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Comunidade Partido Pirata do Brasil

23 de Julho de 2009, 0:00 , por Software Livre Brasil - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
O Movimento do Partido Pirata do Brasil, surgiu graças a uma corrente teórica que se espalhou pela região do euro, uma teoria que tenta focar a sociedade para seu desenvolvimento, priorizando o Conhecimento, a Cultura e a Privacidade. Nós queremos apresentar ao povo brasileiro uma nova maneira de se fazer política, mas para isso acontecer precisamos do seu apoio. Venha junte-se a resistência!

Utopia é um ideal perigoso. Melhor buscar a Protopia

23 de Janeiro de 2020, 20:35, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

por Michael Shermer

pirateado da Aeon

Utopias são visões idealizadas de uma sociedade perfeita. Utopianismos são aquelas ideias colocadas em prática. É aí que o problema começa. Thomas More cunhou o neologismo Utopia para o seu trabalho de 1516, considerado como aquele que lançou o gênero literário moderno por uma boa razão. A palavra significa “nenhum lugar” porque quando humanos imperfeitos buscam a perfeição – pessoal, política, econômica e social – eles falham. Portanto, o espelho negro das utopias são distopias – experimentos sociais que falharam, regimes políticos repressivos e sistemas econômicos opressivos que resultam de sonhos utópicos postos em prática.

A crença de que humanos são capazes de atingir a perfeição levam, inevitavelmente, a erros quando ‘uma sociedade perfeita’ é desenvolvida para uma espécie imperfeita. Não há uma maneira melhor do que todas a outras para viver porque há muitas variações de como as pessoas querem viver. Portanto, não há uma sociedade que seja melhor, apenas múltiplas variações de um conjunto de temas como ditados pela nossa natureza.

Por exemplo, utopias são especialmente vulneráveis quando uma teoria social baseado na propriedade coletiva, trabalho comunal, governo autoritário e uma economia sob estrito controle colidem com nosso desejo natural por autonomia, liberdade individual e escolha. Além disso, as diferenças naturais em habilidades, interesses e preferências dentro de qualquer grupo de pessoas levam a desigualdades produtivas e condições de vida e trabalho imperfeitos que utopias comprometidas com igualdade de renda não podem tolerar. Como um dos cidadãos originais da comunidade New Harmony em Indiana, no século 19 de Robert Owen, uma vez explicou:

Nós tentamos toda forma concebível de organização e governo. Nós tínhamos um mundo em miniatura. Nós havíamos reencenado a Revolução Francesa diversas vezes com corações desesperados ao invés de cadáveres como resultado… parecia que a própria lei da diversidade inerente na natureza que havia nos conquistado… nossos interesses ‘unidos’ foram direcionados para uma guerra com as individualidades das pessoas e suas circunstâncias, assim como o instinto de auto-preservação.

A maior parte dos experimentos utópicos do século 19 foram relativamente inofensivos porque, sem um grande número de membros, eles careciam de poder político e econômico. Mas acrescente esses fatores e sonhadores utópicos podem se tornar assassinos distópicos. Pessoa agem de acordo com suas crenças e se você acreditar que a única coisa que impede você e/ou sua família, clã, tribo, raça ou religião de atingir os céus (ou de alcançar a terra no céu) são os outros ou algum outro grupo, então as ações não conhecem limites.

Do homicídio ao genocídio, o assassinato de outros em nome de alguma crença religiosa ou ideológica é responsável pelas maiores contagens de corpos na história dos conflitos, das Cruzadas, Inquisição, caça as bruxas e guerra religiosas dos séculos passados aos cultos religiosos, guerras mundiais, pilhagens e genocídios do século passado.

Nós podemos ver que o cálculo entre a lógica utópica e o agora famoso “problema do bonde” (trolley problem) no qual a maioria das pessoas afirma que estariam dispostas a matar uma pessoa para salvar cinco. Aqui está a configuração: você se encontra próximo da bifurcação de um trilho de trem com uma alavanca para desviar o vagão do bonde que está a prestes a matar cinco pessoas no caminho.

Se você puxar a alavanca, ela irá desviar o bonde para um trilho paralelo onde matará uma pessoa. Se você não fizer nada, o bonde mata cinco. O que você faria? A maior parte das pessoas dos países ocidentais esclarecidos hoje concordam que seria moralmente permissível matar uma pessoa para salvar cinco, imagine o quão fácil seria convencer pessoas vivendo em estados autocráticos com aspirações utópicas que matar 1.000 pessoas salvaria 5.000 ou exterminar 1.000.000 para que 5.000.000 talvez prosperem. O que é alguns zeros quando estamos falando sobre felicidade infinita e bençãos eternas?

A falha fatal no utopianismo utilitarista é encontrado em outro experimento mental: você é um espectador saudável passando pela sala de espera de um hospital no qual o médico do Pronto Socorro tem cinco pacientes morrendo de diferentes condições, todas as quais podem ser salvas ao sacrificar você e recolhendo seus órgãos. Alguém gostaria de viver em uma sociedade na qual eles pudessem ser aquele espectador inocente? É claro que não, que é porque qualquer médico que tentasse tal atrocidade seria julgado e condenado por assassinato.

Ainda assim, isso é precisamente o que aconteceu com os grandes experimentos do século 20 em ideologias socialistas utópicas como manifestadas a Russia Marxista/Leninista/Stalinista (1917-1989), Itália Fascista (1922-1943) e Alemanha Nazista (1933-1945), todas tentativas em larga escala de atingir perfeição política, econômica, social (até mesmo racial), resultando em dezenas de milhões de pessoas mortas por seus próprios Estados ou assassinadas em conflito com outros Estados percebidos como bloqueando a estrada para o paraíso. O teorista e revolucionário marxista Leon Trotsky expressou a visão utópica em um panfleto de 1924:

A espécie humana, o Homo Sapiens coagulado, irá uma vez mais entrar em um estado de transformação radical e, por suas próprias mãos, irá se tornar um objeto dos mais complicados métodos de seleção artificial e treinamento psico-físicos… O ser humano médio irá ascender aos limites de um Aristóteles, um Goethe ou um Marx. E sobre esse cume novos picos irão surgir

Esse objetivo irrealizável levou a bizarros experimentos como aqueles conduzidos por Ilya Ivanov, que foi designada por Stalin em 1920 em cruzar seres humanos e gorilas com o objetivo de criar ‘um novo ser humano invencível’. Quando Ivanov falhou em produzir o híbrido de homem-gorila, Stalin a havia sido presa, encarcerada e exilada para o Kazaquistão.

Já quanto a Trotsky, uma vez que ele ganhou poder como um dos sete membros fundadores do Politburo soviético, ele estabeleceu campos de concentração para aqueles que se recusaram a se unir em seu grande experimento utópico, em última instância levando ao arquipélago de gulags que matou milhões de cidadãos russos que também eram creditados como obstáculos no caminho do paraíso utópico que estava à vista. Quando sua própria teoria Trotskista opôs aquela do Stalinismo, o ditador teve Trotsky assassinado no México em 1940. Sic semper tyrannis.

Na segunda metade do século 20, o Marxismo revolucionário em Cambodia, Coreia do Norte e numerosos estados na América do Sul e África levaram a assassinatos, pogroms, genocídios, limpezas étnicas, revoluções, guerras civis e conflitos patrocinados pelo estado, todos em nome de estabelecer um céu na Terra que requeriu a eliminação de desertores recalcitrantes. Tudo somado, algo como 94 milhões de pessoas morreram nas mãos dos Marxistas revolucionários e comunistas utópicos na Russia, China, Coreia do Norte e outros estados, um número abismante quando comparado com os 28 milhões mortos pelos fascistas. Quando você precisa assassinar pessoas nas dezenas de milhões para atingir seu sonho utópico, você alcançou apenas um pesadelo distópico.

A jornada utópica por felicidade perfeita foi exposta como um objetivo falho que segue aquele feita por George Orwell em seu review de 1940 de Mein Kampf:

Hitler … percebeu a falsidade da atitude hedonística em relação a vida. Quase todo o pensamento ocidental desde a última guerra certamente todo pensamento ‘progressista’, assumiram de maneira tácita que seres humanos não desejavam nada além de facilidades, segurança e evitar a dor … [Hitler] sabe que seres humanos não apenas querem conforto, segurança, horas de trabalho curtas, higiene, controle de nascimento e, em geral, senso comum, eles também, pelo menos de maneira intermitente, querem conflito e auto-sacrifício…

Sobre o amplo apelo do Fascismo e Socialismo, Orwell acrescentou:

Enquanto Socialismo e até mesmo capitalismo de maneira mais crua, disseram para as pessoas ‘Eu lhe ofereço um bom tempo’ Hitler disse a eles ‘eu ofereço conflito, perigo e morte’ e como resultado toda a nação se acomodou aos seus pés … nós não devemos subestimar o seu apelo emocional.

O que, então, deve substituir a ideia de utopia? Uma resposta pode ser encontrada em outro neologismo – protopia – progressos incremental com passos buscando aperfeiçoamento, não a perfeição. Como o futurista Kevin Kelly descreve em sua definição:

Protopia é um estado que é melhor hoje do que era ontem, ainda que talvez apenas um pouco melhor. Protopia é muito mais difícil de visualizar. Como a protopia contem tanto novos problemas quanto novos benefícios, essa interação complexa de trabalhar é muito difícil de prever.

Em meu livro ‘The Moral Arc’ (2015 – sem versão em português), eu mostro como progresso protópico descreve melhor os monumentais sucessos morais dos séculos passados: a atenuação da guerra, a abolição da escravidão, o fim da tortura e da pena de morte, sufrágio universal, democracia liberal, direitos civis e liberdades, casamento do mesmo sexo e direitos dos animais. Esses são todos exemplos de sucessos protópicos no sentido que todos eles aconteceram um passo por vez.

Um futuro protópico não é apenas prático, ele é realizável

Michael Shermer é editor do jornal Skeptic, colunista mensal do Scientific American e associado à Universidade de Chapman na California.

Esse ensaio é baseado em Heavens on Earth: The Scientific Search for the Afterlife, Immortality, and Utopia publicado pelo autor em 2018



Utopia é um ideal perigoso. Melhor mirar pela Protopia

23 de Janeiro de 2020, 20:35, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

por Michael Shermer

pirateado da Aeon

Utopias são visões idealizadas de uma sociedade perfeita. Utopianismos são aquelas ideias colocadas em prática. É aí que o problema começa. Thomas More cunhou o neologismo Utopia para o seu trabalho de 1516, considerado como aquele que lançou o gênero literário moderno por uma boa razão. A palavra significa “nenhum lugar” porque quando humanos imperfeitos buscam a perfeição – pessoal, política, econômica e social – eles falham. Portanto, o espelho negro das utopias são distopias – experimentos sociais que falharam, regimes políticos repressivos e sistemas econômicos opressivos que resultam de sonhos utópicos postos em prática.

A crença de que humanos são capazes de atingir a perfeição levam, inevitavelmente, a erros quando ‘uma sociedade perfeita’ é desenvolvida para uma espécie imperfeita. Não há uma maneira melhor do que todas a outras para viver porque há muitas variações de como as pessoas querem viver. Portanto, não há uma sociedade que seja melhor, apenas múltiplas variações de um conjunto de temas como ditados pela nossa natureza.

Por exemplo, utopias são especialmente vulneráveis quando uma teoria social baseado na propriedade coletiva, trabalho comunal, governo autoritário e uma economia sob estrito controle colidem com nosso desejo natural por autonomia, liberdade individual e escolha. Além disso, as diferenças naturais em habilidades, interesses e preferências dentro de qualquer grupo de pessoas levam a desigualdades produtivas e condições de vida e trabalho imperfeitos que utopias comprometidas com igualdade de renda não podem tolerar. Como um dos cidadãos originais da comunidade New Harmony em Indiana, no século 19 de Robert Owen, uma vez explicou:

Nós tentamos toda forma concebível de organização e governo. Nós tínhamos um mundo em miniatura. Nós havíamos reencenado a Revolução Francesa diversas vezes com corações desesperados ao invés de cadáveres como resultado… parecia que a própria lei da diversidade inerente na natureza que havia nos conquistado… nossos interesses ‘unidos’ foram direcionados para uma guerra com as individualidades das pessoas e suas circunstâncias, assim como o instinto de auto-preservação.

A maior parte dos experimentos utópicos do século 19 foram relativamente inofensivos porque, sem um grande número de membros, eles careciam de poder político e econômico. Mas acrescente esses fatores e sonhadores utópicos podem se tornar assassinos distópicos. Pessoa agem de acordo com suas crenças e se você acreditar que a única coisa que impede você e/ou sua família, clã, tribo, raça ou religião de atingir os céus (ou de alcançar a terra no céu) são os outros ou algum outro grupo, então as ações não conhecem limites.

Do homicídio ao genocídio, o assassinato de outros em nome de alguma crença religiosa ou ideológica é responsável pelas maiores contagens de corpos na história dos conflitos, das Cruzadas, Inquisição, caça as bruxas e guerra religiosas dos séculos passados aos cultos religiosos, guerras mundiais, pilhagens e genocídios do século passado.

Nós podemos ver que o cálculo entre a lógica utópica e o agora famoso “problema do bonde” (trolley problem) no qual a maioria das pessoas afirma que estariam dispostas a matar uma pessoa para salvar cinco. Aqui está a configuração: você se encontra próximo da bifurcação de um trilho de trem com uma alavanca para desviar o vagão do bonde que está a prestes a matar cinco pessoas no caminho.

Se você puxar a alavanca, ela irá desviar o bonde para um trilho paralelo onde matará uma pessoa. Se você não fizer nada, o bonde mata cinco. O que você faria? A maior parte das pessoas dos países ocidentais esclarecidos hoje concordam que seria moralmente permissível matar uma pessoa para salvar cinco, imagine o quão fácil seria convencer pessoas vivendo em estados autocráticos com aspirações utópicas que matar 1.000 pessoas salvaria 5.000 ou exterminar 1.000.000 para que 5.000.000 talvez prosperem. O que é alguns zeros quando estamos falando sobre felicidade infinita e bençãos eternas?

A falha fatal no utopianismo utilitarista é encontrado em outro experimento mental: você é um espectador saudável passando pela sala de espera de um hospital no qual o médico do Pronto Socorro tem cinco pacientes morrendo de diferentes condições, todas as quais podem ser salvas ao sacrificar você e recolhendo seus órgãos. Alguém gostaria de viver em uma sociedade na qual eles pudessem ser aquele espectador inocente? É claro que não, que é porque qualquer médico que tentasse tal atrocidade seria julgado e condenado por assassinato.

Ainda assim, isso é precisamente o que aconteceu com os grandes experimentos do século 20 em ideologias socialistas utópicas como manifestadas a Russia Marxista/Leninista/Stalinista (1917-1989), Itália Fascista (1922-1943) e Alemanha Nazista (1933-1945), todas tentativas em larga escala de atingir perfeição política, econômica, social (até mesmo racial), resultando em dezenas de milhões de pessoas mortas por seus próprios Estados ou assassinadas em conflito com outros Estados percebidos como bloqueando a estrada para o paraíso. O teorista e revolucionário marxista Leon Trotsky expressou a visão utópica em um panfleto de 1924:

A espécie humana, o Homo Sapiens coagulado, irá uma vez mais entrar em um estado de transformação radical e, por suas próprias mãos, irá se tornar um objeto dos mais complicados métodos de seleção artificial e treinamento psico-físicos… O ser humano médio irá ascender aos limites de um Aristóteles, um Goethe ou um Marx. E sobre esse cume novos picos irão surgir

Esse objetivo irrealizável levou a bizarros experimentos como aqueles conduzidos por Ilya Ivanov, que foi designada por Stalin em 1920 em cruzar seres humanos e gorilas com o objetivo de criar ‘um novo ser humano invencível’. Quando Ivanov falhou em produzir o híbrido de homem-gorila, Stalin a havia sido presa, encarcerada e exilada para o Kazaquistão.

Já quanto a Trotsky, uma vez que ele ganhou poder como um dos sete membros fundadores do Politburo soviético, ele estabeleceu campos de concentração para aqueles que se recusaram a se unir em seu grande experimento utópico, em última instância levando ao arquipélago de gulags que matou milhões de cidadãos russos que também eram creditados como obstáculos no caminho do paraíso utópico que estava à vista. Quando sua própria teoria Trotskista opôs aquela do Stalinismo, o ditador teve Trotsky assassinado no México em 1940. Sic semper tyrannis.

Na segunda metade do século 20, o Marxismo revolucionário em Cambodia, Coreia do Norte e numerosos estados na América do Sul e África levaram a assassinatos, pogroms, genocídios, limpezas étnicas, revoluções, guerras civis e conflitos patrocinados pelo estado, todos em nome de estabelecer um céu na Terra que requeriu a eliminação de desertores recalcitrantes. Tudo somado, algo como 94 milhões de pessoas morreram nas mãos dos Marxistas revolucionários e comunistas utópicos na Russia, China, Coreia do Norte e outros estados, um número abismante quando comparado com os 28 milhões mortos pelos fascistas. Quando você precisa assassinar pessoas nas dezenas de milhões para atingir seu sonho utópico, você alcançou apenas um pesadelo distópico.

A jornada utópica por felicidade perfeita foi exposta como um objetivo falho que segue aquele feita por George Orwell em seu review de 1940 de Mein Kampf:

Hitler … percebeu a falsidade da atitude hedonística em relação a vida. Quase todo o pensamento ocidental desde a última guerra certamente todo pensamento ‘progressista’, assumiram de maneira tácita que seres humanos não desejavam nada além de facilidades, segurança e evitar a dor … [Hitler] sabe que seres humanos não apenas querem conforto, segurança, horas de trabalho curtas, higiene, controle de nascimento e, em geral, senso comum, eles também, pelo menos de maneira intermitente, querem conflito e auto-sacrifício…

Sobre o amplo apelo do Fascismo e Socialismo, Orwell acrescentou:

Enquanto Socialismo e até mesmo capitalismo de maneira mais crua, disseram para as pessoas ‘Eu lhe ofereço um bom tempo’ Hitler disse a eles ‘eu ofereço conflito, perigo e morte’ e como resultado toda a nação se acomodou aos seus pés … nós não devemos subestimar o seu apelo emocional.

O que, então, deve substituir a ideia de utopia? Uma resposta pode ser encontrada em outro neologismo – protopia – progressos incremental com passos buscando aperfeiçoamento, não a perfeição. Como o futurista Kevin Kelly descreve em sua definição:

Protopia é um estado que é melhor hoje do que era ontem, ainda que talvez apenas um pouco melhor. Protopia é muito mais difícil de visualizar. Como a protopia contem tanto novos problemas quanto novos benefícios, essa interação complexa de trabalhar é muito difícil de prever.

Em meu livro ‘The Moral Arc’ (2015 – sem versão em português), eu mostro como progresso protópico descreve melhor os monumentais sucessos morais dos séculos passados: a atenuação da guerra, a abolição da escravidão, o fim da tortura e da pena de morte, sufrágio universal, democracia liberal, direitos civis e liberdades, casamento do mesmo sexo e direitos dos animais. Esses são todos exemplos de sucessos protópicos no sentido que todos eles aconteceram um passo por vez.

Um futuro protópico não é apenas prático, ele é realizável

Michael Shermer é editor do jornal Skeptic, colunista mensal do Scientific American e associado à Universidade de Chapman na California.

Esse ensaio é baseado em Heavens on Earth: The Scientific Search for the Afterlife, Immortality, and Utopia publicado pelo autor em 2018



[Opinião] Da cruz de caravaca ao olavismo cultural

19 de Janeiro de 2020, 22:45, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

Buscando entender de onde saiu a última loucura do governo bolsonaro

por @rrobinha

Quando explodiu a polêmica envolvendo o agora ex-secretário Roberto Alvim, que parafraseou trechos e copiou estéticas do propagandista nazista Joseph Goebbels durante o anúncio do Prêmio Nacional das artes, os Piratas postaram em sua fanpage um meme com intenções cômicas comparando indiretamente a cruz com dois braços da cruz que estava em cima da mesa do ex-secretário Alvim com o símbolo do grupo liderado pelo Alto-Chanceler Adam Sutler, vilão do filme V de Vingança.

Após a explosão da polêmica, no entanto, surgiram alguns artigos interessantes na Imprensa explicando a origem da cruz e, ao que tudo indica, a cruz utilizada no filme V de Vingança é uma referência à cruz de Lorena, enquanto que a cruz pousada ao lado do ex-secretário Alvim era a cruz de Caravaca.

Seriam, portanto, duas cruzes diferentes, com origens distintas, mas que compartilham a mesma ideia de estarem associadas ao ideal das cruzadas, de uma ativa expansão da fé cristã e em especial com a figura dos templários.

