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Opinião: A hora de soltar as mãos

14 de Setembro de 2019, 21:39 , por PIRATAS - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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por Galdino

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I started a joke, which started the whole world crying
But I didn’t see that the joke was on me, oh no
I started to cry, which started the whole world laughing
Oh, if I’d only seen that the joke was on me

I looked at the skies, running my hands over my eyes
And I fell out of bed, hurting my head from things that I’d said
’Til I finally died, which started the whole world living
Oh, if I’d only seen that the joke was on me.
(Bee Gees)

“Passamos a amar nossas paixões e razões de esquerda, nossas análises e convicções de esquerda, e as amamos mais que o mundo existente que supostamente estamos tentando modificar nesses termos […] A melancolia de esquerda, de maneira resumida, é o nome que Benjamin dá a um apego conservador, fúnebre e orientado para o passado que tem como objeto um sentimento, uma análise ou uma relação que se coisificou e congelou no coração da pessoa que se reconhece de esquerda” — Assim Wendy Brown apresenta a melancolia de esquerda em 1999, em um texto chamado “Resisting Left Melancholy” (“Resistindo à Melancolia de Esquerda”).

Todo o ponto do texto é oferecer um diagnóstico da esquerda de seu tempo a partir de uma perspectiva psicanalítica: há uma perda, essa perda não é reconhecida ou compreendida adequadamente, o apego ao objeto dessa perda dolorosa permanece de alguma forma, o sujeito não segue em frente e passa a viver estranhamente orientado para o passado. E a coisa não para aqui: “A ironia da melancolia, é claro, está no fato de que o apego ao objeto de uma perda dolorosa ultrapassa qualquer desejo de recuperação dessa perda, de viver uma vida livre dela no presente, de deixar esse fardo para trás” (W. Brown).

No caso em questão, o objeto de amor que se perde não tem mais a ver com relacionamentos humanos, mas com a relação entre sujeitos e objetos especificamente políticos: “Certamente, as perdas — relatáveis ou não — da Esquerda são muitas em nosso tempo. A desintegração literal dos regimes socialistas e a perda de legitimidade do Marxismo talvez sejam os menores dos problemas.

Estamos submersos na perda de uma análise e um movimento unificados, na perda do trabalho e da classe como predicados invioláveis de análise e mobilização políticas, na perda de um movimento progressivo da história que seja científico e inexorável, e na perda de uma alternativa viável à política econômica do capitalismo. E, montadas nessas perdas, temos outras: perdemos qualquer senso de uma comunidade internacional de esquerda, e, frequentemente, até de uma comunidade local; […] não temos uma visão político-moral rica para orientar e sustentar o trabalho político. Assim, sofremos não apenas com o sentimento de um movimento perdido, mas também de um momento histórico perdido; não apenas uma coerência teórica e empírica perdida, mas também um modo de vida e um curso de atividades perdidos” (W. Brown).

O passar do tempo não trouxe a emancipação prometida e as chances foram perdidas em projetos de governo que não trouxeram qualquer utopia dos Céus. Essa utopia não veio pois é isso que fazem as utopias: esquemas imaginários que apresentam mundos justamente como bons demais para nós. Ainda assim, o sonho acabou. Aquele sonho e aquela promessa. Há uma perda profundamente dolorosa para a esquerda na ruptura do fio que ligaria um passado povoado de revoluções, internacionais e proletários a um futuro emancipado.

É claro, essa promessa nunca se fundamentou em nada além de más análises, desejos e esperanças. Ainda assim, havia algo de insuperável em seu valor. Como diz W. Brown: “Mas, no núcleo vazio de todas essas perdas, talvez no lugar de nosso inconsciente político, não há uma perda que não é reconhecida — a promessa de que o compromisso e a análise de esquerda forneceriam aos seus adeptos um caminho claro e certo em direção ao bom, ao certo e ao verdadeiro?

Não é essa promessa que formou a base de boa parte de nosso prazer em estar na Esquerda, de nosso amor próprio enquanto pessoas de esquerda e de nossa afeição pelas outras pessoas de esquerda? E, se esse amor não pode ser deixado para trás sem uma demanda por uma transformação radical do próprio fundamento de nosso amor, de nossa própria capacidade de nos apegarmos ou amarmos politicamente, não estamos nos condenando à melancolia de esquerda, uma melancolia que certamente produzirá efeitos que não são apenas dolorosos, mas também autodestrutivos?”.

