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[Opinião] Corra, a Tecnocracia Neoliberal Evangélica vem aí!

18 de Abril de 2019, 14:37 , por PIRATAS - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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texto por @rrobinha e alguem anon

leia o manifesto da Bancada Evangélica na íntegra aqui

No final do ano passado, a bancada evangélica lançou um documento chamado “Manifesto à Nação: O Brasil para os Brasileiros”, que implicam em uma série de pontos que aparentemente irão nortear as ações da bancada evangélica nos próximos anos.

O resultado final foi um documento de 60 páginas com uma peculiar salada-mista de ideias retiradas de diferentes fontes, como: meritocracia, “Ética do protestantismo” de Weber, tecnocracia, uma apologia a livros de gestão corporativa, uma salada-mista de doutrinas neoliberais e, por fim, teorias da conspiração sobre a doutrinação ideológica nas escolas pelo marxismo cultural que foram claramente copiadas de Olavo de Carvalho (ver glossário no final do texto)

Nem todas as ideias no documento estão equivocadas. Longe disso, mas uma parte delas, caso implementadas, gerariam efeitos colaterais tão graves que certamente farão com que todo mundo tenha saudades da época em que a bancada evangélica se metia exclusivamente em questões morais.

Para analisarmos de maneira apropriada as propostas da bancada evangélica, nós iremos prosseguir com uma lenta, porém satisfatória degustação desse documento.

Mas se você só estiver interessado em dar uma risadas pode pular diretamente para o Eixo IV – Revolução na Educação.

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Introdução e Eixo I – Modernização do Estado

A introdução do texto começa alertando sobre o problema do “Monopólio da Representação” exercido pelos partidos políticos, o que acabou levando à uma “privatização do espaço público” por grupos particulares. Ou seja, da captura do Estado por grupos políticos.

Em seguida afirma que o Estado Brasileiro se tornou “muito grande” e “um fim em si mesmo”, tornando-se excessivamente patrimonialista – ou seja, de que órgãos e poderes públicos passaram a ser conduzidos pelo interesses privados – e que o mesmo deve ser modernizado para operar de maneira mais eficiente. Para isso se deve reduzir burocracia para permitir que o empreendedorismo possa crescer.

Essas ideias parecem partir de uma leitura rasa ou superficial do conceito de patrimonialismo frequentemente encontrada na mídia, que enxerga a corrupção como algo essencialmente Estatal, quando ela, na verdade, envolve uma série de interesses orgânicos que tem origem na esfera particular. Além disso, ela parece se apoiar no conceito de modernização, na qual existiria um caminho óbvio e único para o progresso e o desenvolvimento, bastando “tirar o atraso” que foi provocado pela adoção de medidas e receituários desenvolvimentistas.

As seções 1.1 e 1.2 do documento seguem na mesma linha. Os problemas mesmo começam com a seção “1.3 – Governo Digital e efetividade do serviço público”, que basicamente propõe criar uma espécie de plataforma digital para as ações do governo, disponibilizando tanto documentos da burocracia interna, quanto documento de cidadãos na “nuvem”, ou seja, na Internet. Algo que parece já estar começando a ser implementado.

Apesar do potencial inegável dessas medidas, o maior risco associado a elas vem das denúncias feitas por Edward Snowden em 2013 de que o Governo dos EUA vem metodicamente espionando as ações do Governo Brasileiro, pois todas as comunicações no Brasil passam por satélites norte-americanos ou cabos submarinos que estão ligados ao território dos Estados Unidos. Uma acusação que, embora tenha causado repercussão na época, parece nunca ter sido levada a sério.

Logo, o aumento dos documentos governamentais na Internet pode aumentar o nível de exposição de decisões governamentais sensíveis a governos estrangeiros, tornando o Brasil na prática em uma espécie de protetorado digital norte-americano.

E isso não é algo exclusivo dos EUA, pois como a maior parte do hardware mundial é produzida na China, até mesmo eles não estão alheios a problemas. Embora o assunto ainda esteja sendo testado por pesquisadores, reportagens recentes demonstraram que várias peças de hardware que haviam sido produzidas na China e que estavam presentes em empresas do Google, Amazon e Apple continham minusculos chips espiões que serviam como backdoors para capturar informação. Logo, mesmo a simples digitalização de documentos sensíveis pode representar um potencial perigo de disponibilizar informações para outras potências estrangeiras. (veja mais sobre essas suspeitas aqui e aqui)

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Eixo II – Segurança Jurídica

Esse eixo começa afirmando que “a história da civilização nos mostra que a segurança jurídica é a nota distintiva do desenvolvimento econômico e social perene”. O que envolve uma certa ode e excessiva idealização do legalismo Romano de que no império da justiça não existiria espaço para a força, algo como a solução mediada de conflitos e a confiança na autoridade do judiciário. Quando se invoca isso no Brasil geralmente é para tentar legitimar decisões do judiciário ou invocar sua ação perante grupos políticos que estejam influenciando as cortes.

