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Jornalismo no Rádio, TV e Internet

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Paulo Marcos

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Memória do Rádio Sisaleiro

29 de Março de 2010, 0:00 , por Software Livre Brasil - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

Textos, entrevistas, fotos, artigos, pesquisas sobre o Rádio na Região Sisaleira da Bahia

 


SANTA LUZ FM: uma rádio premiada - Ouça ao vivo

22 de Setembro de 2010, 0:00, por Software Livre Brasil - 44 comentários

Clique no player para ouvir a rádio ao vivo pelo Estúdio Livre.

 

SANTA LUZ FM: uma rádio premiada

por Paulo Marcos*

A Santa Luz FM opera 24 horas modulando em 104.9 Mhz e é uma emissora referência na radiodifusão comunitária no Brasil. A rádio tem uma associação comunitária que é gerenciada pela própria comunidade através de seus representantes, que são jovens comunicadores, dirigentes de entidades sociais de bairros e de classes e estudantes. As decisões da rádio são tomadas através de reuniões com os membros da diretoria, locutores e entidades que compõem o Conselho Comunitário e que garantem uma atuação apartidária da emissora.

Santaluz_vanio

– O negativo que me marcou – relata Edisvânio Nascimento –, foi ter participado de uma capacitação do UNICEF durante três dias, em Salvador, e quando cheguei aqui, em Santa Luz, a Polícia Federal já estava me esperando na porta do ônibus pra me pegar. Então, essa pra mim desabou... – na fala uma pausa, emoção e choro.

– Você ter trabalhado numa perspectiva de construção cidadã – tentando refazer a voz, ele continua –, buscar aprendizado para incentivar a sociedade do que nossas crianças precisam e você chegar e ser tratado como bandido
foi isso que eu senti. Ser obrigado a sentar num carro de polícia com armas aos seus pés é muita humilhação.

A Santa Luz FM, ao longo de dez anos, quando a Polícia Federal deixava, apresentou um conjunto de reportagens que contribuíram para a discussão de políticas públicas dirigidas à população infanto-juvenil na Região Sisaleira e, assim, se tornou referência no assunto. A prática da rádio demonstra, através das escutas que realizei que atua com responsabilidade social enquanto formadora de opinião e contribui para a construção de novos valores, buscando uma mudança de comportamento em seu público no que diz respeito aos direitos e deveres da população; e estimula a participação de adolescentes e jovens em sua programação.

Desde dezembro de 2008, a Santa Luz FM está no ar com outorga – depois de dez anos de luta – e sem interrupções. Agora também disponível na Internet através de seu blogue: santaluzfm.blogspot.com.

O maior problema enfrentado pelas rádios Valente FM e Santa Luz FM foi a burocracia para a liberação da outorga, que levou a estas e ainda leva outras emissoras a funcionarem sem concessão. Sobre essa questão de rádio funcionar sem autorização são diversas as opiniões:

– A Região do Sisal tem que criar um sindicato – defende José Ferraz –, para combater rádio pirata que dá prejuízo as rádios comerciais e também para combater os radialistas clandestinos, todo mundo hoje é locutor.


– Elas estão ocupando um espaço – sinalizou Nilton Feliz –, que as comerciais estão deixando por questões políticas. A Sisal comandou a região por uma década e meia e agora as comunitárias por terem baixo custo e serem mais
abertas para a comunidade conseguiram atrair ouvintes e anunciantes ... a rádio aqui [Sisal] tem que investir em qualidade para superar isso.

As rádios criadas pelos movimentos comunitários em vários municípios apesar de muitas vezes passarem pelos mesmos problemas das emissoras comerciais no tocante a controle político ou mesmo não desempenharem o papel social do rádio, tiveram e têm o papel de aproximar as pessoas do veículo e ao mesmo tempo oferecer o acesso ao direito humano de se comunicarem via a mídia. É também um espaço onde surgem novos comunicadores, que depois de alguma experiência migram para outras emissoras.

 

* O texto faz parte do Livro-reportagem "Os Radiojornalistas: O pensamento e o perfil dos produtores de notícias da Região Sisaleira" [Paulo Marcos 2009], trabalho de conclusão do Curso de Ráido e TV.



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22 de Setembro de 2010, 0:00, por Software Livre Brasil - 0sem comentários ainda



Entrevista com Zé Presídio da Rádio Cruzeiro FM de Tucano

29 de Março de 2010, 0:00, por Software Livre Brasil - 0sem comentários ainda

Falecido em 14 de setembro de 2009, o radialista e sindicalista José Oliveira deixou seu nome na história da comunicação comunitária da Região Sisaleira.

O Projeto Memória do Rádio Sisaleiro pretende trazer para este espaço diversas personalidades como seu Zé para contar suas histórias.

A rádio Santa Luz FM publicou em sue blogue uma homenagem ao comunicador, que também foi publicada no site da Abraço.

O Rádio Comunitário baiano chora a perda de um grande batalhador

Por: Edisvânio Nascimento

O movimento de Rádio Comunitária perdeu um grande Lutador pela democratização dos meios de comunicação.

Morreu na ultima Segunda-Feira, (14), José Oliveira, (Zé Presídio). Tucanense, batalhador nos movimentos sindicais, por várias vezes foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tucano. Ajudou a fundar e presidiu por vários mandatos a Rádio Comunitária Cruzeiro FM, pela qual ele sofreu diversas repressões e retaliações da ANATEL e Policia Federal, sendo inclusive processado, até conseguir a Outorga daquela emissora.

A sua devoção à militância sempre acreditando na força da manifestação popular, o mobilizou e o fez ser um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), em Tucano.

Foi companheiro de muitas viagens, seminários, reuniões e discussões em defesa do movimento de Radiodifusão comunitária.

