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Crise e Revolução na Teoria e Política Econômica: um debate

11 de Setembro de 2019, 13:38 , por PIRATAS - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Debate sobre os limites da Economia com Blanchard vs Anti-Blanchard

o texto a seguir é uma livre tradução do debate “Pensando uma alternativa” entre Olivier Blanchard, ex-economista chefe do FMI, um dos principais expoentes da Economia Mainstream (corrente teórica principal da área) e autor de alguns dos manuais de macroeconomia mais usados nos cursos de graduação no mundo todo, e Emiliano Brancaciano, autor do livro Anti-Blanchard e um dos autores do “Aviso dos economistas contra políticas de austeridade na União Europeia” publicado no Financial Times

link original aqui

Pietro Raitano: Boa tarde a todos. Eu gostaria de agradecer ao público por comparecer, a Fundação Giangiacomo Feltrinelli por organizar esse evento, e aos debatedores com quem teremos o prazer de ouvir elaborarem seus argumentos em assuntos importantes os quais, no presente momento histórico, nós todos precisamos entender e confrontar.

Eu trabalho na magazine mensal, Altreconomia, que por duas décadas subscreveu a visão de que o ambiente econômico que moldou essa era da “globalização” não é apenas incapaz de resolver quaisquer dos problemas mais importantes que afligem a sociedade em uma escala global – tais como desigualdade ou desafios ambientais – mas que também é, em alguns aspectos, responsável por esses problemas e, portanto que o pensamento, acadêmico que acompanha esse ambiente precisa ser reconsiderado.

Dez anos se passaram desde a erupção da crise econômica e financeira de 2008, e hoje nós estamos vendo sinais que o espectro de outra crise talvez esteja no horizonte. Nesse sentido, o debate entre posições distantes – e eu diria até mesmo em antítese uma com a outra – como essas se confrontando hoje a noite, pode realmente nos ajudar a entender como políticas de regulação talvez funcionem dessa vez e como elas podem ser mais efetivas do que no passado.

Eu, portanto, recebo nossos debatedores, Emiliano Brancaccio e Olivier Blanchard. Eu cedo meu lugar ao Sr Brancaccio, Pofessor de Política Econômica na Universidade de Sannio e propositor do “Aviso dos Economistas contra as políticas europeias de austeridade” que foi publicado no Financial Times em 2013.

Ele também foi autor de um manual de macroeconomia com o eloquente título de Anti-Blanchard. Esse livro oferece ferramentas diferentes daquelas disponíveis no Manual mais utilizado do professor Blanchard, Macroeconomia, do qual muitos de nós fomos instruídos.

Apresentação Brancaccio

Emiliano Brancaccio: Obrigado a todos por me receber. Por favor, permita-me algumas citações preliminares acerca de “Anti” livros. O Anticato de Julio Cesar foi uma representação literária de uma época em transição, uma que em mais de uma década iria provocar o fim da República e o início do Império Romano. O Anticato em si parece ter inspirado Friedrich Engels, autor de Anti-Duhring. Por outro lado, o livro de Engel marcou uma fase crucial entre duas filosofias da ciência opostas: o idealismo e o materialismo.

De certa forma, eu retirei inspiração desses grandes exemplos da minha própria maneira. Anti-Blanchard é um experimento modesto, um que está confinado a uma esfera estreita da crítica à macroeconomia. Ainda que seu título busque mirar em uma pessoa particular, o livro de fato tenta trazer alguma luz a uma disputa de uma característica muito mais ampla – eu ouso dizer coletiva. Ela envolve uma disputa, agora submergido entre o quase esquecido, entre a abordagem prevalecente da teoria e política econômica e um ponto de vista ou paradigma econômico alternativo.

Anti-Blanchard é, acima de tudo, a razão que nós pedimos a Fundação Feltrinelli a organizar esse debate. Nós agradecemos a Fundação por ter aceitado nossa proposta. E, é claro, nós também agradecemos a Olivier Blanchard por aceitar esse convite.

Agora, por que Anti-Blanchard? Por que não “Anti-Lucas”, “Anti-Prescott”, ou “Anti-Sargent”? Primeiro a relevância da experiência institucional de Olivier Blanchard supera sua persona individual. Em minha opinião, isso é mais verdade para ele do que qualquer outro economista vivo.

Professor Blanchard foi apontado como Economista Chefe do Fundo Monetário Internacional em 1 de setembro de 2008. Isso foi apenas duas semanas antes do Banco Lehman Brothers ter declarado falência, provocando a crise global.

Por uma confluência extraordinária de circunstâncias, o período de Blanchard no FMI corresponde exatamente com o tempestuoso período da Grande Recessão, a primeira crise na região do Euro e o começo das novas tendências protecionistas do mundo, muito antes da chegada de Trump na Casa Branca. Desnecessário dizer, os direcionamentos de Blanchard nas pesquisas promovidas pelo Fundo passaram despercebidas. Sob sua liderança, nós testemunhamos uma mudança significativa em Análise e, até certo ponto, das propostas de política feitas pelo Fundo Monetário Internacional.

Eu destaco o “mea culpa” do fundo em relação à subestimação dos multiplicadores fiscais, a expansão do investimento público financiado por déficits como instrumento de crescimento econômico, a consideração sobre controles de movimento de capital, o reconhecimento de uma relação inversa entre desigualdade e desenvolvimento econômico e assim por diante.

Ainda assim, além do papel institucional de Olivier, uma razão mais profunda me levou a escrever Anti-Blanchard e então a publicar uma edição internacional com a ajuda de Andrea Califano. Isso envolve a abordagem teórica de Blanchard e a estrutura de seus modelos analíticos. O paradigma prevalecente da teoria e política econômica – o que nós geralmente chamamos de “mainstream”, do qual Olivier Blanchard é um dos expoentes mundiais – em última instância se refere à tradição neoclássica do equilíbrio geral intertemporal.

Uma característica fundamental dessa abordagem é a pressuposição que as forças espontâneas do mercado, as forças da demanda e oferta irão gerar os níveis da taxa de juros, a taxa de lucro e o salário real necessário para trazer a economia ao equilíbrio natural, que é um equilíbrio que corresponde a níveis eficientes de produção e emprego do trabalho e outros recursos escassos sob dados limites institucionais.

Portanto, de acordo com a abordagem prevalecente, o livre jogo das forças de mercado, ao menos em princípio, iria trazer a única distribuição de renda entre salários, lucros e juros os quais, dada as limitações dos recursos escassos e outras limitações relevantes, garante níveis eficientes de produção e emprego.

Produção e distribuição são portanto ligados um ao outro por uma dupla relação de acordo uma inexorável lei da eficiência. Isso significa, entre outras coisas, que na visão do mainstream, esforços em aumentar os salários além do nível determinado pelo equilíbrio de mercado irá necessariamente levar a uma queda do nível de emprego e da produção. Em outras palavras, conflitos sociais apenas podem gerar danos.

Agora, é possível provar que em diversas ocasiões, em seu livro texto assim como em algumas de suas publicações acadêmicas mais importantes, Blanchard se desviou um pouco da ortodoxia neoclássica ou ao menos forneceu as bases para se desviar disso. Por exemplo, em seu livro texto cuja edição européia foi escrita com Alessia Amighini and Francesco Giavazzi, Blanchard assume que a distribuição da renda entre salários e lucros é substancialmente uma variável exógena, ou seja, uma variável externa ao centro de sua análise.