As preferências de Roberto Alvim pelos ideais das cruzadas já eram claros há bastante tempo, como mostra a expressão abaixo “Deus Vult

Deus vult (“Deus o quer!” em latim) foi o grito do povo quando o papa Urbano II declarou a Primeira Cruzada no Concílio de Clermont, em 1095, quando a Igreja Ortodoxa pediu ajuda ao ocidente para interromper a expansão islâmica.

No Brasil, essa referência cruzadista vem sendo utilizada pelo movimento que se formou na Internet em volta de Bolsonaro ainda antes da eleição, copiando e emulando os mesmos memes que a direita alternativa norte-americana passou a produzir a partir do jogo Crusader Kings 2 – Holy Fury, um jogo para PC de 2012 que se passa na época das Cruzadas na Europa.

Também conhecido como alt-right, esse movimento originário da Internet apoiou ativamente a eleição de Trump. Grande parte da eleição de Bolsonaro envolveu memes de Internet que emularam técnicas utilizadas na eleição de Trump, como já notamos em artigo anterior.

Mas o que o Brasil tem a ver com as Cruzadas e os Templários?

Quando as pessoas pensam nas cruzadas em geral, elas associam o termo apenas com os eventos que ocorreram na cidade de Jerusálem, mas diversas das Ordens Militares formadas na Europa para lutar pela cidade de Jerusalém foram utilizadas para dar combate aos mouros (como eram chamados genericamente os muçulmanos na época) que controlavam territórios na própria Europa há algumas centenas de anos, especialmente na penísula Ibérica, região que engloba o atual território de Portugal e Espanha, desde pelo menos o século VI.

O próprio jogo “Cruzader Kings 2”, que originou os memes originais de Deus Vult, possui entre suas opções de jogo a campanha “Reconquista Portuguesa”, que busca emular como Portugal formou e consolidou seu território, na mesma época das cruzadas, a partir dos territórios europeus que estavam em controle dos muçulmanos desde o século VI.

A reconquista, que se iniciou junto com as cruzadas de 1095, foi concluída em 1385 em Portugal, enquanto que na Espanha foi concluída apenas com a tomada de granada dos Mouros em 1492, sendo que a cidade de Caravaca, onde surgiu a cruz Caravaca, fica na Espanha próximo de Granada e está ligada à figura de um rei mouro que se converteu ao cristianismo dvido ao surgimento milagroso dessa cruz.

Esse conflito militar entre cristãos e muçulmanos, que durou centenas de anos, se prolongaria ainda pelas décadas seguintes, mas se transferiria ao meditarrâneo e envolveria os Piratas Bérberos, ou Piratas da Barbária, que controlavam diversas cidades na costa de Madagascar, no norte da África.

Entre os conflitos náuticos mais famosos da época estão os conflitos entre os cruzados e o Pirata Barba-Ruiva, que secretamente não era um, mas sim dois irmãos originários da ilha de Lesbo na Grécia, que atuaram como corsários a serviço do Império Otomano. em defesa dos ataque dos cruzados cristãos, em especial da Ordem de São João.

Todo esse período esteve associado a ele a uma série de reformas na Igreja Católica, que buscaram reforçar a pureza da fé e se iniciaram ainda no inicio das cruzadas, como a instituição do celibato entre os clérigos e monges da igreja. O símbolo máximo desse período, que envolvia militarismo e castidade, é representado pela figura do templário, que carrega consigo a imagem de soldado de Deus: o monge celibatário que combate os hereges.

Poucas pessoas sabem, mas Portugal foi provavelmente o país que contou com a maior proporção relativa de Templários atuando em seu território em conflito contra os mouros, especialmente quando consideramos a população e território mais reduzidos de Portugal. Embora tenha sido originalmente criada para orientar e defender os peregrinos que seguiam para Jerusalém, os templários passaram a ganhar cada vez mais prestígio junto ao Papa e passaram a atuar na reconquista da península ibérica.

Os templários tiveram um papel ativo na conquista de Lisabona, atual Lisboa, sob controle dos muçulmanos e chegaram a possuir três fortes diferentes sob seu controle, como o castelo-convento na cidade de Tomar, além de ter recebido diversas doações de terras da nobreza.

Como descreve Jorge Caldeira, quando a ordem Templária foi abolida após acusação de heresia feita pelos partidários do rei da França, Felipe o Belo, o Rei de Portugal resistiu à ideia restituir os bens doados para os Templários para o vaticano e decidiu transferi-los para a Ordem de Cristo, que estava a serviço da Coroa Portuguesa e passou a ser controlada pelos Jesuítas, que tiveram papel importante não apenas na colonização do Brasil, mas em toda a expansão do Império Português.

A própria cruz de caravaca foi incorporada pelos Jesuítas no Brasil, passando a ser denominada de cruz missioneira e a ter outro significado ligado ao zelo humilde da fé cristã. A própria história de Inácio de Loyola, fundador da ordem, que na juventude era aficcionado por romances de cavalaria e que passou a ler a história dos santos enquanto se recuperava após ter a perna esmagada por uma bala de canhão mostra como os ideais cavalarescos agressivos que existiam entre os templários passaram a ser traduzidos no humanismo devotado da Ordem de Cristo.

O resultado final é que o espírito cruzado de expansão militar em nome da fé está diretamente associado tanto ao processo de formação de Portugal, quanto ao processo de expansão do Império Português, assim como a própria descoberta no Brasil por Pedro Álvares Cabral, que carregava nas velas de seu navio a cruz da Ordem de Cristo, que originalmente havia sido ostentada pelos templários de Portugal durante a reconquista.

Ainda assim, esse sentimento de orgulho nacional calcado em elementos religiosos continuaria patente dentro dos limites dos domínios portugueses, como mostra a esperança do Padre Antônio Vieira de que o término da disputa entre Madri e Lisboa na época da União Ibérica pudesse permitir que os portugueses vitoriosos pudessem banhar suas espadas “no sangue dos hereges da Europa, no sangue dos muçulmanos na África, no sangue dos pagãos da Ásia e na América, conquistando e subjugando todas as regiões da Terra debaixo de um único império para que pudessem todas, sob a égide de uma só coroa, ser gloriosamente colocadas aos pés do sucessor de São Pedro”

As cruzadas e o Olavismo

Fica patente, portanto, que quando Roberto Alvim decidiu incorporar a cruz de caravaca ao seu projeto cultural imbuído de um caráter “heróico”, como ele mesmo descreve, ele decidiu dar a ela um significado associado com o lema “Deus Vult”, de maneira análoga à bandeira Imperial do Japão, que apresenta raios se expandindo do sol vermelho presente na bandeira clássica. Um conceito de expansão dos ideais cruzados de altos valores ocidentais e alinhados aos valores cristãos.

Embora ainda existam analistas que ainda insistem em associar o episódio do ex-secretário Alvim a um possível equívoco (ou “trolagem”) feito pelo “estagiário” da área que, por acaso, copiou o discurso do nazista Goebbels, basta ouvir a live feita no dia anterior ao lado de Bolsonaro, que elogia o projeto do seu secretário quando o mesmo anuncia o intuito do projeto de promover uma arte “sadia”. O conceito de uma arte sadia está diretamente ligado ao conceito de “arte degenerada” e de resgaste dos valores clássicos presentes no fascismo, mas principalmente nas ideias de Hitler, que condenava os valores da arte moderna, como as abstrações de Picasso ou Salvador Dalí, que acabavam contribuindo para a degeneração dos valores morais da sociedade.

Ironicamente, aquele que talvez tenha mais se surpreendido com a suposta confusão feita pelo secretário não tenha sido nem Bolsonaro, mas Olavo de Carvalho, que poucas horas depois do anúncio do secretário, já havia havia demonstrado a opinião de que “o secretário provavelmente não está batendo bem da cabeça”.

E é irônico porque Olavo sempre propôs como parte do seu projeto filosófico um resgate de uma arte e uma literatura de altos valores e ligada a uma defesa dos nossos valores ocidentais. O velho simplesmente não gosta de nada que tenha ocorrido depois de maio de 68, colocando no mesmo balaio a cultura hippie, a filosofia pós-moderna e as músicas de Chico Buarque e Caetano Veloso como associadas a um tipo de cultura popular rasteira que estimula o banditismo.

Não é difícil entender, portanto, porque a proposta de uma forma de cultura heroica, associada a valores superiores e ao resgate dos valores culturais associadas a uma cultura de combate tenha desaguado em uma emulação das estéticas nazistas, pois o nacional-socialismo de Hitler se propunha a exatamente esse mesmo tipo de projeto.

Isso quer dizer que qualquer defesa de uma cultura pautada no nacionalismo ou de um projeto nacional irá necessariamente implicar em um projeto nazista? Não, isso não ocorreu devido a uma proposta de uma arte ligada a valores nacionais, mas sim de uma cultura de resgate dos valores imperiais, ou, mais especificamente, da busca de uma expansão desenfreada dos valores de um grupo restrito para todos os demais.

Esse mesmo conceito de resgate da ideia de Império também estava presente no movimento fascista italiano, que buscava resgatar a cultura e a glória da Itália durante o Império Romano, assim como do nazismo alemão, que buscava instituir o Terceiro Reich por meio de um grande Império que duraria mil anos, exatemente como ocorreu com o Império Romano.

O conceito de Império, por sua vez, está diretamente associado com o conceito original de Dominium, que foi originalmente implantado em Portugal ainda na época do Império Romano. O prefixo “Dom”, associado aos reis de Portugal – ex: Rei Dom João, Rei Dom Sebastião – significava que ele era um líder limitar responsável pela proteção de um determinado território dentro do regime de vassalagem medieval.

O conceito de Império, no entanto, é ainda mais amplo do que o domínio de um território restrito e está associado principalmente com a disposição de um determinado Regime em exercer autoridade até mesmo sob aqueles que se encontram além das fronteiras e das propriedades exclusivas que delimitam aquele dominium, juntamente com a vontade de expandir os limites de seu próprio território, sempre se voltando contra um inimigo externo.

A principal diferença é que aqui, com a exceção da Guerra do Paraguai e a participação do Exército nas duas guerras mundiais, o Brasil nunca cultivou o inimigo externo, mas sim o inimigo interno, dentro da doutrina desenvolvida originalmente pelo General Golberi e mais tarde propagandeada pela Escola Superior de Guerra no mesmo período em que Bolsonaro atuou como cadete do Exército.

Bibliografia

Policante, Amedeo – HOSTIS HUMANI GENERIS Pirates and Empires from Antiquity until Today, 2012

Da Silva, Ademir Luiz – OS CAVALEIROS DA CRUZ VERMELHA A Ordem dos Templários na Reconquista e Expansão Urbana Portuguesa ( séculos XII e XIII ) – Dissertação de Mestrado, 2003

Leite, João Gabriel Ayello – Competição, Instituições e o Declínio do Império Português na Ásia, Dissertação de Mestrado, 2015

Mattos, Luiz – Apogeu e Decadência do Império Português: o profetismo bandárrico



[Opinião] Crítica ao Totalitarismo Stalinista

11 de Janeiro de 2020, 16:37, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

E à tentativa de normatizar o absurdo

por Bruno Lima Rocha

Existe uma nova onda na internet brasileira, especificamente o uso político da rede, que é interessante e ao mesmo tempo merece um alerta. Há um esforço considerável e reconhecido para normalizar os crimes de Stálin, e não só, de recuperar toda a experiência do Leste Europeu e ligar simbolicamente à presença da China hoje, como a Superpotência Mandarim. Neste breve artigo, compilo observações dos embates recentes os quais participei neste início de outubro de 2019. A divisão por tópicos pode facilitar a leitura embora reconheça que na tradição mais “ortodoxa” dos textos das esquerdas, quebra o ritmo da narrativa. Entre prós e contras, seguimos.

A NEP ANTISSOVIÉTICA, A CHINA CAPITALISTA E A ALUCINAÇÃO DA “ESQUERDA” VIÚVA DO LESTE EUROPEU

Os “amigos” que defendem e se escoram na NEP (Nova Economia Política, “nova” no paradigma do marxismo russo) – a segunda grande traição Bolchevique, com Lenin vivo e Trotsky e Stálin trabalhando lado a lado – usam um argumento que cola no delírio pós Guerra Fria de mistificação dos processos históricos. Entre a falsificação do século XX e as ilusões no século XXI resta uma conclusão. Se não passar a limpo a NEP e fizer uma crítica sem dó, alucinados como esses vão “interpretar” a Gazprom (ou a Huawei, talvez a Cargill) como uma etapa necessária, de repente “intermediária” esperando que um Estado autocrata de base capitalista se “autodissolva” um dia por passe de mágica com “razão dialética” ou qualquer outro jogo de palavras sem sentido. Como não pensar que a tradição autoritária floresce nas cloacas da história?

STÁLIN, A NOMENKLATURA E O HOBBESIANISMO POR ESQUERDA

Sempre pergunto em aulas de Política se a turma, hipoteticamente, aceitaria viver numa sociedade de pleno bem estar, com todos os direitos assegurados, todos mesmo (trabalho, saúde, moradia, cultura, lazer, gestação, desporto etc.), mas com absoluto controle e cerceamento dos direitos políticos. Ou seja, ditadura de partido único e a filiação ao partido como a única forma de acesso a postos-chave no aparelho de Estado. As quatro elites formais na antiga URSS, a política, a acadêmica, militar e econômica (na gestão das empresas estatais) tinham como critério de entrada a filiação ao PCURSS. Em geral não digo que esta sociedade existiu e o exemplo dado é no período soviético da Nomenklatura, especificamente nos governos Kruschev e Brejnev. Ou seja, reforço o mito da “tentação autoritária”, o que geralmente no Brasil é associado a posições imaginárias como sendo conservadoras e à direita.

Surpreendentemente, a imensa maioria diz que NÃO, JAMAIS ACEITARIA, pois na ausência de direitos políticos não teriam certeza da garantia ou ao menos da possibilidade de lutar por estes direitos. Quando digo que este mundo existiu e sua era de ouro durou quase quarenta anos há muita surpresa. Hobbes, coitado, é muito mal interpretado e ficaria feliz em ver o direito à vida plena em termos materiais aplicado na antiga União Soviética. Mas, e o direito político? Então, quando a elite da Nomenklatura virou de lado (a partir de 1988) e dilapidou o patrimônio público, o Estado ruiu em menos de quatro anos. Parafraseando nosso poeta maior “E agora José, a festa acabou e teu ‘ônibus da história’ despencou barranco abaixo”. Para não parecer terra arrasada de toda a experiência, apesar ao menos deixa o exemplo de que uma economia planificada, mesmo que estupidamente centralizada, pode gerar bem estar social.

AS CARACTERÍSTICAS ESTRUTURANTES DESSA FORMA DE PENSAMENTO POLÍTICO POR “ESQUERDA”

São mais que reconhecidos os crimes do stalinismo, seus asseclas e clones mundo afora (como Enver Hoxha na Albânia, Nicolae Ceausescu na Romênia, Kim Il Sung na Coreia do Norte e a lista segue conforme a perspectiva histórica e ideológica). Infelizmente, parece que o mito supera o fato e a compreensão perde para a interpretação. Vejamos alguns problemas fundamentais, de estrutura mesmo.

Quais fenômenos da interna política levam ao culto à personalidade? Como forças políticas enormes dependem necessariamente de um grupo muito reduzido de “dirigentes”? O culto da liderança não é também um elogio ao individualismo, às lutas mais mesquinhas pelo poder?

Também cabe perguntar. Qual o maior equívoco da esquerda, não da ex-esquerda, mas da esquerda restante? Determinismo sociológico (em busca da classe ou fração de classe prometida) ou ilusão com as próprias análises que levam a algum tipo de autoproclamação?!

Sobre a degeneração e a liderança política esse é um tema clássico e aqui vai só um início de debate. Reconhece-se que existe liderança política e algumas atribuições facilmente identificáveis como: carisma, oratória, exemplo, dedicação, trajetória, capacidade resolutiva. Mas, quando estas características se cristalizam em uma estrutura de poder permanente?! Piorando. É quando isso se torna culto à personalidade e já não há mais volta atrás!

Vale o debate e mais ainda a preocupação.



[Opinião] E quando o Estado se torna terrorista?

10 de Janeiro de 2020, 0:24, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

Discutindo o conceito e a ausência de consenso sobre terrorismo 

por @rrobinha

Ao longo dos 2000, como consequência direto clima gerado pelos ataques de 11 de setembro e das guerras do Afeganistão e do Iraque, o governo Bush buscou aprovar na assembleia das Nações Unidas da ONU algum tipo de norma internacional que tipificasse a prática de terrorismo. A medida, no entanto, não foi pra frente por um motivo muito simples: não há e nem foi possível então estabelecer um consenso ou uma definição de “terrorismo” que possa ser aceita internacionalmente.

Não é difícil entender o porquê. Qualquer definição mais ampla de terrorismo acabaria abarcando e, consequentemente, também criminalizando diante toda a comunidade internacional, movimentos de insurreição ou resistência popular genuínos que se levantam contra ditaduras ou governos despóticos, assim como agrupamentos étnicos ou movimentos que busquem maior autonomia. Algo que entra em confronto direto com um dos princípios internacionais mais básicos que é o da auto-determinação dos povos. Embora, na prática, ela possa ser mais desrespeitada que a primeira diretriz no seriado Star Trek, o princípio de auto-determinação estabelece que o povo de cada localidade é quem deve determinar o futuro do seu próprio país, de maneira soberana

Esse foi o caso, por exemplo, do próprio Estados Unidos, que durante a Revolução Americana entrou em um longo conflito, o qual envolveu uma guerrilha tanto rural quanto urbana, contra seus antigos colonizadores ingleses. Esse também foi o caso de Israel, cujos grupos para-militares praticaram diversos atentados contra fortificações e bases militares da Inglaterra na atual região do Jordão, que, na época, era parte de um protetorado britânico formado após a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial.

E, sinto informar aos nerds mais conservadores, esse também é o caso de Luke Skywalker, Han Solo e outros componentes da ficcional aliança rebelde da franquia de filmes de Star Wars – antigo Guerra nas Estrelas. Explodir o patrimônio público da Estrela da Morte, construída com dinheiro do contribuinte de todo o Império e cuja destruição levou a uma vitória temporária e pouco significativa, que não acabou definitivamente com o conflito, mas apenas ajudou a gerar instabilidade política e insegurança jurídica em toda a Galáxia.

Aparentemente, o Império estava certo desde o início.

E isso é extremamente irônico, pois poucos países no mundo hoje são mais capazes de emular o terrível poderio militar e a capacidade de destruição em massa concentrados nas mãos de uma figura sinistra motivada por uma agenda particular, como no Império Galático de Star Wars do que os Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump. Até mesmo a Rússia de Putin, que também apresenta um poderio nuclear semelhante, é liderado por Vladimir Putin que, por ter emergido dos quadros da antiga polícia secreta Soviética acaba se mostrando mais coerente com os desejos e anseios do restante da tecnocracia russa.

Devido a isso, os Estados Unidos, que emergiram como “polícia do mundo ocidental” logo após a Segunda Guerra Mundial, representam hoje, com a liderança de um presidente pressionado por um processo de impeachment e diretamente interessado na sua campanha de reeleição esse ano, uma ameaça à estabilidade internacional muito maior do que qualquer outro grupo terrorista hoje possa representar.

Isso porque Donald Trump não apenas ordenou o assassinato de um oficial de um governo estrangeiro, algo que pode ser considerado como um ato de guerra ilegal, algo feito sem a aprovação ou envolvimento do Congresso no assunto, mas porque ele também ameaçou bombardear sítios arqueológicos do Irã com milhares de anos, mostrando uma postura agressiva pessoal contra o Irã, ao ameaçar cometer um crime que apenas o Estado Islâmico se mostrou capaz de cometer

o terrorismo midiático e o espetáculo do engajamento

Entre os que discordam dos argumentos dispostos até agora, certamente haverá aqueles que irão argumentar que terrorismo não envolvem apenas atos para derrubar um governo, mas ações organizadas com um caráter midiático de modo a promover um sentimento de pânico e insegurança generalizados contra a população civil de um outro país, como foi o caso do próprio 11 de setembro.

E esse argumento está correto. Grande parte da estratégia que orientou Osama Bin Laden e outros membros da Irmandade Muçulmana envolvia contar com a bem aparelhada indústria midiática norte-americana para reproduzir repetida e continuamente as imagens daquele atentado de modo a produzir uma resposta militar por parte do governo dos Estados Unidos que acabaria o exaurindo no longo prazo.

E, ironicamente, essa estratégia foi um completo sucesso, pois os esforços financeiros envolvidos para financiar a Guerra do Irã e do Iraque foram tão altos, que acabaram indiretamente fomentando a crise financeira de 2008 e pegando a Europa no ricochete. Isso porque a explosão de gastos militares pelos Estados Unidos tentou ser compensada por uma redução dos seus juros, levando à formação de uma formação da bolha no mercado de crédito Sub-prime.