Contribuiu com o processo de fundação e foi diretor da ABRAÇO – BAHIA. Ajudou a fundar a Associação de Rádios e TVs Comunitárias do Território do Sisal, da qual foi diretor.

José Oliveira não só foi um lutador e defensor ferrenho de Rádios Comunitárias, mas ao longo de sua trajetória, mostrou-se um grande homem, honrado, ético e, sobretudo, dedicado aos amigos que os fez ao longo de sua caminhada. Uma figura humana exemplar que tinha como marca registrada a sua CALMA/PACIENCIA quando ia expressar o seu ponto de vista.

Certamente o Movimento de Rádio Comunitária da Região Sisaleira da Bahia, hoje sente a perda deste que sem dúvida, foi um grande líder nas lutas encampadas em defesa da Democratização da informação.

Quanto a nós, o que nos resta é dizer que sentimos muito a sua falta e que aumenta ainda mais o nosso dever de lutarmos por uma comunicação democratizada e que assim possamos ver uma sociedade mais justa, mais humana e mais fraterna. Sonhos que seu Zé Oliveira lamentavelmente não conseguira vê-los concretizados.
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Agora publicamos na íntegra uma entrevista realizada com seu Zé, em 2005, pelos pesquisadores Jean Joubert, Anaéli Bastos e Paulo Marcos para a pesquisa: Rádios Comunitárias da Região SIsaleira: Memória, Conjuntura e Perspectivas, que pode ser baixada aqui.

 

CRUZEIRO FM - Tucano

 

 

Entrevistado: Sr. José Oliveira - Zé Presídio.

 

Função na Rádio: Presidente da Associação de Rádio Comunitária Cruzeiro FM.

 

Local da Entrevista: Sede da Rádio Cultura FM - Araci.

 

 

ENTREVISTA

 

Pergunta: Primeiramente, quem é o o senhor e a sua função na Rádio de Tucano.

Zé Presídio: Meu nome é José Oliveira, conhecido como Zé Presídio, minha função na rádio é diretor, sou presidente da Associação de Rádio Comunitária Cruzeiro FM.

 

P: Por que Presídio, Seu Zé?

ZP: E até esse apelido me pega até muito mal... Meu pai era descendente de escravo, e trouxeram esse nome... Porque ele disse que os escravo, quando chegavam aqui no Brasil, é que o pessoal botava os nomes, né? Não era eles que escolhiam... E aí, saiu... O nome dele era José Presídio. E eu por jogar... Praticar esporte, jogar bola... Era filho, né? Aí era: “Zé Presídio, Zé Presídio”, aí pegou.

 

P: Então herdou...

ZP: Herdei. Mas meu nome mesmo é José Oliveira.

 

P: E o senhor faz locução na rádio também?

ZP: Às vezes, porque a gente tem o pessoal lá que trabalha na locução, eu sou meio devagar pra locução, mas às vezes a gente faz...

 

P: Mas quando o senhor faz programa então, o senhor usa “Zé Presídio”?

ZP: É, porque é conhecido na cidade “Zé Presídio”. Se perguntar José Oliveira, o povo não conhece.

 

P: O senhor já participa de movimentos sociais há algum tempo, né?

ZP: A gente já participa desses movimentos... Eu já participo como sindicalista desde 88, a gente já vem participando, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, movimento popular, Igreja, né, Pastoral Rural, a gente trabalhou também no projeto das Caritas, a gente vem há muito tempo já trabalhando nesses movimentos populares. Agora, a rádio mesmo foi a partir de 96. A gente iniciou em outra associação, que foi a primeira rádio comunitária alternativa, rádio comunitária alternativa Tucano FM. E depois essa foi fechada, foi lacrada porque, era lá um grupo, cooperativa, sindicato, mas o pessoal não teve cuidado, comprou aparelho clandestino...

 

P: Como é que o senhor se aproximou da rádio, como é que surgiu pro senhor esse negócio de rádio comunitária?

ZP: Bem, esse conhecimento, né, a gente foi ouvindo, né, discutindo, o pessoal falando de rádio comunitária, que era um negócio bom e tudo... A gente viu algumas experiências, que iniciaram lá no... Essa experiência foi de Recife, um grupo lá fazia rádio, né, comunitária. E aí a gente teve interesse. Nesse tempo eu fazia parte de uma cooperativa chamada Copertucano, e lá a gente discutiu, juntou um grupo e a gente conseguiu inclusive até o dinheiro pra montar uma rádio comunitária.

 

P: E como é que vocês tomaram conhecimento desse grupo do Recife?

ZP: Porque a gente fazia parte da cooperativa e a cooperativa procurava a SOCENE, que inclusive, é Humberto, que ele até tá em Brasília agora trabalhando lá no Ministério, que é uma pessoa assim muito comunicativa e incentivou... Humberto da SOCENE, que é uma organização não governamental que atua em Recife.

 

P: A SOCENE trabalha com o quê?

ZP: Cooperativas... Associativismo...

 

P: Na época aí, de 96, na época da formação dessas rádios, o pessoal de recife tinha contato com essa região aqui, então?

ZP: Tinha, porque tinha realmente a cooperativa, e tinha o pessoal de Recife, e a gente também ia participar de seminários, encontros, essas coisas, lá em Recife.

 

P: Foi eles lá de Recife que trouxeram a idéia então da rádio comunitária?

ZP: Foi, pela experiência que eles tinham, né? Aí a gente se empolgou e criou essa associação, que era a primeira em Tucano, foi em 96, mais ou menos, 95, 96... Acho que foi bem em 96, era rádio alternativa Tucano FM...

 

P: E ela foi a primeira da região sisaleira?

