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A periferia se mobiliza

25 de Agosto de 2007, 0:00 , por Software Livre Brasil - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Por Vítor Rocha

A cidade de Cochabamba é cercada por morros áridos, muitos deles povoados por casas sem reboco. Da praça 14 de Setembro, referência onde está localizada a sede do governo departamental (Prefectura), pode-se ver os morros em ângulo de 360º. Como no Brasil, são as regiões relegadas aos pobres e migrantes. São locais com precária infra-estrutura urbana, esquecidos pelo poder público e endereço de meio milhão de pessoas apenas em Cochabamba.

Inúmeras famílias saíram em penitência da região do Altiplano, a partir de 1980, agredidas pelas secas e baixas extremas de temperatura provocadas pelo El Niño. Mais de 70% das plantações e 50% dos animais desapareceram. Muitas famílias foram para as periferias das grandes cidades, outras tantas para Santa Cruz e ainda muitas para a região amazônica do Chapare, destino do pai de Evo Morales depois de perder quase todo seu rebanho de lhamas.

Na segunda passagem por Cochabamba conhecemos um desses morros. Fomos guiados por um migrante e agente de uma Missão de Jesuítas. Fomos numa caminhonete emprestada pelos padres para enfrentar um caminho coberto por poeira fina e agressiva aos pulmões. Chegamos de carro, mas os moradores do local usam os coloridos e divertidos miniônibus Dodge, uns dos tantos meios de transporte público da cidade. Pelo menos isso chega por lá.


Mas falta água encanada, energia elétrica, assistência à saúde, escolas. Esgotamento sanitário nem se fala. No meio de tantas necessidades, um poder organizativo muito forte pode ser encontrado. Os vecinos formam grupos para tentar resolver os problemas locais. São diversos níveis organizativos. Os mais avançados são as Organizações Territoriais de Base, as famosas OTBs. Elas são oficializadas e, apesar de não pegarem em dinheiro, viabilizam obras públicas nos bairros.

As OTBs são resultados das Juntas Vecinais, organismos populares organizados pelo espírito de luta dos moradores dos morros. Têm ainda os Comitês da Água e as diversas Juntas de cada setor social. Sobra organização social e falta assistência. Essa equação desigual faz a população de baixa renda lutar com todas as forças pela transformação do país.

O nível de politização dos bolivianos é notável. Na nossa passagem por Loma de Santa Bárbara tínhamos a intenção de entrevistar lideranças locais. Fomos nas casas de vários deles e todos estavam fora. Um morador sentiu nossa presença estranha e se acercou.

Depois de alguns papos, resolvemos entrevista-lo. A cidade coberta por uma nuvem de pó compunha o pano de fundo. Crianças brincavam num parquinho improvisado, cachorros dormiam quase mortos em processo de hibernação sob o sol forte, um tanque de água vazio formava o cenário e sobretudo o silêncio fazia o esquecimento ainda mais notável.

José quebrava o silêncio e falava com desenvoltura para a câmera. Exprimia argumentação invejável para relatar o abandono, a falta e a força. Disse que no 11 de janeiro, quando marchas pró e contra Evo tomaram as ruas da cidade e se enfrentaram para um saldo de três mortes (dois campesinos de um lado e um estudante de classe média do outro), políticos locais tentaram cooptar os vecinos para não descerem os morros em apoio ao presidente. “Colocaram até uns postes com fios. Prometiam energia elétrica e pediam para que ficássemos em casa. Mas não, todos baixamos”.

Perguntei o porquê da atitude e ele logo deixou claro. “Evo Morales é como um irmão para nossa gente e temos a obrigação de defender seu governo popular. Não podemos perder nossa chance”.

Fonte: http://projeto-bolivia.blogspot.com/2007/08/periferia-se-mobiliza.html

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