Verdade seja dita, a relação existente entre reeleição de um presidente estadunidense e guerras ao longo da história dos Estados Unidos é algo bastante conhecido. O atual caso talvez seja mais gritante pela futilidade como o ato foi cometido: primeiro por ter sido feito remotamente, por meio de um drone, como se fosse uma espécie de videogame voltado para adultos sádicos.

Segundo, como o caso foi tratado pelo próprio Trump em suas redes sociais, mostrando que até mesmo a estreita fronteira que hoje existe entre política e o espetáculo vêm se tornando cada vez mais fina. Uma característica marcante dessa nova geração de líderes nacional-populistas, como Trump e Bolsonaro, que se destacam não por suas opiniões ponderadas, mas por suas atitudes extremadas que visam gerar “engajamento” e memes na Internet, de modo a mobilizar as pessoas a se posicionarem contra ou a favor delas.

E não existe nada que gere mais engajamento ao espírito patriótico dos Estados Unidos do que dar combate aos terroristas e outros inimigos da nação, fazendo com que muito do espírito belicista que é encontrado apenas em células extremistas acabe se tornando parte do discurso oficial do Estado.

Existem certos paralelos entre esse caso e o conceito de necro-estado desenvolvido pelo pensador Georgio Agamben, o qual envolve estados pós-coloniais tão enfraquecidos que na prática o único poder que eles tem é o poder de exercer seu “monopólio da violência”, determinando quais grupos devem morrer.

Embora seja presidente da nação mais poderosa do planeta, Donald Trump se encontra em uma situaçao muito semelhante. Em seu último ano de um mandato que o colocou em constante conflito com o restante da burocracia estatal e com as mãos atadas no Congresso devido ao processo de impeachment instaurado, Trump só tem como única opção de ação optar por uma via mais extrema no seu papel de comandante das forças armadas.

E isso não exige muito esforço, pois não poucas vezes o próprio Trump confessou que sempre havia algum general ou conselheiro de alguma agência de segurança interessado em vender a ideia dos Estados Unidos abraçarem alguma guerra ou conflito em algum lugar distante do mundo.

O resultado é que ele, ainda no fim do primeiro mandato de Barrack Obama, acusou no Twitter que para garantir sua reeleição Obama iria provocar algum conflito com o Irã, decidiu aparentemente seguir sua própria sugestão

Não precisa de advogado do diabo

Há ainda aqueles que, para defender a atitude de Trump, estão dispostos a apontar dedos para o Irã por ser um país que financia e estimula o terrorismo em outros países, enforca gays e oprime mulheres, sendo governado por uma espécie de regime militar islâmico.

E tudo isso é verdade. As mulheres sofrem restrições sobre como devem se vestir, quais assuntos podem estudar e até mesmo para viajar precisam de autorização do marido. N

O problema é que se Irã é hoje governado por um regime opressor, isso também é culpa dos Estados Unidos. Pois na década de 50 a CIA organizou um golpe de Estado para depor um governo democraticamente eleito que planejava nacionalizar a produção de petróleo. O resultado final foi a instauração de uma monarquia autocrática, mas que atuava de acordo com as premissas defendidas pelo Ocidente.

O resultado é que na década de 70, mesma época das grandes crises do petróleo, começaram uma série de manifestações populares. Inicialmente elas foram incitadas por uma classe média crítica que abarcava grupos de esquerda e liberais contra o governo, mas foram se radicalizando até levar à formação da Revolução Iraniana, que levou à formação de uma República Islâmica Teocrática.

Portanto, se hoje o Irã tem um governo opressor é algo de responsabilidade direta dos seus Estados Unidos, que apenas considerou os seus interesses estratégicos de curto prazo. Exatamente como está fazendo hoje.

Além disso, grande parte das críticas direcionadas ao Irã, o que inclui opressão contra mulheres e gays, além de financiamento a grupos terroristas, também podem ser estendidas à Arábia Saudita, o que não o impede de ser um aliado estratégico de longa data dos Estados Unidos.

O que, por fim, nos leva à pergunta mais importante: será que matar um representante oficial de um governo estrangeiro vai levar a uma estabilidade maior e evitar possíveis ataques a diplomatas ou oficiais norte-americanos? Especialmente no longo prazo? Ou será que apenas irá criar mais um mártir que pode motivar novos ataques?

A resposta parece óbvia.

 



Finalmente uma dose saudável de antissistema

26 de Dezembro de 2019, 18:42, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

traduzido daqui

fotos tirados do Flickr

Entrevista com Ivan Bartos, líder do Partido Pirata na República Tcheca pelo portal Krytyka Poirlityczna

Ivan Bartoš, líder do Partido Pirata da República Tcheca: Podemos fazer a entrevista em meia hora, por favor?

Sławek Blich do Krytyka Poirlityczna: O Dever Chama?

Não – minha esposa. Nós compartilhamos um presente de Natal – Eu tenho uma tatuagem para terminar em meu peito. E não posso me atrasar hoje. Aliás, você sabia que Lydie, que também é membro do Partido Pirata, organizou o protesto negro em Praga em defesa dos direitos da mulheres polonesas?

Nossos bons amigos do A2larm.cz cobriram o evento, sim.

Foi exatamente assim que tudo começou – nós eramos ativistas, manifestantes que não suportavam mais o status quo.

Eu vim aqui ver você porque nós não sabemos se vocês são uma boa ou má notícia para a esquerda.

Nós atingimos um sucesso histórico nas últimas eleições parlamentares. Agora somos a terceira maior força política do país. Nós temos alguns senadores, 22 deputados, nós temos pessoas em algumas regiões, assim como o prefeitura de Mariánské Lázne na parte ocidental da República Tcheca.

Você confundiu diversos comentaristas com esse resultado. Nós sabiamos que vocês eram anti-establishment, liberais, que vocês encapsulavam uma mudança geracional no cenário político. Oh e que vocês produziam os melhores clipes de toda a região de Visegrad, como aquele que você toca acordeão e dirige o ônibus.

Nós não somos um partido populista, no entanto. Alguns de nossos críticos argumentaram que aparentemente nós eramos os mais agressivos de toda a campanha eleitoral. Então nós testamos essa afirmação com uma simples análise linguística pós-eleitoral que provou que os Piratas eram o grupo mais se baseava em evidências concretas.

Entre as palavras mais utilizadas na nossa campanha estavam “futuro” e “igualdade”. Agora, vamos olhar para os Democratas Cristãos. Adivinha o que eles usavam? “Medo”, “Raiva”. Outros partidos eram ainda piores. É a mesma coisa que outros populistas fizeram em toda a Europa: na Alemanha, Austria e Reino Unido. Mesmo os partidos centristas na República Tcheca, como os sociais democratas, usavam essa retórica agressiva. E agora eles estão surpresos. Adivinha? Foram eles que fizeram as pessoas votarem para o SPD e o Senhor Okamura.

Análise línguística pós-eleitoral provou que os Piratas foram o partido mais razoável e baseado em evidências

.

Agora, vocês arrombaram os portões da política tradicional, mas muitos comentaristas lutam para definir os Piratas politicamente. Por que você acha que é assim?

Porque eles cometem o erro de nos mensurar da mesma maneira que fazem com a política tradicional. Mas eu entendo isso. 8 anos atrás, nós começamos um partido político baseado no exemplo dos Piratas Suecos, mas muito rápido nós percebemos que apenas os posicionamentos suecos sobre assuntos como liberdade na Internet e liberdades civis sozinhos não ia funcionar para nós.

Por que?

A messagem que estavamos entregando estava atingindo talvez 15% porcento da população total. E muito rápido nós nos enrolamos.

O que você quer dizer?

É como um efeito bola de neve – os Piratas são um movimento social construído em volta de um grupo de círculos muito concretos da área social e ambiental. Sob tais circunstâncias, os Piratas da esquerda do Partido influenciavam os Piratas da direita o tempo todo, discutindo e deliberando. Nós empacamos no último loop de feedback de um grupo que já se encontrava persuadido. A qualquer momento que tentavamos dar um passo a frente para atingir novos eleitores ou apenas simplificar nossa menssagem como partido, nós eramos acusados por nossos principais apoiadores: você disse B ao invés de A, você usou a expressão errada, você simplificou demais…

Tudo isso parece muito familiar para um editor Polonês de Política da Esquerda, eu lhe garanto.

Era uma desvantagem. E política é complicado, sabe? Uma explicação aprofundada das soluções que nós propormos para problemas comuns é especialmente ineficiente no curto espaço de tempo que as pessoasl conseguem devotar para efetivamente prestar atenção nos políticos e ler os seus programas eleitorais.

Ninguém lê programas eleitorais, sejamos francos.

4 principais motivos para votar nos Piratas” – isso é algo que você leria, não? Então a primeira coisa que nós decidimos fazer como Piratas foi simplificar nossa mensagem. Nós mantivemos tudo que era fundamental no Programa Pirata, mas nós o convertemos em algo digerível e em um formato fácil de entender. Nós removemos todos os hyperlinks. De repente, nossa mensagem se tornou compreensível para pelo menos metade da população.

Nós ainda somos um partido 100% democrático e baseado no princípio de participação e transparência

Na campanha vocês jogaram como um time, mas havia um líder forte e reconhecível.

Hoje nós ainda somos um partido 100% democrático baseado no princípio de participação e transparência. Você pode me tirar do cargo em duas semanas se eu cometer um erro terrível como líder.

E como você concordaram no que deveria ser simplificado em sua mensagem para que vocês pudessem persuadir novos eleitores assim como impedir os antigos de fecharem as portas

É assim que começamos nossa campanha – nós envolvemos um monte de pessoas, amigos de amigos. Eles fizeram pesquisas com 1500 pessoas sobre os pros e os contras de votar nos Piratas. As pessoas realmente sabem o que os Piratas defendem?

Então nós tomamos os resultados e os misturamos com nossas principais crenças políticas para formular um objetivo de comunicação bem simples: introduzir os Piratas como um partido democrático, liberal, racional com um foco especial em tecnologia e honesto sobre os problemas sociais das pessoas na região.

Então quais tipos de problemas sociais vocês querem adereçar primeiro e o mais importante?

Quando sua máquina de lavar quebra e você não pode se dar ao luxo de conserta-la e tudo que você pode fazer é emprestar dinheiro do sistema de crédito, quando você não tem guardado o suficiente para fazer coisas básicas – isso significa que há algo de errado no seu país. Na maioria dos países ex-comunistas essa liberdade básica essencial – que nós podemos colocar na base da pirâmide de necessidades – não se encontra suficientemente satisfeita. Eu não diria que as pessoas estejam em dificuldades na República Tcheca, mas as receitas aqui ainda estão realmente baixas, as pessoas tem quase nenhuma poupança, enquanto dezenas de milhares de pessoas são despejadas a força de suas casas.

Você consegue ver por quê o copia-e-cola dos Piratas Suecos não funcionou imediatamente na República Tcheca? Como você pode pregar para as pessoas sobre liberdade na internet ou democracia enquanto eles estão focados em chegar até o fim de cada mês? Não é que as pessoas das regiões não estejam interessadas nas liberdades, em pautas filosóficas ou políticas, mas eu estou convencido que uma política progressiva tem que começar com trazer uma segurança básica para as pessoas que estão passando pela camada baixa da pirâmide primeiro

O Partido Libertário dos Cidadãos Livres é apenas nonsense neoliberal

Alguns círculos esquerdistas criticam seu partido por não ter um conjunto coerente de crenças políticas. Como Marie Hermanová escreve para o A2larm, alguns membros do Partido Pirata não estão muito longe das visões libertantes de Petr Mach sobre a economia. Você é Petr Mach disfarçado com dreadlocks?

O Partido Libertário dos Cidadãos Livres (Strana svobodných občanů) é apenas nonsense neoliberal. Piratas preferem cooperação ao invés de competição

Muito bem, vou pular a linha libertária então.

Eu respeito os caras do A2larm, mas eu não compartilho a opinião de que a divisão tradicional direita e esquerda seja a solução para os problemas modernos. A menos que você seja dogmático, não há jeito de você acreditar que você esteja sempre certo.

Não não somos demagogos. Nós somos um partido flexível que pode revogar suas decisões prévias baseado na informação que não estava acessível para nós antes. Nós não fazemos teatrinho para o público. Nós sempre assumimos uma abordagem liberal para o tópico discutido e tentem fazer a melhor decisão possível. É por isso que nós podemos aceitar o fato de que grandes negócios sejam parte da sociedade. Similarmente, eu não me importo com políticos se encontrando com lobistas, desde que eles registrem oficialmente e revelem isso para o público.

Vocês mesmos fazem isso?

Sim. Como Piratas nós compartilhamos publicamente uma gravação dos encontros que fazemos com lobistas e representantes de grupos de interesse. Essa também é uma tarefa fundamental do partido: fornecer o máximo de informação para as pessoas para que elas possam tomar as melhores decisões. Nós fazemos isso porque a única maneira que você pode lutar contra as patologias do capitalismo “cowboy-style” ou a influência de corporações globais é na verdade revelar como o sistema funciona.

No seu documento de estratégia pós-eleitoral você propõe uma taxa progressiva, mas apenas acima de 130.000 CZK. O que é muito dinheiro.

Porque na verdade o que nós temos hoje é um sistema de impostos regressivo. Quanto mais dinheiro você ganha, menos taxas você paga. Nós somos criticados pela esquerda por querermos introduzir uma taxa única no Imposto de Renda, mas isso não é justo.

Vocês não querem uma taxa única?

Nós queremos simplificar o sistema de pagamento de taxas para todos, incluindo os mais pobres e minimizar os deveres que os pagadores de impostos tem diante do Estado. Nós certamente não somos libertários ou neoliberais na nossa maneira de pensar sobre isso.

Nós estamos colocando nossos ideais em prática através de soluções pragmáticas

Então o que vocês são?

Nós estamos colocando nossos ideais em prática através de soluções pragmáticas. Nós temos ambos os pés firmes no chão. Como Partido Pirata, nós estamos interessados em permitir pessoas a ter mais, ter uma renda decente e crescente. Então o que nós estamos oferecendo é na verdade um passo à esquerda da situação atual.

Então se nem a esquerda ou a direita podem nos salvar, o que irá? Tecnologia?

Nós não estamos dizendo que a tecnologia irá salvar nossas vidas, apesar de que possa afetar o meio ambiente à nossa volta de maneira positiva. Nesse sentido nós somos tecno-otimistas. Mas os Piratas não vivem em algum tipo de Futurama – nossa agenda é uma resposta racional para o mundo a nossa volta. Nós já estamos online. Mesmo se você mesmo não usar o sistema, seu plano de saúde ou registro fisval já se encontra lá. É por isso que já é hora do e-governo como supostamente deve ser – um serviço livre e acessível para os cidadãos.

Eu vou dar duas razões para destrui-los agora

Eu sou todo ouvidos

AirBnb ou Uber.

Estar online e lidar com tecnologia moderna não implica em aceitar tudo o que vem junto. Especialmente quando nós lidamos com a instabilidade do mercado imobiliário ou as condições de trabalho dos motoristas de taxi.

Mas o mais importante, eu quero enfatizar que a atual luta contra essas plataformas também é uma abordagem errada. Se você realmente quer regula-las, você precisa de duas coisas: transparência e uma legislação poderosa. A abordagem correta é forçar essas plataformas a revelar todos os seus dados financeiros e dados sobre seus funcionários. Essa é a única maneira que você pode controla-los. Mas o último ponto não pode ser feito por um único Estado- Nação isolado.

O fato é que um pequeno país como a República Tcheca não pode encarar isoladamente as corporações globais

Você precisa da União Européia. Vamos em frente discutir o lugar da Europa no mundo Pirata. Partidos populistas, de direita e anti-imigrantes ganharam proeminência na política Européia nos anos recentes. A Europa Central e Oridental está liderando essa corrida.

Isso vai parecer clichê, mas para nós a cooperação Européia é a única maneira de manter paz na Europa – agora e no futuro. Nós não somos Euro-federalistas, mas diferente de outros líderes Visegrados nós tampouco forçamos o jogo de interesses do Estado-Nação. Nós estamos interessados em fatos, e o fato é um pequeno país como a República Tcheca não podem encarar as corporações globais sozinha. Além disso, a legislação de um único país é muito facilmente algo do lobby de corporações. Um Estado-Nação também não tem meios suficientes para resolver a massiva crise global, como a recente crise de imigração.

A República Tcheca é uma das sociedades mais islamofóbicas da Europa. Você não está tentando a tomar vantagem política disso, como eles fizeram na Polônia e Hungria?

Nós discordamos com o abuso do influxo de refugiados por propositos políticos e a disseminação do medo, pânico moral e a incerteza na sociedade. Mas nós queremos uma solução racional ao real problema das migrações em massa e para isso ser possível nós precisamos uma União Europeia reformada e cooperativa

Reformada de que maneira?

Nós lutamos por uma reforma fundamental em direção a mais transparência e democratização. Nós também gostariamos de ver mais decisões políticas sendo feitas através do Parlamento Europeu democraticamente eleito. E acima de tudo, nós apoiamos o princípio da subsidiariedade que é uma política chave para os Piratas.

Você pode explicar melhor?

Isso significa que o processo de tomada de decisão não deveria envolver instituições centrais da UE, desde que os problemas possam ser melhor resolvidos pelas estruturas nacionais, regionais e locais. Eu sou o líder do Partido Pirata, mas isso não implica que eu governe diretamente a região do Moravian do Norte. Nossas estruturas locais fazem muito mais ao conhecer e confiar nos seus candidatos para dirigir uma política independente para suas regiões. Na Europa, muitas coisas podem ser feitas dessa maneira.

Se o Sr Orban ou Kaczynki os chamassem para oferecer um acordo político diferente que atenda pelo nome de Visegrad vs a União Europeia, o que você diria?

Eu diria não.

A República Tcheca deveria deixar o Visegrad Four? (o V4 é uma Aliança Política e Cultural entre República Tcheca, Hungria, Eslovaquia e Polônia que começou em 1993)

No Partido Pirata, nós somos liberais progressistas e respeitamos as liberdades individuais, diferente dos países que estão no governo na Polônia ou Hungria.

Colocar o Diem25 na capa do jornal conservador Lidovky não é uma tarefa fácil

E quanto à Eslovaquia?

Fico pelo menos agiu de maneira esperta, ele foi o primeiro a dizer: “Ei Europa, nós somos os mais liberais desses quatro, então você pode falar conosco, deixe-nos governar e mediar com eles”.

Mas no que se refere a Visegrad, eu respeito a significância da cooperação através das fronteiras entre nossos países nas principais áreas, como comércio exterior e educação, mas não é de nenhuma maneira uma boa posição para qualquer país estar ao lado dos poloneses e húngaros nesse momento

Enquanto isso, vocês acabaram de eleger um novo primeiro ministro – um oligarca acusado de corrupção séria. O Sr Babis é frequentemente comparado com Donald Trump ou Silvio Berlusconi. Estão corretos?

No que se refere a assuntos Europeus, o Sr Babis é uma grande incógnita porque ele mudou seus pontos de vista diversas vezes. Mas ele está tão forte no momento – através de suas relações públicas e seus próprios canais de mídia – que ele pode facilmente se safar disso. À luz de como eu me sinto sobre política, eu prefiro retornar aos velhos dias tradicionais quando a corrupção e um claro conflito de interesses era considerado algo ruim.

Lidové noviny”, um jornal influente que pertence ao Império de Mídia do Sr Babis, recentemente divulgou a história de que o Partido Pirata flertou com o Marxista Grego radical Yanis Varufakis. Como anda esse caso de amor?

Eu estou especialmente orgulhoso desse artigo, porque conseguir com que o Diem 25 (Movimento Democracia na Europa, lançado por Yanis Varoufakis) na primeira página do jornal conservador Lidovky não é uma tarefa fácil.

Obviamente nós não somos marxistas e eu fiz meu melhor para transmitir isso para os jornalista do Sr Babis, mas sem sucesso. Ainda assim, todo liberal honesto é contra a governança das grandes corporações, contra o lobby e contra a ascensão de qualquer movimento nacionalista. É por isso que o terreno comum entre nós e o Diem25 é algo próximo de 80%. Muitas pessoas que nós respeitamos assinaram seu manifesto, incluindo Julian Assange. Se o Diem25 é uma plataforma política comum e transparente para os verdes, a esquerda e os liberais, nós estamos prontos para agir no papel de liberais.

Você realmente acredita que qualquer força progressista pode atingir sucesso eleitoral significativo nesse momento histórico difícil?

O que eu realmente acredito é e num processo de abertura, educação e não patronizar os outros. Em meu mundo Pirata liberal eu posso aceitar que haja riqueza no mundo. No mundo conservador do Sr Orban e do Sr Kaczynski, seria muito diferente: eu não seria capaz de coexistir com pessoas de opiniões diferentes, eu seria forçado a raspar o cabelo ou ir para igreja como os outros. Eu mesmo sou um cristão, um protestante Hussita. Eu estudei teologia e fui batizado quando tinha 19. Eu apenas acredito em uma mensagem religiosa: Jesus é amor. É provavelmente o mesmo que Kaczynski adora, mas eu acho que eu o entendo melhor.