Seja por um desdobramento inevitável da História, seja pelas desventuras messiânicas da classe trabalhadora, seja pela relação imaginada natural entre a racionalidade de esquerda e o progresso, há um futuro que a esquerda pensa estar sempre porvir desde que nada fique no caminho. Mas, esse futuro nunca chegou, e sua perda nunca foi propriamente assimilada porque dezenas de explicações e tentativas de racionalização — eventualmente transformadas em receitas argumentativas e em modelos para análise de conjuntura — foram mobilizadas para cobrir o vazio, sempre no mesmo sentido: ‘não podemos estar fundamentalmente errados, nosso fracasso veio pelas mãos de outro’. A perda do fio histórico não impediu que se formasse toda uma fantasmagoria a partir do “era para ser” e do “deveria ter sido”. Todo o violento ressentimento que encontramos na esquerda contra o “povo” ou a “massa” pode ser traduzido como ‘se não fosse por vocês, estaríamos no Paraíso!’ (como na fórmula que encontramos no desenho animado Scooby-Doo).

Há uma certeza de que ser de esquerda, de alguma forma, é aquilo que nos torna superiores e dignos de um futuro melhor. Essa certeza se desdobra em outra: depois que nos tornamos de esquerda, basta continuarmos sendo de esquerda e fazendo coisas de esquerda e o progresso virá (porque já encontramos o Caminho).

Mas, o presente que efetivamente temos é caracterizado justamente pelo fracasso dessas certezas — quando se age sem assimilar esse fracasso, é como se o que se perdeu permanecesse de alguma forma invencível. Os comportamentos imaginados de esquerda evidentemente mudam. Mas, o amor ao “ser de esquerda” (à identidade de esquerda) é uma constante. Mundos podem frequentemente mudar sem que certas identidades mudem também. Uma identidade frutífera em um mundo pode nos deixar politicamente impotentes em outro. E, além disso, uma melancolia pode nos capturar e podemos nos apegar de maneira intensa e violenta a uma identidade que já não podemos mais carregar porque transformações significativas são exigidas.

Assim, nosso amor pode ficar aprisionado em um realismo que vai aparecer como idealismo para o resto. Não se enxerga outra possibilidade que não o apego de sempre às coisas de esquerda de sempre: se deixarmos certos fardos para trás, vamos acabar com a possibilidade do futuro desejado vir. Mas, como um olhar voltado para o passado e informado por fantasmas de um mundo que não vivemos poderia sequer reconhecer esse futuro? Como se pode construir um futuro radicalmente distinto quando o passado é arrastado de um lado para o outro e o presente é sumariamente ignorado quando contradiz o desejo?

A ausência de reconhecimento do que significa a perda política que se sofreu é justamente aquilo que permite um apego excessivo ao que já foi derrotado— como se pudéssemos tentar de novo e de novo até aparecer uma verdade no real correspondente à verdade do ideal. Com isso, só podemos cair novamente no lugar onde já estamos, só que menos potentes. Quando foi que o grito “não passarão” se tornou uma expressão de fraqueza e certeza da própria força ao mesmo tempo? Quantas pessoas precisarão passar até que esse grito ritualizado seja abandonado junto com o que o sustenta? Percebe-se ao menos que elas estejam passando sem maiores dificuldades? É mais fácil deixar passar que abandonar o rito.

O circuito de gozo da desalineação

O que se poderia chamar de “ativismo” da maior parte da esquerda se encontra em um circuito de gozo que só não parece detestável para quem está gozando (como como manda a cartilha de educação sexual de nossa sociedade patriarcal): piadas sobre como as pessoas de direita (e todas as pessoas do mundo que não se identificam como sendo de esquerda são automaticamente heteroidentificadas como de direita) são estúpidas, ignorantes, alienadas; piadas sobre como nosso presidente é estúpido, ignorante, alienado; um mar de “nós avisamos” e “eu avisei”; culpabilização recorrente de algum outro fantasmático; constante reprodução de confirmações midiáticas de que o governo é aquilo que dizemos que ele é (e que ele mesmo diz que é); obsessão em apontar contradições para demonstrar racionalmente que o pior é o pior; análises paranoicas e teorias da conspiração; demarcação de território e exibição estética de uma identidade de esquerda mesmo quando já sabemos definitivamente quem se imagina o quê; e por aí vai. E já se pode até mesmo gozar através do gozo alheio: a nova tendência é compartilhar outras pessoas praticamente anônimas ironizando, “lacrando” ou questionando algo que o presidente, seus ministros e seus filhos dizem.

Em certo sentido, tudo isso se enquadra em demarcação e exibição identitária: é preciso mostrar diariamente a “superioridade” moral, estética, política e cognitiva da esquerda. Não importa se esses inferiores nos governam, devemos rir deles como se fossem garotos encurralados no canto da sala, incapazes de qualquer coisa além de nos reconhecer como poderosos. Não importa se não somos suficientemente inteligentes sequer para sair do lugar, os idiotas só podem ser os outros

A defesa engessada de uma hierarquia espiritual, que parece indispensável para uma identidade de esquerda, apenas revela a falta de qualquer projeto de emancipação que não seja uma variação do delírio iluminista: vamos emancipar as pessoas tornando elas desalienadas e racionalmente purificadas — mas como? Tornando todas elas de esquerda. E há quem se pergunte por que esse narcisismo excessivo não convence. Citando W. Brown: “[…] um narcisismo no que diz respeito aos apegos políticos e às identidades políticas do passado que excede qualquer investimento contemporâneo em mobilização política, alianças e transformação”.