Em outras situações, por exemplo, em seus famosos modelos de histerese, Blanchard foi além, hipotetizando que a distribuição de renda não é apenas externa à análise, mas não tem nem mesmo qualquer conexão com a tendência de produção e emprego.

Mais precisamente, nesses modelos, sob certas condições específicas o salário real pode ser considerado como uma variável dada, enquanto níveis de produção e emprego são determinados por um relacionamento entre o salário e a quantidade de dinheiro. A presença de Franco Modigliani e um forte odor do MIT pode ser sentido nesse aparato teórico.

Agora, eu poderia dar mais exemplos desse tipo e eu poderia entrar em detalhes sobre a hipótese particular que levou a tais resultados. No entanto, em tais circunstâncias, minha tese básica é a seguinte. Quando os modelos de Blanchard assumem que a distribuição de renda entre salários e lucros é uma variável externa para a análise e quando seus modelos vão além e assumem que a distribuição não é unicamente conectada com um nível específico de produção e emprego, nós chegamos na implicação teórica significante:

os modelos de Blanchard podem acomodar abordagens teóricas alternativas, ou seja, elas são abertas a interpretações baseadas em várias tradições “heréticas” de John von Neumann, Wassily Leontief, Piero Sraffa, Nicholas Kaldor, Luigi Pasinetti, Pierangelo Garegnani, Joan Robinson, Hyman Minsky, Paolo Sylos Labini, Augusto Graziani e muitos outros.

Essa tradição de esquemas alternativos podem admitir várias relações possíveis entre produção e distribuição, nenhuma delas tem nada a ver com o conceito neoclássico de uso ótimo de recursos escassos. Não existem mais níveis de salários, lucro ou taxas de juro que garantam produção e emprego em níveis máximos, dadas as limitações existentes.

Nesses modelos alternativos, o o íntimo link neoclássico entre produção e distribuição de receita some. A relação entre essas variáveis se torna mais complicada, perde sua aura de neutralidade técnico e cai dentro do escopo do conflito político e social.

Em geral, é útil manter em mente que o que foi descrito como uma linha teórica de demarcação que se aplica a todas as abordagens existentes. Em relação ao link entre produção e distribuição de renda, todas as teorias mais ou menos explicitamente formuladas, sejam velhas ou novas, devem logicamente serem situadas em um lado ou outro dessa linha “Althusseriana” separando o mainstram neoclássico da visão alternativa que acabou de ser descrita.

Não é algo sempre explícito de qual lado da linha de demarcação uma teoria particular deva ser colocada. Esse é o caso, por exemplo, da modelagem baseada em agentes (Agent Based Modeling), uma das abordagens não convencionais que atingiram algum sucesso hoje. Em outras palavras, nenhuma nova teoria pode escapar necessidade de assumir posição seja para explicar preços relativos e distribuição em termos convencionais neoclássicos ou rejeitar essas suposições e, portanto, se comprometer com uma alternativa explícita.

De volta ao nosso caso específico, a mesma linha de demarcação ressalta um fato surpreendente. Aqueles modelos de Blanchard que estão abertos a teorias alternativas podem ser tomadas ao longo de uma linha teórica: eles podem de fato se tornar abertas ao conflito sobre a distribuição do produto social. Pensando a partir de uma linguagem velha, mas ainda obsoleta, alguém talvez vá além que de tempos em tempo, mais ou menos conscientemente, Blanchard abre seus modelos para o conceito de luta de classes de Marx.

Olivier, é claro, irá discordar da minha interpretação. Ele talvez argumente que essas defasagens teóricas, essas pequenas fissuras lógicas que talvez permitam tais interpretações ousadas de seus modelos são meramente resultado de simplificações provisórias que podem então ser quietamente removidas em estágios mais avançados de análise e substituídos por outros que estão alinhadas com a tradição mainstream.

Eu acredito que a verdade é diferente. A verdade é que modelos econômicos são um pouco como crianças. Em algum ponto, elas assumem uma personalidade própria que em muitas maneiras são independentes das aspirações de seus parentes.

Ao que parece esse é precisamente o caso com Blanchard. Diferente dos modelos de Robert Lucas, Thomas Sargent ou Edward Prescott, ainda assim análogo a muitos exemplos da tradição do MIT ao qual ele pertence, os modelos de Blanchard podem ser invertidos e transformados. Eles podem se tornar modelos alternativos e resolver algumas contradições internas.

Ao adotar técnicas similares, o grande teorista e polemista Frank Hahn uma vez tentou transformar os modelos de Sraffa em um “caso especial” da teoria de equilíbrio geral neoclássica. Ao fazer isso, no entanto, ele cometeu erros teóricos bastante graves. Esses incluem, entre outros, a afirmação paradóxica de determinar “o passado como uma função do futuro”.

Nesse ponto, nós podemos dizer que ao invés de Blanchard poder de alguma maneira se tornar de certa maneira marxista através de um reversal que, nesse caso, passa o teste lógico. Afinal, se não fosse possível inverter teoricamente os modelos de Olivier, Anti-Blanchard nem sequer teria nascido e nós não estaríamos aqui discutindo o assunto.

Nós talvez possamos acrescentar que essa reversal teórica é precisamente o que cria a possibilidade de relançar a comparação e competição em um sentido Lakatosiano, entre os diferentes paradigmas. A comparação que nós propomos entre os modelos de Blanchard e as interpretações heréticas deles facilita a tarefa de escolher entre eles em uma base científica, ou seja, em base de uma relevância histórica, consistência lógica e evidência empírica.

De fato, a abordagem mainstream frequentemente parece estar enfrentando problemas, mesmo apenas sob bases empíricas. Aqui, a visão alternativa se encontra em uma posição muito mais forte de apresentar provas baseadas em dados.

Um exemplo típico é a análise da relação entre a tão chamada “flexibilidade” do mercado de trabalho de um lado e as dinâmicas dos salários reais e emprego do outro. Como Olivier observou algum tempo atrás e como diversos relatórios do FMI, OCDE e Banco Mundial reconheceram recentemente, a tese prevalecente de que flexibilidade do trabalho reduz desemprego não parece ser apoiada por evidências empíricas.

De acordo com os dados, a tese alternativa parece ser mais robusta: o único efeito tangível de flexibilidade é reduzir o poder de barganha dos trabalhadores e, portanto, a proporção destinada aos salários. Em outras palavras, a maior parte do impacto das políticas que miram aumentar a flexibilidade do mercado de trabalho não gera eficiência produtiva, mas sim conflitos distributivos.

Quais, então, são as implicações gerais da política econômica em tudo isso? Eu acredito que elas são significantes. Em um artigo recente escrito com Larry Summers, Olivier Blanchard evocou a possibilidade que uma “evolução”, talvez até mesmo uma “revolução” da política econômica está a vista. Um ponto chave da “revolução” evocada por Blanchard e Summers envolve a possibilidade de apoiar e estabilizar níveis de emprego através de gastos com investimento público.

Em geral, isso pressupõe uma política de expansão do orçamento publico de maneiras mais sistemáticas e incisivas que no passado. De acordo com Blanchard e Summers, “revolução” daqui por diante significa, entre outras coisas, um papel renovado do Estado patrocinar políticas em apoio ao desenvolvimento econômico e emprego. Tal posicionamento dentro do mainstream é um desenvolvimento importante.