Pergunte a ele alguma hora se a esquerda na Polônia irá jamais ganhar uma eleição de novo.

A esquerda continua caindo porque ela escolhe pregar e julgar as pessoas. É por isso que os verdes falharam na República Tcheca. Eu não culpo os conservadores. Talvez seja por isso que nós atingimos sucesso? Nós aceitamos os medos e as crenças das pessoas como elas são, porque você pode apenas muda-las através de uma postura aberta, educação e uma discussão honesta. Eu estava nas regiões, eu viajei em toda a República Tcheca. Quando você vai para a região do norte da Boêmia, você irá encontrar pessoas culpando a comunidade de Roma por todos os problemas sociais. Claro, eu poderia ter facilmente retornado a Praga e ido para um programa de televisão e dizer que essas pessoas eram racistas. Mas minha cabeça está focada em uma tarefa maior e que consome muito tempo.

E qual é?

Eu realmente quero que eles mudem de ideia um dia.



Nota sobre a liberação pelo TSE da coleta de assinaturas por meios digitais

25 de Dezembro de 2019, 23:40, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

O Partido Pirata recebeu com certa surpresa a notícia de que por 4 votos a 3 os ministros do Tribunal Superior Eleitoral aprovaram a obtenção de assinaturas de apoiamento para criação de novos partidos através de algum tipo de assinatura digital. Essa é uma bandeira que os Piratas vêm defendendo desde a criação do movimento no Brasil sem, contudo, termos nenhum tipo de parecer positivo, até o julgamento da última terça 03/12/19.

A resolução do TSE ainda carece de uma regulamentação mais detalhada e no momento, respondendo a todos que tem nos consultado nos últimos dias, não muda nada em relação ao processo de registro do Partido Pirata. Na Assembleia Pirata Nacional de 2018 aprovamos uma resolução política de suspender temporariamente todo o processo de coleta de assinaturas de apoiamento, tendo em vista a minirreforma eleitoral que limitou o processo de coleta de assinaturas em 2 anos e que invalida assinaturas de eleitores filiados a outros partidos. Quem nos acompanha há vários anos deve se lembrar que quando lançamos nosso processo de coleta de assinaturas, recebemos o apoiamento de diversos políticos de vários partidos durante eventos como o Fórum Internacional de Software Livre e a Campus Party.

Ocorre que pouca gente sabe que o processo de coleta de assinaturas é bastante custoso e complexo e isso se deve ao fato de que, depois de coletada a assinatura, o partido deve ir até o cartório eleitoral DA CIDADE E BAIRRO DO ELEITOR para validar uma a uma as assinaturas coletadas. Ou seja, demanda muito tempo e viagens de representantes do partido a cidades de todo país. Diante disso identificamos a possibilidade de desenvolver um sistema capaz de receber as assinaturas em um processo 100% digital incluindo a validação do cartório como algo fundamental para viabilizar o registro do PIRATAS e de outros novos partidos.

Desde 2001, quando o certificado digital foi regulamentado no Brasil a tecnologia mudou totalmente de modo que hoje é possível usar blockchain e uma infinidade de outras formas de comprovar a identidade e validade de uma assinatura eletrônica. Neste sentido o Partido Pirata entende que o presidente pode resolver não apenas o seu problema específico de criar um partido, mas também o problema dos mais de 200 milhões de brasileiros que não possuem um certificado digital.

Para isso defendemos especialmente a revogação dos dispositivos da medida provisória nº 2.200-2, que regulamenta e dá o monopólio de emissões de certificados digitais ao Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI).

Isso vai permitir uma real democratização do acesso à certificação digital, que poderão ser criadas tanto pelo poder público como pelo setor privado. Com isso, além de facilitar o caminho para criação dos novos partidos teremos como legado desse processo um recurso fundamental para revolucionar a eficiência dos serviços públicos e transações privadas no país.

MAS E AGORA, QUANDO O PIRATAS VAI DISPUTAR UMA ELEIÇÃO?

A boa notícia é que, independente do processo formal de registro do Partido Pirata, estamos trabalhando em um modelo de candidatura pirata coletiva que vai possibilitar que o Partido Pirata tenha candidaturas às câmaras municipais já nas eleições de 2020.

E isso também é uma consequência indireta da minirreforma eleitoral que, com o fim das coligações proporcionais, nos abriu uma possibilidade mais segura de estabelecer uma parceria com partidos que já possuem legenda e que tenham interesse em receber os Piratas em algum formato de candidatura solidária.

Estamos em processo de discussão interna e de conversa com partidos. Muito em breve estaremos divulgando mais informações sobre como se dará o processo de criação das candidaturas Piratas para 2020 e também a discussão e aprovação do Programa Pirata para as Cidades que servirá de base para todas candidaturas apresentadas.

Nos vemos nas urnas em 2020!

Ahoy P-)



Opinião: A hora de soltar as mãos

14 de Setembro de 2019, 21:39, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

por Galdino

link original aqui

I started a joke, which started the whole world crying
But I didn’t see that the joke was on me, oh no
I started to cry, which started the whole world laughing
Oh, if I’d only seen that the joke was on me

I looked at the skies, running my hands over my eyes
And I fell out of bed, hurting my head from things that I’d said
’Til I finally died, which started the whole world living
Oh, if I’d only seen that the joke was on me.
(Bee Gees)

“Passamos a amar nossas paixões e razões de esquerda, nossas análises e convicções de esquerda, e as amamos mais que o mundo existente que supostamente estamos tentando modificar nesses termos […] A melancolia de esquerda, de maneira resumida, é o nome que Benjamin dá a um apego conservador, fúnebre e orientado para o passado que tem como objeto um sentimento, uma análise ou uma relação que se coisificou e congelou no coração da pessoa que se reconhece de esquerda” — Assim Wendy Brown apresenta a melancolia de esquerda em 1999, em um texto chamado “Resisting Left Melancholy” (“Resistindo à Melancolia de Esquerda”).

Todo o ponto do texto é oferecer um diagnóstico da esquerda de seu tempo a partir de uma perspectiva psicanalítica: há uma perda, essa perda não é reconhecida ou compreendida adequadamente, o apego ao objeto dessa perda dolorosa permanece de alguma forma, o sujeito não segue em frente e passa a viver estranhamente orientado para o passado. E a coisa não para aqui: “A ironia da melancolia, é claro, está no fato de que o apego ao objeto de uma perda dolorosa ultrapassa qualquer desejo de recuperação dessa perda, de viver uma vida livre dela no presente, de deixar esse fardo para trás” (W. Brown).

No caso em questão, o objeto de amor que se perde não tem mais a ver com relacionamentos humanos, mas com a relação entre sujeitos e objetos especificamente políticos: “Certamente, as perdas — relatáveis ou não — da Esquerda são muitas em nosso tempo. A desintegração literal dos regimes socialistas e a perda de legitimidade do Marxismo talvez sejam os menores dos problemas.

Estamos submersos na perda de uma análise e um movimento unificados, na perda do trabalho e da classe como predicados invioláveis de análise e mobilização políticas, na perda de um movimento progressivo da história que seja científico e inexorável, e na perda de uma alternativa viável à política econômica do capitalismo. E, montadas nessas perdas, temos outras: perdemos qualquer senso de uma comunidade internacional de esquerda, e, frequentemente, até de uma comunidade local; […] não temos uma visão político-moral rica para orientar e sustentar o trabalho político. Assim, sofremos não apenas com o sentimento de um movimento perdido, mas também de um momento histórico perdido; não apenas uma coerência teórica e empírica perdida, mas também um modo de vida e um curso de atividades perdidos” (W. Brown).

O passar do tempo não trouxe a emancipação prometida e as chances foram perdidas em projetos de governo que não trouxeram qualquer utopia dos Céus. Essa utopia não veio pois é isso que fazem as utopias: esquemas imaginários que apresentam mundos justamente como bons demais para nós. Ainda assim, o sonho acabou. Aquele sonho e aquela promessa. Há uma perda profundamente dolorosa para a esquerda na ruptura do fio que ligaria um passado povoado de revoluções, internacionais e proletários a um futuro emancipado.

É claro, essa promessa nunca se fundamentou em nada além de más análises, desejos e esperanças. Ainda assim, havia algo de insuperável em seu valor. Como diz W. Brown: “Mas, no núcleo vazio de todas essas perdas, talvez no lugar de nosso inconsciente político, não há uma perda que não é reconhecida — a promessa de que o compromisso e a análise de esquerda forneceriam aos seus adeptos um caminho claro e certo em direção ao bom, ao certo e ao verdadeiro?

Não é essa promessa que formou a base de boa parte de nosso prazer em estar na Esquerda, de nosso amor próprio enquanto pessoas de esquerda e de nossa afeição pelas outras pessoas de esquerda? E, se esse amor não pode ser deixado para trás sem uma demanda por uma transformação radical do próprio fundamento de nosso amor, de nossa própria capacidade de nos apegarmos ou amarmos politicamente, não estamos nos condenando à melancolia de esquerda, uma melancolia que certamente produzirá efeitos que não são apenas dolorosos, mas também autodestrutivos?”.

Seja por um desdobramento inevitável da História, seja pelas desventuras messiânicas da classe trabalhadora, seja pela relação imaginada natural entre a racionalidade de esquerda e o progresso, há um futuro que a esquerda pensa estar sempre porvir desde que nada fique no caminho. Mas, esse futuro nunca chegou, e sua perda nunca foi propriamente assimilada porque dezenas de explicações e tentativas de racionalização — eventualmente transformadas em receitas argumentativas e em modelos para análise de conjuntura — foram mobilizadas para cobrir o vazio, sempre no mesmo sentido: ‘não podemos estar fundamentalmente errados, nosso fracasso veio pelas mãos de outro’. A perda do fio histórico não impediu que se formasse toda uma fantasmagoria a partir do “era para ser” e do “deveria ter sido”. Todo o violento ressentimento que encontramos na esquerda contra o “povo” ou a “massa” pode ser traduzido como ‘se não fosse por vocês, estaríamos no Paraíso!’ (como na fórmula que encontramos no desenho animado Scooby-Doo).

Há uma certeza de que ser de esquerda, de alguma forma, é aquilo que nos torna superiores e dignos de um futuro melhor. Essa certeza se desdobra em outra: depois que nos tornamos de esquerda, basta continuarmos sendo de esquerda e fazendo coisas de esquerda e o progresso virá (porque já encontramos o Caminho).

Mas, o presente que efetivamente temos é caracterizado justamente pelo fracasso dessas certezas — quando se age sem assimilar esse fracasso, é como se o que se perdeu permanecesse de alguma forma invencível. Os comportamentos imaginados de esquerda evidentemente mudam. Mas, o amor ao “ser de esquerda” (à identidade de esquerda) é uma constante. Mundos podem frequentemente mudar sem que certas identidades mudem também. Uma identidade frutífera em um mundo pode nos deixar politicamente impotentes em outro. E, além disso, uma melancolia pode nos capturar e podemos nos apegar de maneira intensa e violenta a uma identidade que já não podemos mais carregar porque transformações significativas são exigidas.

Assim, nosso amor pode ficar aprisionado em um realismo que vai aparecer como idealismo para o resto. Não se enxerga outra possibilidade que não o apego de sempre às coisas de esquerda de sempre: se deixarmos certos fardos para trás, vamos acabar com a possibilidade do futuro desejado vir. Mas, como um olhar voltado para o passado e informado por fantasmas de um mundo que não vivemos poderia sequer reconhecer esse futuro? Como se pode construir um futuro radicalmente distinto quando o passado é arrastado de um lado para o outro e o presente é sumariamente ignorado quando contradiz o desejo?

A ausência de reconhecimento do que significa a perda política que se sofreu é justamente aquilo que permite um apego excessivo ao que já foi derrotado— como se pudéssemos tentar de novo e de novo até aparecer uma verdade no real correspondente à verdade do ideal. Com isso, só podemos cair novamente no lugar onde já estamos, só que menos potentes. Quando foi que o grito “não passarão” se tornou uma expressão de fraqueza e certeza da própria força ao mesmo tempo? Quantas pessoas precisarão passar até que esse grito ritualizado seja abandonado junto com o que o sustenta? Percebe-se ao menos que elas estejam passando sem maiores dificuldades? É mais fácil deixar passar que abandonar o rito.

O circuito de gozo da desalineação

O que se poderia chamar de “ativismo” da maior parte da esquerda se encontra em um circuito de gozo que só não parece detestável para quem está gozando (como como manda a cartilha de educação sexual de nossa sociedade patriarcal): piadas sobre como as pessoas de direita (e todas as pessoas do mundo que não se identificam como sendo de esquerda são automaticamente heteroidentificadas como de direita) são estúpidas, ignorantes, alienadas; piadas sobre como nosso presidente é estúpido, ignorante, alienado; um mar de “nós avisamos” e “eu avisei”; culpabilização recorrente de algum outro fantasmático; constante reprodução de confirmações midiáticas de que o governo é aquilo que dizemos que ele é (e que ele mesmo diz que é); obsessão em apontar contradições para demonstrar racionalmente que o pior é o pior; análises paranoicas e teorias da conspiração; demarcação de território e exibição estética de uma identidade de esquerda mesmo quando já sabemos definitivamente quem se imagina o quê; e por aí vai. E já se pode até mesmo gozar através do gozo alheio: a nova tendência é compartilhar outras pessoas praticamente anônimas ironizando, “lacrando” ou questionando algo que o presidente, seus ministros e seus filhos dizem.

Em certo sentido, tudo isso se enquadra em demarcação e exibição identitária: é preciso mostrar diariamente a “superioridade” moral, estética, política e cognitiva da esquerda. Não importa se esses inferiores nos governam, devemos rir deles como se fossem garotos encurralados no canto da sala, incapazes de qualquer coisa além de nos reconhecer como poderosos. Não importa se não somos suficientemente inteligentes sequer para sair do lugar, os idiotas só podem ser os outros

A defesa engessada de uma hierarquia espiritual, que parece indispensável para uma identidade de esquerda, apenas revela a falta de qualquer projeto de emancipação que não seja uma variação do delírio iluminista: vamos emancipar as pessoas tornando elas desalienadas e racionalmente purificadas — mas como? Tornando todas elas de esquerda. E há quem se pergunte por que esse narcisismo excessivo não convence. Citando W. Brown: “[…] um narcisismo no que diz respeito aos apegos políticos e às identidades políticas do passado que excede qualquer investimento contemporâneo em mobilização política, alianças e transformação”.

Sobra um excesso de culpa que não parece apropriado nem para uma igreja e que lança o discurso para o campo da moralidade e do moralismo. E não apenas os que estão fora da esquerda que devem ser culpados: há sempre a própria esquerda para punirmosO pós-modernismo, as políticas identitárias, os degenerados, os que fazem o “jogo da direita”, as pessoas que duvidam, o sectarismo… Os outros dentro do Mesmo, que se juntam aos outros que estão fora: do capitalismo ao Whatsapp, da ignorância de uma sociedade colonial aos excessos democráticos das pessoas que se revoltam sem partido. Há sempre algo rondando a missão de esquerda, um sabotador indestrutível que se torna o alvo infinito do discurso oposicionista.

Ocasionalmente, a espectralidade da coisa ganha contornos inacreditáveis: como as tais milhões de pessoas que se ausentaram das eleições e que não fizeram a coisa certa. Por algum motivo, há quem acredite que todas essas pessoas são algum tipo de agente político unificado e deliberadamente covarde (em cima de um muro imaginário). No entanto, ninguém se preocupou em interrogar esses sujeitos ou mesmo saber quem são — eles são perfeitos enquanto uma massa de modelar para castigarmos pelo tempo que quisermos. Como disse W. Brown: a “estrutura desejante é punitiva”.

É curioso como o mais fantasmagórico dos inimigos consegue inviabilizar todos os sonhos da esquerda. Há um ódio constantemente mobilizado contra fantasias que devem pagar pela perda do objeto amado, pela impossibilidade de cumprimento da promessa. Mas, justamente por conta da estrutura melancólica em operação, o fracasso e a impossibilidade não levam a uma transformação. É preciso dizer “eu avisei” mais uma vez em meios às cinzas do mundo que foi. Também impressiona a quantidade de vezes que algo pode ser repetido, pela mesma pessoa e para as mesmas pessoas.

Esse espetáculo do mesmo, que nada tem a ver com não mexer no time que está ganhando, estabelece o recorde de impotência com o discurso que se limita a dizer que uma pessoa terrível fez ou disse mais uma coisa terrível. Se Žižek tem razão quando recomenda que nos afastemos da pressão por um pseudoativismo, talvez esse seja o melhor exemplo. Há urgência em dizer o óbvio e irrelevante. “Olha, um fascista disse algo fascista! Vamos dizer que ele é um fascista! Não é preciso agir ou dizer qualquer outra coisa!”. Para que serve todo esse ativismo tautológico? Para que dizer as mesmas coisas por oito meses? Para que se manter na impossibilidade de que esse mesmo resulte em diferença?

Há uma quantidade assustadora de discursos congelados e prontos para consumo, argumentos pré-definidos, respostas, “críticas”, slogans e receitas de manifestação e organização — e zero preocupação com a eficiência disso tudo. Temos “[…] uma Esquerda que opera sem uma crítica radical e profunda do status quo ou uma alternativa atraente à ordem atual das coisas.

No entanto, e isso talvez seja ainda mais perturbador, trata-se de uma Esquerda que se tornou mais apegada à sua impossibilidade que à fecundidade que tem em potencial, uma Esquerda que está mais confortável habitando sua própria marginalidade e fracasso […]” (W. Brown). O desejo da própria marginalidade, em um contexto político como o nosso, não pode ser visto como um desejo pelo obscuro, pelo estranho ou gritantemente alternativo. Em geral, a esquerda é viciada em visibilidade, em aparecer a todo custo mesmo sem ter nada além da própria aparição para mostrar, em exibir todo o mesmo de sempre que já é irritantemente familiar e afastar as alternativas.

Na falta do estranho, perigoso ou surpreendente, ficamos com o óbvio, o autoevidente, o tradicional. A previsibilidade colabora com a patrulha, com a pseudocrítica e com a punição. Está tudo muito claro — então onde pode haver marginalidade? Nos objetivos maiores. O sucesso nos ritos internos não tem garantido o sucesso do empreendimento. Não importa quantas pessoas sejam recrutadas semestralmente para a esquerda, os fracassos se acumulam e os que “não passarão” permanecem passando de forma tranquila.

A esquerda se imagina marginal porque está sempre sendo combatida pelo status quo e pelas pessoas que se deixam contaminar por ele, e não faltam pessoas descompromissadas com o conhecimento se fantasiando hackeadas pelo governo, até mesmo diante de problemas técnicos banais nas tecnologias de uso cotidiano. Os outros não apenas são os culpados pelos seus fracassos, mas se encontram alinhados a algo maior e mais poderoso. Não é por acaso que há tanta teoria da conspiração circulando por perfis progressistas: filósofos trabalhando para a CIA, infiltrações nazistas, manifestações compradas etc.

Por outro lado, esses comportamentos todos (religiosos, políticos, mágicos e mesmo os humorísticos) não guardam qualquer mal intrínseco. O humor e as piadas, por exemplo, não são condenáveis por si. Combater o tédio e a chatice deveria ser algo fundamental na esquerda. Mas, quando rimos por desespero e por falta de perspectiva, não revelamos algo alegre — exibimos nossa tristeza e impotência. É perfeitamente compreensível que abusemos de mecanismos de defesa que nos permitam rir mesmo nas situações mais sombrias. Mas, o humor, assim como outras coisas, anda servindo excessivamente para manter nosso estado melancólico. O outro lado não nos manda rir menos, mas “chorar mais”. Nós somos a piada.

A ideia de que algo é necessariamente ruim frequentemente aparece no discurso de esquerda como se algumas coisas fossem necessariamente de direita. Trata-se de um essencialismo nocivo por razões simples: grupos de direita não se importam em geral com isso e se apropriam constantemente de “coisas de esquerda”; a desconsideração radical das consequências do comportamento contribui para a impotência política e para o enfraquecimento; o tempo e a história perdem qualquer relevância quando não confirmam o familiar. Mas, o familiar deve ser sempre o primeiro alvo do discurso crítico. Quando algo congela ou se coisifica, para usar os termos de W. Brown, o pensamento crítico desaparece. Assim, a mera oposição ao que se imagina negativamente é mascarada para assumir o lugar do que desapareceu. “Senso crítico” é o que atualmente associamos às pessoas que simplesmente repetem todas as fórmulas principais da “oposição” (e aí imagina-se que não há nada de crítico no discurso que não é de esquerda).