ZP: Bem, da região sisaleira, eu não tenho conhecimento, que eu ainda não participava de reuniões nessa região... Eu sei que Tucano, lá da região nossa, é uma das primeiras.

 

P: Houve participação de outras entidades, além do pessoal de Recife, outras entidades participaram da criação da Rádio? Ou ajudaram, contribuíram?

ZP: As entidades mesmo que participou foi cooperativa, né? A Copertucano, em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Aí teve o pessoal da Igreja Batista, evangélica, que também ajudava.

 

P: Ontem, a gente tava pesquisando lá em Retirolândia, né? E ali, eles começaram por volta de 97, 98... To percebendo que o movimento em Tucano de rádios comunitárias começou bem antes dessas outras rádios daqui, pelo que o senhor tá relatando...

ZP: É porque a gente não tinha conhecimento de ter outras rádios comunitárias na região... Lá, a gente, inclusive, fez o maior sucesso com o pessoal. Era uma coisa nova, né, e era uma rádio diferente, o pessoal participava, ouvia, ia lá e discutia... Foi muito bom.

 

P: E isso foi bem antes de ter essa lei, né?

ZP: É, não tinha essa lei. Agora, a falha do pessoal porque se empolgou muito e compraram uma aparelhagem que não tinha outorga, não tinha nada. Era uma aparelhagem assim que... Compraram até lá em Recife mesmo.

 

P: Foi o pessoal de Recife, quer dizer, eles que indicaram como se monta uma rádio, ou se buscou informação em outro lugar?

ZP: Não, lá, nesse negócio da montagem, foi o pessoal de Recife que orientou... O pessoal da cooperativa, que nesse tempo era um rapaz que se chamava Jorge, lá ele colheu informação e mandava pro pessoal... O pessoal mesmo que vendeu a aparelhagem orientou...

 

P: E qual era a função dessa rádio? Porque vocês pensaram em criar uma rádio?

ZP: A função da rádio era a comunicação, né? Levar pra população uma rádio diferente, onde o pessoal participasse, onde houvesse programas também pra incentivar o associativismo, comunicar as necessidades do povo, o povo lá dizer o que é que tava sentindo... Uma coisa que as outras rádios, comerciais, eram fechadas pra esse tipo de... Divulgar também... Vamos supor, no interior o pessoal tem um enterro, né? Aí precisava sair um carro de som na rua avisando... Na rádio, não. Tinha o espaço, o pessoal não pagava, e o trabalho era esse mesmo.

 

P: A idéia da rádio foi bem aceita na comunidade a princípio? Todo mundo... Houve alguma oposição por parte de algum setor, como a Igreja, como políticos?

ZP: Houve. A oposição foi político, prefeito, né? Porque geralmente prefeito nunca gosta de ver o pessoal dizendo que a rua tá esburacada, dizendo que tá faltando água, né? E isso aí repercutiu e ele era o maior inimigo da rádio.

 

P: Certo. Como vocês conseguiram recursos pra montar a rádio, pra parte técnica, pra sala...?

ZP: Foi essa ajuda do Sindicato dos Trabalhadores Rurais... Inclusive, de funcionar, funcionava na casa do presidente da cooperativa, que é Jorge, que é um quarto assim no fundo, e a gente funcionava escondido, né, porque não tinha nada legalizado. A torre era também dentro da área da casa dele... E o locutor era um rapazinho que chamava Laelson, né? Esse que iniciou... Hoje ele trabalha com a gente. Era o locutor, só tinha um locutor.

 

P: E hoje, funciona onde?

ZP: Hoje a nossa rádio tá fechada, né? Foi lacrada e continuou fora do ar...

 

P: Ok, tá fora do ar... Mas ela está instalada onde?

ZP: Bem, eu tenho uma residência que, minha família são nove irmãos, mas saíram tudo, só ficou eu lá... E a gente tem uma casa assim de herança, que é da família. E essa casa tem uma salazinha que era o oratório de minhas quatro tias, que era o quarto de moça velha (risos)... E elas me pediram pra eu não destruir a casa, não derrubar e não alugar. Eu resido nessa casa, e esse espaço que era o local de oração delas, a gente transformou onde funciona a rádio.

 

P: Como é que foram montados os primeiros programas?

ZP: Os programas não tinham assim uma coordenação, um planejamento. Era coisa assim de momento. O que tinha, que eu me lembro, era um espaço que tinha, acho que “o povo no rádio”, que tinha espaço do pessoal, né, falar, reivindicar alguma coisa... E tinha também o espaço onde as pessoas, aquelas jovens mandavam músicas assim pra os namorados e tudo, que era o espaço também que era aquele horário, né? E aí tinha audiência, né, porque era os recadinhos, aqueles recadinhos de negócio de amor, de tudo... Tinha esses espaços... E tinha também quando tinha algumas entrevistas, alguma reunião nos Conselhos, alguma coisa assim que acontecia, divulgava. Mas não tinha assim uma grade específica. Variava, né, porque era trabalho de amador. Não tinha ninguém profissional pra orientar.

 

P: Alguma entidade participava da programação? Tinha um programa...

ZP: Participava. Sindicato, cooperativa, né? E tinha igreja, nesse tempo era Igreja Evangélica, Igreja Batista, eles tinham um horário.

 

P: A rádio foi ao ar em que data?

ZP: É aí que a memória falha... Eu sei que, essa primeira, ela foi nos anos de 96, por aí.

 

P: E aí depois ela saiu do ar mais de uma vez?

ZP: Só foi uma vez...

 

P: E não voltou mais...

ZP: No momento que os homens chegaram, o erro maior foi esse: não tinha documento nenhum, nota fiscal de aparelho, de nada, aí eles levaram tudo.

 

P: Quando ela saiu do ar?

ZP: É outra coisa também que minha memória falha...