No entanto, deve ser apontado que a “revolução” da política econômica proposta por Blanchard e Summers se baseia na suposição que no futuro as taxas de juro serão consistentemente menores que a taxa de crescimento da economia por diversas razões.Ela ajuda a reduzir desigualdades, reduz o peso da dívida e promove a intervenção pública na economia. Pois apenas se as taxas de juro estiverem menores a dívida pode ser sustentável diante dos déficits primários do governo e acima de tudo diante do aumento dos gastos públicos.

Curiosamente, em edições anteriores de seu manual, Blanchard argumentou que uma taxa de juros menor que a taxa de crescimento era um caso “exótico”, improvável e no fim das contas não muito relevante. Hoje em dia, no entanto, Blanchard e Summer reconheceram a taxa de juros consistentemente abaixo do crescimento como uma possibilidade real.

Blanchard e Summers, no entanto, parecem justificar esse novo cenário como uma espécie de fenômeno espontâneo de mercado. Eles algumas vezes interpretam isso ao atualizar o velho conceito de “estagnação secular” criado por Alvin Hansen em 1939.

Em sua maior parte, a taxa de juros abaixo da taxa de crescimento seria o resultado de um aumento espontâneo nas poupanças comparado com o investimento e a consequente redução da taxa de juros “natural”, que presumidamente a equilibraria.

Agora vamos pensar sobre isso: essa é a ideia mainstream de que existem níveis “naturais” das variáveis de distribuição que correspondem ao equilíbrio no nível de produção. Trata-se novamente da ideias neoclássica de uma relação de eficiência entre produção e distribuição de renda.

No entanto, nós sabemos que modelos teóricos alternativos ensinam que esse relação de eficiência não existe e portanto que o conceito neoclássico de uma taxa “natural” de juros é igualmente ilegítima.

A implicação é que em modelos alternativos uma taxa de juros persistentemente abaixo da taxa de crescimento nunca pode ser um evento espontâneo de mercado, nem mesmo e situações de “estagnação secular”. Portanto, uma taxa de juros que seja menor do que o crescimento econômico pode ser apenas o resultado de um ato político deliberado.

Mais especificamente, decisões precisas de política econômica são necessárias para manter taxas de juro abaixo do crescimento. Em primeiro lugar, uma política monetária desvinculada de uma Regra de Taylor anti-inflacionária é necessário. Os dados indicam que tais regras, que foram amplamente adotadas nas décadas recentes, são totalmente inadequadas para estabilizar o ciclo de negócios e a inflação. Pelo contrário, elas geram o risco de causar taxas de juros relativamente altas.

Elas são potencialmente destrutivas para a solvência do sistema econômico e podem em última instância acelerar o que Marx identificou como uma tendência da centralização do capital em cada vez menos e menos mãos. Além disso, manter as taxas de juro abaixo da taxa de crescimento requer uma política de controle de capital, tal que a taxa de juros possa ser reduzida sem arriscar saída de capital estrangeiro.

Mas acima de tudo, manter a raxa de juros abaixo da taxa de crescimento requer uma política de balancear salário e deflação de preços, ou seja, uma política que previna salários e preços de caírem. Salário e deflação de preços deve ser evitada uma vez que ela aumenta a taxa de juros e a proporção entre o serviço da dívida e a receita, gerando assim riscos de fazer o peso da dívida se tornar insustentável.

A deflação de salários e preços e um ponto delicado. Blanchard expressou posições variadas sobre esse assunto, os quais ele abordou separadamente caso a caso. Em relação à crise da Zona do Euro em particular, quando Blanchard considerou os casos da Grécia e os países ao sul da Europa ele repetidamente apoiou uma política de deflação de salários com a esperança de observar melhoras na competitividade a um nível que estimularia as exportações, reduzir as importações e portanto ajudar a reabsorver os pesados déficits acumulados na balança comercial nesses países.

Nesse ponto eu devo dizer que discordo profundamente. Acimda de tudo, antes de discutir como remediar esses desequilíbrios da balança de pagamento, eu acredito que devemos primeiro nos perguntar por que eles surgiram. Nós deveríamos estudar em profundidade especialmente por que os mercados financeiros durante muito tempo alimentaram tais desequilíbrios dentro da Zona do Euro para depois descobrirem, de uma hora para outra, que tais desequilíbrios eram insustentáveis.

Por muitos anos, grandes fluxos financeiros permitiram que muitos países importassem mais do que eles exportavam, então, de repente, esses fluxos secaram. Tamanho carrossel conseguiu implodir a estabilidade do euro muito mais do que qualquer desequilíbrio público financeiro.

Deixe me lembra-los que nas mesmas linhas de Francesco Giavazzi, Blanchard foi por um longo tempo substancialmente otimista sobre a possibilidade que o mercado estava operando corretamente, implicando que os desequilíbrios dos países ao Sul da Zona do Euro pudessem ser resolvidos de maneira relativamente rápida através de aumentos da produtividade e da produção.

Depois de tudo isso, tornou-se claro que esses desequilíbrios eram insustentáveis e eles também mudaram de opinião. Isso é uma mudança positiva de perspectiva. Ainda assim, nós continuamos a encarar um problema não resolvido.

Um mercado financeiro que acelere desequilíbrios que eventualmente se mostrem inteiramente insustentáveis é intrinsecamente ineficiente e pode ser uma fonte de tensões sérias nas relações internacionais. Esse problema toca em um assunto chave do capitalismo contemporâneo que, por todos os motivos práticos, ainda precisa ser confrontado. É uma ameaça completamente não resolvida que pode reaparecer a qualquer momento.

Em segundo lugar, passando de abordar as causas para os remédios, na minha opinião, que difere da de Blanchard é que a deflação de salário nunca é uma soluçao válida. Mesmo quando encaradas com desequilíbrios significativos no balanço de moeda estrangeira, a política de salários e deflação de preço deve ser evitada e outros caminhos devem ser buscados.

Eu quero ser claro nesse ponto. Se nós pensarmos que a Zona do Euro precisa depender de deflação para conseguir remediar seus desequilíbrios internos e sobreviver, então eu não apenas suspeito que ela não irá sobreviver, como acredito que nem mesmo seja apropriado torcer por sua sobrevivência.

Por que eu insisto de maneira tão forte nesse ponto? Porque a história nos ensinou que uma solução baseada na deflação de salários é perigosa e pode gerar repercussões na estrutura econômica, assim como nas instituições sociais e políticas. Alguns argumentam que a deflação foi um dos fatores que levou à ascensão do Nazismo. Agora, a história não se repete, mas recordar pode ser algo útil nessa era de assustadora memória reprimida coletiva.

No fim, a memória da deflação como motor da ascensão de Hitler foi um dos motivos por trás do “Aviso dos Economistas” que eu, Dani Rodrik e muitos outros publicaram no Financial Times alguns anos atrás e que nós ainda consideramos atual. Portanto, eu afirmo: deflação deve ser evitada, sempre e em qualquer situação. Certamente, manter a deflação fora do guia de praticas dos economistas foi um ensinamento básico da revolução de política econômica mais significativa que já ocorre sob o capitalismo: a “revolução” que carrega o nome de Keynes.

Deixe me terminar, portanto, com algumas palavras sobre Keynes. Em termos mais ou menos óbvios, Keynes é a inspiração por trás de Blanchard e Summer quando eles invocam a possibilidade de uma revolução na política econômica. Nesse contexto, a questão que de certa forma me chateou e que eu gostaria de compartilhar com todos vocês é a seguinte: é uma “revolução” da política econômica que de uma maneira ou outra se refere a Keynes como praticável hoje?