Assim, a esquerda cada vez mais parece o inverso do que ela imagina e diz ser. E essas armadilhas podem capturar também as pessoas que não se identificam com o essencialismo ou que evitam o discurso essencialista. Como o ponto inicial desse tipo de preocupação normalmente é uma metafísica opressora, o essencialismo pode frequentemente parecer um problema que afeta apenas minorias políticas. Só que a essencialização pode se voltar para qualquer identificação.

E, quando o cotidiano político é afetado pela identificação cristalizada com todo um mundo de coisas imaginadas e recebidas como sendo de esquerda, a ação política perde seus poderes mais perturbadores e o discurso fica excessivamente leve. O resultado disso é que, de maneira geral, o cotidiano das pessoas comprometidas com todo esse “ativismo” de esquerda cobre o acampamento inimigo — não como uma sombra ameaçadora, mas como um campo de proteção. O governo não parece se sentir ameaçado pela esquerda, embora imagine que o mundo esteja constantemente ameaçado por ela.

A inversão proposta por Žižek me parece indispensável: parar de tentar transformar o mundo e começar a pensar. Pensar em como o que tem sido feito e exibido incessantemente como sendo de esquerda tem sido inútil para transformar. ‘Mas é preciso fazer alguma coisa’. Certamente não é preciso continuar afundando na mesma areia movediça — a não ser que se deseje isso. O desejo de transformar precisa ser emancipado. E isso significa emancipá-lo das identidades impotentes de esquerda. “Bem, mas é melhor fazer algo que nada”. Esse nada só pode assombrar quem não enxerga além da própria satisfação melancólica — e só pode fazer sentido como oposição ao que se faz por uma distorção narcísica. Podemos simplesmente nos afastar de todos esses “pelo menos é alguma coisa”. Nada mais liberal que um “pelo menos” individual, como se toda a política se resumisse a dizer ‘eu economizo água’ para supostamente salvar o planeta.

Há muitas pessoas, organizações, coletivos, comunidades por aí realizando um trabalho cotidiano sem precisar gritar aos quatro ventos “eu sou de esquerda!”, sem precisar exibir de modo constante e discursivo todo o seu pertencimento essencializado a uma categoria, sem precisar do nome “esquerda” para poder dizer que algo é politicamente bom, sem precisar discutir sem parar o que e quem é de esquerda ou não é. E, frequentemente, esse trabalho é deslegitimado, ridicularizado ou rejeitado porque não encontramos ali uma sinalização clara de esquerda (ou uma abertura para isso). Até mesmo o desinteresse em todos os slogans, panfletos, ritos, vícios discursivos e narcisismos atrelados à identidade de esquerda chega a ser compreendido como um sinal de pertencimento à uma direita idealizada. 

‘Como é possível que essas pessoas não queiram ouvir a Palavra?’. E, quando esse desinteresse não é respeitado e o conflito emerge, vem também a tentação de classificar as pessoas como “fascistas”. Por conta da fantasia de que ser de esquerda ou direita é uma questão de cálculo e construção de gráficos, perde-se de vista que o que queremos dizer quando dizemos “sou de esquerda” passa longe de se resumir às pautas ou causas que defendemos. E, quando encontramos alguém que simplesmente não se identifica com o que aparece para ela como sendo de esquerda e de direita (e isso pode sequer envolver pautas e causas), ela logo é transformada em uma pessoa de direita em uma manobra que só parece fazer sentido se pensada como uma tentativa de dizer que uma boa pessoa só tem uma escolha: assimilar a nossa identidade e entrar em nossos circuitos de gozo.

As instituições e a guerra contínua

Até quando a esquerda, especialmente a institucional, vai fingir que não há guerra e, consequentemente, não há necessidade de uma lógica de guerra? Enquanto o outro lado se empenha em destruir tudo que a própria esquerda valoriza e faz isso sem qualquer oposição significativa dessa mesma esquerda, encontramos uma repetição constante e vazia de “é preciso resistir” e “serei resistência”, gritos de “não passarão” vindo de observadores distantes, gráficos e dados sendo exibidos como se fosse ainda preciso convencer alguém de alguma coisa. 

De que serve um soldado que vai à guerra carregando resultados de estudos sobre o fato de que o inimigo deve ser combatido? Sua ineficiência não reside intrinsecamente no que carrega, mas em sua falta de atenção ao que ocorre em seu redor (como uma pessoa que responde com toda seriedade uma pergunta retórica). Na urgência de entregar um resultado, vemos uma apresentação correta, porém inútil. O tempo de dizer algo sobre o mundo já deveria ter acabado.

O problema da cristalização de valores, discursos, hábitos, identidades etc. é precisamente esse: não se considera mais a possibilidade de abandonar qualquer uma dessas coisas em nome da eficiência e da mudança. Há um apego a certo heroísmo que é compreensível: queremos morrer gritando que estamos do lado certo da história. Normalmente o foco da ficção é no herói e nas pessoas ao seu redor, que podem se inspirar nesse gesto simbólico — e não vemos o que acontece com todo resto. E é nesse todo resto que vamos verificar a ininteligibilidade do gesto, de modo que ele não pode servir de símbolo a não ser para as pessoas que também o realizariam.

Pessoas dispostas a defender com todo vigor as fronteiras da própria identidade enquanto o mundo desmorona se tornam supérfluas. Formar alianças militares com quem essencializa estratégias é simplesmente um erro. E, quando as pessoas se tornam dispostas a deixar tudo morrer para gritar “eu avisei”, elas passam a ser parte do problema, e não de uma solução ineficiente. O uso do termo “pessoa” se deve apenas à economia da linguagem: o que há para ser combatido é a disposição, e uma disposição pode sempre estar em nós.

“Não é hora para críticar”

O caso recente de A. Frota é exemplar: insatisfeito com os rumos do governo e de seu ex-partido, não fingiu que nada acontecia por medo de “fazer o jogo da esquerda” ou “dar munição para o discurso de esquerda”. Frota não apenas teve a coragem de questionar o partido e exigir uma prestação de contas, como não esconde seu passado por conta de um moralismo cristão qualquer. E, mesmo as comunidades cristãs são capazes de receber pessoas arrependidas ou que decidiram mudar suas vidas — elas não criam páginas para ridicularizar tudo isso e manter distância. E é preciso sempre lembrar o óbvio: ninguém nasce de esquerdaOs tribunais virtuais estão abarrotados de pessoas que agem como se não houvesse nada além do presente.

De todo modo, ainda encontramos medo de autocrítica e crítica em abundância nos círculos e organizações de esquerda. Há ainda quem se desespere com a possível exposição de fragilidades (como se elas não estivessem disponíveis para todo mundo ver) ou com danos irreparáveis a uma unidade inexistente (e que, do modo como é imaginada, nunca existiu e nem poderia existir). “Não é hora para criticar” se tornou um mantra. Novamente, a ciência do momento serve para que nunca aconteça qualquer coisa.

O medo de perder ainda mais é injustificável quando há cada vez menos a perder. E ele poderia até ser justificado se fosse acompanhado de uma tentativa sóbria de vencer. Aqui, ele revela apenas um apego à marginalidade e um desejo conservador. A melancolia é inimiga da construção de futuros. Temos cada vez menos a oferecer. A lógica do “mal menor” está nos acostumando com a mediocridade, a covardia, o clichê. “Antifascismo” e “resistência” se tornaram termos praticamente vazios que podem ser associados a qualquer coisa: de ler livros a policiais. Não é mais preciso agir politicamente: basta falar, fazer coisas usuais, fazer propaganda, tirar uma selfieÉ possível, para quem quer que assim deseje, adotar uma identidade antifascista sustentada exclusivamente no discurso, de modo que a ação antifascista pode ser plenamente substituída. Afinal, “pelo menos é alguma coisa”.

A aversão à utilidade e à eficiência, um dos elementos mais importantes da herança iluminista, cai bem quando não há uma guerra em curso, ainda que, há muito tempo, ela tenha servido a uma guerra cultural promovida contra a burguesia e seus valores. Mas, com o enraizamento da melancolia, essa aversão encontra um outro medo. O medo de vencer. E de vencer coletivamente, de sair desse “pelo menos é alguma coisa” e abandonar o gozo da masturbação intelectual e identitária.

É preciso também gozar com vitórias — no lugar de celebrar o “menos pior” ou todo tipo de mudança que não move estrutura alguma. Uma guerra entre formas de vida, entre mundos, demanda algum abalo estrutural. Trata-se de algo que já foi mais significativo em uma política de esquerda e atualmente se encontra apropriado pelo novo populismo de extrema-direita. É ele que pode se dizer contra o sistema, ainda que isso não vá além de um posicionamento discursivo, e de um poder dizer que, assim como na esquerda, não se fundamenta na ação.

Para todos os efeitos, a esquerda institucional ocupa uma posição conservadora: a imagem que se tem dela é a de alguém que deseja isso tudo que está aí, seu discurso é excessivamente voltado ao presente e ao medo do futuro, suas políticas parlamentares não vão muito além de um reformismo tímido. Felizmente, a nova direita também não tem nada radical e positivo para oferecer para além da sensação de que o sistema está sendo enfrentado. Infelizmente, quando isso se tornar autoevidente para além da esquerda e dos arquitetos do Movimento, ainda será preciso propor algo no lugar.

As pessoas odeiam isso que chamamos “sistema”. As pessoas vivem as crises enquanto os bancos são salvos. Steve Bannon sabe disso. Ainda assim, o diagnóstico usual de esquerda é que essas pessoas são as “alienadas” que morreriam pelo sistema. Mas, já não se diz tanto isso porque há um esforço de esquerda que visa combater esse sistema, pois o esforço é direcionado à defesa dessas velhas instituições sob a justificativa da ameaça fascista. Defendem-se eleições, tribunais, mídia corporativa, códigos arcaicos de ética e decoro, ensino escolar. Contra o fascismo, só é possível defender a democracia, essa máquina que só funcionou até agora quando alimentada pela destruição ambiental, pelo genocídio das populações indígenas e negras, pela reprodução de todo tipo de violência e precarização. Onde foi parar o discurso que coloca isso tudo em questão?

Não há mais tempo para ele: torna-se urgente retornarmos ao ponto onde o problema começou, como se o futuro cancelado do iluminismo fosse finalmente aparecer depois de reiniciarmos o jogo mais uma vez. Enquanto isso, o fascismo desce e sobe no seio da mesma democracia (e isso ocorre desde antes da Segunda Guerra). De que serve uma “resposta nas urnas” em 2022 (a esquerda institucional é especialmente encantada com a própria ciência do momento oportuno) se tudo pode retornar em 2026? Ou, da próxima vez, a esquerda no governo finalmente fará alguma coisa para combater a extrema-direita, ao invés de facilitar sua circulação enfraquecendo o real movimento antifascista?

E, ainda que isso ocorra, será minimamente suficiente? E se for, isso significa que finalmente viveremos o sonho social-democrata? E, de todo modo, o que fazemos com a guerra que ocorre neste exato momento? A melancolia de esquerda a torna radicalmente conservadora em termos de futuro e especialmente impotente para uma batalha. Isso não se resolve recuperando o que foi perdido, mas construindo novas análises, tarefas, coerências e formas de vida a partir deste mundo e do que há entre ele e outros mundos.

O núcleo da melancolia da esquerda

“A minha ênfase na lógica melancólica de certas tendências contemporâneas de esquerda não significa que recomendo terapia como uma forma de responder a essas questões. No entanto, ela sugere que sentimentos e emoções — incluindo mágoa, raiva e ansiedade envolvendo promessas não cumpridas e bússolas perdidas — que sustentam nossos apegos às análises e aos projetos de esquerda devem ser examinados por conta dos aspectos potencialmente conservadores e até mesmo autodestrutivos de encontramos por trás de objetivos políticos aparentemente progressistas” (W. Brown).

A terapia sequer poderia ser uma recomendação aqui por um motivo simples: ela é individual. Há um excesso individualista na esquerda que nos desorienta a todo momento, especialmente pelo individualismo pertencer ao terreno ideológico deste mundo. Se nos colocamos a pensar sobre o que fazer diante de uma crise, há sempre quem tente congelar esse pensamento para poder dissecá-lo pseudocriticamente. Como se tudo se resumisse a uma disputa entre indivíduos ou entre organizações imaginadas como indivíduos.

No presente momento, pouco importa quem faz a análise correta. A análise é uma ficção. A conjuntura é uma ficção. Chega a ser assustador que passe pela cabeça de alguém que uma única pessoa ou organização pode realmente oferecer uma análise fechada de uma realidade como a nossa. Como consequência disso, todo tipo de reducionismo, distorção e idealização pode ser tomado como retrato do real. Além disso, toda a análise que eu poderia oferecer não passaria de um convite: “vamos nos encontrar e pensar esse tipo de coisa?”. Toda ficção é um convite. Textos não são soluções e as soluções não existem: elas precisam ser encontradas coletivamente.

Por outro lado, parece cada vez mais inútil (ou mesmo desesperador) fazer certos convites. Ainda no período eleitoral, quando se tornou praticamente incontornável a vitória do atual governo, abundaram soluções individuais e agradáveis para o narcisismo de esquerda: convencer pessoas aleatórias na rua, discutir com parentes e apresentar dados sobre como a esquerda era melhor. Houve quem defendesse (publicamente!) que as tais “massas alienadas” não fossem tratadas como tais durante o convencimento, como se a melhor tática de esquerda fosse fingir a inteligência do outroEvidentemente, esses outros foram rapidamente descartados quando o pesadelo se consolidou, retornando ao seu lugar usual como alvos de ressentimento.

Desde então, passados oito meses de governo, praticamente nada mudou. Podemos imaginar a surpresa das pessoas que ouviram que o fim do mundo estava próximo quando elas perceberam que ninguém passou a agir como tal. E, não apenas isso, continua o discurso de que o pior está sempre porvir: ‘estava ruim, mas ficará pior com essa nova lei’. Esse tipo de análise seria inofensiva se não servisse para dizer que nada está insustentável. O inaceitável está sempre no futuro. 

Em oito meses, nada serviu para perturbar suficientemente a esquerda: ela pode continuar com o espetáculo do mesmo e nenhuma transformação se fez necessária. E o mesmo de um lado revela o mesmo do outro: nosso inimigo continua sendo nosso inimigo, continua falando coisas terríveis, continua destruindo tudo que amamos. Mas, há mais amor pelas identidades e análises de esquerda e isso ele não pode destruir. Fazendo as contas, não há mais o que dizer: queremos o governo que temos e só deixaremos de querer quando outro pior aparecer. Só podemos nos confundir com uma imagem cristalizada se as mudanças no mundo não nos demandarem mais nada, pois é ele que deve girar ao nosso redor.

Ninguém quer ouvir que deseja algo assim. ‘Somos oposição ao governo!’. São? Que compromisso podemos encontrar e que revele, sem nenhuma sombra de dúvida, que a esquerda, especialmente a institucional, esteja fazendo qualquer coisa para acabar com o governo? E as seitas que acreditam que o governo deve seguir até 2022 para que a sua “derrota” seja democrática? Até mesmo o apocalipse se tornou modismo, palavra vazia, marca a ser valorizada. Todo o terror que esse governo nos traria e nos trará não é suficiente? Não viveríamos o retorno da ditadura, finalmente? Alguém certamente dirá: ‘ainda não é a ditadura, mas, se isso aqui ocorrer, aí sim’. Há toda uma hermenêutica especializada nos sinais desse retorno. Os sacerdotes da esquerda anualmente nos dizem: a ditadura finalmente voltará.

Depois que se percebe que as profecias não se cumprem, e que há coisas muito piores que ditaduras para acontecer (especialmente na história do Brasil), sobra uma questão muito simples: que tipo de desejo está envolvido nesse ativismo profético? Podemos olhar para o modo como todo movimento pela liberdade do ex-presidente Lula recusa qualquer engajamento com algo que possa realmente libertá-lo, ao mesmo tempo que recusa seguir em frente. Essa dupla recusa reside no núcleo da melancolia de esquerda. As pessoas chegam mesmo a confiar na exata mesma justiça que elas acusam, da mesma forma que acreditam que nossas instituições democráticas podem nos salvar do fascismo, mesmo quando ele é recebido democraticamente.

E há também um limite de espera pelo luto. Deve-se esperar mais oito meses? Até quando vamos continuar segurando a mão de pessoas que simplesmente não abrem mão do que são? Se elas amam mais suas identidades que as outras pessoas ao seu redor, então até onde vale a pena o esforço? Esse misto de cristianismo com liberalismo que tanto nos consome sempre exige salvação universal para que não salvemos nada e ninguém.

Ele demanda que carreguemos, de um lado para o outro da trincheira, os fantasiados de herói, os que carregam gráficos, os armados com título de eleitor, os que olham para trás, os crentes iluministas, e todos os que não aceitam que governos de esquerda não levam necessariamente a lugar algum, que democracias não se desdobram logicamente em utopias racionalistas etc. Todos esses realistas esclarecidos afundados em melancolia, narcisismo e ressentimento nos querem impotentes, dependentes de suas leituras de conjuntura, cheios de raiva dos “inferiores”.

Até quando segurar a mão de quem ainda deseja a manutenção da crise como forma de manutenção identitária? Até quando a solidariedade reforçará melancolias coletivas? O espetáculo do mesmo promovido pela esquerda trará resultados diferentes nas próximas eleições ou nos trará algo ainda pior? Quem tem o privilégio de esperar para ver? E o que chamamos de “bolsonarismo” como fenômeno cultural, sem o qual não haveria guerra alguma? E, mais importante: de onde vêm os discursos que adotamos cotidianamente? Discursos não surgem no vácuo. 

É preciso sempre perguntar se uma nova orientação, análise, demanda ou “crítica” que nos aparece como sendo de esquerda se adequa à nossa experiência do mundo — e não realizar o movimento contrário. Isso é especialmente relevante quando as preocupações veiculadas afetam primariamente membros de um alto escalão qualquer da política. Se chega até nós que “não é hora” de tal ou tal coisa, até onde devemos tomar os argumentos que sustentam essa afirmação como nossos, por medo de não sermos suficientemente de esquerda?

E, é claro, não faz sentido imaginarmos que tudo aquilo que nos imobiliza vem de um novo outroMais importante que a engenharia reversa das nossas construções discursivas é enfrentar o impossível em nós: aquilo (que imaginamos) que sabemos ser impossível dizer respeito ao nosso cotidiano político. É abrir todas as portas marcadas com um “V”, investigar tudo que há de não-pensado no pensamento, como dizia Foucault (e não é por acaso que a ortodoxia conspiratória o transformou em uma espécie de agente do imperialismo — o “fazer o jogo da direita” de antigamente).

Assim, a própria identidade política pode se tornar uma questão. Uma questão real, e não o fantasma de um “identitarismo” ou “política identitária”, recorrentemente conjurado pela mais tradicional esquerda — que, nos dias de hoje, dificilmente encontra tarefa mais relevante que a manutenção e exibição de sua própria identidade, algo que não poderia deixar de envolver a afirmação de que a política identitária é sempre do outro. Pode parecer abstrato, mas não há nada de incomum em se acusar o oponente político daquilo que se é.

Os que reclamam de sectarismo costumam trabalhar continuamente pela manutenção desse mesmo sectarismo, por exemplo: basta tornar a unidade inviável sem a submissão violenta do outro. De todo modo, é apenas tornando a identidade uma questão que podemos sair da perspectiva que nos mostra aquilo com o qual nos identificamos como sendo a única possibilidade para nós. Nosso realismo é o que deve mudar, como ocorre com uma pessoa negra que se liberta de todo tipo de identificação com teses metafísicas racistas sobre a natureza humana, com destinos impostos pela hegemonia, com atribuições de lugares e funções sociais etc. E isso serve para toda e qualquer pessoa que se identifica politicamente de uma maneira ou outra.

A melancolia de esquerda funciona porque a identidade permanece inviolável. Mesmo com a perda dos objetos de nosso amor político, temos certeza de que ainda precisamos deles para nos orientarmos no mundo, para nos relacionarmos com outras pessoas e para nos olharmos no espelho. Há até quem sinta prazer em se ver como um sujeito deslocado no tempo, uma máquina obsoleta, uma ruína que se preserva em nome do que deveria ter sido. O que é preciso descobrir não é a falta de necessidade de certos vínculos imaginários, mas a contingência dos objetos. “Até que eu finalmente morri, o que fez com que o mundo começasse a viver”, dizem os Bee Gees.

O que nós tomamos como sendo o que somos agora pode morrer — e deve morrer para a emancipação do desejo de transformação. Talvez seja necessário soltar certas mãos para que elas façam o luto adequado desse futuro esclarecido que nunca veio e de todo o resto que ficou no passado. Talvez seja preciso soltar certas mãos para que elas não nos puxem de volta para os circuitos, vícios e automatismos que enclausuram o gozo e o desejo de esquerda — ou o gozo e o desejo ainda sem nome.



Opinião: Por quem deseja ser controlado?

