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Liberdade na Fronteira

27 de Maio de 2009, 0:00 , por Software Livre Brasil - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

A greve pelo ponto biométrico

3 de Junho de 2018, 22:04, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

Poucos dias atrás, Belém saiu de uma greve dos rodoviários que colocou a cidade de joelhos. Por 5 dias Belém ficou sem qualquer ônibus, com o sindicato descumprindo a determinação ditada pela justiça do trabalho de 80% da frota na rua. Encarando pesadas multas por conta disso mas ainda assim firmes, essa situação demonstrou como a categoria é forte e estava unida em torno de suas pautas.

Antes de prosseguir, um adendo: como usuário de transporte coletivo, todo apoio ao movimento. Os ônibus em Belém são terríveis, sem qualquer manutenção, barulhentos e sem segurança. Em uma cidade tão quente e com uma passagem tão cara, já era hora de termos ar-condicionado nos coletivos. Infelizmente, não ajuda termos um sindicato patronal que só pensa em maximizar os lucros investindo o mínimo possível, a uma elite tacanha que sonha com Miami, e uma prefeitura que não enxerga que uma regulação mais criteriosa sobre o transporte poderia atrair atuais usuários de carro, reduzindo o fluxo no trânsito, a poluição do ar e sonora.

A pauta dos grevistas incluía a melhoria do transporte público mas também tinha as demandas típicas dos movimentos sindicais: aumento salarial, do ticket alimentação, redução da carga horária de trabalho. Mas, dentre as pautas, uma chamou atenção: a greve pedia a implantação do ponto biométrico.

Em Belém, trabalhadores do setor viário registram suas presenças de forma manual em planilhas que ficam nos pontos finais e garagens. Nas reivindicações os rodoviários apontaram que esse sistema é muito suscetível a fraudes, em especial para o registro das horas extras. Finalizada a greve, os trabalhadores receberem a promessa de que as máquinas estariam disponíveis em todos os pontos finais no prazo de 10 meses.

Chama atenção essa pauta. O ponto biométrico é, em geral, relacionado ao controle abusivo de patrões sobre o horário de serviço dos trabalhadores. Sabe-se de casos onde esses relógios tem tolerância de poucos minutos, fazendo com que empregados que chegam muito cedo tenham que ficar de prontidão esperando a janela de registro iniciar, ou, por outro lado, funcionários que se atrasam alguns minutos precisam passar pelo constrangimento de explicar o motivo do atraso para o supervisor.

O uso do ponto biométrico pode servir a diferentes fins, com uns e outros ganhando e perdendo a depender da situação. Lembro do caso onde uma funcionária do SAMU foi pega com 6 dedos de silicone, para registrar a presença de médicos e enfermeiros que deveriam estar de plantão mas não se encontravam no local. Nesse caso, claramente a tecnologia tinha o objetivo de garantir o atendimento de saúde para as pessoas que necessitavam. Penso que poucos de nós achariam exagerado esse tipo de controle.

Nesse aspecto, ver o ponto biométrico como ponto de pauta de movimento grevista chama atenção e leva a reflexões de que, ao final, nem sempre há uma interpretação única sobre os impactos dos usos que se fazem das tecnologias. É sempre necessário avaliar o contexto em que as mesmas são aplicadas.



Procurando recomendações de “distros KDE”

11 de Março de 2018, 16:04, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

Sou usuário e empacotador do Mageia desde o lançamento do fork, e não me levem a mal, para mim continua sendo uma distribuição de excelente qualidade para o seu propósito: comunitária, aberta para as mais diferentes contribuições e com ênfase na estabilidade. Mageia é das poucas distros com suporte há mais de 8 ambientes desktop (sem contar os gerenciadores de janelas leve), e com o lançamento da versão 6 passou a ter suporte ao AppImage, Fedora Copr, Open Build Service, dnf, e muito mais tecnologias que dão uma cara moderna para o projeto. Uso Mageia nos meus computadores pessoais e de trabalho e também nos computadores que meus alunos utilizam no laboratório.