A seção “2.1 – Segurança Jurídica como valor fundamental” propõe que “segurança jurídica” seja adicionada como um dos direitos fundamentais na constituição, o que equivale a uma tentativa de igualar direitos individuais a direitos econômicos. Algo que só faz sentido diante da adoção do conceito de “cidadão-cliente”, também presente no documento e que vê o Estado como um mero provedor de serviços e não como a instância de participação política por excelência.

É também uma compreensão extraída da postura norte-americana sobre a judicialização da vida cotidiana, a questão aqui é enxergar a justiça como capaz de prover igualdade social através da cobrança do Estado, que já acontece bastante no campo da saúde com processos de planos e do governo quando há delonga ou rejeição de um tratamento devido a filas ou ao custo.

Em outro ponto, o documento propõe que os agentes públicos possam ser responsabilizados diretamente por algum dano, fazendo com que aqueles que atuam em nome do Estado sejam diretamente responsabilizados pelos problemas que eles mesmo fazem.

Se por um lado isso potencialmente reduz muito as garantias e autonomia de diversos agentes públicos no cumprimento do seu dever, por ouro isso é algo que pode até mesmo ser ser desejável, já que instituições como a polícia frequentemente julgam seus membros através de critérios internos próprios ou através por tribunais militares como no caso do Rio de Janeiro.

Essa medida, portanto, talvez possa ser vista como uma resposta judicial aos abusos frequentemente cometidos pelos agentes do Estado para que os mesmos passem a se responsabilizar por suas ações. O problema é que isso não pode ser feito de uma maneira a isentar totalmente o Estado. Algo que, na prática, acabaria fortalecendo o sentimento corporativista e incentivando ainda mais esses agentes a tomarem medidas “por debaixo dos panos”.

Já a seção “2.3 – O devido processo legal e o novo processo administrativo brasileiro” propõe a formulação de um Tribunal Administrativo composto por funcionários públicos e membros da sociedade civil e que poderiam anular decisões administrativas internas. Não está muita clara a proposta, mas ela parece envolver uma espécie de “poder moderador” da administração pública, além de estabelecer sanções mais claras contra funcionários públicos em ações fiscalizadoras.

Isso mostra que, para a bancada evangélica, a Segurança Jurídica implica necessariamente em uma redução do grau de fiscalização do Estado em Empresas e contratos privados entre as partes. Isso, no entanto, na prática tornaria esses tribunais administrativos em uma forma de controle político das autarquias da administração pública, de forma que as decisões dos técnicos, aqui servidores públicos, fossem alvos de posterior escrutínio e represália.

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Eixo III – Segurança Fiscal

Esse eixo começa com afirmações bastante genéricas como “o sistema tributário deve ser simplificado, e a tributação deve ser deslocada do consumo para a renda, não apenas por questão de justiça social como para impor dinamismo à economia brasileira” e “a modernização previdenciária deve ter como princípios a contributividade e a sustentabilidade financeira, lastreada em robusto cálculo atuarial”. Até aqui, tudo ok.

As três primeiras seções estão bem estruturadas e todas tem boas propostas, ainda que de complexa e difícil execução. Os problemas mesmo começam na seção “3.4 Modernização Comercial. A nova abertura dos portos às nações amigas”, cujo próprio título já entrega o tipo de visão ingênua que provavelmente irá imperar durante todo o mandato do Bolsonaro em em relação ao Comércio Exterior e as Relações Internacionais.

Aqui a ideia de modernização entra em contato com a síndrome do vira-lata, pois flerta com a ideia que de que a modernidade ainda precisaria desembarcar em terras brasileiras, faltando apenas uma receptividade do comércio e ideias estrangeiras.