12 de Setembro de 2019, 20:16, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

A China tem seu Grande Firewall, a Rússia o Roskomnadzor e nós? O Facebook.

por Corvolino, link original aqui

É comum nós do Ocidente ficarmos espantados com medidas que controlem a Internet por parte do Governo Chinês e/ou Russo mas ainda assim acreditamos falsamente que temos uma Internet livre de controle, aberta e que todos os dados trafegam de forma igual sem interferência de um Governo ou Corporação.

O que China, Rússia e Facebook tem em comum são que os três adoram quebrar a Neutralidade da rede para controlar o que é visto, compartilhado, dito permitindo em suas bolhas de liberdade controlada apenas o que lhe convém.

Governos costumam usar justificativas extremas para criar uma falsa sensação de liberdade na rede e fazer com que se acredite que estão preocupados com o bem estar social mas no fundo só querem ter o controle da rede. Países como Sudão, Turquia, Paquistão e Cuba são péssimos exemplos de controle da Internet por parte do Governo (e existe algum bom?), pois tudo que é visto como diferente do status quo é reprimido, seja online ou offline, isso quando não desligam a Internet, como ocorreu na Primavera Árabe, para evitar difusão de atrocidades que ocorrem no país (recentemente a Venezuela passou por isso).

Já as corporações, como Facebook, se utilizam do fator econômico para impedir concorrentes de atuarem no mesmo seguimento enriquecendo ainda mais e monopolizando o espaço na rede, desta forma usuários são encurralados de forma que a única opção viável é utilizar alguns dos seus serviços. Na China as grandes empresas possuem relações bem estreitas com o Governo Chinês a ponto de permitirem vigilância através de seus serviços de busca, chat, jogos e etc.

Propaganda vinculada sobre como a Internet seria sem o MCI.

No Brasil o Facebook tem uma enorme influencia sobre a Internet. Desde aprovação de leis, como o Marco Civil da Internet e Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, como em promoções a um custo zero para o consumidor nas principais operadoras do país com planos que oferecem de forma “gratuita” algum aplicativo ou em alguns casos todos da família Facebook Inc mas caso o usuário queira utilizar outros serviços é consumido dados do seu plano.

Propagandas como a da figura acima foram amplamente vinculadas em tweets e textos defendendo o MCI e a Neutralidade da Rede. Querem transformar a Internet em planos de TV a cabo, eles falavam. Hoje o Facebook faz exatamente isso na Internet Brasileira juntamente com as TELES e seus planos com Internet “gratuita” para Whatsapp, Messenger e Instagram sendo que para demais serviços uma outra quantidade de GigaBytes são permissivos a uso.

Serviços de streaming como o Netflix estão começando a engatilhar nesta mesma prática com prática de zero rating fortalecendo seu monopólio e lobotomizando usuários a consumirem apenas seu serviço. Amazon Prime e HBO Go já foram oferta por operadoras de telefonia em planos que não consumiam dados ou com quantidade de GB para serem utilizados por determinado período.

A Internet está tendo seu controle disputada entre Governo e Corporações, em alguns casos de forma amistosa, vide China e Rússia, em outros existe uma quebra de braço entre Governo e Empresas para quem vai prover a tal da “liberdade” na Internet. A quebra de Neutralidade da Rede já é uma prática consolidada no Brasil, com órgãos governamentais fazendo vistas grossas, permitindo que empresas de aplicação e de conteúdo estrangeiras controlem totalmente o que vemos e o que fazemos na Internet, simplesmente lamentável. Do ponto de vista mercadológico é ruim, do educacional é péssimo.

A Neutralidade da Rede deve ser respeitada, protegida e difundida. Se necessário quebremos está dicotomia para protege-la. O que não podemos permitir é um controle de como devemos usar a Internet, imagens como está abaixo devem ser repudiadas, seja o presidente ou empresa que for.

Dilma com seu capote Facebook em um encontro com Mark para tratar sobre o Internet.org

O Facebook não é a Internet, não permita que isso se perpetue.



Crise e Revolução na Teoria e Política Econômica: um debate

11 de Setembro de 2019, 13:38, por PIRATAS - 0sem comentários ainda

Debate sobre os limites da Economia com Blanchard vs Anti-Blanchard

o texto a seguir é uma livre tradução do debate “Pensando uma alternativa” entre Olivier Blanchard, ex-economista chefe do FMI, um dos principais expoentes da Economia Mainstream (corrente teórica principal da área) e autor de alguns dos manuais de macroeconomia mais usados nos cursos de graduação no mundo todo, e Emiliano Brancaciano, autor do livro Anti-Blanchard e um dos autores do “Aviso dos economistas contra políticas de austeridade na União Europeia” publicado no Financial Times

link original aqui

Pietro Raitano: Boa tarde a todos. Eu gostaria de agradecer ao público por comparecer, a Fundação Giangiacomo Feltrinelli por organizar esse evento, e aos debatedores com quem teremos o prazer de ouvir elaborarem seus argumentos em assuntos importantes os quais, no presente momento histórico, nós todos precisamos entender e confrontar.

Eu trabalho na magazine mensal, Altreconomia, que por duas décadas subscreveu a visão de que o ambiente econômico que moldou essa era da “globalização” não é apenas incapaz de resolver quaisquer dos problemas mais importantes que afligem a sociedade em uma escala global – tais como desigualdade ou desafios ambientais – mas que também é, em alguns aspectos, responsável por esses problemas e, portanto que o pensamento, acadêmico que acompanha esse ambiente precisa ser reconsiderado.

Dez anos se passaram desde a erupção da crise econômica e financeira de 2008, e hoje nós estamos vendo sinais que o espectro de outra crise talvez esteja no horizonte. Nesse sentido, o debate entre posições distantes – e eu diria até mesmo em antítese uma com a outra – como essas se confrontando hoje a noite, pode realmente nos ajudar a entender como políticas de regulação talvez funcionem dessa vez e como elas podem ser mais efetivas do que no passado.

Eu, portanto, recebo nossos debatedores, Emiliano Brancaccio e Olivier Blanchard. Eu cedo meu lugar ao Sr Brancaccio, Pofessor de Política Econômica na Universidade de Sannio e propositor do “Aviso dos Economistas contra as políticas europeias de austeridade” que foi publicado no Financial Times em 2013.

Ele também foi autor de um manual de macroeconomia com o eloquente título de Anti-Blanchard. Esse livro oferece ferramentas diferentes daquelas disponíveis no Manual mais utilizado do professor Blanchard, Macroeconomia, do qual muitos de nós fomos instruídos.

Apresentação Brancaccio

Emiliano Brancaccio: Obrigado a todos por me receber. Por favor, permita-me algumas citações preliminares acerca de “Anti” livros. O Anticato de Julio Cesar foi uma representação literária de uma época em transição, uma que em mais de uma década iria provocar o fim da República e o início do Império Romano. O Anticato em si parece ter inspirado Friedrich Engels, autor de Anti-Duhring. Por outro lado, o livro de Engel marcou uma fase crucial entre duas filosofias da ciência opostas: o idealismo e o materialismo.

De certa forma, eu retirei inspiração desses grandes exemplos da minha própria maneira. Anti-Blanchard é um experimento modesto, um que está confinado a uma esfera estreita da crítica à macroeconomia. Ainda que seu título busque mirar em uma pessoa particular, o livro de fato tenta trazer alguma luz a uma disputa de uma característica muito mais ampla – eu ouso dizer coletiva. Ela envolve uma disputa, agora submergido entre o quase esquecido, entre a abordagem prevalecente da teoria e política econômica e um ponto de vista ou paradigma econômico alternativo.

Anti-Blanchard é, acima de tudo, a razão que nós pedimos a Fundação Feltrinelli a organizar esse debate. Nós agradecemos a Fundação por ter aceitado nossa proposta. E, é claro, nós também agradecemos a Olivier Blanchard por aceitar esse convite.

Agora, por que Anti-Blanchard? Por que não “Anti-Lucas”, “Anti-Prescott”, ou “Anti-Sargent”? Primeiro a relevância da experiência institucional de Olivier Blanchard supera sua persona individual. Em minha opinião, isso é mais verdade para ele do que qualquer outro economista vivo.

Professor Blanchard foi apontado como Economista Chefe do Fundo Monetário Internacional em 1 de setembro de 2008. Isso foi apenas duas semanas antes do Banco Lehman Brothers ter declarado falência, provocando a crise global.

Por uma confluência extraordinária de circunstâncias, o período de Blanchard no FMI corresponde exatamente com o tempestuoso período da Grande Recessão, a primeira crise na região do Euro e o começo das novas tendências protecionistas do mundo, muito antes da chegada de Trump na Casa Branca. Desnecessário dizer, os direcionamentos de Blanchard nas pesquisas promovidas pelo Fundo passaram despercebidas. Sob sua liderança, nós testemunhamos uma mudança significativa em Análise e, até certo ponto, das propostas de política feitas pelo Fundo Monetário Internacional.

Eu destaco o “mea culpa” do fundo em relação à subestimação dos multiplicadores fiscais, a expansão do investimento público financiado por déficits como instrumento de crescimento econômico, a consideração sobre controles de movimento de capital, o reconhecimento de uma relação inversa entre desigualdade e desenvolvimento econômico e assim por diante.

Ainda assim, além do papel institucional de Olivier, uma razão mais profunda me levou a escrever Anti-Blanchard e então a publicar uma edição internacional com a ajuda de Andrea Califano. Isso envolve a abordagem teórica de Blanchard e a estrutura de seus modelos analíticos. O paradigma prevalecente da teoria e política econômica – o que nós geralmente chamamos de “mainstream”, do qual Olivier Blanchard é um dos expoentes mundiais – em última instância se refere à tradição neoclássica do equilíbrio geral intertemporal.

Uma característica fundamental dessa abordagem é a pressuposição que as forças espontâneas do mercado, as forças da demanda e oferta irão gerar os níveis da taxa de juros, a taxa de lucro e o salário real necessário para trazer a economia ao equilíbrio natural, que é um equilíbrio que corresponde a níveis eficientes de produção e emprego do trabalho e outros recursos escassos sob dados limites institucionais.

Portanto, de acordo com a abordagem prevalecente, o livre jogo das forças de mercado, ao menos em princípio, iria trazer a única distribuição de renda entre salários, lucros e juros os quais, dada as limitações dos recursos escassos e outras limitações relevantes, garante níveis eficientes de produção e emprego.

Produção e distribuição são portanto ligados um ao outro por uma dupla relação de acordo uma inexorável lei da eficiência. Isso significa, entre outras coisas, que na visão do mainstream, esforços em aumentar os salários além do nível determinado pelo equilíbrio de mercado irá necessariamente levar a uma queda do nível de emprego e da produção. Em outras palavras, conflitos sociais apenas podem gerar danos.

Agora, é possível provar que em diversas ocasiões, em seu livro texto assim como em algumas de suas publicações acadêmicas mais importantes, Blanchard se desviou um pouco da ortodoxia neoclássica ou ao menos forneceu as bases para se desviar disso. Por exemplo, em seu livro texto cuja edição européia foi escrita com Alessia Amighini and Francesco Giavazzi, Blanchard assume que a distribuição da renda entre salários e lucros é substancialmente uma variável exógena, ou seja, uma variável externa ao centro de sua análise.

Em outras situações, por exemplo, em seus famosos modelos de histerese, Blanchard foi além, hipotetizando que a distribuição de renda não é apenas externa à análise, mas não tem nem mesmo qualquer conexão com a tendência de produção e emprego.

Mais precisamente, nesses modelos, sob certas condições específicas o salário real pode ser considerado como uma variável dada, enquanto níveis de produção e emprego são determinados por um relacionamento entre o salário e a quantidade de dinheiro. A presença de Franco Modigliani e um forte odor do MIT pode ser sentido nesse aparato teórico.

Agora, eu poderia dar mais exemplos desse tipo e eu poderia entrar em detalhes sobre a hipótese particular que levou a tais resultados. No entanto, em tais circunstâncias, minha tese básica é a seguinte. Quando os modelos de Blanchard assumem que a distribuição de renda entre salários e lucros é uma variável externa para a análise e quando seus modelos vão além e assumem que a distribuição não é unicamente conectada com um nível específico de produção e emprego, nós chegamos na implicação teórica significante:

os modelos de Blanchard podem acomodar abordagens teóricas alternativas, ou seja, elas são abertas a interpretações baseadas em várias tradições “heréticas” de John von Neumann, Wassily Leontief, Piero Sraffa, Nicholas Kaldor, Luigi Pasinetti, Pierangelo Garegnani, Joan Robinson, Hyman Minsky, Paolo Sylos Labini, Augusto Graziani e muitos outros.

Essa tradição de esquemas alternativos podem admitir várias relações possíveis entre produção e distribuição, nenhuma delas tem nada a ver com o conceito neoclássico de uso ótimo de recursos escassos. Não existem mais níveis de salários, lucro ou taxas de juro que garantam produção e emprego em níveis máximos, dadas as limitações existentes.

Nesses modelos alternativos, o o íntimo link neoclássico entre produção e distribuição de receita some. A relação entre essas variáveis se torna mais complicada, perde sua aura de neutralidade técnico e cai dentro do escopo do conflito político e social.

Em geral, é útil manter em mente que o que foi descrito como uma linha teórica de demarcação que se aplica a todas as abordagens existentes. Em relação ao link entre produção e distribuição de renda, todas as teorias mais ou menos explicitamente formuladas, sejam velhas ou novas, devem logicamente serem situadas em um lado ou outro dessa linha “Althusseriana” separando o mainstram neoclássico da visão alternativa que acabou de ser descrita.

Não é algo sempre explícito de qual lado da linha de demarcação uma teoria particular deva ser colocada. Esse é o caso, por exemplo, da modelagem baseada em agentes (Agent Based Modeling), uma das abordagens não convencionais que atingiram algum sucesso hoje. Em outras palavras, nenhuma nova teoria pode escapar necessidade de assumir posição seja para explicar preços relativos e distribuição em termos convencionais neoclássicos ou rejeitar essas suposições e, portanto, se comprometer com uma alternativa explícita.

De volta ao nosso caso específico, a mesma linha de demarcação ressalta um fato surpreendente. Aqueles modelos de Blanchard que estão abertos a teorias alternativas podem ser tomadas ao longo de uma linha teórica: eles podem de fato se tornar abertas ao conflito sobre a distribuição do produto social. Pensando a partir de uma linguagem velha, mas ainda obsoleta, alguém talvez vá além que de tempos em tempo, mais ou menos conscientemente, Blanchard abre seus modelos para o conceito de luta de classes de Marx.

Olivier, é claro, irá discordar da minha interpretação. Ele talvez argumente que essas defasagens teóricas, essas pequenas fissuras lógicas que talvez permitam tais interpretações ousadas de seus modelos são meramente resultado de simplificações provisórias que podem então ser quietamente removidas em estágios mais avançados de análise e substituídos por outros que estão alinhadas com a tradição mainstream.

Eu acredito que a verdade é diferente. A verdade é que modelos econômicos são um pouco como crianças. Em algum ponto, elas assumem uma personalidade própria que em muitas maneiras são independentes das aspirações de seus parentes.

Ao que parece esse é precisamente o caso com Blanchard. Diferente dos modelos de Robert Lucas, Thomas Sargent ou Edward Prescott, ainda assim análogo a muitos exemplos da tradição do MIT ao qual ele pertence, os modelos de Blanchard podem ser invertidos e transformados. Eles podem se tornar modelos alternativos e resolver algumas contradições internas.

Ao adotar técnicas similares, o grande teorista e polemista Frank Hahn uma vez tentou transformar os modelos de Sraffa em um “caso especial” da teoria de equilíbrio geral neoclássica. Ao fazer isso, no entanto, ele cometeu erros teóricos bastante graves. Esses incluem, entre outros, a afirmação paradóxica de determinar “o passado como uma função do futuro”.

Nesse ponto, nós podemos dizer que ao invés de Blanchard poder de alguma maneira se tornar de certa maneira marxista através de um reversal que, nesse caso, passa o teste lógico. Afinal, se não fosse possível inverter teoricamente os modelos de Olivier, Anti-Blanchard nem sequer teria nascido e nós não estaríamos aqui discutindo o assunto.

Nós talvez possamos acrescentar que essa reversal teórica é precisamente o que cria a possibilidade de relançar a comparação e competição em um sentido Lakatosiano, entre os diferentes paradigmas. A comparação que nós propomos entre os modelos de Blanchard e as interpretações heréticas deles facilita a tarefa de escolher entre eles em uma base científica, ou seja, em base de uma relevância histórica, consistência lógica e evidência empírica.

De fato, a abordagem mainstream frequentemente parece estar enfrentando problemas, mesmo apenas sob bases empíricas. Aqui, a visão alternativa se encontra em uma posição muito mais forte de apresentar provas baseadas em dados.

Um exemplo típico é a análise da relação entre a tão chamada “flexibilidade” do mercado de trabalho de um lado e as dinâmicas dos salários reais e emprego do outro. Como Olivier observou algum tempo atrás e como diversos relatórios do FMI, OCDE e Banco Mundial reconheceram recentemente, a tese prevalecente de que flexibilidade do trabalho reduz desemprego não parece ser apoiada por evidências empíricas.

De acordo com os dados, a tese alternativa parece ser mais robusta: o único efeito tangível de flexibilidade é reduzir o poder de barganha dos trabalhadores e, portanto, a proporção destinada aos salários. Em outras palavras, a maior parte do impacto das políticas que miram aumentar a flexibilidade do mercado de trabalho não gera eficiência produtiva, mas sim conflitos distributivos.

Quais, então, são as implicações gerais da política econômica em tudo isso? Eu acredito que elas são significantes. Em um artigo recente escrito com Larry Summers, Olivier Blanchard evocou a possibilidade que uma “evolução”, talvez até mesmo uma “revolução” da política econômica está a vista. Um ponto chave da “revolução” evocada por Blanchard e Summers envolve a possibilidade de apoiar e estabilizar níveis de emprego através de gastos com investimento público.

Em geral, isso pressupõe uma política de expansão do orçamento publico de maneiras mais sistemáticas e incisivas que no passado. De acordo com Blanchard e Summers, “revolução” daqui por diante significa, entre outras coisas, um papel renovado do Estado patrocinar políticas em apoio ao desenvolvimento econômico e emprego. Tal posicionamento dentro do mainstream é um desenvolvimento importante.

No entanto, deve ser apontado que a “revolução” da política econômica proposta por Blanchard e Summers se baseia na suposição que no futuro as taxas de juro serão consistentemente menores que a taxa de crescimento da economia por diversas razões.Ela ajuda a reduzir desigualdades, reduz o peso da dívida e promove a intervenção pública na economia. Pois apenas se as taxas de juro estiverem menores a dívida pode ser sustentável diante dos déficits primários do governo e acima de tudo diante do aumento dos gastos públicos.

Curiosamente, em edições anteriores de seu manual, Blanchard argumentou que uma taxa de juros menor que a taxa de crescimento era um caso “exótico”, improvável e no fim das contas não muito relevante. Hoje em dia, no entanto, Blanchard e Summer reconheceram a taxa de juros consistentemente abaixo do crescimento como uma possibilidade real.

Blanchard e Summers, no entanto, parecem justificar esse novo cenário como uma espécie de fenômeno espontâneo de mercado. Eles algumas vezes interpretam isso ao atualizar o velho conceito de “estagnação secular” criado por Alvin Hansen em 1939.

Em sua maior parte, a taxa de juros abaixo da taxa de crescimento seria o resultado de um aumento espontâneo nas poupanças comparado com o investimento e a consequente redução da taxa de juros “natural”, que presumidamente a equilibraria.

Agora vamos pensar sobre isso: essa é a ideia mainstream de que existem níveis “naturais” das variáveis de distribuição que correspondem ao equilíbrio no nível de produção. Trata-se novamente da ideias neoclássica de uma relação de eficiência entre produção e distribuição de renda.

No entanto, nós sabemos que modelos teóricos alternativos ensinam que esse relação de eficiência não existe e portanto que o conceito neoclássico de uma taxa “natural” de juros é igualmente ilegítima.

A implicação é que em modelos alternativos uma taxa de juros persistentemente abaixo da taxa de crescimento nunca pode ser um evento espontâneo de mercado, nem mesmo e situações de “estagnação secular”. Portanto, uma taxa de juros que seja menor do que o crescimento econômico pode ser apenas o resultado de um ato político deliberado.

Mais especificamente, decisões precisas de política econômica são necessárias para manter taxas de juro abaixo do crescimento. Em primeiro lugar, uma política monetária desvinculada de uma Regra de Taylor anti-inflacionária é necessário. Os dados indicam que tais regras, que foram amplamente adotadas nas décadas recentes, são totalmente inadequadas para estabilizar o ciclo de negócios e a inflação. Pelo contrário, elas geram o risco de causar taxas de juros relativamente altas.