 

P: Mas ela funcionou durante quantos anos, mais ou menos?

ZP: Quase um ano...

 

P: Ah, ela funcionou de 96 a, mais ou menos, 97, depois saiu do ar e não voltou mais...

ZP: E não voltou mais. Foi aí que a gente criou a outra associação e fundou essa que é...

 

P: A Cruzeiro...

ZP: É, a Cruzeiro FM.

 

P: A Cruzeiro foi ar em que data, mais ou menos?

ZP: É... Mais ou menos 97.

 

P: A Cruzeiro funciona na casa do senhor, como o senhor falou...

ZP: É.

 

P: A Cruzeiro chegou a sair do ar mais de uma vez?

ZP: A gente iniciou, depois a Polícia Federal foi lá, tirou do ar, lacrou. Em 99, a gente estava em Valente, nesse Congresso da criação da Abraço, a gente ocupou a Anatel lá em Salvador, umas 60 pessoas do movimento que tava criando, pra saber a situação da rádio, pediu informações da documentação que a gente tinha enviado pra Anatel, pra Brasília... Aí os caras, enquanto eu tava em Valente, eles foram lá e fecharam a rádio (riso).

 

P: Ah, é?

ZP: No mesmo dia. Isso em Agosto...

 

P: E voltou a funcionar depois?

ZP: Depois, a gente voltou a funcionar, né?

 

P: Como foi que voltou a funcionar?

ZP: Na marra, né? Botemo no ar, por conta nossa...

 

P: A população pediu pra voltar a funcionar, houve mobilização popular?

ZP: Não, o pessoal ficava cobrando, mas não houve, assim, mobilização... O pessoal: “cadê a rádio, saiu do ar?” Aí a gente fez, inclusive, uma manifestação de apoio, pegou assinaturas do pessoal, aí colocou no... Aí eles vieram e... fecharam de novo (risos).

 

P: Isso foi quando, esse segundo fechamento?

ZP: Ah, não demorou muito não... A primeira vez, eles fecharam e lacraram. A segunda vez, eles foram lá e, foi quando a gente tava, eles pegaram e levaram os aparelhos.

 

P: Cada vez que fechava, como o senhor fazia pra reabrir? Precisava de mais dinheiro pra comprar equipamento, né?

ZP: A gente tinha apoio cultural. Porque tinha o pessoal que pedia assim... E a gente tinha apoio cultural no sentido assim: tinha o pessoal que queria divulgar lá o comerciozinho dele, e tal... Aí a gente dizia: “a gente não pode fazer isso porque isso é trabalho de rádio comercial. Mas se você der um apoiozinho cultural, ajudar a rádio...” e aí, a rádio sobrevivia assim... E mesmo o suporte que dava mais sustentação à rádio era o Sindicato dos Trabalhadores Rurais.

 

P: Depois da segunda vez que a Cruzeiro fechou, ela voltou a funcionar novamente?

ZP: Segunda vez...

 

P: É, a primeira vez foi quando o senhor tava lá na Abraço...

ZP: A primeira vez eles foram e lacraram, fecharam...

 

P: É, na segunda vez eles levaram os equipamentos...

ZP: É, levaram o equipamento. Aí a gente entrou na Polícia Federal, que eles me intimaram, a gente teve umas três audiências... E aí a gente pediu na assessoria de um deputado, Walter Pinheiro, ele conseguiu um advogado, né, Dr. Guilherme Menezes, e aí a gente ganhou na Justiça Federal, e voltou os aparelhos... Aí a gente botou no ar. Depois eles foram lá, não levaram os aparelhos, mas lacraram.

 

P: Então eles chegaram a devolver os aparelhos pro senhor?

ZP: Devolveram, a Polícia Federal devolveu.

 

P: Aí, lacraram uma terceira vez...

ZP: É, lacraram, tá lá lacrado.

 

P: Até hoje? Depois dessa terceira vez não funcionou mais?

ZP: Não.

 

P: Essa terceira vez foi mais ou menos em que ano?

ZP: Já foi agora, 2003...

 

P: Ah, então tem mais ou menos um ano e pouco sem funcionar?

ZP: É.

 

P: Mas o processo do senhor tá bem adiantado, não tá? O processo da rádio...

ZP: Tá, inclusive a gente entrou, na semana passada (refere-se ao acompanhamento do processo), tá dependendo de um negócio lá, já tá indo pro Congresso e depois do dia dez, a moça falou que, (a moça) lá do Ministério, que a gente pode entrar com um pedido de funcionamento provisório, né? A partir, agora, do dia dezesseis de dezembro, pra ela funcionar provisória, até chegar a outorga.

 

P: Mas vocês já tinham feito algum pedido antes, de legalização, ou foi o primeiro?

ZP: A gente fez vários... Era deputado, era Brasília, todo dia tava perturbando...

 

P: O senhor entrava com a documentação no Ministério?

ZP: Documentação, tudo. Toda a documentação já foi... Antes mesmo, era aí na Anatel, a gente tem várias cópias aqui de documento e tal, ficava na porta, batendo, enjoando, mas...

 

P: Porque tem um registro aqui de um Aviso de Habilitação pra Tucano em Março de 99. Antes de Março de 99 vocês fizeram esses pedidos?

ZP: Fizemos, a gente nunca deixou de fazer.

 

P: O senhor sabe informar se outras rádios de lá do local se habilitaram também? Existem outras rádios.

ZP: Em Tucano só existe essa comunitária, né? Agora existe uma lá dos políticos que é Tucano FM, comercial. Agora de habilitação, eu não conheço... Tem Uauá, que tem rádio também. Quijingue tinha uma, fecharam, que era da Igreja, comunitária, fecharam, levaram a aparelhagem... Euclides da Cunha tinha outra comunitária que era do padre, fecharam também. Pombal tinha uma, fecharam. É assim...

