Feed RSS Compartilhando idéias e informações que vão da economia, meio ambiente à tecnologia. Tudo isso com uma "pitada" de arte e política que se misturam ao meu universo particular .


Acessibilidade com ORCA e GNU/Linux

September 13, 2009, by Vicente Aguiar - No comments yet

Orca2-smDurante muito tempo existiu uma lenda (dentre muitas!) na área de informática que um computador com GNU/Linux no Brasil não era sinônimo de acessibilidade. Uma das razões para tal crença estava ligado ao fato de que muitas pessoas ainda não conheciam o leitor de tela para deficientes visuais denominado de ORCA, do Desktop GNOME (ambiente desktop do GNU/Linux no qual o ORCA está inserido).

Contudo, graças ao esforço da equipe brasileira de tradução do Projeto GNOME, essa lenda urbana já está se diluindo. Afinal, juntamente com todo Desktop GNOME, o ORCA já é 100% traduzido para o português brasileiro e, assim,  já pode ser utilizado por qualquer deficiente visual em nosso país que tenha acesso a um computador com uma distribuição do  GNU/Linux com o ambiente GNOME instalado.

TiagoEm especial, esse esforço de tradução só foi possível porque o principal responsável por esse trabalho com  o ORCA é um deficiente visual, nascido na Bahia, de nome Tiago Melo Casal. Além de revisar a tradução do Orca a cada lançamento de forma voluntária, Tiago usa o aplicativo todos os dias e está em contato com vários outros cegos que usam software livre no Brasil e no mundo.  Para mostrar um pouco do trabalho realizado por Tiago, o ex-coordenador da equipe de tradução do GNOME Brasil - Leonardo Fontenelle - fez uma bela entrevista com ele, onde parte dela pode ser conferida abaixo:

 

LEONARDO - Começando pelo começo: Você poderia falar um pouco sobre você mesmo?

TIAGO - Sou Tiago, Brasileiro, nasci em 18 de Julho de 1985 em Salvador capital do Estado da Bahia. Sou cego, nasci com Retinose Pigmentar. Atualmente moro no Estado do Ceará, com minha companheira que também é cega. Diariamente utilizo computador, Orca, GNOME e Linux.

Por volta de 2002/2003, ouvi falar em Linux, em Software Livre e Open Source, me interessei e comecei a procurar e ler na internet textos sobre o assunto. Na época, não havia para Linux recursos de acessibilidade voltados para a realidade dos cegos brasileiros, como síntese de voz (via software) em Português. Havia leitores de tela para modo texto, utilizando síntese de voz via Hardware ou utilizando Linhas Braille, equipamentos que não eram comuns no Brasil. Por outro lado, os softwares de síntese de voz em sua maioria só falavam em Inglês. Leitor de telas para o ambiente gráfico, eu desconhecia.

Comecei a utilizar o Linux com o Linvox em 2004, um projeto brasileiro que trazia num LiveCD o Linux Kurumin com o Dosvox funcionando através do WINE. O Dosvox é um conjunto de programas para cegos com síntese de voz em Português (via software), como Editor de Textos, Navegador de Internet, Cliente de Correio Eletrônico, Telnet Falado e outros programas, inicialmente era para ambiente DOS e depois passou para ambiente Windows, por isso a necessidade do WINE, eu utilizava o Shell no Linux através do Telnet Falado do Dosvox.

Em 2006 criei a lista de discussão Linvox no Yahoo Grupos, onde diversas pessoas trocam experiências sobre Acessibilidade no Linux.

A autonomia dos cegos melhorou com toda a infra-estrutura de Acessibilidade desenvolvida no GNOME, com os leitores de telas para aplicativos em GTK+, principalmente com o Leitor de telas Orca. O Orca fez a diferença e o GNOME tornou-se referência de Ambiente Gráfico Acessível. A primeira distribuição Linux que trouxe o GNOME com Orca e uma maneira simples de um cego iniciar o LiveCD, utilizar o sistema e instalá-lo sem a ajuda de alguém que enxergue, foi o Linux Ubuntu. Comecei a utilizar o Orca com voz em Espanhol em 2006, em 2007 já foi possível utilizar o Orca com fala em Português, graças ao eSpeak, software de síntese de voz com fala em diversos idiomas. De lá para cá, o GNOME e o Orca só têm evoluído, aplicativos em GTK+ têm melhorado a acessibilidade, como o Firefox que deu um grande salto em Acessibilidade com a versão 3.0.