Elas são potencialmente destrutivas para a solvência do sistema econômico e podem em última instância acelerar o que Marx identificou como uma tendência da centralização do capital em cada vez menos e menos mãos. Além disso, manter as taxas de juro abaixo da taxa de crescimento requer uma política de controle de capital, tal que a taxa de juros possa ser reduzida sem arriscar saída de capital estrangeiro.

Mas acima de tudo, manter a raxa de juros abaixo da taxa de crescimento requer uma política de balancear salário e deflação de preços, ou seja, uma política que previna salários e preços de caírem. Salário e deflação de preços deve ser evitada uma vez que ela aumenta a taxa de juros e a proporção entre o serviço da dívida e a receita, gerando assim riscos de fazer o peso da dívida se tornar insustentável.

A deflação de salários e preços e um ponto delicado. Blanchard expressou posições variadas sobre esse assunto, os quais ele abordou separadamente caso a caso. Em relação à crise da Zona do Euro em particular, quando Blanchard considerou os casos da Grécia e os países ao sul da Europa ele repetidamente apoiou uma política de deflação de salários com a esperança de observar melhoras na competitividade a um nível que estimularia as exportações, reduzir as importações e portanto ajudar a reabsorver os pesados déficits acumulados na balança comercial nesses países.

Nesse ponto eu devo dizer que discordo profundamente. Acimda de tudo, antes de discutir como remediar esses desequilíbrios da balança de pagamento, eu acredito que devemos primeiro nos perguntar por que eles surgiram. Nós deveríamos estudar em profundidade especialmente por que os mercados financeiros durante muito tempo alimentaram tais desequilíbrios dentro da Zona do Euro para depois descobrirem, de uma hora para outra, que tais desequilíbrios eram insustentáveis.

Por muitos anos, grandes fluxos financeiros permitiram que muitos países importassem mais do que eles exportavam, então, de repente, esses fluxos secaram. Tamanho carrossel conseguiu implodir a estabilidade do euro muito mais do que qualquer desequilíbrio público financeiro.

Deixe me lembra-los que nas mesmas linhas de Francesco Giavazzi, Blanchard foi por um longo tempo substancialmente otimista sobre a possibilidade que o mercado estava operando corretamente, implicando que os desequilíbrios dos países ao Sul da Zona do Euro pudessem ser resolvidos de maneira relativamente rápida através de aumentos da produtividade e da produção.

Depois de tudo isso, tornou-se claro que esses desequilíbrios eram insustentáveis e eles também mudaram de opinião. Isso é uma mudança positiva de perspectiva. Ainda assim, nós continuamos a encarar um problema não resolvido.

Um mercado financeiro que acelere desequilíbrios que eventualmente se mostrem inteiramente insustentáveis é intrinsecamente ineficiente e pode ser uma fonte de tensões sérias nas relações internacionais. Esse problema toca em um assunto chave do capitalismo contemporâneo que, por todos os motivos práticos, ainda precisa ser confrontado. É uma ameaça completamente não resolvida que pode reaparecer a qualquer momento.

Em segundo lugar, passando de abordar as causas para os remédios, na minha opinião, que difere da de Blanchard é que a deflação de salário nunca é uma soluçao válida. Mesmo quando encaradas com desequilíbrios significativos no balanço de moeda estrangeira, a política de salários e deflação de preço deve ser evitada e outros caminhos devem ser buscados.

Eu quero ser claro nesse ponto. Se nós pensarmos que a Zona do Euro precisa depender de deflação para conseguir remediar seus desequilíbrios internos e sobreviver, então eu não apenas suspeito que ela não irá sobreviver, como acredito que nem mesmo seja apropriado torcer por sua sobrevivência.

Por que eu insisto de maneira tão forte nesse ponto? Porque a história nos ensinou que uma solução baseada na deflação de salários é perigosa e pode gerar repercussões na estrutura econômica, assim como nas instituições sociais e políticas. Alguns argumentam que a deflação foi um dos fatores que levou à ascensão do Nazismo. Agora, a história não se repete, mas recordar pode ser algo útil nessa era de assustadora memória reprimida coletiva.

No fim, a memória da deflação como motor da ascensão de Hitler foi um dos motivos por trás do “Aviso dos Economistas” que eu, Dani Rodrik e muitos outros publicaram no Financial Times alguns anos atrás e que nós ainda consideramos atual. Portanto, eu afirmo: deflação deve ser evitada, sempre e em qualquer situação. Certamente, manter a deflação fora do guia de praticas dos economistas foi um ensinamento básico da revolução de política econômica mais significativa que já ocorre sob o capitalismo: a “revolução” que carrega o nome de Keynes.

Deixe me terminar, portanto, com algumas palavras sobre Keynes. Em termos mais ou menos óbvios, Keynes é a inspiração por trás de Blanchard e Summer quando eles invocam a possibilidade de uma revolução na política econômica. Nesse contexto, a questão que de certa forma me chateou e que eu gostaria de compartilhar com todos vocês é a seguinte: é uma “revolução” da política econômica que de uma maneira ou outra se refere a Keynes como praticável hoje?

Blanchard e Summer acreditam que seria bom se essa revolução ocorresse, mas eles acrescentam que eles não tem certeza se isso irá acontecer. Eu temo que suas dúvidas sejam bem fundadas. Nós conhecemos Keynes como um intelectual progressista, um literato, um defensor das liberdades civis e um inimigo dos rentistas. Ainda assim, todas esses traços de personalidade vem do fato de que Keynes era o produto de um período extraordinário marcado por um profundo conflito sistêmico entre capitalismo e socialismo.

O intelecto de Keynes foi claramente forjado pelo antagonismo entre esses dois grandes sistemas da vida social. Sua ideias foram modeladas por essa colisão histórica e seu sucesso depende do fato de que ele tentou, de certa forma, encarnar uma possível síntese dialética desse conflito. Nem todos os biógrafos destacam esse aspecto, o qual em minha opinião é decisivo e levanta questões importante para os dias de hoje.

Pois, como vocês podem ver, nós nos tornamos acostumados a tratar o experimento socialista aplicado na prática como um desastre. Obviamente, esse julgamento é baseado em diversas razões. Nós o conhecemos como um experimento colossal que certamente acelerou a transição de muitos países de uma estágio de desenvolvimento pouco mais do que medieval para uma fase de industrialização moderna.

Nós também conhecemos o socialismo soviético como um laboratório político carregado de erros e manchado de horrores. Ao mesmo tempo, mesmo a remoção total do planejamento socialista do discurso político pode levar à ascensão de consequências não intencionadas. O problema, portanto, é que quando a ameaça do “Grande Outro” socialista não estava mais presente, nós não podemos fazer nada além de nos perguntar se as condições políticas da síntese Keynesiana podem ser criados em um vácuo dialético assustador como esse.

Bem, eu temo que não. Eu temo que a síntese Keynesiana do século 20 foi em última instância um resultado direto da ameaça socialista. Eu temo que sem a presença do desafio socialista seria extremamente difícil hoje que outra síntese Keynesiana possa emergir. Eu afirmo esse como um problema aberto para qualquer que tente invocar Keynes hoje. Eu, portanto, acredito que esse seja um problema em aberto para todos nós, mesmo para Olivier Blanchard

Raitano: eu agradeço ao Professor Brancaccio e cedo o espaço para o Professor Blanchard, que agora trabalha no Instituto Peterson de Economia Internacional. Como previamente mencionado, ele serviu como Economista Chefe do Fundo Monetário Internacional de 2008 a 2015, onde ele teve que encarar a emergência da crise que estamos discutindo.

Apresentação Blanchard

Olivier Blanchard: Boa noite. Em primeiro lugar, eu agradeço a vocês por me convida para essa discussão com Emiliano Brancaccio. Emiliano levantou questões importantes referentes ao papel da teoria econômica, o assunto da distribuição, o funcionamento da Zona do Euro, entre outras coisas. No entanto, eu vou deixar esses pontos para o debate da parte interativa dessa noite.

Eu gostaria de começar com a questão se há alternativas ao capitalismo. Minha resposta é “Não”, no seguinte sentido. Para mim, é óbvio que o único caminho não-caótico de organizar interações econômicas em um mundo populado por sete bilhões de pessoas é o uso de mercados. Eu acredito que esse ponto não deixa espaço para discussão.

Ao mesmo tempo, no entanto, nós sabemos que mercados trabalham insatisfatoriamente em várias situações, tais como infra-estrutura, saúde ou educação. Isso é porque a solução pode apenas ser uma combinação de mercados e do Estado. Nós aprendemos que alguns sonhos do passado revelaram ser um pesadelo.

Eliminar mercados e ter o Estado assumindo o seu papel se traduz em catástrofe. O caminho oposto foi tentado em outros países onde antes mercados podiam a atuar, mas lá os resultados, apesar de diferentes em forma, foram igualmente ruins. É claro, portanto, que a única solução envolve uma combinação.

Ainda assim, a questão é: como nós determinamos a mistura certa? Eu não acredito que a resposta deva ser a mesma em todos os casos. Ao invés disso, eu acredito que isso depende de como o mundo está evoluindo. Mercados fazem um bom trabalho e alguns casos. Em outros, eles produzem excessos inaceitáveis, tais como desigualdades crescentes. Eu acredito que esse é o caminho em que o debate deve ser conduzido.

Dito isso, eu vou abordar aquilo pelo qual eu sou mais conhecido, que é macroeconomia e política macroeconômica e o que nós aprendemos da última década. Eu vou falar na primeira pessoa do singular ao invés da primeira pessoa do plural. Eu faço isso para indicar como minhas opiniões mudaram ao longo últimos dez anos acerca da macroeconomia e a economia do trabalho e sobre políticas que seriam benéficas de se implementar.

Agora, o que aconteceu nos últimos dez anos? Existem dois eventos muito diferentes. Em primeiro lugar, a grande crise financeira de 2008-2009 ocorreu e deixou cicatrizes visíveis em um grande número de países. Esse evento moldou o mundo de uma maneira terrível e nós estamos apenas começando a nos recuperar devagar. Segundo, houve uma gradual ascensão do populismo. Isso é resultado de muitos fatores, entre eles a inequalidade possui um papel central. Da perspectiva dos desafio que encaramos atualmente, esses são os elementos que dominam a cena. Nós podemos tomar cinco lições disso.

A primeira é óbvia: o sistema financeiro importa na economia. Eu digo isso porque antes da crise de 2008-2009, macroeconomistas tinham ignorado amplamente o sistema financeiro. Eles o viam simplesmente como um meio de transferir fundos para as pessoas ou empresas que precisavam deles. Além disso, muitos dos modelos macroeconômicos não analisam o setor financeiro. Isso se tornou um problema quando a crise explodiu. Reconhecer que o sistema financeiro seja relevante é portanto uma conclusão óbvia, mas que possui consequências mais insidiosas que se pensava sobre como nós entendemos a economia.

Macroeconomistas observam as variáveis macro e suas interações esperando que ao olhar para essas variáveis macro seja suficiente para entender o que está acontecendo. Em geral, economistas não possuem o tempo, a habilidade ou a oportunidade de pode olhar em cada pequena micro variável.

O ponto é que problemas do setor financeiro talvez não sejam visíveis em um nível macro. Visto de fora o setor talvez pareça estar em boa forma mas, de fato, vários problemas se ocultam na interação entre vários jogadores do mercado. Isso significa que os macroeconomistas precisam olhar em cada detalhe do sistema financeiro para poder dizer algo sobre a macroeconomia? Eu acredito que a resposta seja sim e esse é um desafio difícil

A segunda lição que é necessária para manter o sistema financeiro sob controle e evitar riscos e que devemos utilizar muitas ferramentas de políticas públicas. Isso torna a situação bastante complexa.

Nós gostamos de ver a política macroeconômica como um pequeno conjunto de ferramentas simples. Na realidade, um grande número de ferramentas são necessárias. Se bem usadas e na combinação certa, tais ferramentas permitem uma maior área de ação do que aplicar um único instrumento para esse ou aquele problema. Mas isso faz pensar sobre políticas públicas algo muito mais difícil.

A terceira lição lida com um problema que sempre ocorre quando a regulação é implementada. Seja o mercado financeiro ou qualquer outro mercado, sempre haverá alguém do outro lado tentando contorna-la ou usar a regulação de uma maneira que melhor se aplique de acordo com seus próprios propósitos.

Nós observamos isso em mercados de trabalho. Quando reformas são introduzidas, as empresas e trabalhadores se adaptam a ela ao longo do tempo. Geralmente leva uma década, mais ou menos, para que ela realmente tenha pleno efeito. No caso da finanças, há profissionais cujo trabalho é tentar descobrir um caminho que contorne quaisquer regras que os reguladores tenham imposto. Trata-se de um jogo de gato e rato, jogado infinitamente mais rápido do que em outros mercados. Isso torna o regulamento financeiro algo extremamente difícil.

A quarta lição é a seguinte. Antes da crise, especialmente no países mais avançados, a maioria dos macroeconomistas acreditava que a economia flutuava em volta de uma tendência e que as ferramentas de políticas públicas poderiam ser usadas para manter a economia próxima dessa tendência. Eu sempre fui cético sobre esse ponto de vista.

Eu trabalhei em modelos de histeresis e de bolhas, sendo que ambas sugeriram uma interpretação diferente de flutuações e de suas relações com a tendência. Em minha opinião, a crise tornou clara que a ideia de que economias são estáveis – que, quando elas são atingidas por um choque, elas retornam ao equilíbrio sozinhas – é simplesmente errada. Existem inúmero exemplos de como pequenos choques tiveram efeitos muito amplos.

Nós sabemos que se alguém corre pra sacar o dinheiro do banco e outros que vêem isso e fazem o mesmo, o banco, que até então era solvente, irá se tornar insolvente e será forçado a fechar. Portanto, um evento muito pequeno pode levar a algo muito maior. Esse fenômeno não se restringe a bancos, ele pode afetar o sistema financeiro e a economia. Portanto, ideia convencional de que pequenos choque apresentam efeitos pequenos na economia está incorreto.

Uma forma extrema desse equilíbrio múltiplo é a ideia de que se todo mundo é otimista, então as coisas vão bem. Se todos são pessimistas, então as coisas vão dar errado. Eu acho que me tornei muito mais cético sobre a habilidade da economia se auto-regular e isso tem uma implicação óbvia. Se eu já era bastante insistente em usar políticas macroeconômicas dez anos atrás, hoje em dia eu sinto a necessidade de implementar uma política macroeconômica agressiva nos primeiros sinais que algo está indo errado.

Essa última década levou a tremendas mudanças no campo de política monetária e mudanças mínimas no campo de política fiscal. Isso apresenta um problema. Dado o chamado “limite inferior zero” da taxa de juros, os bancos centrais entenderam que eles careciam das ferramentas necessárias para encarar a crise. Eles, portanto, criaram novas ferramentas, tais como as que hoje chamamos de “afrouxamento quantitativo” (quantitative easing). Mas nós temos ferramentas de política monetária hoje que nos permitam prevenir ou ao menos limitar os efeitos da próxima recessão?

Uma nova recessão irá ocorrer. Nós não sabemos quando, mas ela virá. Hoje a taxa de juros dos Estados Unidos se encontra em volta de dois a três porcento. Tipicamente, no passado durante uma recessão o banco central reduziu a taxa em cinco porcento ou mais para evitar uma recessão mais profunda. Agora, tudo que ele pode fazer agora é reduzir em três porcento e eu não acredito que será suficiente. E isso é um assunto sério.

Bancos Centrais tem uma ferramenta importante, que é a taxa de juros, que eles podem mover pra cima e pra baixo. No entanto, os efeitos de política monetária na distribuição entre vários grupos de pessoas era tipicamente pensados como pequenos.

Bancos Centrais se beneficiaram de um regime de independência, pois as consequências significativas do que eles estavam fazendo em termos de desigualdade ainda não era bem compreendido. Bancos Centrais possuem um mandato ainda mais amplo atualmente. Eles podem adquirir todos os tipos de ativos, mas tem consequência diretas na distribuição.

Por exemplo, quando bancos centrais decidem desacelerar o mercado imobiliário ao aumentar o pagamento mínimo necessário para adquirir uma propriedade, não apenas freios são aplicados no mercado imobiliário, mas os jovens agora terão muito mais dificuldade para comprar uma casa. Isso é claramente uma política “não-neutra”. Nós temos que nos perguntar se independência completa deveria ser concedida ao banco central como é feito hoje.

Em relação à política fiscal, os governos foram seriamente abalados quando a crise financeira mostrou sua face mais brutal no fim de 2008. Nós no FMI dissemos a eles que eles deveriam proceder com uma expansão fiscal pois a demanda privada estava colapsando e alguma coisa precisava ser feita. Os governo estavam tão assustados que eles fizeram isso. Houve uma expansão fiscal muito importante em 2009 que muito provavelmente gerou resultados positivos.

O problema é que, logo que o maior perigo foi evitado, a maior parte dos países retornou à sua política fiscal previa, que era uma política de austeridade que mirava na redução do déficit e limitar o aumento da dívida. Essa política é que vem sendo implementada desde então. Isso foi uma oportunidade perdida em dois aspectos.

O primeiro é aquele do “estabilizador automático”. Essencialmente, receitas de impostos decaem automaticamente durante uma recessão, portanto o déficit fiscal aumenta. Esse mecanismo ajuda a empurrar a demanda pra cima, mas códigos tarifários não são desenhados tendo em mente uma macro estabilização.

Basicamente, se um país tem uma taxação mais progressiva, então o estabilizador automático será mais forte. Portanto, a estabilização é mais forte em alguns países e mais fraco em outros. A maioria dos países aceita a ideia de que estabilizadores automático funcionam, mas até agora nenhum país tentou desenvolver melhores estabilizadores automáticos, ou seja, algo que automaticamente engatilha a expansão fiscal correta no caso de recessão. Essa é uma oportunidade perdida.

O segundo aspecto envolve a noção da dívida como um pecado. Como vocês sabem, em alemão, a palavra para “dívida” (Schuld) é sinônimo de “culpa”. Em um contexto onde a taxa de juros é alta e taxa de crescimento é relativamente baixa, a dívida se tornar expansiva porque se acumula rapidamente e deve eventualmente ser quitada.

Nós estamos em um contexto hoje, no entanto, em que a taxa de juros é menor do que a taxa de crescimento. Em países como os Estados Unidos, França e Alemanha, a taxa de juros é menor do que taxa de crescimento e isso permite emitir dívida sem ter que aumentar as taxas depois.

Digamos que g represente a taxa de crescimento do PIB, ao longo do tempo, uma unidade de dívida cresce no mesmo patamar que a taxa de juros r. Portanto, se g é maior que r e o déficit primário (a dívida que não inclui o pagamento de juros) é igual a zero, então a proporção divida/PIB cai. Portanto, em situações de uma taxa de juros muito baixa, o custo da dívida nos impostos é muito menor.

Ainda assim, nós continuamos a ver as proporções da dívida acima de 60 porcento como perigosas e nós temos regras que requerem que nações reduzam taís dívida relativamente rápido. Eu acredito que essas regras são inapropriadas em relação à situação atual.

Uma palavra de aviso, no entanto, dado onde essa conversa está ocorrendo: Ninguém deveria aplicar essas conclusões à Itália. No caso da Itália, r é muito maior do que g porque os investidores estão incerto sobre se serão pagos. Se o governo puder convence-los de que eles serão plenamente repagos, a taxa de juros seria muito menor. No entanto, tal promessa somente é crível se os investidores acreditarem que é possível confiar no governo. Nesse momento, eles não confiam.

Vamos passar para a quinta lição da ascensão do populismo. Uma porção de pessoas estão estudando por que o populismo se tornou mais forte. Eu acredito que um dos principais motivos é a desigualdade, assim como a insegurança econômica.

Imigração também é um fator em muitos países. A proporção de receitas daqueles um porcento que mais ganha também exacerbaram a crise. O pagamento de salários obscenos para banqueiros que estiveram na origem da crise financeira tiveram uma ressonância muito poderosa. Apesar deles assumirem papeis diferentes em países diferentes, todos esses elementos estão de fato presentes.

Eu foco na desigualdade porque eu acredito que esse seja o fator mais importante. Nós estivemos cientes do problema por um longo tempo, mas havia essa ideia de que taxas de crescimento altas iriam eventualmente beneficiar a todos. Nem todos se beneficiam no mesmo grau, mas a suposição que é que todo mundo iria ganhar alguma coisa. Isso costumava ser verdade, mas não é mais verdade hoje, por dois motivos.

Primeiro, o crescimento de longo prazo das receitas é menor do que costumava ser. Segundo, a natureza do progresso tecnológico e da globalização também assume um papel na desigualdade crescente. O que ocorre quando dois elementos são combinados? As pessoas do fundo da escala social registram os menores ganhos em receita real. Eles talvez até mesmo registram perdas, como vemos no caso dos Estados Unidos. Isso é claramente inaceitável.