 

P: Voltando ao episódio dos lacramentos e do fechamento da rádio, houve alguma violência, algum tipo de violência durante esses três episódios que a Anatel foi lá, lacrou...?

ZP: Não, porque também a gente não reagiu. Eles chegaram e... Inclusive, quando eu tava em Valente, chegaram lá pra mulher, dizendo que queriam conhecer a mulher pra comprar um papagaio, você sabe essa malandragem da Polícia Federal, porque é Polícia Federal, mas também tem malandro, né (risos)?

 

P: Quais as maiores dificuldades que o senhor vê no processo de legalização, na tentativa de legalização?

ZP: A dificuldade maior que eu vejo é que eu acho que o lobby deles, das organizações comerciais, persegue, e eles têm o meio e o poder de frear. Porque eles não querem rádio comunitária. A gente sente isso, né? Lá mesmo, da última vez, a gente soube que foi o pessoal da outra rádio que chamou a Anatel pra ir pra lá... Porque eles não querem a concorrência, né? E rádio comunitária é uma coisa que tira também a audiência deles e tira também os comerciais, porque, tudo bem que a gente não faz comercial pra empresa, mas aquele pessoal que tem o doce lá no fundo do quintal, o beiju, o que quer vender, tem um espaço na rádio comunitária que na comercial não tem, porque o cara não tem condições de pagar.

 

P: Ainda tem a questão política... Mas, assim, com relação ao que é exigido pela legislação, por exemplo, os requisitos técnicos, a documentação, o senhor teve dificuldade?

ZP: Tive dificuldade porque, inclusive, teve documentação que a gente teve que mandar duas vezes. Mandava uma vez pra Brasília, por Sedex, tudo direitinho, depois eles pediam a mesma documentação.

 

P: E as questões técnicas, vocês tiveram alguma assessoria, ajuda de algum engenheiro?

ZP: Não, a gente teve, inclusive, que pagar o projeto técnico. O engenheiro cobrou setecentos reais pra fazer o projeto técnico. As ajudas que a gente tem é sempre pelo sindicato, eu sou diretor do sindicato e a gente sempre... A gente também fez um livro de ouro, saiu fazendo uns pedido lá ao pessoal, um dava cinco, outro dez e tudo, e aí é como a gente tá levando, né?

 

P: Como vocês têm acompanhado o andamento desse processo lá no Ministério das Comunicações?

ZP: Sempre a gente tá... Via internet, telefone, com Assessoria dos deputado, Walter Pinheiro, esse outro, Zezéu, Zezéu Ribeiro... A gente sempre tá ligando pra esse pessoal, procurando, participando também dos movimentos, né, patrocinado pelo MOC, também a UNICEF, a gente participou também lá em Aracaju... Porque tem um amigo meu que é Celso, Celso Anunciação, e ele trabalha também com rádio comunitária, a rádio regional de Cícero Dantas, e ele sempre apoiava a gente assim, pra ajudar...

 

P: O que o senhor acha da legislação sobre rádios comunitárias? Ajuda, atrapalha?

ZP: Eu acho que a legislação atrapalha, porque pela legislação não é nem pra existir rádio comunitária. Porque, primeiro, limita, né? No momento que você é limitado, você não tem liberdade. Você é condicionado. Agora, mesmo, esse 104.7 para todas as rádios... Aí, “não, só pode um quilômetro”... Parece até brincadeira. Como é que você tem uma rádio comunitária pra abranger um quilômetro?

 

P: A rádio de lá operava... qual era o raio?

ZP: O raio? Era até doze, até quinze quilômetros...

 

P: Certo. Mas apesar dessas limitações que a legislação impõe, o senhor tá tentando se legalizar, né? Qual a importância que o senhor vê nisso?

ZP: Bem, a importância que eu vejo é que depois de... Porque a vida é uma estrada, no momento em que a gente caminha, você vai sentindo que, enquanto a gente não tá se comunicando, não tá participando, as coisas não andam. E quanto mais num município assim pequeno, onde tem o fuxico, a fofoca, né, e tem muita coisa que interfere às vezes até na vida pessoal. Quando você tem alguma coisa que você tá procurando levar pra outras pessoas, se comunicar, aquilo vai crescer, vai juntar, vai unir... Agora quando a gente tá sozinho, que não procura se comunicar com ninguém, o cara pode até se isolar, né? E a gente sente isso, né, a necessidade... Até dentro de casa, se a esposa não se comunica com o marido, aí a comida queima, o cara passa fome, falta tudo (risos)...

 

P: Certo. Mas a rádio pode cumprir essa função de comunicação sem estar legalizada. Ela pode funcionar sem estar legalizada. Então qual é a importância de legalizar?

ZP: A importância que a gente viu de legalizar é porque, no momento que a gente não tá legalizado, tá com um olho dentro de casa e outro na rua (risos). Entendeu? Porque a perseguição, esse negócio do poder – não é a política, é o politiqueiro – que nesses municípios é como um reduto um curral, né? Tudo que se fala, tudo que se diz, que atinge, o pessoal quer frear, quer massacrar... Eu mesmo já fui até preso, porque me chamam de nego ousado, atrevido. Porque no momento que você vai questionar, vai denunciar as coisa errada, é atrevido, é moleque, é malandro, é tudo... E aí, a gente vê a importância de ter ela legalizada... A semana passada mesmo eu recebi um recado. A gente faz parte do sindicato, lá eu sou tesoureiro. E tá tendo uma divergência com a presidente do Sindicato, que a gente colocou ela lá, uma moça, que depois teve um desvio, assim, de conduta, né? E aí a gente... Ela foi pra outra rádio falar um bocado de asneira contra mim e eu pedi um direito de resposta, que até o momento me negaram. E sabe o recado que me deram? Um menino que trabalha na outra rádio me disse: “não, essa rádio aqui (no caso, a Cruzeiro) se abrir o pessoal vai ligar lá pra Salvador pra mandar o grupo de ACM fechar”. (Respira fundo) Quer dizer, olha o que eles fazem, né?