Sobra um excesso de culpa que não parece apropriado nem para uma igreja e que lança o discurso para o campo da moralidade e do moralismo. E não apenas os que estão fora da esquerda que devem ser culpados: há sempre a própria esquerda para punirmosO pós-modernismo, as políticas identitárias, os degenerados, os que fazem o “jogo da direita”, as pessoas que duvidam, o sectarismo… Os outros dentro do Mesmo, que se juntam aos outros que estão fora: do capitalismo ao Whatsapp, da ignorância de uma sociedade colonial aos excessos democráticos das pessoas que se revoltam sem partido. Há sempre algo rondando a missão de esquerda, um sabotador indestrutível que se torna o alvo infinito do discurso oposicionista.

Ocasionalmente, a espectralidade da coisa ganha contornos inacreditáveis: como as tais milhões de pessoas que se ausentaram das eleições e que não fizeram a coisa certa. Por algum motivo, há quem acredite que todas essas pessoas são algum tipo de agente político unificado e deliberadamente covarde (em cima de um muro imaginário). No entanto, ninguém se preocupou em interrogar esses sujeitos ou mesmo saber quem são — eles são perfeitos enquanto uma massa de modelar para castigarmos pelo tempo que quisermos. Como disse W. Brown: a “estrutura desejante é punitiva”.

É curioso como o mais fantasmagórico dos inimigos consegue inviabilizar todos os sonhos da esquerda. Há um ódio constantemente mobilizado contra fantasias que devem pagar pela perda do objeto amado, pela impossibilidade de cumprimento da promessa. Mas, justamente por conta da estrutura melancólica em operação, o fracasso e a impossibilidade não levam a uma transformação. É preciso dizer “eu avisei” mais uma vez em meios às cinzas do mundo que foi. Também impressiona a quantidade de vezes que algo pode ser repetido, pela mesma pessoa e para as mesmas pessoas.

Esse espetáculo do mesmo, que nada tem a ver com não mexer no time que está ganhando, estabelece o recorde de impotência com o discurso que se limita a dizer que uma pessoa terrível fez ou disse mais uma coisa terrível. Se Žižek tem razão quando recomenda que nos afastemos da pressão por um pseudoativismo, talvez esse seja o melhor exemplo. Há urgência em dizer o óbvio e irrelevante. “Olha, um fascista disse algo fascista! Vamos dizer que ele é um fascista! Não é preciso agir ou dizer qualquer outra coisa!”. Para que serve todo esse ativismo tautológico? Para que dizer as mesmas coisas por oito meses? Para que se manter na impossibilidade de que esse mesmo resulte em diferença?

Há uma quantidade assustadora de discursos congelados e prontos para consumo, argumentos pré-definidos, respostas, “críticas”, slogans e receitas de manifestação e organização — e zero preocupação com a eficiência disso tudo. Temos “[…] uma Esquerda que opera sem uma crítica radical e profunda do status quo ou uma alternativa atraente à ordem atual das coisas.

No entanto, e isso talvez seja ainda mais perturbador, trata-se de uma Esquerda que se tornou mais apegada à sua impossibilidade que à fecundidade que tem em potencial, uma Esquerda que está mais confortável habitando sua própria marginalidade e fracasso […]” (W. Brown). O desejo da própria marginalidade, em um contexto político como o nosso, não pode ser visto como um desejo pelo obscuro, pelo estranho ou gritantemente alternativo. Em geral, a esquerda é viciada em visibilidade, em aparecer a todo custo mesmo sem ter nada além da própria aparição para mostrar, em exibir todo o mesmo de sempre que já é irritantemente familiar e afastar as alternativas.

Na falta do estranho, perigoso ou surpreendente, ficamos com o óbvio, o autoevidente, o tradicional. A previsibilidade colabora com a patrulha, com a pseudocrítica e com a punição. Está tudo muito claro — então onde pode haver marginalidade? Nos objetivos maiores. O sucesso nos ritos internos não tem garantido o sucesso do empreendimento. Não importa quantas pessoas sejam recrutadas semestralmente para a esquerda, os fracassos se acumulam e os que “não passarão” permanecem passando de forma tranquila.

