Liberdade na rede, transparência e Moore
August 26, 2010 - No comments yetEm uma parte de V de Vingança, história em quadrinhos escrita pelo inglês Alan Moore, V, personagem principal, dialoga com a estátua da justiça. Nesse diálogo passional, o personagem diz que durante muito tempo amou a justiça, mas que ela o havia traído com outros homens (no caso o governo) e que só havia justiça para o poder. V revela que encontrou outra amante e que ela tinha lhe mostrado que só existe justiça com liberdade. Então V se despede de sua ex-amante de uma forma, literalmente, pirotécnica.
Li recentemente duas notícias que me deixaram curioso e preocupado, ao mesmo tempo. Curioso no sentido do apoio a dois projetos para acompanhamento e auditoria de gastos públicos, preocupado pois acho, sendo visionário assim como Alan Moore, de que talvez algumas pessoas do poder público não queriam deixar isto tão barato e possam querer revidar, invertendo o jogo, controlando a rede e cerceando a liberdade.
A primeira é uma matéria/entrevista que saiu na revista ARede, sobre a lei da transparência[1]. Para quem não conhece, a Lei da Transparência ou “Lei Capiberibe”, sancionada em 2009, obriga a divulgação de gastos previstos e realizados nos orçamentos da União, Estado, Distrito Federal e Municípios. A ideia da lei é que os gastos destes órgãos fossem divulgados, em tempo real, nos seus portais, fazendo com que os interessados vigiassem os gastos públicos com transparência.
Já a segunda vai para os que não querem cumprir a lei ou querem mascarar dados das contas, saiu uma matéria no site Info Plantão sobre a aplicação Transparência Hacker[2]. Esta aplicação lê os dados oficiais dos sites de órgãos públicos, agrega e cruza com demais dados. Este projeto pretende montar dados que estão pela metade, ocultos e revelá-los aos cidadãos interessados.
Como podemos ver, o uso da tecnologia para o controle dos gastos públicos parece estar progredindo, e é isso que me deixa bastante curioso. Minha preocupação surge do medo de haver uma espécie de inversão de controle e vigilância. Algumas pessoas no poder querem limitar o uso da internet, vide o caso do ridículo projeto de Lei do senador Azeredo[3]. E acho que a tendência é, ainda mais com estas novas ferramentas cobrando transparência, piorar. Creio que não deixarão barato.
O que eles podem fazer? Dá pra se ter uma ideia, começando pelo projeto de lei, relatado pelo Azeredo, que logo de início, com a desculpa de focar crime cibernético, criou um clima de total cerceamento na rede, tanto que ficou conhecido como o “AI-5 Digital”.
E como nós podemos nos proteger? Eu acredito que devemos nos empenhar na construção do nosso marco civil[4] para a internet. Vejo como um asseguramento de que nossos direitos de liberdade da rede não sejam afetados por atores, que se sintam prejudicados pela justiça/transparência/verdade. As leis da internet devem ser construídas de uma forma que siga a lógica da própria grande rede, que é a lógica horizontal, colaborativa e não vertical, de cima pra baixo, por meio da imposição. Assim como Moore e seu personagem V, acredito que a justiça tem que caminhar com a liberdade.
Isaac “yzak” Filho
Notas:
[1] Entrevista sobre a Lei da Transparência na Revista ARede:
http://www.arede.inf.br/inclusao/edicoes-anteriores/165-edicao-60-julho2010/3125-entrevista
[2] Matéria sobre a aplicação de transparência hacker
http://info.abril.com.br/noticias/ti/aplicacao-aberta-vigia-contas-publicas-27072010-17.shl
[3] Sobre o “AI-5 Digital”
http://samadeu.blogspot.com/2008/06/projeto-de-azeredo-quer-proibir-troca.html
[4] Marco Civil da Internet Brasileira
http://culturadigital.br/marcocivil/
Breve explicação sobre o marco civil, aqui no PE Livre, http://www.pelivre.org/blog/?p=232
Migração de um amigo
August 18, 2010 - No comments yetTodos que me conhecem sabem de minha opinião sobre a questão: software livre x software proprietário, principalmente minha família e amigos. Apesar de crítico e defensor com unhas e dentes do conhecimento livre, não sou daqueles panfletários chatos de plantão que só fazem falar e apontar o dedo. Para mim o melhor argumento, se tratando de software é livre, é mostrar a coisa funcionando bem.
Um grande amigo meu pediu para que eu instalasse o GNU/Linux no seu notebook, eu, claro, adorei a ideia. Segue abaixo um breve relato sobre a escolha dele.
O que levou você a abdicar do sistema operacional proprietário antes usado?
O sistema operacional anterior sempre me pareceu o responsável pelo mau funcionamento dos computadores que tive e do meu atual notebook. Além disso, depois de cada formatação, em pouco tempo o sistema operacional não tardava a ficar lento, o que prejudicava o meu uso.
Por que escolheu GNU/Linux?