 

P: O senhor já tá com possibilidade de abrir, de tá funcionando. Por que o senhor optou por não funcionar?

ZP: Porque eu fui consultar o pessoal de Brasília, o deputado federal, ele disse: “você aguarde, aguarde, porque já tá...” É esse negócio da perseguição, né? Ele disse: “o senhor aguarde pra ver se legaliza logo porque aí tem segurança pra colocar no ar”. Porque é chato: a rádio tá no ar, aí pronto, fechou. Aí o pessoal: “cadê, rapaz, o que é que houve?” Aí é desgastante.

 

P: As pessoas da comunidade participam da rádio, como é que elas participam da rádio?

ZP: Quando a rádio está funcionando, quando ela tá no ar, a participação é boa. A gente tem uma moça lá que é locutora, Evânia, ela faz uns programazinho pra testar assim a audiência, né? O pessoal liga, aquele negócio de pedir música, faz uns negócio de uns sorteio, umas coisas lá... O povo gosta da rádio... Porque o som dela, local, na cidade, é melhor do que o da outra. A outra, ela tem uma programação à tarde, um negócio de lá de Pernambuco, que já enjoou o povo, né? E só aquilo, a mesmice deles, né? Aí a rádio comunitária é diferente, variava as programações... E o pessoal fica sempre perguntando: “mas quando é que vai botar a rádio no ar?” Mas quando ela tá fora, não tem muita participação. Até pra gente reunir a diretoria dá trabalho.

 

P: Quando a rádio tava funcionando, quem é que tava participando mais efetivamente das atividades da rádio, quem é que tava mais envolvido, por exemplo, preparando a programação...?

ZP: Efetivamente era Evânia, tinha Jorge, é o rapaz que trabalha mais assim, quando dá problema aparelho, ele trabalha mais com som e eu, sempre ajudando, porque é dentro de casa... E tem também o meu filho, esse que tem dezenove anos, que se chama Josué Oliveira, ele também participa da locução...

 

P: Alguma entidade de lá participa da elaboração da programação? As pessoas da comunidade participam da elaboração da programação?

ZP: A gente tem um grupo com a Escola Cantoro, que as pessoas sempre participam, a gente faz parte desse grupo e eles também participam das programações da rádio... E tem o pessoal também, evangélicos, batistas, sempre tão interessados em ir lá vender o peixe deles...

 

P: A rádio divulga os programas sociais da região?

ZP: Divulga, inclusive, promotor, o fórum, avisos né?

 

P: Quem elabora a programação é o senhor, a locutora, Evânia e o outro rapaz, técnico, né?

ZP: É. Mas sempre a gente chamava o pessoal pra combinar, elaborar... Tinha um promotor que teve lá uns tempo, ajudava muito, era seu Dr. Wladimir, sempre ia orientar: “ah, vamo botar música sem duplo sentido”.

 

P: Com relação à associação que mantém a rádio. O senhor é presidente. As outras pessoas que formam a associação, como são as reuniões entre vocês, vocês se reúnem regularmente, como é a sistemática de trabalho?

ZP: A reunião, é... São doze diretores, é difícil a gente colocar os doze juntos. Agora, a semana passada mesmo, semana passada, não, essa semana, eu trouxe até a ata, a gente fez uma reunião sobre planejamento. Teve uma oficina lá, participou dez pessoas. Mas é difícil... Às vezes, precisa até a gente inventar uma mentira, dizer: “não, vai ter um aniversário”, uma coisa pro pessoal ir... E o pior é que às vezes eles ficam questionando: “Ah, mas é Zé Presídio?” “É só fulano?” Eu digo: “rapaz, eu penso que a gente faz a parte que vocês não querem fazer...” E aí ficam até... Eu disse até: “oi, eu vou até sair, deixar mais, pra ver se vocês tomam a frente”. Porque às vezes isso concentra, né? Acham que tudo é a pessoa que tem que viajar, tem que pagar a passagem do bolso pra ir pra os encontros, né, participar... Inventaram lá: “é pra pagar uma mensalidade”. Até hoje nunca chegou essa mensalidade, que é dois reais.

 

P: Então, a Associação, ela não tem relação assim mais direta com a rádio, só o senhor mesmo...

ZP: Tem relação, só que não junta, não participa. Agora o pessoal que tá mais na linha de frente é eu, Evânia, Josué, tem também Laerson, uns cinco ou seis só.

 

P: E com relação à rádio quando ela foi fechada agora dessa última vez... Como é que tava a programação? Quais os principais conteúdos, principais programas que tavam no ar?

ZP: Os principais programas... A gente tinha um programa informativo, tinha programa de esporte, que eram dois meninos que fazia, que também são diretor... O esporte era mais na parte assim de onze às doze horas. Tinha o informativo, que era de seta às oito.

 

P: O programa informativo privilegiava o que?

ZP: Mais a área rural, as políticas públicas, informação do que tava acontecendo, assembléias, essas coisas... E à tarde, Evânia fazia esse programa jovem, com essas músicas românticas, esse recado musical, né, que o pessoal jovem gostava muito. Ás vezes tem um cara tímido que tem medo de falar com a moça, aí na rádio o cara manda o recado.

 

P: Vocês mantêm contato com outras rádios?

ZP: O que a gente tem mais contato é o pessoal de Valente, Cléber, né? Inclusive, com uma filha que trabalhava lá na APAEB, a gente sempre teve contato com a rádio de Valente.