A esquerda se imagina marginal porque está sempre sendo combatida pelo status quo e pelas pessoas que se deixam contaminar por ele, e não faltam pessoas descompromissadas com o conhecimento se fantasiando hackeadas pelo governo, até mesmo diante de problemas técnicos banais nas tecnologias de uso cotidiano. Os outros não apenas são os culpados pelos seus fracassos, mas se encontram alinhados a algo maior e mais poderoso. Não é por acaso que há tanta teoria da conspiração circulando por perfis progressistas: filósofos trabalhando para a CIA, infiltrações nazistas, manifestações compradas etc.

Por outro lado, esses comportamentos todos (religiosos, políticos, mágicos e mesmo os humorísticos) não guardam qualquer mal intrínseco. O humor e as piadas, por exemplo, não são condenáveis por si. Combater o tédio e a chatice deveria ser algo fundamental na esquerda. Mas, quando rimos por desespero e por falta de perspectiva, não revelamos algo alegre — exibimos nossa tristeza e impotência. É perfeitamente compreensível que abusemos de mecanismos de defesa que nos permitam rir mesmo nas situações mais sombrias. Mas, o humor, assim como outras coisas, anda servindo excessivamente para manter nosso estado melancólico. O outro lado não nos manda rir menos, mas “chorar mais”. Nós somos a piada.

A ideia de que algo é necessariamente ruim frequentemente aparece no discurso de esquerda como se algumas coisas fossem necessariamente de direita. Trata-se de um essencialismo nocivo por razões simples: grupos de direita não se importam em geral com isso e se apropriam constantemente de “coisas de esquerda”; a desconsideração radical das consequências do comportamento contribui para a impotência política e para o enfraquecimento; o tempo e a história perdem qualquer relevância quando não confirmam o familiar. Mas, o familiar deve ser sempre o primeiro alvo do discurso crítico. Quando algo congela ou se coisifica, para usar os termos de W. Brown, o pensamento crítico desaparece. Assim, a mera oposição ao que se imagina negativamente é mascarada para assumir o lugar do que desapareceu. “Senso crítico” é o que atualmente associamos às pessoas que simplesmente repetem todas as fórmulas principais da “oposição” (e aí imagina-se que não há nada de crítico no discurso que não é de esquerda).

Assim, a esquerda cada vez mais parece o inverso do que ela imagina e diz ser. E essas armadilhas podem capturar também as pessoas que não se identificam com o essencialismo ou que evitam o discurso essencialista. Como o ponto inicial desse tipo de preocupação normalmente é uma metafísica opressora, o essencialismo pode frequentemente parecer um problema que afeta apenas minorias políticas. Só que a essencialização pode se voltar para qualquer identificação.

E, quando o cotidiano político é afetado pela identificação cristalizada com todo um mundo de coisas imaginadas e recebidas como sendo de esquerda, a ação política perde seus poderes mais perturbadores e o discurso fica excessivamente leve. O resultado disso é que, de maneira geral, o cotidiano das pessoas comprometidas com todo esse “ativismo” de esquerda cobre o acampamento inimigo — não como uma sombra ameaçadora, mas como um campo de proteção. O governo não parece se sentir ameaçado pela esquerda, embora imagine que o mundo esteja constantemente ameaçado por ela.

A inversão proposta por Žižek me parece indispensável: parar de tentar transformar o mundo e começar a pensar. Pensar em como o que tem sido feito e exibido incessantemente como sendo de esquerda tem sido inútil para transformar. ‘Mas é preciso fazer alguma coisa’. Certamente não é preciso continuar afundando na mesma areia movediça — a não ser que se deseje isso. O desejo de transformar precisa ser emancipado. E isso significa emancipá-lo das identidades impotentes de esquerda. “Bem, mas é melhor fazer algo que nada”. Esse nada só pode assombrar quem não enxerga além da própria satisfação melancólica — e só pode fazer sentido como oposição ao que se faz por uma distorção narcísica. Podemos simplesmente nos afastar de todos esses “pelo menos é alguma coisa”. Nada mais liberal que um “pelo menos” individual, como se toda a política se resumisse a dizer ‘eu economizo água’ para supostamente salvar o planeta.

Há muitas pessoas, organizações, coletivos, comunidades por aí realizando um trabalho cotidiano sem precisar gritar aos quatro ventos “eu sou de esquerda!”, sem precisar exibir de modo constante e discursivo todo o seu pertencimento essencializado a uma categoria, sem precisar do nome “esquerda” para poder dizer que algo é politicamente bom, sem precisar discutir sem parar o que e quem é de esquerda ou não é. E, frequentemente, esse trabalho é deslegitimado, ridicularizado ou rejeitado porque não encontramos ali uma sinalização clara de esquerda (ou uma abertura para isso). Até mesmo o desinteresse em todos os slogans, panfletos, ritos, vícios discursivos e narcisismos atrelados à identidade de esquerda chega a ser compreendido como um sinal de pertencimento à uma direita idealizada. 