É como se a mera facilitação da entrada de produtos estrangeiros fosse capaz de possível uma simbiose ou educação a partir da absorção dos padrões de qualidade internacional, o que, consequentemente, deixaria clara a inferioridade de ideias e produtos nacionais e a consequente necessidade de modernização da Economia

As primeiras propostas propõem alterações diretas na composição interna do Ministério das Relações Exteriores, no uso de especialistas externos nos corpos diplomáticos e até mesmo defendendo uma formação mais especializada dos diplomatas, mostrando que eles duvidam das qualificações dos membros do Itamaraty.

Quando consideramos os demais pontos presentes nessa seção, no entanto, fica claro que são os diplomatas é que poderiam ajudar na qualificação dos membros da bancada evangélica.

Isso porque as demais propostas fazem parte das linhas de política externa já defendidas por Bolsonaro, com maior enfase em tratados bilaterais em contraposição aos os acordo em bloco sempre vinculados ao Mercosul, além da redução das alíquotas gerais de importação registradas na OMC.

O que os deputados que escreveram esse documento parecem ignorar é que mesmo que a maior participação do Brasil no comércio internacional seja realmente algo positivo, a abertura do comércio não pode ocorrer de maneira unilateral. A reciprocidade diplomática é algo que envolve tanto acordo políticos quanto econômicos. E mesmo a prosperidade experimentada pelo comércio renovado entre Estados Unidos e Europa após a Segunda Guerra Mundial só deu frutos porque o corte de tarifas foi algo que ocorreu simultaneamente em ambos os lados do atlântico, exatamente a partir da consolidação de acordos de comércio por meio do GATT, que mais tarde se tornou a OMC.

A ideia portanto, de que o Brasil possa gozar de maior prosperidade meramente reduzindo as alíquotas de importação de maneira unilateral chega ao próximo do absurdo.

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Eixo IV – Revolução na Educação

Finalmente, a última parte é a mais divertida, pois se as seções anteriores continham geralmente apenas uma ou duas seções mais problemáticas no meio de uma série de propostas bastante válidas e até mesmo importantes, a seção sobre a Educação é onde os níveis de fanatismo e teoria da conspiração atingem níveis de mais oito mil.

O texto começa falando que esse é o assunto com maior arco de tempo e aquele que garante a sustentabilidade dos ganhos e avanços dos eixos anteriores. Além disso, fala em investir em educação como uma forma de agregar valor ao cidadão e garantir a ele um fator de emancipação dele mesmo e do país.

Até aí lindo. Só que aí a página seguinte começa com a seguinte afirmação:

“A tragédia que se instituiu no Brasil nas últimas décadas teve como uma das causas o desprezo pelo esforço, pelo estudo, pelo mérito conquistado ao longo do tempo, em benefício do caminho mais curto da demagogia, do uso político-partidário das escolas e universidades públicas, que se tornaram instrumentos ideológicos que preparam os jovens para a Revolução Comunista, para a ditadura totalitária a exemplo da União Soviética e demais regimes sanguinários. “

Ou seja, o problema da educação é a falta de estrutura das escolas? De base curricular? De preparo dos professores? De apoio aos estudantes? Não, não, claro que não…

É tudo culpa dos professores comunistas que destruíram a meritocracia com a revolução comunista.

O interessante observar, por exemplo, que políticas como aprovação continuada, que retiram a repetência do sistema educacional foram propostas por políticos e não pelos professores, como forma de diminuir a evasão escolar e assim produzir índices que elevassem a educação brasileira em rankings educacionais internacionais. Não como fruto da benevolência dos professores comunistas brasileiros com os alunos oprimidos.

Outra afirmação que gera horrores é como a educação atual preparando as mentes dos nossos jovens para algum tipo de ditadura totalitária/revolução comunista. Além de ser uma afirmação muito pouco explicada, ela chega a ser irônica quando vemos tantos Estados adotando de escolas militar. E essas sim contam com frequentes instrumentos de imposição disciplina e obediência em suas grades.

Talvez na cabeça deles a revolução comunista/ditadura totalitária não precise de hierarquia e nem de disciplina.

E não para por aí, veja o trecho seguinte:

A destruição dos valores e princípios do mérito escolar e do mérito acadêmico-universitário contribuiu para a violência contra a civilização judaico-cristã, atingindo duramente o Cristianismo, tal como aconteceu na URSS e demais Estados totalitários, como na Itália Fascista e na Alemanha Nacional-Socialista, China, Cuba etc. O mérito é rigorosamente democrático, todos podem conquistá-lo

Aqui é feito um ataque velado às cotas e é feito um malabarismo para relacioná-las aos governos não democráticos do mundo. Só que os Estados Unidos, que são uma democracia e não está entre os países citados, são um exemplo da adoção de cotas raciais e de renda. Além disso, já foi demonstrado em diversas pesquisas que, em média, o cotista frequentemente apresenta desempenho superior ao não cotista.