 

LEONARDO - Além do Orca, quais outras qualidades da acessibilidade do GNOME? E o que é que precisa melhorar?

TIAGO - No geral, o GNOME é muito acessível, com desenvolvimento ativo da infraestrutura básica de acessibilidade — ATK/AT-SPI —, do leitor de telas Orca e de outros projetos da área. Em específico para meu caso e das pessoas que não enxergam, podemos utilizar mais de 80% do GNOME em conjunto com aplicativos em [ou que interagem com] GTK2, como: Nautilus, GEdit, Editor de textos do OpenOffice/BROffice, Firefox/Iceweasel, gnome-terminal, Adobe Reader, Brasero, e outros.

A acessibilidade do GNOME está disponível para os aplicativos escritos em GTK2 e utilizando o ATK/AT-SPI, a inacessibilidade aparece quando um aplicativo é desenvolvido sem vínculo com o ATK/AT-SPI e em aplicativos antigos desenvolvidos em GTK1.2 ou anterior. Uma das maneiras de evitar que a acessibilidade seja esquecida seria embutir no GTK+ o código do ATK/AT-SPI. [Nota: o GAIL, que fazia a ponte entre o ATK, foi incorporado ao GTK+ em dezembro de 2007.]

 

LEONARDO - Você estava falando do LiveCD do Ubuntu. Quais são, hoje em dia, as distribuições mais acessíveis aos cegos, tanto para uso cotidiano quanto para instalação?

TIAGO  - Vou citar algumas distribuições Linux, sendo que eu direi sobre facilidade ou dificuldade tendo como base a utilização por cegos brasileiros, que na sua maioria não têm acesso a hardware de síntese de voz ou Linha Braille, portanto necessita de síntese de voz via software. Para iniciante, eu considero até o momento o Ubuntu a distribuição mais fácil para começar a utilizar o Linux, é possível o cego sem ajuda de alguém que enxerga utilizar via LiveCD, instalar e utilizar diariamente; outra distribuição boa é o Mandriva, também dá para utilizar pelo LiveCD, instalar e utilizar diariamente. Tem também o OpenSolaris, um Unix acessível, dá para utilizar pelo LiveCD, instalar e utilizar diariamente.

Voltando para as distribuições Linux, o Fedora 11 veio com GNOME e Orca, vem com um soft de síntese de voz com uma fala em inglês, é uma voz muito boa, mas como só trouxe um idioma, o que dificulta na instalação por pessoas falantes de outros idiomas, após instalar o Fedora 11 e instalando posteriormente falas no idioma de quem está utilizando o sistema, resolve a questão, mas se já tivesse falas em outros idiomas no CD, como o software eSpeak, seria bem melhor. Um amigo testou o OpenSuSE, no geral ele gostou da acessibilidade. É possível utilizar o Slackware, mas no momento é necessário a ajuda de alguém que enxergue na instalação, até que o cego possa utilizar o sistema com algum leitor de tela de modo texto ou um gerenciador de janela em GTK2 com o Orca.

Atualmente eu utilizo o Debian, por enquanto o instalador texto não tem software de síntese de voz (só síntese via hardware ou Linha Braille), mas tudo indica que está caminhando para isso na próxima versão, se realmente acontecer será um diferencial muito importante de outras distribuições. Existem e existiram distribuições Linux específicas para cegos, como o Oralux que foi descontinuado, atualmente tem algumas distribuições, mas o interessante é que as grandes distribuições integrem os recursos de acessibilidade disponíveis.

No geral, penso que qualquer distribuição que tiver instalado um software de sínteze de voz (prefiro o eSpeak porque tem fala em diversos idiomas), tiver um leitor de tela de modo texto e tendo o GNOME como gerenciador de janelas (que já vem com o Orca), já dá para um cego utilizar o sistema, dá também se o gerenciador de janelas for em GTK2 (LXDE ou XFCE, configurando algumas variáveis dá para ter acessibilidade).

 

LEONARDO - Então o eSpeak tem uma opção de voz para português do Brasil? Eu ia mesmo perguntar quais são as opções de síntese de voz para brasileiros. O Dosvox, imagino, não funciona com o Orca.