Blanchard e Summer acreditam que seria bom se essa revolução ocorresse, mas eles acrescentam que eles não tem certeza se isso irá acontecer. Eu temo que suas dúvidas sejam bem fundadas. Nós conhecemos Keynes como um intelectual progressista, um literato, um defensor das liberdades civis e um inimigo dos rentistas. Ainda assim, todas esses traços de personalidade vem do fato de que Keynes era o produto de um período extraordinário marcado por um profundo conflito sistêmico entre capitalismo e socialismo.

O intelecto de Keynes foi claramente forjado pelo antagonismo entre esses dois grandes sistemas da vida social. Sua ideias foram modeladas por essa colisão histórica e seu sucesso depende do fato de que ele tentou, de certa forma, encarnar uma possível síntese dialética desse conflito. Nem todos os biógrafos destacam esse aspecto, o qual em minha opinião é decisivo e levanta questões importante para os dias de hoje.

Pois, como vocês podem ver, nós nos tornamos acostumados a tratar o experimento socialista aplicado na prática como um desastre. Obviamente, esse julgamento é baseado em diversas razões. Nós o conhecemos como um experimento colossal que certamente acelerou a transição de muitos países de uma estágio de desenvolvimento pouco mais do que medieval para uma fase de industrialização moderna.

Nós também conhecemos o socialismo soviético como um laboratório político carregado de erros e manchado de horrores. Ao mesmo tempo, mesmo a remoção total do planejamento socialista do discurso político pode levar à ascensão de consequências não intencionadas. O problema, portanto, é que quando a ameaça do “Grande Outro” socialista não estava mais presente, nós não podemos fazer nada além de nos perguntar se as condições políticas da síntese Keynesiana podem ser criados em um vácuo dialético assustador como esse.

Bem, eu temo que não. Eu temo que a síntese Keynesiana do século 20 foi em última instância um resultado direto da ameaça socialista. Eu temo que sem a presença do desafio socialista seria extremamente difícil hoje que outra síntese Keynesiana possa emergir. Eu afirmo esse como um problema aberto para qualquer que tente invocar Keynes hoje. Eu, portanto, acredito que esse seja um problema em aberto para todos nós, mesmo para Olivier Blanchard

Raitano: eu agradeço ao Professor Brancaccio e cedo o espaço para o Professor Blanchard, que agora trabalha no Instituto Peterson de Economia Internacional. Como previamente mencionado, ele serviu como Economista Chefe do Fundo Monetário Internacional de 2008 a 2015, onde ele teve que encarar a emergência da crise que estamos discutindo.

Apresentação Blanchard

Olivier Blanchard: Boa noite. Em primeiro lugar, eu agradeço a vocês por me convida para essa discussão com Emiliano Brancaccio. Emiliano levantou questões importantes referentes ao papel da teoria econômica, o assunto da distribuição, o funcionamento da Zona do Euro, entre outras coisas. No entanto, eu vou deixar esses pontos para o debate da parte interativa dessa noite.

Eu gostaria de começar com a questão se há alternativas ao capitalismo. Minha resposta é “Não”, no seguinte sentido. Para mim, é óbvio que o único caminho não-caótico de organizar interações econômicas em um mundo populado por sete bilhões de pessoas é o uso de mercados. Eu acredito que esse ponto não deixa espaço para discussão.

Ao mesmo tempo, no entanto, nós sabemos que mercados trabalham insatisfatoriamente em várias situações, tais como infra-estrutura, saúde ou educação. Isso é porque a solução pode apenas ser uma combinação de mercados e do Estado. Nós aprendemos que alguns sonhos do passado revelaram ser um pesadelo.

Eliminar mercados e ter o Estado assumindo o seu papel se traduz em catástrofe. O caminho oposto foi tentado em outros países onde antes mercados podiam a atuar, mas lá os resultados, apesar de diferentes em forma, foram igualmente ruins. É claro, portanto, que a única solução envolve uma combinação.

Ainda assim, a questão é: como nós determinamos a mistura certa? Eu não acredito que a resposta deva ser a mesma em todos os casos. Ao invés disso, eu acredito que isso depende de como o mundo está evoluindo. Mercados fazem um bom trabalho e alguns casos. Em outros, eles produzem excessos inaceitáveis, tais como desigualdades crescentes. Eu acredito que esse é o caminho em que o debate deve ser conduzido.

Dito isso, eu vou abordar aquilo pelo qual eu sou mais conhecido, que é macroeconomia e política macroeconômica e o que nós aprendemos da última década. Eu vou falar na primeira pessoa do singular ao invés da primeira pessoa do plural. Eu faço isso para indicar como minhas opiniões mudaram ao longo últimos dez anos acerca da macroeconomia e a economia do trabalho e sobre políticas que seriam benéficas de se implementar.

Agora, o que aconteceu nos últimos dez anos? Existem dois eventos muito diferentes. Em primeiro lugar, a grande crise financeira de 2008-2009 ocorreu e deixou cicatrizes visíveis em um grande número de países. Esse evento moldou o mundo de uma maneira terrível e nós estamos apenas começando a nos recuperar devagar. Segundo, houve uma gradual ascensão do populismo. Isso é resultado de muitos fatores, entre eles a inequalidade possui um papel central. Da perspectiva dos desafio que encaramos atualmente, esses são os elementos que dominam a cena. Nós podemos tomar cinco lições disso.

A primeira é óbvia: o sistema financeiro importa na economia. Eu digo isso porque antes da crise de 2008-2009, macroeconomistas tinham ignorado amplamente o sistema financeiro. Eles o viam simplesmente como um meio de transferir fundos para as pessoas ou empresas que precisavam deles. Além disso, muitos dos modelos macroeconômicos não analisam o setor financeiro. Isso se tornou um problema quando a crise explodiu. Reconhecer que o sistema financeiro seja relevante é portanto uma conclusão óbvia, mas que possui consequências mais insidiosas que se pensava sobre como nós entendemos a economia.

Macroeconomistas observam as variáveis macro e suas interações esperando que ao olhar para essas variáveis macro seja suficiente para entender o que está acontecendo. Em geral, economistas não possuem o tempo, a habilidade ou a oportunidade de pode olhar em cada pequena micro variável.

O ponto é que problemas do setor financeiro talvez não sejam visíveis em um nível macro. Visto de fora o setor talvez pareça estar em boa forma mas, de fato, vários problemas se ocultam na interação entre vários jogadores do mercado. Isso significa que os macroeconomistas precisam olhar em cada detalhe do sistema financeiro para poder dizer algo sobre a macroeconomia? Eu acredito que a resposta seja sim e esse é um desafio difícil

A segunda lição que é necessária para manter o sistema financeiro sob controle e evitar riscos e que devemos utilizar muitas ferramentas de políticas públicas. Isso torna a situação bastante complexa.

Nós gostamos de ver a política macroeconômica como um pequeno conjunto de ferramentas simples. Na realidade, um grande número de ferramentas são necessárias. Se bem usadas e na combinação certa, tais ferramentas permitem uma maior área de ação do que aplicar um único instrumento para esse ou aquele problema. Mas isso faz pensar sobre políticas públicas algo muito mais difícil.

A terceira lição lida com um problema que sempre ocorre quando a regulação é implementada. Seja o mercado financeiro ou qualquer outro mercado, sempre haverá alguém do outro lado tentando contorna-la ou usar a regulação de uma maneira que melhor se aplique de acordo com seus próprios propósitos.