O democratismo comunista é a destruição do ensino de qualidade, pois, quanto mais ideológico, mas ele se torna improdutivo, ineficiente e corrupto. O populismo educacional gerou incompetentes em todas as profissões, e as pessoas só conseguem superar esse atraso quando resistem a essa pressão e estudam por si mesmas.

Agora o comunismo é democrático, parecem que não se decidem se é ditadura/revolução ou o problema é o democratismo.

O que a afirmação acima parece deixar de lado é que a produção de artigos acadêmicos cresceu no país, somos um dos que mais publica no mundo, a CAPES, órgão de fomento a pesquisa foi criada baseada em incentivo a publicações e visibilidade em periódicos dos Estados Unidos e Europa, duas regiões aparentemente super comunistas e mais incompetentes do mundo.

Os estudantes brasileiros hoje não ocupam espaços entre empresas e universidades de ponta no mundo inteiro? Seriam os profissionais formados nas universidades federais e escolas técnicas do país de qualidade inferior aos das escolas e universidades privadas? Muito difícil defender esse ponto e mais difícil ainda acreditar que as pessoas só conseguiriam superar o “atraso” quando estudassem sozinhas. Não há registro histórico de cientistas ou empresários que produziram inovações, grandes empresas ou descobertas de forma isolada.

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Sobre patentes

O Brasil é muito forte em Commodities, mas na criação de tecnologia temos somente 0,1% das patentes mundiais. O Brasil não cria patentes. Para começarmos a vencer esse atraso impressionante é necessário termos um sistema de ensino fundado na meritocracia, em permanente ascensão de conhecimento, sempre visando a mais alta qualidade em todas as etapas, da Educação Básica ao Doutorado.

Sinceramente nunca vimos um professor de História Marxista registrar uma patente. O que nos leva a crer que os comunistas se implantaram secretamente também nos cursos de engenharia, química e Farmácia (malditos comunistas, mal consigo ver seus movimentos).

A produção de patentes não é um índice educacional, além do fato de que o mero registro de patente gera custos que não são cobertos por nosso governo em todos os casos. Geralmente essas patentes registradas pelo Brasil são referentes a parcerias entre empresas e universidades onde funcionários fazem cursos e produzem estudos direcionados como parte do acordo, gerando patentes ao final da sua graduação.

O problema da baixa produção de patentes, portanto, é algo relacionado com o baixo investimento e o baixo nível de formação bruta de Capital Fixo no país. Não uma consequência do nosso modelo educacional ou do marxismo que seriam ensinado por professores de História e Geografia no segundo grau.

Vale lembrar também que número de patentes não implica em valor das patentes, muitas patentes no mundo são inócuas, gerando apenas custos, e sua existência não garante qualquer segurança jurídica ou econômica, pois patentear um produto por todo o planeta é caríssimo e estaremos sempre sujeitos ao sistema de justiça de outros países.

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Seguindo…

O mundo contemporâneo no Século XXI é e será cada vez mais competitivo e exigente. Portanto, todas as sociedades que ainda praticam uma educação ideológica, populista e demagógica, vão cada vez mais ficando para trás, e jamais conseguirão superar o abismo crescente que as separam das mais avançadas, já que estas sempre avançam mais, melhor e mais rápido.

A proposta aqui é enxergar o mundo como uma corrida justa entre os países, onde as posições ocupadas neste ranking refletem o quanto as sociedades tem povos não ideologizados e competentes (meritocracia para países inteiros agora).

A afirmação não dá espaço para as centenas de anos de guerras, embargos econômicos, golpes de estado financiados por agências de inteligência e espionagem internacional. É tudo uma questão de consciência limpa e trabalho duro. Quem não se adaptar ao jogo irá ficar cada vez mais “para trás” é de novo a ideia da modernidade e de um fim último que todos os países concordam que deve ser alcançado de uma única maneira.

Além disso, o texto ainda está mal escrito, como mostra o trecho “um país avançar melhor que outro”.

Avançar melhor que o outro?! Parece que alguém faltou na escola…

A próxima seção já começa abordando a questão da Escola sem Partido:

Libertar a educação pública do autoritarismo da ideologia de gênero, da ideologia da pornografia, e devolver às famílias o direito da educação sexual das suas crianças e adolescentes. Defender o direito à inocência da criança como direito humano universal.