‘Como é possível que essas pessoas não queiram ouvir a Palavra?’. E, quando esse desinteresse não é respeitado e o conflito emerge, vem também a tentação de classificar as pessoas como “fascistas”. Por conta da fantasia de que ser de esquerda ou direita é uma questão de cálculo e construção de gráficos, perde-se de vista que o que queremos dizer quando dizemos “sou de esquerda” passa longe de se resumir às pautas ou causas que defendemos. E, quando encontramos alguém que simplesmente não se identifica com o que aparece para ela como sendo de esquerda e de direita (e isso pode sequer envolver pautas e causas), ela logo é transformada em uma pessoa de direita em uma manobra que só parece fazer sentido se pensada como uma tentativa de dizer que uma boa pessoa só tem uma escolha: assimilar a nossa identidade e entrar em nossos circuitos de gozo.

As instituições e a guerra contínua

Até quando a esquerda, especialmente a institucional, vai fingir que não há guerra e, consequentemente, não há necessidade de uma lógica de guerra? Enquanto o outro lado se empenha em destruir tudo que a própria esquerda valoriza e faz isso sem qualquer oposição significativa dessa mesma esquerda, encontramos uma repetição constante e vazia de “é preciso resistir” e “serei resistência”, gritos de “não passarão” vindo de observadores distantes, gráficos e dados sendo exibidos como se fosse ainda preciso convencer alguém de alguma coisa. 

De que serve um soldado que vai à guerra carregando resultados de estudos sobre o fato de que o inimigo deve ser combatido? Sua ineficiência não reside intrinsecamente no que carrega, mas em sua falta de atenção ao que ocorre em seu redor (como uma pessoa que responde com toda seriedade uma pergunta retórica). Na urgência de entregar um resultado, vemos uma apresentação correta, porém inútil. O tempo de dizer algo sobre o mundo já deveria ter acabado.

O problema da cristalização de valores, discursos, hábitos, identidades etc. é precisamente esse: não se considera mais a possibilidade de abandonar qualquer uma dessas coisas em nome da eficiência e da mudança. Há um apego a certo heroísmo que é compreensível: queremos morrer gritando que estamos do lado certo da história. Normalmente o foco da ficção é no herói e nas pessoas ao seu redor, que podem se inspirar nesse gesto simbólico — e não vemos o que acontece com todo resto. E é nesse todo resto que vamos verificar a ininteligibilidade do gesto, de modo que ele não pode servir de símbolo a não ser para as pessoas que também o realizariam.

Pessoas dispostas a defender com todo vigor as fronteiras da própria identidade enquanto o mundo desmorona se tornam supérfluas. Formar alianças militares com quem essencializa estratégias é simplesmente um erro. E, quando as pessoas se tornam dispostas a deixar tudo morrer para gritar “eu avisei”, elas passam a ser parte do problema, e não de uma solução ineficiente. O uso do termo “pessoa” se deve apenas à economia da linguagem: o que há para ser combatido é a disposição, e uma disposição pode sempre estar em nós.

“Não é hora para críticar”

O caso recente de A. Frota é exemplar: insatisfeito com os rumos do governo e de seu ex-partido, não fingiu que nada acontecia por medo de “fazer o jogo da esquerda” ou “dar munição para o discurso de esquerda”. Frota não apenas teve a coragem de questionar o partido e exigir uma prestação de contas, como não esconde seu passado por conta de um moralismo cristão qualquer. E, mesmo as comunidades cristãs são capazes de receber pessoas arrependidas ou que decidiram mudar suas vidas — elas não criam páginas para ridicularizar tudo isso e manter distância. E é preciso sempre lembrar o óbvio: ninguém nasce de esquerdaOs tribunais virtuais estão abarrotados de pessoas que agem como se não houvesse nada além do presente.

De todo modo, ainda encontramos medo de autocrítica e crítica em abundância nos círculos e organizações de esquerda. Há ainda quem se desespere com a possível exposição de fragilidades (como se elas não estivessem disponíveis para todo mundo ver) ou com danos irreparáveis a uma unidade inexistente (e que, do modo como é imaginada, nunca existiu e nem poderia existir). “Não é hora para criticar” se tornou um mantra. Novamente, a ciência do momento serve para que nunca aconteça qualquer coisa.