Nós observamos isso em mercados de trabalho. Quando reformas são introduzidas, as empresas e trabalhadores se adaptam a ela ao longo do tempo. Geralmente leva uma década, mais ou menos, para que ela realmente tenha pleno efeito. No caso da finanças, há profissionais cujo trabalho é tentar descobrir um caminho que contorne quaisquer regras que os reguladores tenham imposto. Trata-se de um jogo de gato e rato, jogado infinitamente mais rápido do que em outros mercados. Isso torna o regulamento financeiro algo extremamente difícil.

A quarta lição é a seguinte. Antes da crise, especialmente no países mais avançados, a maioria dos macroeconomistas acreditava que a economia flutuava em volta de uma tendência e que as ferramentas de políticas públicas poderiam ser usadas para manter a economia próxima dessa tendência. Eu sempre fui cético sobre esse ponto de vista.

Eu trabalhei em modelos de histeresis e de bolhas, sendo que ambas sugeriram uma interpretação diferente de flutuações e de suas relações com a tendência. Em minha opinião, a crise tornou clara que a ideia de que economias são estáveis – que, quando elas são atingidas por um choque, elas retornam ao equilíbrio sozinhas – é simplesmente errada. Existem inúmero exemplos de como pequenos choques tiveram efeitos muito amplos.

Nós sabemos que se alguém corre pra sacar o dinheiro do banco e outros que vêem isso e fazem o mesmo, o banco, que até então era solvente, irá se tornar insolvente e será forçado a fechar. Portanto, um evento muito pequeno pode levar a algo muito maior. Esse fenômeno não se restringe a bancos, ele pode afetar o sistema financeiro e a economia. Portanto, ideia convencional de que pequenos choque apresentam efeitos pequenos na economia está incorreto.

Uma forma extrema desse equilíbrio múltiplo é a ideia de que se todo mundo é otimista, então as coisas vão bem. Se todos são pessimistas, então as coisas vão dar errado. Eu acho que me tornei muito mais cético sobre a habilidade da economia se auto-regular e isso tem uma implicação óbvia. Se eu já era bastante insistente em usar políticas macroeconômicas dez anos atrás, hoje em dia eu sinto a necessidade de implementar uma política macroeconômica agressiva nos primeiros sinais que algo está indo errado.

Essa última década levou a tremendas mudanças no campo de política monetária e mudanças mínimas no campo de política fiscal. Isso apresenta um problema. Dado o chamado “limite inferior zero” da taxa de juros, os bancos centrais entenderam que eles careciam das ferramentas necessárias para encarar a crise. Eles, portanto, criaram novas ferramentas, tais como as que hoje chamamos de “afrouxamento quantitativo” (quantitative easing). Mas nós temos ferramentas de política monetária hoje que nos permitam prevenir ou ao menos limitar os efeitos da próxima recessão?

Uma nova recessão irá ocorrer. Nós não sabemos quando, mas ela virá. Hoje a taxa de juros dos Estados Unidos se encontra em volta de dois a três porcento. Tipicamente, no passado durante uma recessão o banco central reduziu a taxa em cinco porcento ou mais para evitar uma recessão mais profunda. Agora, tudo que ele pode fazer agora é reduzir em três porcento e eu não acredito que será suficiente. E isso é um assunto sério.

Bancos Centrais tem uma ferramenta importante, que é a taxa de juros, que eles podem mover pra cima e pra baixo. No entanto, os efeitos de política monetária na distribuição entre vários grupos de pessoas era tipicamente pensados como pequenos.

Bancos Centrais se beneficiaram de um regime de independência, pois as consequências significativas do que eles estavam fazendo em termos de desigualdade ainda não era bem compreendido. Bancos Centrais possuem um mandato ainda mais amplo atualmente. Eles podem adquirir todos os tipos de ativos, mas tem consequência diretas na distribuição.

Por exemplo, quando bancos centrais decidem desacelerar o mercado imobiliário ao aumentar o pagamento mínimo necessário para adquirir uma propriedade, não apenas freios são aplicados no mercado imobiliário, mas os jovens agora terão muito mais dificuldade para comprar uma casa. Isso é claramente uma política “não-neutra”. Nós temos que nos perguntar se independência completa deveria ser concedida ao banco central como é feito hoje.

Em relação à política fiscal, os governos foram seriamente abalados quando a crise financeira mostrou sua face mais brutal no fim de 2008. Nós no FMI dissemos a eles que eles deveriam proceder com uma expansão fiscal pois a demanda privada estava colapsando e alguma coisa precisava ser feita. Os governo estavam tão assustados que eles fizeram isso. Houve uma expansão fiscal muito importante em 2009 que muito provavelmente gerou resultados positivos.

O problema é que, logo que o maior perigo foi evitado, a maior parte dos países retornou à sua política fiscal previa, que era uma política de austeridade que mirava na redução do déficit e limitar o aumento da dívida. Essa política é que vem sendo implementada desde então. Isso foi uma oportunidade perdida em dois aspectos.

O primeiro é aquele do “estabilizador automático”. Essencialmente, receitas de impostos decaem automaticamente durante uma recessão, portanto o déficit fiscal aumenta. Esse mecanismo ajuda a empurrar a demanda pra cima, mas códigos tarifários não são desenhados tendo em mente uma macro estabilização.

Basicamente, se um país tem uma taxação mais progressiva, então o estabilizador automático será mais forte. Portanto, a estabilização é mais forte em alguns países e mais fraco em outros. A maioria dos países aceita a ideia de que estabilizadores automático funcionam, mas até agora nenhum país tentou desenvolver melhores estabilizadores automáticos, ou seja, algo que automaticamente engatilha a expansão fiscal correta no caso de recessão. Essa é uma oportunidade perdida.

O segundo aspecto envolve a noção da dívida como um pecado. Como vocês sabem, em alemão, a palavra para “dívida” (Schuld) é sinônimo de “culpa”. Em um contexto onde a taxa de juros é alta e taxa de crescimento é relativamente baixa, a dívida se tornar expansiva porque se acumula rapidamente e deve eventualmente ser quitada.

Nós estamos em um contexto hoje, no entanto, em que a taxa de juros é menor do que a taxa de crescimento. Em países como os Estados Unidos, França e Alemanha, a taxa de juros é menor do que taxa de crescimento e isso permite emitir dívida sem ter que aumentar as taxas depois.

Digamos que g represente a taxa de crescimento do PIB, ao longo do tempo, uma unidade de dívida cresce no mesmo patamar que a taxa de juros r. Portanto, se g é maior que r e o déficit primário (a dívida que não inclui o pagamento de juros) é igual a zero, então a proporção divida/PIB cai. Portanto, em situações de uma taxa de juros muito baixa, o custo da dívida nos impostos é muito menor.

Ainda assim, nós continuamos a ver as proporções da dívida acima de 60 porcento como perigosas e nós temos regras que requerem que nações reduzam taís dívida relativamente rápido. Eu acredito que essas regras são inapropriadas em relação à situação atual.

Uma palavra de aviso, no entanto, dado onde essa conversa está ocorrendo: Ninguém deveria aplicar essas conclusões à Itália. No caso da Itália, r é muito maior do que g porque os investidores estão incerto sobre se serão pagos. Se o governo puder convence-los de que eles serão plenamente repagos, a taxa de juros seria muito menor. No entanto, tal promessa somente é crível se os investidores acreditarem que é possível confiar no governo. Nesse momento, eles não confiam.

Vamos passar para a quinta lição da ascensão do populismo. Uma porção de pessoas estão estudando por que o populismo se tornou mais forte. Eu acredito que um dos principais motivos é a desigualdade, assim como a insegurança econômica.