Como desenvolvedor tanto do KDE quanto do Mageia, utilizo a versão instável da distro (chamada Cauldron) desde sempre. Ela me entrega as versões mais recentes da “pilha KDE” (KDE Plasma, Applications e Frameworks) e também do Qt. No geral funciona bem, mas volta e meia alguns software importantes deixam de funcionar ou ficam muito instáveis, prejudicando o desenvolvimento de algumas tarefas.

Antigamente isso não era um problema para mim – mesmo sendo estudante de mestrado ou doutorado, eu normalmente aguardava algum desenvolvedor corrigir os erros ou eu mesmo ia lá e metia a mão pra tentar solucionar. Essa é uma forma muito efetiva de contribuir com software livre.

Mas hoje em dia tenho pouca disposição para tanto. O trabalho como professor, somado às outras coisas a que me dedico, exaurem meu tempo para realizar esse tipo de tarefa.

Passar a utilizar o Mageia estável não é uma boa opção: o preço da estabilidade é ter um sistema com versões antigas dos software. Por exemplo, o Mageia 6 ainda utiliza o Plasma 5.8, enquanto o Cauldron tem o 5.12. Infelizmente, meu caso de uso mudou e as opções que o Mageia dispõe não casam muito bem com ele. Até propus um projeto não-oficial de construir os software mais recentes do KDE para a versão estável do Mageia, mas estou esperando um retorno do time de empacotadores da distro para ver o que eles acham (pois é, parágrafos cima eu disse que estava sem tempo e vejam só, estou propondo um novo projeto aqui :D).

Gostaria, portanto, de ouvir o pessoal sobre opções de distros que utilizam os software do KDE que atendam ao seguinte caso de uso:

  • Ser estável em seus componentes base (kernel, xorg, etc);
  • Ter a pilha KDE no modelo rolling release;
  • Ter opções relativamente amplas para software não Qt.

Na verdade eu já fiz uma pesquisa assim e há várias opções disponíveis. Por exemplo, o próprio KDE tem o projeto neon, que faz o caso de uso descrito acima tendo o Ubuntu como base. Há também o OpenSUSE com os repositórios Argon/Krypton, e mesmo distros específicas nesse modelo, como o KaOS e o Chakra. Inclusive isso vai render outro post sobre essas distros.

Minha principal dúvida é sobre a estabilidade e experiência de uso desses projetos. Se você usa algum deles, ou mesmo conhece outro não citado, coloque aí nos comentários para que embase minha decisão de migrar para outra distro (ou não).



Quantas metaheurísticas cabem em um fusca?

3 de Março de 2018, 16:46, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

Certos problemas de otimização são de solução impossível em tempo computacional hábil – enquanto não for possível provar que P = NP, não haverá algoritmo exato que os resolva. Por outro lado, esses problemas são de grande importância pois modelam situações do mundo real enfrentadas por organizações em geral.

Então, o que fazer? Uma das estratégias é utilizar metaheurísticas, que são métodos de resolução que podem encontram soluções razoáveis para os problemas em tempo aceitável.

Boa parte das metaheurísticas são inspiradas em dinâmicas evolutivas encontradas na natureza, sendo portanto chamadas “bioinspiradas”. Essas dinâmicas partem de uma solução ou conjunto de soluções melhorando-as de forma gradativa. Nesse sentido, os mais diferentes tipos de dinâmicas encontradas na natureza serviram de base para criação de metaheurísticas: do mais conhecido algoritmo genético, baseado na teoria evolucionária do Darwin e na genética, até a maneira como formigas e abelhas buscam por alimento, o processo de memorização do ser humano, o comportamento de enxame de peixes/insetos, e muito mais.

O que no início mostrou-se como a busca por formas mais efetivas de abordar os problemas, acabou por tornar-se uma máquina de criação de novos métodos que pouco contribuem para o domínio de aplicações das metaheurísticas. Hoje em dia é muito comum que na divulgação dos temas das conferências exista uma lista exaustiva com os nomes dessas técnicas.

Parcela significativa dos pesquisadores da área não escondem sua insatisfação com esse cenário, e o pesquisador Sörensen desenvolveu uma crítica contundente no artigo Metaheuristics – the metaphor exposed.