O medo de perder ainda mais é injustificável quando há cada vez menos a perder. E ele poderia até ser justificado se fosse acompanhado de uma tentativa sóbria de vencer. Aqui, ele revela apenas um apego à marginalidade e um desejo conservador. A melancolia é inimiga da construção de futuros. Temos cada vez menos a oferecer. A lógica do “mal menor” está nos acostumando com a mediocridade, a covardia, o clichê. “Antifascismo” e “resistência” se tornaram termos praticamente vazios que podem ser associados a qualquer coisa: de ler livros a policiais. Não é mais preciso agir politicamente: basta falar, fazer coisas usuais, fazer propaganda, tirar uma selfieÉ possível, para quem quer que assim deseje, adotar uma identidade antifascista sustentada exclusivamente no discurso, de modo que a ação antifascista pode ser plenamente substituída. Afinal, “pelo menos é alguma coisa”.

A aversão à utilidade e à eficiência, um dos elementos mais importantes da herança iluminista, cai bem quando não há uma guerra em curso, ainda que, há muito tempo, ela tenha servido a uma guerra cultural promovida contra a burguesia e seus valores. Mas, com o enraizamento da melancolia, essa aversão encontra um outro medo. O medo de vencer. E de vencer coletivamente, de sair desse “pelo menos é alguma coisa” e abandonar o gozo da masturbação intelectual e identitária.

É preciso também gozar com vitórias — no lugar de celebrar o “menos pior” ou todo tipo de mudança que não move estrutura alguma. Uma guerra entre formas de vida, entre mundos, demanda algum abalo estrutural. Trata-se de algo que já foi mais significativo em uma política de esquerda e atualmente se encontra apropriado pelo novo populismo de extrema-direita. É ele que pode se dizer contra o sistema, ainda que isso não vá além de um posicionamento discursivo, e de um poder dizer que, assim como na esquerda, não se fundamenta na ação.

Para todos os efeitos, a esquerda institucional ocupa uma posição conservadora: a imagem que se tem dela é a de alguém que deseja isso tudo que está aí, seu discurso é excessivamente voltado ao presente e ao medo do futuro, suas políticas parlamentares não vão muito além de um reformismo tímido. Felizmente, a nova direita também não tem nada radical e positivo para oferecer para além da sensação de que o sistema está sendo enfrentado. Infelizmente, quando isso se tornar autoevidente para além da esquerda e dos arquitetos do Movimento, ainda será preciso propor algo no lugar.

As pessoas odeiam isso que chamamos “sistema”. As pessoas vivem as crises enquanto os bancos são salvos. Steve Bannon sabe disso. Ainda assim, o diagnóstico usual de esquerda é que essas pessoas são as “alienadas” que morreriam pelo sistema. Mas, já não se diz tanto isso porque há um esforço de esquerda que visa combater esse sistema, pois o esforço é direcionado à defesa dessas velhas instituições sob a justificativa da ameaça fascista. Defendem-se eleições, tribunais, mídia corporativa, códigos arcaicos de ética e decoro, ensino escolar. Contra o fascismo, só é possível defender a democracia, essa máquina que só funcionou até agora quando alimentada pela destruição ambiental, pelo genocídio das populações indígenas e negras, pela reprodução de todo tipo de violência e precarização. Onde foi parar o discurso que coloca isso tudo em questão?

Não há mais tempo para ele: torna-se urgente retornarmos ao ponto onde o problema começou, como se o futuro cancelado do iluminismo fosse finalmente aparecer depois de reiniciarmos o jogo mais uma vez. Enquanto isso, o fascismo desce e sobe no seio da mesma democracia (e isso ocorre desde antes da Segunda Guerra). De que serve uma “resposta nas urnas” em 2022 (a esquerda institucional é especialmente encantada com a própria ciência do momento oportuno) se tudo pode retornar em 2026? Ou, da próxima vez, a esquerda no governo finalmente fará alguma coisa para combater a extrema-direita, ao invés de facilitar sua circulação enfraquecendo o real movimento antifascista?

E, ainda que isso ocorra, será minimamente suficiente? E se for, isso significa que finalmente viveremos o sonho social-democrata? E, de todo modo, o que fazemos com a guerra que ocorre neste exato momento? A melancolia de esquerda a torna radicalmente conservadora em termos de futuro e especialmente impotente para uma batalha. Isso não se resolve recuperando o que foi perdido, mas construindo novas análises, tarefas, coerências e formas de vida a partir deste mundo e do que há entre ele e outros mundos.

O núcleo da melancolia da esquerda

“A minha ênfase na lógica melancólica de certas tendências contemporâneas de esquerda não significa que recomendo terapia como uma forma de responder a essas questões. No entanto, ela sugere que sentimentos e emoções — incluindo mágoa, raiva e ansiedade envolvendo promessas não cumpridas e bússolas perdidas — que sustentam nossos apegos às análises e aos projetos de esquerda devem ser examinados por conta dos aspectos potencialmente conservadores e até mesmo autodestrutivos de encontramos por trás de objetivos políticos aparentemente progressistas” (W. Brown).