Por indicação. Me disseram que com esse sistema, boa parte dos meus problemas com meu PC seriam resolvidos. Assim como me garantiram que em pouco tempo eu estaria acostumado com a novidade de usar um sistema diferente.
Porque não quis ter os dois sistemas no HD?
Ora, os programas que rodavam no S.O. anterior me pareceram supérfluos quando me deparei com os similares deste atual sistema que agora estou tendo o prazer de usufruir. Sendo assim, também tive a impressão de que manter o S.O. anterior no hd seria como não se livrar totalmente de um vício ruim.
Quais as maiores dificuldades que você acha que irá ter?
Talvez em me acostumar com o fato de que não irei mais fazer uso de certos softwares do sistema antigo. Mesmo sabendo que há os similares, penso agora em fazer uso do meu objeto de trabalho de maneira mais profissional. Em pouco tempo de uso, já percebi que tenho entrave com pequenas circunstâncias (nada que os fóruns online não ajudem a resolver) .
A distribuição que eu usei para esta migração foi o Ubuntu 10.04, por ter uma gerenciamento mais simplificado, e por ter obtido sucesso na migração de sistema da minha mãe. Felizmente este meu amigo não é dependente de um software específico. Como ele é fotógrafo, usava um manipulador de imagens para suas fotos, instalamos o GIMP pra suprir esta necessidade. Ele também edita um periódico chamado “Imaginando Imagens”, para isto instalamos o Scribus.
O importante de uma migração é você dar um suporte pós-instalação, sanando dúvidas e resolvendo problemas junto com a pessoa. É importante também dar autonomia ao novo usuário, mostrando que ele mesmo pode ir atrás de suas dúvidas, seja na comunidade, em guias e em tutoriais. Por falar em comunidade, acho importante integrá-lo junto à comunidade, tornando-o parte da mesma e mostrando que software livre pode ir além do mero uso.
Espero que esta migração avance e pretendo escrever, depois de um tempo, como nosso novo usuário está se saindo.
Isaac “yzak” Filho
Projeto Rotas do Cangaço em 360º classificado!
August 8, 2010 - No comments yetO Rotas do Cangaço em 360º foi classificado na Bolsa Funarte de Reflexões Críticas e Produção Cultural para Internet.
Este projeto visa a construção de um site que conterá todo um conjunto de informações das culturas locais por onde andaram o bando de Lampião. O conteúdo será disposto em forma de mapas, feitos em xilogravura; áudios; vídeos; textos, em cordéis e fotos panorâmicas em 360 graus. O material será produzido com o uso de software livre além da participação das comunidades locais na produção do conteúdo do site.
Além de trazer informações históricas, levantadas pelas comunidades, por onde o bando passou, a produção alimentará relações interpessoais entre comunidades e também atraindo a atenção das mesmas sob um novo olhar, divulgando seus costumes, sua cultura, difundindo e preservando seu patrimônio histórico.
O roteiro começará em Serra Talhada (PE), seguindo por Paulo Afonso (BA), Água Branca (AL), Piranhas (AL) e terminando em Canidê do São Francisco (SE).
Saiba mais sobre o projeto: http://www.pelivre.org/wiki/wikka.php?wakka=Cangaco360
Veja a lista do resultado de classificação: http://www.funarte.gov.br/portal/wp-content/uploads/2010/08/bolsa_midias_digit_2010_result.pdf
Parabéns Cleyton “pixies” Fábio!
Lei Esquecida? Parte 2.
July 27, 2010 - No comments yetEstamos aqui escrevendo mais um capítulo de uma novela que, se for o último, não terá um final muito feliz. Voltamos a falar sobre software livre, prefeitura do Recife, professores, notebooks, inclusão digital e perguntamos: como fica a lei nº 16.639/2001 que prevê o uso preferencial de programas de código aberto?
As notícias acerca dos notebooks, não mencionavam o uso de software livre, ao contrário, falavam em parcerias, inclusive com a Microsoft. Mas para a surpresa de muitos, os tais notebooks para os professores da rede, vieram com o ubuntu 9.04 instalado e também com o windows vista, o que chamamos de dual boot. Os dois sistemas operacionais foram personalizados com programas e plugins, prevendo algum tipo de uso pelos professores. Deram atenção devida ao BrOffice e a outros softwares livres, inclusive educacionais.
Com base nestas informações questionamos a adoção do dual boot, pois o mesmo não contempla o uso preferencial do software livre, previsto na lei. Do que adianta instalar windows e linux em um computador se não há nenhum tipo de informação para os professores? Tudo que eles obtiveram à nível de informação foi que havia opção de usar dois sistemas, mas não foi aprofundado nada. No ato da entrega só houve um teste para ver se o mesmo funcionava. Não há nenhum tipo de informação, nem debate acerca do uso do linux nos notebooks.
O uso do dual boot, nesta ocasião, é uma luta desleal, e não pode ser interpretado como uma livre escolha.
A comunidade do software livre continua o questionamento: Lei esquecida?
Post anterior sobre esta questão: http://www.pelivre.org/blog/?p=236
Isaac "yzak" Filho