Imigração também é um fator em muitos países. A proporção de receitas daqueles um porcento que mais ganha também exacerbaram a crise. O pagamento de salários obscenos para banqueiros que estiveram na origem da crise financeira tiveram uma ressonância muito poderosa. Apesar deles assumirem papeis diferentes em países diferentes, todos esses elementos estão de fato presentes.

Eu foco na desigualdade porque eu acredito que esse seja o fator mais importante. Nós estivemos cientes do problema por um longo tempo, mas havia essa ideia de que taxas de crescimento altas iriam eventualmente beneficiar a todos. Nem todos se beneficiam no mesmo grau, mas a suposição que é que todo mundo iria ganhar alguma coisa. Isso costumava ser verdade, mas não é mais verdade hoje, por dois motivos.

Primeiro, o crescimento de longo prazo das receitas é menor do que costumava ser. Segundo, a natureza do progresso tecnológico e da globalização também assume um papel na desigualdade crescente. O que ocorre quando dois elementos são combinados? As pessoas do fundo da escala social registram os menores ganhos em receita real. Eles talvez até mesmo registram perdas, como vemos no caso dos Estados Unidos. Isso é claramente inaceitável.

Essa tendência vem se ampliando cada vez mais. Não há necessidade que eu fale sobre o que aconteceu no meu país, a França, ao longo das última semanas, sobre o governo que vocês tem nesse país ou sobre o Trump nos Estados Unidos. O ponto é que muitas pessoas estão sofrendo. Minha questão é: o que nós podemos fazer? Eu acredito que essa seja a questão mais difícil e nos traz de volta ao que estávamos falando no começo.

Nós temos algumas ferramentas padrão para combater desigualdades. A primeira ferramenta é a educação. Melhor educação prepara você para trabalhos que existem e irão existir mais do que para trabalhos que não existem. Eu sei um pouco sobre o treinamento profissional na Itália, mas eu sei mais sobre o nível de treinamento profissional na França, que não é bom. Um grande esforço deve ser feito, mas ele talvez não seja suficiente.

Outros assuntos: até que extensão é possível aumentar o salário mínimo sem afetar o emprego dos trabalhadores menos habilitados? Até que ponto devemos usar o imposto de renda negativo quando comparado com salários mínimos mais altos para aumentar as receitas dos trabalhadores com os menores salários? Essas questões nos trazem um ponto qu pode tocar no futuro do capitalismo. E isso me preocupa. Eu me pergunto: se nós implementarmos essas medidas e se nossos governos entenderam a necessidade de implementa-los, isso seria suficiente?

Em semanas recentes, eventos na França mostraram quantas pessoas querem mais do que o estado pode praticar de maneira realística. Aqui nós entramos na discussão das mudanças necessária que eu mencionei antes. Nós devemos olhar para medidas muito mais fortes do que essas que eu acabei de citar.

Nós temos que examinar a implantação de um imposto mínimo para corporações que atuam em muitos países, um acordo internacional sob o qual substancialmente todos os países concordam em ter uma taxa mínima. Países que não concordarem devem ser penalizados de alguma forma.

Quando você pergunta para as pessoas na França, elas dizem: “nós queremos mais serviços públicos” e também “nós queremos menos impostos”. Diante da resposta que não tem dinheiro disponível, eles retrucam: “taxem os ricos”. Mas do jeito que as coisas estão arranjadas hoje, isso não nós levará a lugar nenhum. Se as taxas foram aumentadas em apenas um país, as empresas iriam se mover para qualquer outro lugar.

Como resultado, eu acredito que para atingir a desigualdade, um acordo internacional de tributação entre as empresas é necessário para se criar uma base tarifária mais ampla. Isso seria uma mudança substancial quando comparado ao que temos hoje.

O mesmo se aplia ao comércio internacional. Isso frequentemente beneficia consumidores, mas cria danos sérios para trabalhadores que perderam seus trabalhos. Mesmo se nós esperarmos compensar por esse dano, isso tipicamente não é suficiente. Quando você abre o mercado ao comércio internacional, talvez faça sentido faze-lo progressivamente, ao invés de fazer tudo de uma vez na esperança de que tudo dê certo. Isso da mais tempo para trabalhadores receberem treinamento novo e descobrirem novos empregos.

Governança corporativa é outra área de ação. Esse é o último que irei mencionar. Empresas maximizam o valor dos acionista e eles fazem isso da maneira mais ótima possível, No entanto, isso frequentemente ocorre à custa de trabalhadores e consumidores. A ideia de alterar a governança corporativa ao introduzir uma representação dos trabalhadores é algo que sempre vem e volta, mas que fz sentido.

Eu acho que nós podemos fazer mudanças nessa direção, que eu espero que seja suficiente para evitar futuras catástrofes.

Raitano: Houveram muitas ponderações interessantes nessas duas apresentações de peso. Eu irei mencionar apenas algumas: o tópico das ineficiências das finanças internacionais, o assunto dos investimentos do estado e finalmente o assunto da distribuição desigual de riqueza. O último ponto se tornou mais agudo com a crise, tanto que setenta milhões de pessoas possuem tanta riqueza quanto o resto da população mundial. Adicionalmente, as palavras do Professor Blanchard dão uma ideia de quão profundo é a mudança de pensamento moldando nossa era. Deixemos o Professor Brancaccio assumir o palco na réplica.

Réplica Brancaccio

Brancaccio: eu vou me limitar a algumas poucas observações de um dos temas chaves examinados por Olivier Blanchard, para que o público tenha a possibilidade de participar. Olivier parece se posicionar em um ponto fundamental, indicando que não há alternativa ao capitalismo. Suas propostas focam em encontrar a mistura certa entre intervenção estatal e mecanismos espontâneos de mercado, ainda que dentro de um ambiente substancialmente capitalista.

Olivier toca na tese que é característica das escolas de pensamento que excluem opções fora do perímetro do mercado capitalista. De fato, ele afirma que em um mundo complexo populado por bilhões de indivíduos, apenas os mercados podem, em última análise, regular, disciplinar e guiar processos e decisões. Essa é a uma tese forte que, como sabemos, é consequência de evidências teóricas e históricas importantes.

Existe, no entanto, uma observação crítica que pode ser aplicada a essa tese. Como o próprio Blanchard reconheceu, o nível de instabilidade nos mecanismos espontâneos de mercado se mostrou muito maior do que qualquer um poderia ter imaginado alguns anos atrás.

A instabilidade das livres forças do mercado foi sentida além das fronteiras da própria economia, implicando em importantes repercussões na própria estrutura social e política. Esse é um ponto de grande significância, pois ele sugere que o sistema é mais instável e potencialmente mais destrutivo que previamente era esperado.

Blanchard citou as convoluções sociais e políticas que ocorreram na França e outros países. Ele chamou atenção para os protestos em andamento, que as requisições dos manifestantes estão além do alcance das possibilidades concretas da política econômica, dadas as restrições sistêmicas existentes. Por exemplo, Olivier aponta que se um único país aumentar o imposto sobre lucros corporativos, então capital irá fugir para outros países. Com o objetivo de resolver esse problema ele evoca a possibilidade de um acordo internacional sobre tributação corporativa.

Alternativamente, eu sugeriria, controles também poderiam ser impostos sobre movimentos internacionais de capital. Blanchard, igualmente, fez alusões a controles de capital, ainda que por outras razões. Mas ao que me parece esses tipos de medidas não estão na agenda política de nenhum dos principais atores. Além disso, tributação corporativa se encontrada limitada pelo risco de que o capital e empresa possam se mudar para qualquer outro lugar.