A terapia sequer poderia ser uma recomendação aqui por um motivo simples: ela é individual. Há um excesso individualista na esquerda que nos desorienta a todo momento, especialmente pelo individualismo pertencer ao terreno ideológico deste mundo. Se nos colocamos a pensar sobre o que fazer diante de uma crise, há sempre quem tente congelar esse pensamento para poder dissecá-lo pseudocriticamente. Como se tudo se resumisse a uma disputa entre indivíduos ou entre organizações imaginadas como indivíduos.

No presente momento, pouco importa quem faz a análise correta. A análise é uma ficção. A conjuntura é uma ficção. Chega a ser assustador que passe pela cabeça de alguém que uma única pessoa ou organização pode realmente oferecer uma análise fechada de uma realidade como a nossa. Como consequência disso, todo tipo de reducionismo, distorção e idealização pode ser tomado como retrato do real. Além disso, toda a análise que eu poderia oferecer não passaria de um convite: “vamos nos encontrar e pensar esse tipo de coisa?”. Toda ficção é um convite. Textos não são soluções e as soluções não existem: elas precisam ser encontradas coletivamente.

Por outro lado, parece cada vez mais inútil (ou mesmo desesperador) fazer certos convites. Ainda no período eleitoral, quando se tornou praticamente incontornável a vitória do atual governo, abundaram soluções individuais e agradáveis para o narcisismo de esquerda: convencer pessoas aleatórias na rua, discutir com parentes e apresentar dados sobre como a esquerda era melhor. Houve quem defendesse (publicamente!) que as tais “massas alienadas” não fossem tratadas como tais durante o convencimento, como se a melhor tática de esquerda fosse fingir a inteligência do outroEvidentemente, esses outros foram rapidamente descartados quando o pesadelo se consolidou, retornando ao seu lugar usual como alvos de ressentimento.

Desde então, passados oito meses de governo, praticamente nada mudou. Podemos imaginar a surpresa das pessoas que ouviram que o fim do mundo estava próximo quando elas perceberam que ninguém passou a agir como tal. E, não apenas isso, continua o discurso de que o pior está sempre porvir: ‘estava ruim, mas ficará pior com essa nova lei’. Esse tipo de análise seria inofensiva se não servisse para dizer que nada está insustentável. O inaceitável está sempre no futuro. 

Em oito meses, nada serviu para perturbar suficientemente a esquerda: ela pode continuar com o espetáculo do mesmo e nenhuma transformação se fez necessária. E o mesmo de um lado revela o mesmo do outro: nosso inimigo continua sendo nosso inimigo, continua falando coisas terríveis, continua destruindo tudo que amamos. Mas, há mais amor pelas identidades e análises de esquerda e isso ele não pode destruir. Fazendo as contas, não há mais o que dizer: queremos o governo que temos e só deixaremos de querer quando outro pior aparecer. Só podemos nos confundir com uma imagem cristalizada se as mudanças no mundo não nos demandarem mais nada, pois é ele que deve girar ao nosso redor.

Ninguém quer ouvir que deseja algo assim. ‘Somos oposição ao governo!’. São? Que compromisso podemos encontrar e que revele, sem nenhuma sombra de dúvida, que a esquerda, especialmente a institucional, esteja fazendo qualquer coisa para acabar com o governo? E as seitas que acreditam que o governo deve seguir até 2022 para que a sua “derrota” seja democrática? Até mesmo o apocalipse se tornou modismo, palavra vazia, marca a ser valorizada. Todo o terror que esse governo nos traria e nos trará não é suficiente? Não viveríamos o retorno da ditadura, finalmente? Alguém certamente dirá: ‘ainda não é a ditadura, mas, se isso aqui ocorrer, aí sim’. Há toda uma hermenêutica especializada nos sinais desse retorno. Os sacerdotes da esquerda anualmente nos dizem: a ditadura finalmente voltará.

Depois que se percebe que as profecias não se cumprem, e que há coisas muito piores que ditaduras para acontecer (especialmente na história do Brasil), sobra uma questão muito simples: que tipo de desejo está envolvido nesse ativismo profético? Podemos olhar para o modo como todo movimento pela liberdade do ex-presidente Lula recusa qualquer engajamento com algo que possa realmente libertá-lo, ao mesmo tempo que recusa seguir em frente. Essa dupla recusa reside no núcleo da melancolia de esquerda. As pessoas chegam mesmo a confiar na exata mesma justiça que elas acusam, da mesma forma que acreditam que nossas instituições democráticas podem nos salvar do fascismo, mesmo quando ele é recebido democraticamente.

