo-de-Cavalo pegou sua maletinha e fez um curativo. Agora sim, rapaz, você está batizado. Mas aprovação no serviço só quando passar pelo meu primeiro podrão. Artur gargalhou, eu vou estar do lado, eu ri. Passei noites sem dormir, com medo de que meu dedo contaminasse a mão, o braço, até a amputação ser uma alternativa sensata, e, pior, se o cara tivesse Aids? Artur gargalhava e me oferecia um sanduíche de mortadela.  

Até que veio o dia. Vamos na geladeira, tem dois lá e você terá a preferência. Nunca havia descido, e me espantei com a ferrugem das gavetas desencaixadas, e o chão pegajoso como se alguém tivesse, diariamente, derramado de propósito uma cola encardida. Desengavetaram e Artur me deu um lenço. A refrigeração estava desregulada, e um fiozinho de água avolumava a poça de sangue, embaixo dos pés do escolhido. Eu quero esse que está mais verde, esse aí, o menino com a camisa do Vitória. Renata, se deixarmos apenas ao ritmo da natureza demora muito tempo antes de retornar ao pó, antes disso nos decompomos lentamente em líquidos, gases, pedaços de carnes, massa informe, até secarmos e, por fim, restam apenas os ossos. O pó vem muito depois.

Trabalhei nele duas horas. Doutor Rabo-de-Cavalo chegou pela manhã e me deu parabéns. Fez algumas anotações. Quando voltei do banheiro assustei-me com as moedas empilhadas cegando o morto. Depois te explico isso aí, pega e compra uns pastéis e Coca pra gente comemorar. Ele começa a ler em voz alta: o cadáver apresenta doze ferimentos com lacerações perfurantes irregulares, com diâmetros diferentes de um centímetro (a menor) e treze centímetros (a maior), nas seguintes regiões: interescapular, dorsal direita, cintura esquerda, coxa esquerda posterior... aquele cadáver nunca recebeu uma perfuração de instrumento cortante, eu escondi os projéteis; foi encontrado na Estrada Velha do Aeroporto, e já te contei quem esconde cadáver por lá. Aconteceu antes da morte do delegado.

Renata esfrega meus machucados para me interromper, você pediu perdão e o Senhor te abençoou, para mim está tudo bem, só que saiba que comigo tudo será diferente, e daqui pra frente você vai ter que mostrar a cada dia que é digno de mim. Ouço sua voz rouca, com estremecimento, e pela primeira vez, desde que a conquistei, guardo uma confissão, pois não posso perdê-la. Ao reconhecer aquele calor que emana de seu corpo frágil, perturbo-me, mas sou salvo ao lembrar que chegou a hora de irmos ao culto.

Eu queria contar-lhe, mas fui incapaz, que a menina ocupava sozinha a sala, na maca do meio, levemente inclinada. A verdade é que tinha deixado a meninice, pois sem querer notei que os fiozinhos esparsos já colonizavam o ventre; antes eu gostava assim, quando elas estavam na fase da transição, e o beijo em cada um dos fiozinhos pioneiros era o método de contabilidade. A quantidade e o formato diziam-me se eu estava lidando com uma púbere ou uma adolescente, já habilidosa na arte de aparar o delta. Era meu turno e vez, e o Doutor Rabo-de-Cavalo só chegaria pela manhã para as formalidades. Afogamento, esclareceu Artur. Piscina de colégio. Só a encontraram uma hora depois. Só tem ela, por enquanto, noite calma. Sorte nossa, colega. Disse-me Artur antes de sair para fumar um cigarro e cochilar sobre os caixões.

Devo trabalhar como ele me ensinou: primeiro abre-se a cabeça, depois corto abaixo da garganta até o ventre. Mas resisto a começar. Ela ainda não era um podrão, aquele cheiro ainda está longe de penetrá-la, ainda que rígido o corpo emitia frescor, para que abrir aquela cabecinha e desmanchar os cachos? pensei, se a morte alojava-se nos pulmões. Macular a barriga tão lisa. Deformar aquele templo da pureza, antes que a natureza se encarregue da tarefa. Antes eu gostava assim, elas deitavam-se levemente inclinadas, de frente para mim porque era bom olhar nos olhos, precisava somente afastar, com um leve empurrão, uma das pernas para o lado. Mas a ausência daquele calor faz toda a diferença. O medo presente nas minhas antigas sessões abandonou também aquele corpo, e a pressão dos meus lábios deixou de causar arrepios. Minha perversão tornou-se inócua. Alegro-me. Essa menina está inatingível, fazer assim evita qualquer profanação. Permito-me refazer a contagem quantas vezes achar necessário.

O Doutor Rabo-de-Cavalo já começou a escrever. São seis horas e as rajadas do sol revelam as veias roxas das pernas magras, como se Meu Senhor quisesse me demonstrar que apenas Ele detém a chave da perfeição. Sempre levo um susto quando o Doutor Rabo-de-Cavalo coloca as moedas por cima dos olhos. Tão novinha, não é? Desconfio que não foi acidental. Parece uma bonequinha. Vou verificar se há presença de sêmen. Essa cidade é uma selva.

Eu assobio, retiro as moedas sobre os olhos da menina, e saio da sala para comprar pastéis e Coca-cola.

P.S: O conto foi publicado na edição #7 da Revista Flaubert.

 


Tags deste artigo: literatura contos

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