Nesse cenários de reivindicações sociais de um lado e limitações institucionais de outro, existe um perigo real de que para manter as coisas juntas, aceitar instabilidade econômica, enquanto suprimem instabilidade social e política, uma tentativa será feita de reduzir os direitos das pessoas – não apenas direitos sociais, que já foram em grande parte reduzidos, mas também direitos civis e políticos.

Em outras palavras, se for mantido de que não há alternativa ao atual sistema de mercado capitalista, há o risco de que, com o objetivo de defender o sistema de sua própria instabilidade, talvez seja necessário sacrificar alguma outra coisa. Essa tendência já se encontra a caminho e ela talvez se intensifique enquanto a tendência Marxiana diante do capital continue.

O próprio fato de que o ex-Economista Chefe do Fundo Monetário Internacional concluiu seu discurso ao evocar o perigo de “futuras catástrofes” e afirmando que há uma tarefa difícil diante de nós é encontrar uma maneira de evita-los, parece para mim testemunho de autoridade das crises e contradições de nosso tempo.

Tréplica Blanchard

Blanchard: deixe-me voltar ao tópico da ausência de alternativas. Eu estava fazendo uma declaração normativa e não uma declaração descritiva. Na verdade, eu certamente vejo alguns políticos oferecerem o que parecem como alternativas. Por exemplo, governos populistas oferecem soluções de políticas públicas como alternativas. No entanto, essas soluções não funcionam.

O que me preocupa é que quando se torna evidente que essas não são alternativas reais, esses governos serão tentados a ir além. Eu também, como Emiliano, penso que talvez ele venham reduzir o nível de democracia para se montar no poder, apesar dos resultados econômicos pobres. Ou, eles irão tentar o recurso Estadunidense de manipular a opinião pública (wag the dog), o que significa buscar por um inimigo e travar guerra com ele com o objetivo de distrair o público.

Em sua apresentação, Emiliano levantou vários outros pontos interessantes. Eu não concordo com todos eles. O primeiro envolve distribuição. Eu acredito que isso é absolutamente central tanto sobre assuntos de curto quando de longo prazo. Eu sempre vi o nível de desemprego como refletindo em parte u conflito distributivo entre trabalhadores e empresas.

Trabalhadores querem salários que se adequem ao que eles precisam gastar e empresas querem definir preço baseado nos salários que eles tem que pagar. Todo mundo quer mais. Como esse conflito pode ser resolvido? Minha tese é que, infelizmente, isso é parcialmente resolvido através de desemprego, o que sobre até o ponto em que as demandas de salário dos trabalhadores se adeque ao que as empresas estão dispostas a pagar.

Outra dimensão de distribuição que é significativa no longo prazo é a transmissão de riqueza. Thomas Piketty insiste sobre esse ponto. Fundamentalmente, muita desigualdade vem de transmissão de riqueza. É por isso que eu vejo imposto sobre heranças como um meio de reduzir a desigualdade.

Quando ao déficit entre os balanços dos países da Zona do Euro, eu certamente pensei que vários países do Sul da Europa, não Itália, mas Espanha, Portugal e Grécia precisavam de investimentos substanciais. Portanto, manter os atuais déficits nos balanços pareceu ser uma boa ideia, mas no fim mostrou-se não ser uma ideia tão boa.

Eles não investiram muito e acabaram com uma dívida estrangeira alta que tinha que ser cumprida. Eles agora reduzindo seus déficits na balança de pagamento substancialmente, mas em grande parte porque a importações estão baixas. Em grande parte é por isso que os saldos dos balanços parecem melhores que alguns anos atrás.

Mas como eles podem retornar a um estado saudável no fronte estrangeiro? Eles devem aumentar sua competitividade. Essa é a uma condição necessária. Eles podem fazer isso de duas maneiras. Uma é aumentar sua produtividade, mas é mais fácil falar do que fazer. O outro é ter salários que cresçam mais devagar do que o salário dos competidores.

Em essência, se seu competidor tem uma inflação de dois por cento, então sua taxa de inflação precisa ser de zero por cento. Por exemplo, se considerar a Alemanha como competidora e considerar que a economia alemã é marcada por uma inflação muito baixa, então nós devemos ter deflação para melhorar a competitividade.

No entanto, eu concordo 100 por cento com Emiliano que deflação não é uma solução positiva. Eu acredito que a solução não se encontra em um nível nacional mas na Europa como um todo. Alemanha deve aceitar mais que dois por cento, tal que outro possam substancialmente melhorar sua competitividade sem deflação.

Perguntas do Público

Raitano: Vamos reunir algumas questões do público.

Primeira pergunta: Vocês dois concordam com a relevância de uma distribuição de renda pobre, a qual é consistente com a perspectiva do Profesor Blanchard e gera problemas para o crescimento econômico. É possível que re-pensar as regras do sistema monetário internacional possa contribuir a reposicionar esse problema de uma perspectiva mais otimista?

Segunda pergunta: Eu gostaria de perguntar ao Professor Blanchard: O que você acha dos modelos heterodoxos pós-keynesianos?

Terceira pergunta: Professor Brancaccio, no fim do seu discurso, você se referiu ao contexto do pós-guerra, quando o bloco socialista e o sistema capitalista estavam em antítese. Hoje, quais interesses podem constituir o bloco social que irá estabilizar o capitalismo ou leva-lo a se auto-reformar?

Quarta pergunta: Essa é para o Professor Brancaccio, que inicialmente mencionou o risco de supressão da democracia. Eu gostaria de pergunta se a democracia já não foi derrotada através da substancial dominância do mercado sobre os parlamentos nacionais e caso, quando assuntos sociais são desconsiderados, nós iremos ver o retorno do facismo como Karl Polanyi previu?

Quinta pergunta: Em 2014, o economista vencedor do prêmio Nobel Jean Tirole declarou que teorias econômicas alternativas, aquelas que correspondem às tradições de pensamento crítico, são anti-científicas. Em seu ponto de vista, tais teorias não podem ter espaço na academia porque eles iriam promulgar um relativismo do conhecimento que é a ante-câmara do obscurantismo. Eu gostaria de saber a opinião do Professor Blanchard sobre esse assnto e se ele acredita que o estudo de teorias alternativas – junto das mais tradicionais, é claro – deveriam ser mais encorajadas.

Respostas Brancaccio

Brancaccio: a última pergunta sobre Tirole nos leva a refletir sobre o fato que alguns membros proeminentes da comunidade acadêmica de hoje parecem muito pouco inclinados a criar as condições mínimas necessárias para produzir uma frutífera competição Lakatosiana possível entre paradigmas alternativos. Isso impõe um obstáculo maior para o progresso futuro da ciência econômica e eu gostaria de ouvir a opinião de Olivier sobre isso.

Eu também teria alguns comentários teóricos sobre suas reflexões sobre distribuição, mas nós também podemos explorar esses temas em qualquer outro lugar. Aqui eu gostaria de pegar inspiração das questões do público e concluir ao dirigir os assuntos políticos e de política econômica que foram levantados. Em relação aos riscos para a democracia, o economista Dani Rodrik avançou em uma tese interessante sobre o conflito que talvez emerja entre a liberdade total de circulação de capital e e produtos e sustentabilidade do processo democrático dentro de cada país.