TIAGO  - Falando mais um pouco sobre o TTS (Texto para Fala) eSpeak: as regras do eSpeak para falar em português do Brasil foram implementadas pelo amigo Cleverson Uliana (em outubro/novembro de 2006), permitindo a utilização do Orca e outros leitores por mais pessoas no Brasil, antes da tradução do eSpeak para Português do Brasil utilizávamos o TTS Festival com fala em Inglês ou Espanhol, existia uma fala para o Festival em Português mas não era de fácil instalação e com a dependência de um componente extra com licença restritiva.

Outro TTS com falas em Português do Brasil é o MBROLA (Banco de dados de voz BR1, BR2 e BR3), a licença do MBROLA é livre e restritiva em alguns pontos, a distribuição Oralux que foi descontinuada, vinha com fala em alguns idiomas e em Português utilizando o MBROLA. Atualmente está em desenvolvimento o Banco de Dados de Voz BR4 em MBROLA, fala conhecida como Liane TTS, em desenvolvimento pelo Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) e pelo NCE/UFRJ (Núcleo de computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro), é uma fala Brasileira com qualidade; também está em desenvolvimento um driver para a utilização da Liane TTS com o GNOME e o Orca, sendo testado pela comunidade com êxito; a Liane TTS também é utilizada pelo Dosvox no Windows.

Se a pessoa desejar, pode utilizar o eSpeak como interface para se utilizar as falas do MBROLA, como as falas Brasileiras BR1, BR3 e até a BR4 (Liane TTS), utilizar as falas em outros idiomas do MBROLA, também as regras para o Português do Brasil foram feitas pelo Cleverson Uliana, com isso, pode-se utilizar o MBROLA via eSpeak com o Orca e outros leitores, no Linux e no Windows. Há alguns softwares de síntese de voz comerciais, cito o VoxIn por ser o melhor em minha opinião, com opções de fala em diversos idiomas e pelo valor ser barato, custa em torno de 5 euros a fala para cada idioma disponível.

O Dosvox é um conjunto de programas, é desenvolvido no NCE/UFRJ, inicialmente era para DOS e depois passou para Windows, tem uma síntese de voz própria e em Português, também pode utilizar outros TTS em SApi4 e/ou SApi5 (sistema de fala da MS), e suporta Liane TTS. Penso que existe um projeto para portar o Dosvox para Linux, mas por enquanto quem gosta do Dosvox utiliza ele no Linux através do WINE, como é um sistema de programas com fala não há necessidade de leitor de tela para os programas do Dosvox, também como o WINE não é em GTK+ ele não é acessível para o Orca.

 

Para Ler a entrevista na íntegra, basta acessar o blog do  Leonardo Fontenelle. ;-)



1a. Conferência Web W3C Brasil

September 12, 2009, by Vicente Aguiar - No comments yet

Brlogo-portugueseEssa é a chamada de papers, casos de uso e tutoriais que serão selecionados para apresentação durante a 1ª. Conferência Web W3C Brasil organizada pelo W3C Escritório Brasil. A Conferência Web W3C Brasil foi criada para oferecer ao público brasileiro um amplo fórum anual de discussão e debate sobre a evolução da Web, a padronização de suas tecnologias e seu impacto na sociedade e na cultura. A Conferência reunirá pesquisadores, desenvolvedores, usuários, empresas, agências digitais, mídia e todos aqueles que são apaixonados pela Web e que têm algo a oferecer, usar e debater.

Cada submissão recebida será avaliada pelo Comitê de Programa, que selecionará aquelas que forem mais adequadas às temáticas e objetivos da Conferência.

Datas importantes:

30 de setembro de 2009 - data limite para submissão dos trabalhos para a conferência
22 de outubro
de 2009 - divulgaçãos dos trabalhos selecionados para apresentação na conferência

Mais informações sobre a Conferência Web W3C Brasil podem ser obtidas na Internet no endereço http://conferenciaweb.w3c.br



Plenária na Câmara dos Vereadores de Salvador sobre Software Livre

September 12, 2009, by Vicente Aguiar - No comments yet

Quem estiver em Salvador (ou perto),  está mais do que convidado para essa plenária! Afinal, temos que aproveitar esse espaço para reforçar a adoção de tecnologias livres em nossa terra.

SessÃo_software_livre



A "nova economia" e o Capitalismo 2.0 em números.