É interessante como ensinar educação sexual nas escolas se traduz em autoritarismo para a bancada evangélica. Aliás, que raios é ideologia da Pornografia???Aparentemente eles acreditam que a pornografia está na escola e não na internet, na televisão ou nas revistas e jogos. Ou talvez para eles exista uma pornografia ideológica e uma não ideológica, seja lá o que for isso (alguém pergunta isso pro Alexandre Frota, por favor?)

Além disso, a ideia de que “A criança ter direito a inocência” parece partir da visão de que qualquer discussão ou educação sobre sexo é maliciosa e vai criar uma criança tarada, ainda que essa educação seja focada em doenças, desigualdades e violências. Assuntos extramente necessários como parte de um trabalho de educação sexual dos jovens.

Na verdade, ou temos Escola ou temos Ideologia. São inconciliáveis. Teremos que reinserir a Escola e a Universidade públicas em seu leito tradicional e conservador: ensinar. Assim é desde a Mesopotâmia, considerada o berço da escola mundial. A instrumentalização das escolas e universidades públicas a serviço de ideologias totalitárias e ditaduras comunistas envenenou a alma e o espírito das últimas gerações, e destruiu a qualidade de ensino.

Ideologia parece ser um conceito extremamente mal compreendido pela bancada evangélica. Sendo originalmente um conjunto de ideias que estruturam sistemas de dominação política, ela hoje parece ser usada coloquialmente como sinônimo de “manipulação”.

Além disso, a Mesopotâmia nunca foi referência de ensino, no que parece ser uma tentativa de ligar a ideia da educação a religião cristã, que teve berço nessa região.

O que o documento não parece se atentar é que as universidades brasileiras são extremamente conservadoras, nossos currículos de engenharias e ciências exatas não tem espaço para humanidades, esportes ou qualquer tipo de formação interdisciplinar liberal, cada campo do conhecimento é fechado em si mesmo e pouco dialoga com outras áreas e saberes. Já os currículos americanos e chineses apresentam essa presença de filosofia, esportes, artes e outras humanidades mesmo nos cursos mais técnicos.

A ideologia de gênero é a mais nova invenção do pensamento totalitário, que imediatamente foi adotada pelas autoridades dos Governos do PT, e demais frações de esquerda autoritária. Ela desvia a escola das suas atribuições normais e investe na subversão de todos os valores e princípios da civilização.

Sim, a mais nova invenção do pensamento totalitário depois do Fascismo, Nazismo e Comunismo foi a ideologia de gênero. Aquele bigodinho do Hitler nunca me enganou.

É interessante o medo a nível civilizacional da discussão de gênero, será que discutir os papéis de homens e mulheres na sociedade e a homo-afetividade nos levará ao fim do mundo? Ditaduras dependem disso? Os estudos de gênero, frequentemente apelidados “ideologia de gênero”, é onipresente nos currículos dos países desenvolvidos, mas aqui é considerada como um fator de atraso.

O ataque às crianças, adolescentes e suas famílias tem por objetivo destruir os alicerces da Civilização como condição prévia para a criação das condições objetivas de instituir uma ditadura totalitária, escravizando as consciências pela força do Estado. A sociedade civil fica refém do Estado. Com isso, introduziram nas escolas todo tipo de pornografia, licenciosidade, perversão etc. Será necessária uma campanha ininterrupta de combate à sexualização e erotização das crianças e adolescentes em todo o Brasil, utilizando-se todos os meios possíveis, e punindo severamente todos que atentarem contra a inocência infantil.

Fica a pergunta se alguém acredita que o maior risco ao nosso país, ou melhor, a civilização é a criança pensar ou falar sobre sexo, esse sexo que todos os ancestrais da humanidade necessariamente tiveram que praticar. Será que uma vez debatido ele será a semente da ruína? A quem serve essa preocupação? Será que falar de sexo escraviza, prende, limita a mente? Existe diferença entre pornografia e educação sexual? É fácil assim se confundir os dois?

Sinceramente, temos que repensar como todos esses tabus e como eles servem de cortina de fumaça e paranoia nos tiram a possibilidade de uma conversa séria sobre o assunto. Se não for a escola, será a internet que educará sexualmente nossas crianças, com nenhum controle, nenhum filtro, nenhum profissional da educação preparado para o debate e a resposta de perguntas,

Especialmente quando a Internet em grande parte já conta com um banco de dados virtualmente infinito de vídeos e fotos de todo tipo de tara sexual ao alcance de uma busca de menos de clique.