Essa tendência vem se ampliando cada vez mais. Não há necessidade que eu fale sobre o que aconteceu no meu país, a França, ao longo das última semanas, sobre o governo que vocês tem nesse país ou sobre o Trump nos Estados Unidos. O ponto é que muitas pessoas estão sofrendo. Minha questão é: o que nós podemos fazer? Eu acredito que essa seja a questão mais difícil e nos traz de volta ao que estávamos falando no começo.

Nós temos algumas ferramentas padrão para combater desigualdades. A primeira ferramenta é a educação. Melhor educação prepara você para trabalhos que existem e irão existir mais do que para trabalhos que não existem. Eu sei um pouco sobre o treinamento profissional na Itália, mas eu sei mais sobre o nível de treinamento profissional na França, que não é bom. Um grande esforço deve ser feito, mas ele talvez não seja suficiente.

Outros assuntos: até que extensão é possível aumentar o salário mínimo sem afetar o emprego dos trabalhadores menos habilitados? Até que ponto devemos usar o imposto de renda negativo quando comparado com salários mínimos mais altos para aumentar as receitas dos trabalhadores com os menores salários? Essas questões nos trazem um ponto qu pode tocar no futuro do capitalismo. E isso me preocupa. Eu me pergunto: se nós implementarmos essas medidas e se nossos governos entenderam a necessidade de implementa-los, isso seria suficiente?

Em semanas recentes, eventos na França mostraram quantas pessoas querem mais do que o estado pode praticar de maneira realística. Aqui nós entramos na discussão das mudanças necessária que eu mencionei antes. Nós devemos olhar para medidas muito mais fortes do que essas que eu acabei de citar.

Nós temos que examinar a implantação de um imposto mínimo para corporações que atuam em muitos países, um acordo internacional sob o qual substancialmente todos os países concordam em ter uma taxa mínima. Países que não concordarem devem ser penalizados de alguma forma.

Quando você pergunta para as pessoas na França, elas dizem: “nós queremos mais serviços públicos” e também “nós queremos menos impostos”. Diante da resposta que não tem dinheiro disponível, eles retrucam: “taxem os ricos”. Mas do jeito que as coisas estão arranjadas hoje, isso não nós levará a lugar nenhum. Se as taxas foram aumentadas em apenas um país, as empresas iriam se mover para qualquer outro lugar.

Como resultado, eu acredito que para atingir a desigualdade, um acordo internacional de tributação entre as empresas é necessário para se criar uma base tarifária mais ampla. Isso seria uma mudança substancial quando comparado ao que temos hoje.

O mesmo se aplia ao comércio internacional. Isso frequentemente beneficia consumidores, mas cria danos sérios para trabalhadores que perderam seus trabalhos. Mesmo se nós esperarmos compensar por esse dano, isso tipicamente não é suficiente. Quando você abre o mercado ao comércio internacional, talvez faça sentido faze-lo progressivamente, ao invés de fazer tudo de uma vez na esperança de que tudo dê certo. Isso da mais tempo para trabalhadores receberem treinamento novo e descobrirem novos empregos.

Governança corporativa é outra área de ação. Esse é o último que irei mencionar. Empresas maximizam o valor dos acionista e eles fazem isso da maneira mais ótima possível, No entanto, isso frequentemente ocorre à custa de trabalhadores e consumidores. A ideia de alterar a governança corporativa ao introduzir uma representação dos trabalhadores é algo que sempre vem e volta, mas que fz sentido.

Eu acho que nós podemos fazer mudanças nessa direção, que eu espero que seja suficiente para evitar futuras catástrofes.

Raitano: Houveram muitas ponderações interessantes nessas duas apresentações de peso. Eu irei mencionar apenas algumas: o tópico das ineficiências das finanças internacionais, o assunto dos investimentos do estado e finalmente o assunto da distribuição desigual de riqueza. O último ponto se tornou mais agudo com a crise, tanto que setenta milhões de pessoas possuem tanta riqueza quanto o resto da população mundial. Adicionalmente, as palavras do Professor Blanchard dão uma ideia de quão profundo é a mudança de pensamento moldando nossa era. Deixemos o Professor Brancaccio assumir o palco na réplica.

Réplica Brancaccio

Brancaccio: eu vou me limitar a algumas poucas observações de um dos temas chaves examinados por Olivier Blanchard, para que o público tenha a possibilidade de participar. Olivier parece se posicionar em um ponto fundamental, indicando que não há alternativa ao capitalismo. Suas propostas focam em encontrar a mistura certa entre intervenção estatal e mecanismos espontâneos de mercado, ainda que dentro de um ambiente substancialmente capitalista.

Olivier toca na tese que é característica das escolas de pensamento que excluem opções fora do perímetro do mercado capitalista. De fato, ele afirma que em um mundo complexo populado por bilhões de indivíduos, apenas os mercados podem, em última análise, regular, disciplinar e guiar processos e decisões. Essa é a uma tese forte que, como sabemos, é consequência de evidências teóricas e históricas importantes.

Existe, no entanto, uma observação crítica que pode ser aplicada a essa tese. Como o próprio Blanchard reconheceu, o nível de instabilidade nos mecanismos espontâneos de mercado se mostrou muito maior do que qualquer um poderia ter imaginado alguns anos atrás.

A instabilidade das livres forças do mercado foi sentida além das fronteiras da própria economia, implicando em importantes repercussões na própria estrutura social e política. Esse é um ponto de grande significância, pois ele sugere que o sistema é mais instável e potencialmente mais destrutivo que previamente era esperado.

Blanchard citou as convoluções sociais e políticas que ocorreram na França e outros países. Ele chamou atenção para os protestos em andamento, que as requisições dos manifestantes estão além do alcance das possibilidades concretas da política econômica, dadas as restrições sistêmicas existentes. Por exemplo, Olivier aponta que se um único país aumentar o imposto sobre lucros corporativos, então capital irá fugir para outros países. Com o objetivo de resolver esse problema ele evoca a possibilidade de um acordo internacional sobre tributação corporativa.

Alternativamente, eu sugeriria, controles também poderiam ser impostos sobre movimentos internacionais de capital. Blanchard, igualmente, fez alusões a controles de capital, ainda que por outras razões. Mas ao que me parece esses tipos de medidas não estão na agenda política de nenhum dos principais atores. Além disso, tributação corporativa se encontrada limitada pelo risco de que o capital e empresa possam se mudar para qualquer outro lugar.

Nesse cenários de reivindicações sociais de um lado e limitações institucionais de outro, existe um perigo real de que para manter as coisas juntas, aceitar instabilidade econômica, enquanto suprimem instabilidade social e política, uma tentativa será feita de reduzir os direitos das pessoas – não apenas direitos sociais, que já foram em grande parte reduzidos, mas também direitos civis e políticos.

Em outras palavras, se for mantido de que não há alternativa ao atual sistema de mercado capitalista, há o risco de que, com o objetivo de defender o sistema de sua própria instabilidade, talvez seja necessário sacrificar alguma outra coisa. Essa tendência já se encontra a caminho e ela talvez se intensifique enquanto a tendência Marxiana diante do capital continue.

O próprio fato de que o ex-Economista Chefe do Fundo Monetário Internacional concluiu seu discurso ao evocar o perigo de “futuras catástrofes” e afirmando que há uma tarefa difícil diante de nós é encontrar uma maneira de evita-los, parece para mim testemunho de autoridade das crises e contradições de nosso tempo.

Tréplica Blanchard

Blanchard: deixe-me voltar ao tópico da ausência de alternativas. Eu estava fazendo uma declaração normativa e não uma declaração descritiva. Na verdade, eu certamente vejo alguns políticos oferecerem o que parecem como alternativas. Por exemplo, governos populistas oferecem soluções de políticas públicas como alternativas. No entanto, essas soluções não funcionam.

O que me preocupa é que quando se torna evidente que essas não são alternativas reais, esses governos serão tentados a ir além. Eu também, como Emiliano, penso que talvez ele venham reduzir o nível de democracia para se montar no poder, apesar dos resultados econômicos pobres. Ou, eles irão tentar o recurso Estadunidense de manipular a opinião pública (wag the dog), o que significa buscar por um inimigo e travar guerra com ele com o objetivo de distrair o público.

Em sua apresentação, Emiliano levantou vários outros pontos interessantes. Eu não concordo com todos eles. O primeiro envolve distribuição. Eu acredito que isso é absolutamente central tanto sobre assuntos de curto quando de longo prazo. Eu sempre vi o nível de desemprego como refletindo em parte u conflito distributivo entre trabalhadores e empresas.

Trabalhadores querem salários que se adequem ao que eles precisam gastar e empresas querem definir preço baseado nos salários que eles tem que pagar. Todo mundo quer mais. Como esse conflito pode ser resolvido? Minha tese é que, infelizmente, isso é parcialmente resolvido através de desemprego, o que sobre até o ponto em que as demandas de salário dos trabalhadores se adeque ao que as empresas estão dispostas a pagar.

Outra dimensão de distribuição que é significativa no longo prazo é a transmissão de riqueza. Thomas Piketty insiste sobre esse ponto. Fundamentalmente, muita desigualdade vem de transmissão de riqueza. É por isso que eu vejo imposto sobre heranças como um meio de reduzir a desigualdade.

Quando ao déficit entre os balanços dos países da Zona do Euro, eu certamente pensei que vários países do Sul da Europa, não Itália, mas Espanha, Portugal e Grécia precisavam de investimentos substanciais. Portanto, manter os atuais déficits nos balanços pareceu ser uma boa ideia, mas no fim mostrou-se não ser uma ideia tão boa.

Eles não investiram muito e acabaram com uma dívida estrangeira alta que tinha que ser cumprida. Eles agora reduzindo seus déficits na balança de pagamento substancialmente, mas em grande parte porque a importações estão baixas. Em grande parte é por isso que os saldos dos balanços parecem melhores que alguns anos atrás.

Mas como eles podem retornar a um estado saudável no fronte estrangeiro? Eles devem aumentar sua competitividade. Essa é a uma condição necessária. Eles podem fazer isso de duas maneiras. Uma é aumentar sua produtividade, mas é mais fácil falar do que fazer. O outro é ter salários que cresçam mais devagar do que o salário dos competidores.

Em essência, se seu competidor tem uma inflação de dois por cento, então sua taxa de inflação precisa ser de zero por cento. Por exemplo, se considerar a Alemanha como competidora e considerar que a economia alemã é marcada por uma inflação muito baixa, então nós devemos ter deflação para melhorar a competitividade.

No entanto, eu concordo 100 por cento com Emiliano que deflação não é uma solução positiva. Eu acredito que a solução não se encontra em um nível nacional mas na Europa como um todo. Alemanha deve aceitar mais que dois por cento, tal que outro possam substancialmente melhorar sua competitividade sem deflação.

Perguntas do Público

Raitano: Vamos reunir algumas questões do público.

Primeira pergunta: Vocês dois concordam com a relevância de uma distribuição de renda pobre, a qual é consistente com a perspectiva do Profesor Blanchard e gera problemas para o crescimento econômico. É possível que re-pensar as regras do sistema monetário internacional possa contribuir a reposicionar esse problema de uma perspectiva mais otimista?

Segunda pergunta: Eu gostaria de perguntar ao Professor Blanchard: O que você acha dos modelos heterodoxos pós-keynesianos?

Terceira pergunta: Professor Brancaccio, no fim do seu discurso, você se referiu ao contexto do pós-guerra, quando o bloco socialista e o sistema capitalista estavam em antítese. Hoje, quais interesses podem constituir o bloco social que irá estabilizar o capitalismo ou leva-lo a se auto-reformar?

Quarta pergunta: Essa é para o Professor Brancaccio, que inicialmente mencionou o risco de supressão da democracia. Eu gostaria de pergunta se a democracia já não foi derrotada através da substancial dominância do mercado sobre os parlamentos nacionais e caso, quando assuntos sociais são desconsiderados, nós iremos ver o retorno do facismo como Karl Polanyi previu?

Quinta pergunta: Em 2014, o economista vencedor do prêmio Nobel Jean Tirole declarou que teorias econômicas alternativas, aquelas que correspondem às tradições de pensamento crítico, são anti-científicas. Em seu ponto de vista, tais teorias não podem ter espaço na academia porque eles iriam promulgar um relativismo do conhecimento que é a ante-câmara do obscurantismo. Eu gostaria de saber a opinião do Professor Blanchard sobre esse assnto e se ele acredita que o estudo de teorias alternativas – junto das mais tradicionais, é claro – deveriam ser mais encorajadas.

Respostas Brancaccio

Brancaccio: a última pergunta sobre Tirole nos leva a refletir sobre o fato que alguns membros proeminentes da comunidade acadêmica de hoje parecem muito pouco inclinados a criar as condições mínimas necessárias para produzir uma frutífera competição Lakatosiana possível entre paradigmas alternativos. Isso impõe um obstáculo maior para o progresso futuro da ciência econômica e eu gostaria de ouvir a opinião de Olivier sobre isso.

Eu também teria alguns comentários teóricos sobre suas reflexões sobre distribuição, mas nós também podemos explorar esses temas em qualquer outro lugar. Aqui eu gostaria de pegar inspiração das questões do público e concluir ao dirigir os assuntos políticos e de política econômica que foram levantados. Em relação aos riscos para a democracia, o economista Dani Rodrik avançou em uma tese interessante sobre o conflito que talvez emerja entre a liberdade total de circulação de capital e e produtos e sustentabilidade do processo democrático dentro de cada país.

A liberdade de movimento de capital, por exemplo, pode amarrar as mãos das autoridades legitimadas pelo processo democrático. Isso torna impossível abaixar as taxas de juros ou taxas de lucro devido à ameça de fuga de capital estrangeiro. Rodrik argumenta a solução ótima para esse problema seria trazer o processo democrático a um nível mais alto, essencialmente o movendo para além dos limites dos estados individualmente. Isso pode ser feito ao estabelecer um governo democrático supranacional que resolva conflitos de uma maneira coordenada que blinde escolhas políticas do suborno do movimento de capital.

Rodrik claramente reconhece que embora a solução ideal envolva coordenação supranacional de tomada de decisões, é praticamente impossível coloca-la em prática. Nós, portanto, devemos procurar por alternativas. Mesmo no caso União Monetária Européia, Blanchard implicitamente sugeriu uma solução supranacional coordenada. Ele nos lembrou que a obstinação com a qual a Alemanha mantem inflação doméstica em um nível relativamente baixo é uma sério obstáculo para resoluções coordenadas.

Apesar de sua política anti-inflacionária, a Alemanha ajudou a alimentar uma perigosa tendência através da deflação em muitos outros países Europeus. O fato de que o país mais forte da Zona do Euro tem, em termos relativos, colocado uma pressão permanente sobre salários e preços acionou processos destrutivos de competição deflacionária entre uma ampla parte da Europa.

Blanchard sugeriu que a Alemanha vá eventualmente aceitar salários e inflação de preços maiores do que os atuais bom o objetivo de bloquear essa perigosa tendência deflacionária. Esse é precisamente o tipo de solução coordenada que Rodrik considera ideal, no qual o país mais forte agiria em linha com o interesse geral da União Europeia e evitar deflação.

Infelizmente, tais soluções coordenadas dificilmente encontram condições políticas favoráveis. Sobre a dificuldade de produzir tal coordenação na Europa, permita-se oferecer um pequeno relato pessoal de uma experiência muito informativa que uma vez eu tive. Era 2012, quando os partido socialistas europeus tinham fortes expectativas do sucesso político na França, Alemanha e Itália.

Durante a candidatura de François Hollande para a presidência da república francesa, a Fundação de Estudo Progressivos Europeus, que é muito próximo ao Partido Socialista Europeu, organizou uma conferência para elaborar um manifesto socialista comum para uma reforma de política econômica progressista para a União Europeia. A conferência ocorreu em Paris na Assembleia Nacional.

O ex-primeiro ministro Francês e Italiano Laurent Fabius and Massimo D’Alema me convidou a participar dessa conferência. Eu fui requisitado a apresentar uma proposta que eu havia feito alguns meses antes. A proposta era chamada “Um padrão de salário Europeu” e já havia sido incluído no programa político do Partido Democrático Italiano.

Colocado de forma simples, ele envolvia adotar sanções contra países europeus que, apesar de estarem em sistemático superávit no comércio internacional com seus parceiros, insistem em pressionar por uma política de competição baseada na queda de salários e preços. Essencialmente, o “padrão de salário” não era nada mais que um mecanismo de coordenação supranacional por barganha de salários para prevenir a Alemanha, o país mais forte da União Europeia, de levar todos os outros países à deflação

Naquele tempo, a proposta recebeu aprovação de representantes de vários países: Franceses, Espanhóis, Portugueses e Gregos, entre outros. Em certo ponto, no entanto, dessa harmonia geral se levaram a voz de dois participantes alemães, um representando sindicados e o outro um representante da social democracia.

Eles basicamente disseram: “enquanto nós apreciamos a sugestão do Professor Brancaccio, o problema é que ele falha em entender como a União Europeia funciona. A União Europeia foi construída não na base da solidariedade e coordenação, mas com base na competição e está destinado a se manter assim”.

Um deles acrescentou que também discordava com a proposta Francesa mais modesta de estabelecer um salário mínimo Europeu. No final, nenhum manifesto comum emergiu dessa conferência. Para mim, essa foi uma pequena lição de vida. Naquele momento eu percebi que se mesmo aqueles que são mais ou menos herdeiros da tradição do movimento trabalhista exaltaram as virtudes da competição de salários na Europa, então encontrar soluções supranacionais para encarar a crise da União Europeia seria muito improvável.

Dessa breve anedota, eu também tirei inspiração para dizer uma última palavra a aqueles que me perguntaram o que o “bloco social” pode consegui hoje ao lutar por uma “revolução” da política econômica. Minha opinião é que todos os movimentos progresso social e civil que nós testemunhamos na era capitalista esteve quase sempre associado a emissões propulsoras que, em termos mais ou menos diretos, vieram de uma classe de trabalho organizada – aqui que chamamos de movimento internacional do trabalho, tanto em suas forma reformista quando revolucionária.

Para mim, a ideia de que nós podemos gerar mudanças na direção de progressos sociais e civis sem a direção subversiva das organizações de trabalhadores, parece ser profundamente negado pelos fatos. O problema é que, nos dias de hoje, apenas os representantes do capital parecem capazes de se organizar politicamente. Capital em larga escala, fortemente vinculado a um nível supranacional consegue representação política no que nós poderíamos chamar das tradicionais e não-críticas forças globalistas.

Ao mesmo tempo, o capital em pequena escala se situou acima de tudo em um nível nacional, frequentemente em problema e com problemas de solvência, hoje encontra uma potencial fonte de representação política no que pode ser chamado “populismo reacionário”. Ainda assim, o trabalho se encontra totalmente silenciado em um nível político. Eu acredito que esse silêncio político do trabalho representa a principal ameaça para a civilização moderna.

Respostas Blanchard

Blanchard: eu fui perguntado o quanto organizações internacionais podem fazer para atacar a desigualdade. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico ou Organização Mundial do Comércio são claramente relevantes nesse contexto. No entanto, eles não podem resolver o problema sozinhos. O que eles podem fazer é um número de coisas, como trabalhar em tributação corporativa. Isso é algo que precisa ser feito internacionalmente.

Em relação aos pós-keynesianos: eu devo admitir que eu não li tudo que eles escreveram. No entanto, em geral, a importância do conceito de distribuição parece ser um tópico bem importante para eles, mas menos importante para nós. Além disso, eu acredito que eles tem pontos úteis a comunicar nesse fronte. Eu sou a favor de tirar inspiração do trabalho deles.

Quanto às declarações de Tirole, eu não acredito que ninguém tem um monopólio sobre o conhecimento. Se outras pessoas tem coisas interessantes para dizer, então aquele que já foi um considerado um elemento externo pode eventualmente se tornar um elemento interno, como no caso de Hyman Minsky. Pessoas que promovem pontos de vista que diferem do mainstream pode fornecer algo útil. Algumas vezes eles estão certos.

Ao mesmo tempo, no entanto, eu ainda acredito que a direção na qual o mainstream está olhando é a correta. Eu não acho que existam realidades alternativas, mas que há apenas uma realidade que precisa ser entendida. Quando pessoas me perguntam o que eu faço, eu digo que eu sou um engenheiro. Da maneira que eu vejo, eu sou um cientista social. A máquina que eu estou tentando entender é complexa e eu estou aberto a sugestões. Mas no final essa é a máquina e nós precisamos entende-la.

Eu quero fazer uma última observação e parar com ela – nós economistas fomos muito “imperialistas”. Nós encarávamos como inferiores sociologistas, psicologistas e cientistas políticos. E acho que esse ponto de vista está mudando. Eu acredito que houve muito progresso em relação a isso e espero que venhamos a criar um campo de pesquisa mais integrado.



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