A liberdade de movimento de capital, por exemplo, pode amarrar as mãos das autoridades legitimadas pelo processo democrático. Isso torna impossível abaixar as taxas de juros ou taxas de lucro devido à ameça de fuga de capital estrangeiro. Rodrik argumenta a solução ótima para esse problema seria trazer o processo democrático a um nível mais alto, essencialmente o movendo para além dos limites dos estados individualmente. Isso pode ser feito ao estabelecer um governo democrático supranacional que resolva conflitos de uma maneira coordenada que blinde escolhas políticas do suborno do movimento de capital.

Rodrik claramente reconhece que embora a solução ideal envolva coordenação supranacional de tomada de decisões, é praticamente impossível coloca-la em prática. Nós, portanto, devemos procurar por alternativas. Mesmo no caso União Monetária Européia, Blanchard implicitamente sugeriu uma solução supranacional coordenada. Ele nos lembrou que a obstinação com a qual a Alemanha mantem inflação doméstica em um nível relativamente baixo é uma sério obstáculo para resoluções coordenadas.

Apesar de sua política anti-inflacionária, a Alemanha ajudou a alimentar uma perigosa tendência através da deflação em muitos outros países Europeus. O fato de que o país mais forte da Zona do Euro tem, em termos relativos, colocado uma pressão permanente sobre salários e preços acionou processos destrutivos de competição deflacionária entre uma ampla parte da Europa.

Blanchard sugeriu que a Alemanha vá eventualmente aceitar salários e inflação de preços maiores do que os atuais bom o objetivo de bloquear essa perigosa tendência deflacionária. Esse é precisamente o tipo de solução coordenada que Rodrik considera ideal, no qual o país mais forte agiria em linha com o interesse geral da União Europeia e evitar deflação.

Infelizmente, tais soluções coordenadas dificilmente encontram condições políticas favoráveis. Sobre a dificuldade de produzir tal coordenação na Europa, permita-se oferecer um pequeno relato pessoal de uma experiência muito informativa que uma vez eu tive. Era 2012, quando os partido socialistas europeus tinham fortes expectativas do sucesso político na França, Alemanha e Itália.

Durante a candidatura de François Hollande para a presidência da república francesa, a Fundação de Estudo Progressivos Europeus, que é muito próximo ao Partido Socialista Europeu, organizou uma conferência para elaborar um manifesto socialista comum para uma reforma de política econômica progressista para a União Europeia. A conferência ocorreu em Paris na Assembleia Nacional.

O ex-primeiro ministro Francês e Italiano Laurent Fabius and Massimo D’Alema me convidou a participar dessa conferência. Eu fui requisitado a apresentar uma proposta que eu havia feito alguns meses antes. A proposta era chamada “Um padrão de salário Europeu” e já havia sido incluído no programa político do Partido Democrático Italiano.

Colocado de forma simples, ele envolvia adotar sanções contra países europeus que, apesar de estarem em sistemático superávit no comércio internacional com seus parceiros, insistem em pressionar por uma política de competição baseada na queda de salários e preços. Essencialmente, o “padrão de salário” não era nada mais que um mecanismo de coordenação supranacional por barganha de salários para prevenir a Alemanha, o país mais forte da União Europeia, de levar todos os outros países à deflação

Naquele tempo, a proposta recebeu aprovação de representantes de vários países: Franceses, Espanhóis, Portugueses e Gregos, entre outros. Em certo ponto, no entanto, dessa harmonia geral se levaram a voz de dois participantes alemães, um representando sindicados e o outro um representante da social democracia.

Eles basicamente disseram: “enquanto nós apreciamos a sugestão do Professor Brancaccio, o problema é que ele falha em entender como a União Europeia funciona. A União Europeia foi construída não na base da solidariedade e coordenação, mas com base na competição e está destinado a se manter assim”.

Um deles acrescentou que também discordava com a proposta Francesa mais modesta de estabelecer um salário mínimo Europeu. No final, nenhum manifesto comum emergiu dessa conferência. Para mim, essa foi uma pequena lição de vida. Naquele momento eu percebi que se mesmo aqueles que são mais ou menos herdeiros da tradição do movimento trabalhista exaltaram as virtudes da competição de salários na Europa, então encontrar soluções supranacionais para encarar a crise da União Europeia seria muito improvável.

Dessa breve anedota, eu também tirei inspiração para dizer uma última palavra a aqueles que me perguntaram o que o “bloco social” pode consegui hoje ao lutar por uma “revolução” da política econômica. Minha opinião é que todos os movimentos progresso social e civil que nós testemunhamos na era capitalista esteve quase sempre associado a emissões propulsoras que, em termos mais ou menos diretos, vieram de uma classe de trabalho organizada – aqui que chamamos de movimento internacional do trabalho, tanto em suas forma reformista quando revolucionária.

Para mim, a ideia de que nós podemos gerar mudanças na direção de progressos sociais e civis sem a direção subversiva das organizações de trabalhadores, parece ser profundamente negado pelos fatos. O problema é que, nos dias de hoje, apenas os representantes do capital parecem capazes de se organizar politicamente. Capital em larga escala, fortemente vinculado a um nível supranacional consegue representação política no que nós poderíamos chamar das tradicionais e não-críticas forças globalistas.

Ao mesmo tempo, o capital em pequena escala se situou acima de tudo em um nível nacional, frequentemente em problema e com problemas de solvência, hoje encontra uma potencial fonte de representação política no que pode ser chamado “populismo reacionário”. Ainda assim, o trabalho se encontra totalmente silenciado em um nível político. Eu acredito que esse silêncio político do trabalho representa a principal ameaça para a civilização moderna.

Respostas Blanchard

Blanchard: eu fui perguntado o quanto organizações internacionais podem fazer para atacar a desigualdade. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico ou Organização Mundial do Comércio são claramente relevantes nesse contexto. No entanto, eles não podem resolver o problema sozinhos. O que eles podem fazer é um número de coisas, como trabalhar em tributação corporativa. Isso é algo que precisa ser feito internacionalmente.

Em relação aos pós-keynesianos: eu devo admitir que eu não li tudo que eles escreveram. No entanto, em geral, a importância do conceito de distribuição parece ser um tópico bem importante para eles, mas menos importante para nós. Além disso, eu acredito que eles tem pontos úteis a comunicar nesse fronte. Eu sou a favor de tirar inspiração do trabalho deles.

Quanto às declarações de Tirole, eu não acredito que ninguém tem um monopólio sobre o conhecimento. Se outras pessoas tem coisas interessantes para dizer, então aquele que já foi um considerado um elemento externo pode eventualmente se tornar um elemento interno, como no caso de Hyman Minsky. Pessoas que promovem pontos de vista que diferem do mainstream pode fornecer algo útil. Algumas vezes eles estão certos.

Ao mesmo tempo, no entanto, eu ainda acredito que a direção na qual o mainstream está olhando é a correta. Eu não acho que existam realidades alternativas, mas que há apenas uma realidade que precisa ser entendida. Quando pessoas me perguntam o que eu faço, eu digo que eu sou um engenheiro. Da maneira que eu vejo, eu sou um cientista social. A máquina que eu estou tentando entender é complexa e eu estou aberto a sugestões. Mas no final essa é a máquina e nós precisamos entende-la.

Eu quero fazer uma última observação e parar com ela – nós economistas fomos muito “imperialistas”. Nós encarávamos como inferiores sociologistas, psicologistas e cientistas políticos. E acho que esse ponto de vista está mudando. Eu acredito que houve muito progresso em relação a isso e espero que venhamos a criar um campo de pesquisa mais integrado.


Fonte: http://partidopirata.org/crise-economia/

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