 

P: E com o MOC?

ZP: A gente já participa com o MOC há muitos anos. Desde o movimento sindical a gente já participava, né? Sempre a gente tá reivindicando alguma coisa do MOC. E sempre que tem reuniões, a gente participa. Eles comunicam, avisam, sempre a gente tem participado.

 

P: A seu ver, qual é o papel do MOC pra o fortalecimento das rádios comunitárias?

ZP: Eu achei muito importante, porque inclusive, esse negócio da Abraço, essas associações que foram criadas, não deram muito suporte, né? O MOC deu realmente essa infra-estrutura na região. A gente não tinha pra onde apelar e o MOC, quando começou a trabalhar, aí a gente viu que organizou mais, articulou também o movimento.

 

P: E a Abraço, Seu Zé, o que o senhor acha que é o papel da Abraço?

ZP: A Abraço, a proposta da Abraço desde 99 era o quê? Representar, reivindicar, organizar as rádios comunitárias... Mas se viu que, inclusive, algumas pessoas da Abraço não levam pra frente essa finalidade que a Abraço tinha, que era reunir, ouvir, congregar, articular, reivindicar, apoiar, assessoria jurídica... Isso aí, a Abraço não fez. Primeiro, quando foi criado, foi João Micael, depois veio Frei Dito, muito lutador e tudo, mas a gente sentiu que até as próprias rádios não davam suporte. Eu cansei de ver reuniões que a gente ia, eles convidavam vinte, trinta rádios, apareciam lá cinco ou seis.

 

P: Não funcionou, né? E como é que tá atuando hoje a Abraço na região do sisal?

ZP: Bem, eu notei uma melhora, né? Porque a gente faz parte, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais faz parte do pólo de Valente, né? E a gente viu que a região do sisal tá mais, assim, se articulando, né? O MOC também dá muito apoio à região do sisal. E a gente já sentiu que eles criaram a Abraço daqui da região do sisal, né? Tem Cléber, né, tem o pessoal aí, então, já mudando, já melhorando alguma coisa... Mas por causa também do apoio do MOC.

 

P: Na época da criação da rádio, o MOC tava próximo, ajudou, contribuiu?

ZP: Não, porque a gente não tinha muita aproximação do MOC nesse tempo, né? A gente começou a trabalhar mais com o MOC depois da criação. O que ajudou, o que articulou foi que tinha lá uma parte da Igreja Católica, que é um dos fundadores, que era Padre Gilberto, esse ajudou e a gente partiu pra o Sindicato, pros movimentos, e conseguiu criar. Mas o MOC, nesse tempo, não trabalhava com a gente, não.

 

P: Como é a relação da Cruzeiro FM com as igrejas de Tucano?

ZP: É boa, porque a gente segue o estatuto. Não discrimina, inclusive lá a gente acolhia o espírita, o batista, o evangélico, o católico. A Associação foi sempre aberta. A relação é boa. Inclusive tem gente que é evangélico participando da diretoria, e tinham programas na rádio, sempre.

 

P: Como é que a rádio vem sobrevivendo?

ZP: (Respira fundo) Agora é a situação difícil. A gente, às vezes, viaja e tudo, a gente tem que bancar do próprio bolso, né? Porque nem o sindicato agora tá ajudando mais, por causa da divergência, a moça lá é contra, ela tem programa em outra rádio, e aí, até pra viajar a gente tem que bancar do próprio bolso.

 

P: A moça é contra?

ZP: A moça lá do Sindicato, que é a presidente, né?

 

P: Ela não contribui mais?

ZP: É, porque essa divergência... Às vezes as pessoas têm aquele negócio de desvio de conduta, sabe? Às vezes, você pode gostar de um rapaz, ou um rapaz pode gostar de uma moça, que ele vê uma imagem, projeta uma imagem, aquela coisa muito sincera, idealista... Depois, essa pessoa pode desviar a conduta pra uma coisa totalmente diferente do que aparentava. Quer dizer, ela veio pro Sindicato, a gente trouxe ela, pediu pra trabalhar no Sindicato a outras pessoas, a gente orientou, ensinou e tudo. Depois que a diretoria escolheu pra ela dirigir o Sindicato, aí pronto, mudou. É a vaidade, né? Aí, a vaidade, tem também a ganância, o poder sobe à cabeça das pessoas... E teve também desvio de recursos, né? E depois que foi se descobrindo como tinha sido desviado esse recurso aí ela acha agora que eu que tenho que sair. Tudo que a gente trabalha ela é contra.

 

P: Quem denunciou foi o senhor?

ZP: (Acena positivamente). Eu sou o tesoureiro. No momento em que, na prestação de contas, faltou dezessete mil e setecentos reais, a gente levou pro Conselho Fiscal e pra Diretoria... E aí ela não concordou, né? Tá até na justiça, isso... Aí ela veio e fez assembléia pra me tirar do Sindicato.

 

P: E conseguiu?

ZP: Pior que eu que fui afastado do Sindicato por uma decisão judicial.

 

P: Ela chegou a dizer pro senhor que tinha desviado o recurso?

ZP: Não, ela joga pra os trabalhadores que é eu que não presto conta. No momento que é dois gestores, têm que prestar conta os dois, né? Aí tem envolvimento também com o companheiro dela, que é bicheiro e tudo. E aí mudou realmente a situação da rádio. E aí o Sindicato que dava suporte também à rádio, inclusive até ajudou... O computador lá que a rádio tem, foi ajuda do Sindicato... Viagem, a gente fazia com a ajuda do Sindicato, hoje já não faz mais, né? Porque ela é contra.

 

P: Além dessa dificuldade grande que a Rádio Cruzeiro tá passando hoje, quais as outras principais dificuldades que o senhor vê?