E há também um limite de espera pelo luto. Deve-se esperar mais oito meses? Até quando vamos continuar segurando a mão de pessoas que simplesmente não abrem mão do que são? Se elas amam mais suas identidades que as outras pessoas ao seu redor, então até onde vale a pena o esforço? Esse misto de cristianismo com liberalismo que tanto nos consome sempre exige salvação universal para que não salvemos nada e ninguém.

Ele demanda que carreguemos, de um lado para o outro da trincheira, os fantasiados de herói, os que carregam gráficos, os armados com título de eleitor, os que olham para trás, os crentes iluministas, e todos os que não aceitam que governos de esquerda não levam necessariamente a lugar algum, que democracias não se desdobram logicamente em utopias racionalistas etc. Todos esses realistas esclarecidos afundados em melancolia, narcisismo e ressentimento nos querem impotentes, dependentes de suas leituras de conjuntura, cheios de raiva dos “inferiores”.

Até quando segurar a mão de quem ainda deseja a manutenção da crise como forma de manutenção identitária? Até quando a solidariedade reforçará melancolias coletivas? O espetáculo do mesmo promovido pela esquerda trará resultados diferentes nas próximas eleições ou nos trará algo ainda pior? Quem tem o privilégio de esperar para ver? E o que chamamos de “bolsonarismo” como fenômeno cultural, sem o qual não haveria guerra alguma? E, mais importante: de onde vêm os discursos que adotamos cotidianamente? Discursos não surgem no vácuo. 

É preciso sempre perguntar se uma nova orientação, análise, demanda ou “crítica” que nos aparece como sendo de esquerda se adequa à nossa experiência do mundo — e não realizar o movimento contrário. Isso é especialmente relevante quando as preocupações veiculadas afetam primariamente membros de um alto escalão qualquer da política. Se chega até nós que “não é hora” de tal ou tal coisa, até onde devemos tomar os argumentos que sustentam essa afirmação como nossos, por medo de não sermos suficientemente de esquerda?

E, é claro, não faz sentido imaginarmos que tudo aquilo que nos imobiliza vem de um novo outroMais importante que a engenharia reversa das nossas construções discursivas é enfrentar o impossível em nós: aquilo (que imaginamos) que sabemos ser impossível dizer respeito ao nosso cotidiano político. É abrir todas as portas marcadas com um “V”, investigar tudo que há de não-pensado no pensamento, como dizia Foucault (e não é por acaso que a ortodoxia conspiratória o transformou em uma espécie de agente do imperialismo — o “fazer o jogo da direita” de antigamente).

Assim, a própria identidade política pode se tornar uma questão. Uma questão real, e não o fantasma de um “identitarismo” ou “política identitária”, recorrentemente conjurado pela mais tradicional esquerda — que, nos dias de hoje, dificilmente encontra tarefa mais relevante que a manutenção e exibição de sua própria identidade, algo que não poderia deixar de envolver a afirmação de que a política identitária é sempre do outro. Pode parecer abstrato, mas não há nada de incomum em se acusar o oponente político daquilo que se é.

Os que reclamam de sectarismo costumam trabalhar continuamente pela manutenção desse mesmo sectarismo, por exemplo: basta tornar a unidade inviável sem a submissão violenta do outro. De todo modo, é apenas tornando a identidade uma questão que podemos sair da perspectiva que nos mostra aquilo com o qual nos identificamos como sendo a única possibilidade para nós. Nosso realismo é o que deve mudar, como ocorre com uma pessoa negra que se liberta de todo tipo de identificação com teses metafísicas racistas sobre a natureza humana, com destinos impostos pela hegemonia, com atribuições de lugares e funções sociais etc. E isso serve para toda e qualquer pessoa que se identifica politicamente de uma maneira ou outra.

A melancolia de esquerda funciona porque a identidade permanece inviolável. Mesmo com a perda dos objetos de nosso amor político, temos certeza de que ainda precisamos deles para nos orientarmos no mundo, para nos relacionarmos com outras pessoas e para nos olharmos no espelho. Há até quem sinta prazer em se ver como um sujeito deslocado no tempo, uma máquina obsoleta, uma ruína que se preserva em nome do que deveria ter sido. O que é preciso descobrir não é a falta de necessidade de certos vínculos imaginários, mas a contingência dos objetos. “Até que eu finalmente morri, o que fez com que o mundo começasse a viver”, dizem os Bee Gees.

O que nós tomamos como sendo o que somos agora pode morrer — e deve morrer para a emancipação do desejo de transformação. Talvez seja necessário soltar certas mãos para que elas façam o luto adequado desse futuro esclarecido que nunca veio e de todo o resto que ficou no passado. Talvez seja preciso soltar certas mãos para que elas não nos puxem de volta para os circuitos, vícios e automatismos que enclausuram o gozo e o desejo de esquerda — ou o gozo e o desejo ainda sem nome.


Fonte: http://partidopirata.org/soltar-maos/

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