September 7, 2009, by Vicente Aguiar - No comments yet

Na atual era da Informação, cada vez mais as coisas que compõem o nosso dia-a-dia  são de natureza digital, isto é, necessitam de um software para serem utilizados e trocados.  Do ponto de vista econômico,  podemos afirmar que estamos num mundo onde as atividades econômicas não mais ocorrem em fábricas que utilizam máquinas e processos manuais; e sim por meio de organizações e pessoas interligadas (em rede) através de softwares.

Segundo Eben Moglen (consultor jurídico da Free Software Foundation), isso significa dizer, em palavras, que “a economia do século XXI é sustentada por software. Software é elemento tão fundamental para o desenvolvimento econômico no século XXI quanto o foi a produção de aço no século 20. A estrutura societária nos Estados Unidos, por exemplo, mudou, e o resto do mundo desenvolvido está mudando, e continuará mudando nos países em desenvolvimento, rumo a uma economia cuja commodity primária fundamental à produção é o software”.

Em números financeiros, para entender melhor essa afirmação, basta que a gente compare os valores (de hoje: 07/09/09) das ações das grandes multinacionais de software, com o setor que foi referência na era industrial passada, isto é,  o de automóveis.

Capitalismoindustrial

Setor Automotivo. Fonte: http://biz.yahoo.com/ic/ll/330mkt.html

 

Insdustriadesoftware

Setor de Softwares. Fonte: http://biz.yahoo.com/ic/ll/821mkt.html


Um bom gráfico vale mais do que muitas palavras. Ao compararmos os valores da Microsoft (maior empresa de software do mercado) com a maior empresa produtora de automóveis  (a Toyota - que produziu 7,1 milhões de veículos em 2008 ), fica mais claro o que estamos querendo dizer: a Microsoft supera a Toyota em mais de 80 bilhões de dólares em termos de valores no mercado financeiro dos EUA.

Por outro lado, essa "nova economia" já está se alterando. Se o setor de softwares tem essa importância, outro setor está cada dia mais mundando a tendência dos valores e do processo de acumulação do capitalismo contemporâneo. Sendo mais direto, estamos falando dos  Provedores de Informação pela Internet  ou "Internet Information Providers".

 

Capitalismoinformacional

Setor de Provedores de Informação pela Internet. Fonte: http://biz.yahoo.com/ic/ll/851mkt.html

 

Na atual conjuntura econômia e tecnológica,  vender informações fornecidas por usários na Internet está se tornando cada vez mais num setor lucrativo para grandes empresas multinacionais.

Diante de tal contexto, se os valores financeiros mostram que o setor de softwares é estratégico para a "nova economia" capitalista, o setor de softwares (web!) que geram informação por meio da Internet é mais estratégico ainda.  Afinal, depois de compararmos os números acima, fica mais fácil entender porque a Microsoft fez um grande acordo comercial com a Yahoo, com medo do avanço daquela que pode se tonar,  muito em breve,  na multinacional mais poderosa do mundo: a Google Inc - que por sinal já superou também a Toyota em termos de valores no mercado dos EUA.

Fiquemos então bem atentos à esse novo cenário tecnológico e econômico que está em constante mudança, mesmo que a "essência" ainda continue a mesma.



Software Livre e Economia Solidária: uma outra proposta de desenvolvimento na Era da Informação.

September 7, 2009, by Vicente Aguiar - No comments yet

ImageNa semana passada eu participei do II Congresso Internacional Software Livre e Governo Eletrônico – Consegi 2009 - realizado pela Escola de Administração Fazendária - Esaf, em parceria com a Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação - SLTI/Ministério do Planejamento. Nesse evento de 2009, participei de uma mesa sobre Economia Solidária, quando pude apresentar um debate sobre "Software Livre e Economia Solidária: uma outra proposta de desenvolvimento na Era da Informação".

Essa apresentação foi uma continuidade do debate do CONSEGI de 2008 sobre "Economia Solidária e apropriação tecnológica", e  teve como base um outro artigo que elaborei sobre  "Software Livre e Inclusão Digital:  Estratégias para o Desenvolvimento Sustentável na Era da Informação."

Dessa vez, procurei reforçar a noção de que para construir uma outra proposta de desenvolvimento pautado nos princípios e valores da economia solidária e da sustentabilidade, se faz necessário compreender este atual senário do Capitalismo Informacional e construir estratégias políticas que superem este processo deconcentração de riqueza e desigualdade social do atual  capitalismo informacional.

Para quem tiver interesse no debate, os slides seguem AQUI.