O resto desse eixo trata sobre políticas para a Universidade e são bem mais sóbrios, mas que são basicamente trechos copiados de um estudo do Banco Mundial.

O mais importante é que, independente das eventuais boas ideias presentes na primeira parte desse documento, essa última parte garante ao documento o selo oficial de psicodelia argumentativa do Olavo de Carvalho.

olavetes piram

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Conclusão

Depois do esforço envolvido em estudar esse documento, a maior pergunta que fica é: como é que as pessoas que escreveram os primeiros três eixos do documento, que contém propostas relativamente razoáveis, permitiram que colocassem todos aqueles absurdos na última parte sobre educação básica?

Tal questionamento parece nos deixar apenas duas alternativas: ou os demais membros da bancada evangélica aceitaram de maneira relutante essa situação apenas pra poderem chegar a um consenso mínimo ou eles conscientemente estão querendo lucrar politicamente com toda a polêmica e atenção que a pauta da Escola sem Partido vem provocando na imprensa.

Provavelmente as duas alternativas são verdadeiras em alguma proporção, mas o mais importante é que mesmo o tom absurdo da última parte desse documento deixa bem claro que por trás dessa suposta pataquada de cruzada contra os professores marxistas e a revolução comunista estão interesses bastante claros dos grupos evangélicos de se tornarem parte do sistema educacional.

Não é difícil entender o porquê. Comunidades religiosas possuem uma capilaridade muito grande na sociedade e as igrejas estão frequentemente conseguem estar presentes nas periferias e outros locais tão afastados de uma maneira que nenhum grupo político ou instituição consegue competir.

Esses pastores talvez mostrem um interesse genuíno de querer participar do processo educacional e conseguir desenvolver um modelo educacional que seja mais baseado em uma formação mais comunitária e mais antenado com os problemas locais, já que a estrutura educacional brasileira, assim como o restante do Estado por motivos históricos, é excessivamente centralizado.

O problema é que se há alguma coisa que a retórica da última parte desse documento conseguiu demonstrar é que, atualmente, esses pastores não possuem a menor condição de poder propor ou mesmo participar da reforma educacional que eles tanto almejam querer implementar.

Talvez seja hora deles voltarem ao banco da escola.

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Glossário

Meritocracia – a ideia de que as ações dos indivíduos e os resultados obtidos por essas ações podem ser medidos e avaliados de acordo com o esforço empregado por este indivíduo. Dessa forma, o mundo seria regido de forma justa e todos estariam em posições de poder e possuiriam riquezas correspondentes ao grau de esforço empregado em suas vidas, desconsiderando desigualdades históricas, relações de força entre países e acúmulo de renda transmitido através de herança.

“Ética do protestantismo” de Weber – Sociólogo alemão, Weber escreveu a obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, procurando explicar por que a revolução industrial e a economia capitalista teriam surgido na Europa ao invés de outras épocas e regiões do planeta que também concentraram riqueza e grandes populações. Em sua obra, Weber encontra como diferencial a ética do protestantismo, que equivalia o trabalho a uma atividade de inspiração divina, e o enriquecimento como resultante do favor divino, de forma que era possível motivar o trabalho e a busca do sucesso financeiro como algo sempre desejável e moralmente superior.

Tecnocracia – se refere à ideia de que qualquer ramo da atividade humana possui algum grau de especialização que produz pessoas altamente dedicadas àqueles campos, e esses especialistas/técnicos seriam capazes de produzir decisões mais eficazes que pessoas não instruídas. Essas decisões supostamente seriam tomadas de forma racional, independente de alinhamento político, paixões ou interesses pessoais. É uma forma de negação da política como parte indissociável da atividade humana.

Neoliberalismo – um resgate de ideias antigas liberais de forma restrita ao campo da economia, onde o Estado deveria exercer a enas atividades fundamentais como saúde, educação e segurança pública, deixando de regular a economia. No entanto, além de deixar de lado todas as liberdades individuais defendidas pelo liberalismo clássico, essa linha de pensamento do Estado mínimo ignora tanto a competição desigual entre Estados no plano global quanto a necessidade de intervenções periódicas em tempos de crise, como as milionárias isenções e incentivos que ocorrem em casos de quebra do mercado financeiro, que não são condenadas por estes pensadores.


Fonte: http://partidopirata.org/tecnocracia-neoliberal/

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