Utilizando uma fina ironia (o artigo inicia descrevendo como a comunidade de físicos reagiria a um trabalho onde a teoria das partículas seria reapresentada a partir de uma metáfora sobre comida!), Sörensen comenta sobre a importância que os métodos bioinspirados tem mas destaca que a atual situação da proliferação de técnicas acaba por não contribuir com o estado da arte da área e também impede que estudos mais relevantes sejam desenvolvidos e discutidos.

O artigo não tem apenas críticas, entretanto: o autor comenta sobre linhas interessantes de pesquisa que podem ser desenvolvidas e que seriam mais relevantes, como estudos comparativos entre operadores, análises teóricas sobre comportamento dos métodos, e mesmo hibridização de métodos já existentes.

Pessoalmente, gosto muito da ideia de pensar as metaheurísticas a partir de seus componentes (por exemplo, metaheurísticas que trabalham a partir de uma solução ou conjunto de soluções; operadores de cruzamento; tabela tabu; feromônios; etc) e tentar recombiná-los de forma a melhorar o desempenho nas aplicações em certos problemas. De fato, já existem até frameworks baseados nessa abordagem, como o Evolving Objects e o ParadisEO.

O artigo de Sörensen merece ser lido e refletido por todos aqueles que pesquisam sobre metaheurísticas. Além de um belo texto com muitas passagens de destaque (por exemplo, há uma dura crítica ao Harmony Search), os pontos negativos e positivos podem servir de insights tanto para pesquisadores veteranos quanto para aqueles que começaram a se aventurar nessa área.



Papo Livre sobre KDE

26 de Fevereiro de 2018, 13:55, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

Papo Livre é um podcast que vem movimentando a cena do software livre no país. Tocado pelos amigos Antonio Terceiro, Paulo Santana e Thiago Mendonça, o projeto já tem quase 1 ano e trouxe para os ouvintes muita informação e entrevistas com brasileiros criadores ou participantes dos mais diferentes projetos de software livre.

Semanas atrás estive no programa concedendo entrevista sobre o KDE e falei bastante: comentei sobre a história do KDE, como o projeto passa de um ambiente desktop para uma comunidade com interesse em executar software livre nos mais diferentes dispositivos, ciclos de lançamento, como contribuir, como a comunidade se estrutura no Brasil, e muito mais. Também falei em temas mais pessoais como de que forma comecei no KDE, o que faço por lá, entre outras coisas.

A recepção do episódio tem sido muito boa, portanto dê uma escutada e comente abaixo o que achou – ficarei muito grato com o feedback de vocês.

E não deixem de conferir os demais episódios do Papo Livre.



De volta a Belém

12 de Janeiro de 2018, 11:50, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

30 anos atrás uma jovem Dêka, cabelos curtíssimos, saía de Belém para passar férias em São Geraldo do Araguaia. A partir dessa viagem, seus dias por Belém se resumiriam apenas a curtas temporadas.

Numa época onde era mais comum aos homens assumirem seus filhos e mulheres, minha mãe saiu de São Geraldo com uma família própria, transformada mãe e esposa, se mudando para o Maranhão e em seguida o Piauí.

Filha de uma família enorme, minha mãe sempre guardou saudades da cidade onde nasceu e cresceu. Belém tornou-se nossa cidade de férias, dias divertidos para nós; para ela, dias de acalmar o coração.

29 anos depois da viagem a São Geraldo me vejo chegando a Belém, de mudança. Sem qualquer intenção ou planejamento, nada próximo de qualquer “desejo morar em Belém algum dia”, fui aprovado em exame da UFPA no rescaldo dos concursos no final do turbulento 2015.

Minha vinda a Belém me fez pensar muito em minha mãe. Era como se, de alguma forma, por meu intermédio, ela voltasse para a cidade onde nasceu, cresceu e amou. Ela deixou a cidade por minha causa, e agora, quase 3 décadas depois, o motivo que a fez retirar-se daqui vem a cidade para morar.

O tempo que passo em Belém é o tempo onde tento descobrir a cidade e minha mãe. Como era a cidade por onde ela caminhou? Como eram as ruas, as lojas? O que ela gostava de fazer? A cada esquina de Belém, me pergunto se minha mãe conhecia aquele lugar. Em que praças deixava seus sentimentos?

O tempo que passo em Belém é o tempo onde tento descobrir a cidade, minha mãe, e eu mesmo.