ZP: Essa outra, de unir mais, né? Quando a rádio não tá no ar, desmotiva o pessoal da diretoria a participar...

 

P: Quais os principais caminhos que o senhor vê pra fortalecer a Rádio Cruzeiro e as rádios comunitárias como um todo?

ZP: Os caminhos, nessa reunião que a gente teve, essa semana, a gente pensou, fez esse planejamento... Primeiro, procurar parcerias, pra ver se a gente consegue angariar recursos, que a gente tá dependendo também de comprar aparelhagem, melhorar aparelhagem... E outra coisa é ver se a gente faz já um planejamento pra esse ano de 2005, porque tem previsão de colocar ela no ar a partir de Dezembro. E esse negócio de fazer bingo, fazer festinhas, pra ver se arrecada... E vou também ver mais a comunidade, procurar mais sócios, apesar de que os que tem não tão pagando... A gente vai procurar mais, ver se alguns pagam, a gente tem também um livro de ouro, vai ver se arrecada algum recurso pra manter ela no ar.

 

P: A Rádio Tucano, ela teve ou tem algum Conselho Comunitário?

ZP: Tinha. Eram três pessoas: professora Raquel, Ronaldo e Luiz Hamilton. Acho que eram três...

 

P: E qual era a função deles?

ZP: É... Sempre a gente consultava assim, reunia os três, mas não tinha muita participação deles não. Também, com esse negócio de fechar...

 

P: A zona rural escuta a rádio?

ZP: Uma parte escuta. Lá a região é mais um minifúndio, né? Não é latifúndio. São pequenas propriedades, muitas são próximas da cidade. Como fica num lugar plano, aí ela ia até quinze quilômetros, algumas comunidades escutavam... Agora, a maioria não, porque lá tem comunidades que é a sessenta quilômetros.

 

P: O senhor falou que havia uma menina lá que fazia umas brincadeiras pra medir a audiência... O que é que o senhor percebia da audiência em relação a rádio?

ZP: A audiência é boa. Inclusive teve dias que ela recebia, assim, sessenta, oitenta telefonemas. E a audiência era boa, inclusive, foi isso que criou o ciúme da outra rádio.

 

P: Mas as pessoas chegavam pra o senhor, ou pra outras pessoas da rádio, pra falar: “ah, eu não to gostando de tal aspecto, tal coisa pode mudar” ou “ah, tá bom, continue assim”...?

ZP: Sempre me falavam... Uns criticavam, porque às vezes os meninos tinham preguiça, colocavam um CD, e iam as músicas do CD todo... E aí vinham: “rapaz, como é que pode só um cantor nessa rádio?” Outros achavam bom, falavam que tava boa a programação da rádio, que tava melhor do que a outra, o som e tudo... Mas sempre tinha as críticas, né? Às vezes, palavras erradas, aí o pessoal:”ó, cuidado, os meninos lá tão errando...” Aí eu dizia: “rapaz, a gente é amador, né?” Porque comunicação, você fala, não dá mais pra corrigir, já disse. Agora, a gente sempre ficava atento, sempre andava com o radinho... Inclusive tinha um pessoal lá que gostava de botar essas músicas bregas, de duplo sentido. E aí às vezes eu mandava tirar logo do ar, né? Porque ficava chato... Aí me chamavam de enjoado... Mas eu dizia: “não, se é comunitária, pra educar, pra que essas músicas? Deixa a comercial tocar...” Era o “tapa na bundinha”, essas coisas...

 

P: Mas a comunidade pedia esse tipo de música?

ZP: Pior que pedia (risos). São as mais pedidas...

 

P: E como é que o senhor faz quando eles ligam pedindo?

ZP: Eu digo pra eles (locutores) pra dizer até que não tem, até mentir, né? Porque se a gente diz que tem, eles querem que botem. E o pior que a juventude quer mesmo... É o negócio do Arrocha, né? Risos.

 

P: Pra finalizar, eu queria que o senhor falasse um pouco sobre o que o senhor acha que é uma rádio comunitária, e sobre o papel dela na comunidade.

ZP: A rádio comunitária é a coisa mais importante que pode existir dentro da comunidade. Eu volto a falar, se a gente, dentro da casa da gente, não procura se comunicar, as coisas vai tudo errado, falta tudo, bagunça tudo, e o que acontece é separar, um prum lado, outro pra outro. Nas entidades é a mesma coisa. Porque a comunicação eu penso que é a coisa mais importante. Eu senti muito, o nosso governo, tanto que a gente lutou, quando chegaram lá no governo, esse Ministério totalmente diferente, e a gente tá vendo a comunicação ainda marrada, atrelada a um sistema que bota lá pra mentir muito pra virar verdade, e eu penso que a coisa mais importante numa comunidade é uma rádio comunitária. Porque a televisão a pessoa vê lá aqueles horários, mais novela e tudo, e a rádio, a pessoa tá lavando o prato, tá lá com o rádio encostado, o outro tá trabalhando na roça, o rádio tá lá, o cara tá ouvindo alguma coisa. E dizia aquele velho, o Chacrinha, que quem não se comunica...

 

P: Se estrumbica (risos). Qual é a freqüência que o senhor tá operando?

ZP: Agora eles mudaram, porque a nossa freqüência era 107.3, e era 25 quilowatts, parece... Aí a gente tinha a abrangência até quinze quilômetros. E o som era bom, inclusive, melhor do que o da outra, comercial.

 

P: E agora, qual a freqüência que saiu?

ZP: 107.4.

 

P: Seu Zé, obrigado, foi esclarecedor...

ZP: De nada, desculpem aí a minha memória.

 

P: Foi muito bom, um prazer, obrigada.

 

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