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Comunidade Metareciclagem

17 de Junho de 2009, 0:00 , por Software Livre Brasil - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

MetaReciclagem é uma rede auto-organizada que propõe a desconstrução da tecnologia para a transformação social.


Limpando as teias

31 de Julho de 2013, 0:00, por Software Livre Brasil - 0sem comentários ainda

O site da MetaReciclagem tem uma história. Seu formato atual é fruto de uma série de discussões que marcaram um episódio importante da vida da rede. Mas hoje ele parece um prédio abandonado: mostra aqui e ali traços de tempos passados. Existe ainda um ou outro habitante eventual. Mas está longe de cumprir a ambição que já teve, de refletir um pouco das dinâmicas da rede, atrair a documentação de ações e proporcionar a articulação de projetos.

A própria MetaReciclagem também mudou bastante nos últimos anos. O processo do fim do mundo foi bastante significativo. Na minha leitura, ele denotou o esgotamento da tentativa de criar uma só voz para a rede, de tentar encontrar uma coerência não só para as opiniões mas para o próprio sentimento de pertencimento, para as multiplicidades e as constantes mudanças desse boteco feito de vapor. Me parece significativo também que eu escreva este post no blog do mutgamb, e não na conectaz da infralógica. Sinto até alguma culpa, como se estivesse desistindo de algo. Mas sei que não estou sozinho (na verdade, estaria sozinho se insistisse no contrário). Tão culpado me senti, que mudei de ideia e resolvi publicar no site atual da rede mesmo.

Ainda assim, não acho que a MetaReciclagem tenha desaparecido. Eu continuo chamando muito do que faço de MetaReciclagem, e trocando com outras pessoas - e para mim isso já é sinal de existência da rede, ainda que bem menos estruturada do que já imaginei. As conversas, tenho certeza, continuam acontecendo. Só que estão espalhadas e fragmentadas. Na melhor das hipóteses, as pessoas estão documentando as ações em seus próprios blogs e wikis. Na pior, como todxs sabemos, estão usando as grandes redes sociais corporativas - onde não podem ter nenhuma certeza de que suas informações vão continuar disponíveis amanhã.

É por essas e outras que eu e Adriano Belisário estamos propondo, através do MutGamb, debater e planejar os caminhos futuros para uma infralógica da MetaReciclagem. Queremos descobrir se é viável reinserir a MetaReciclagem na busca de soluções autônomas e seguras para a comunicação entre grupos, para a documentação de ações e para a articulação de atividades colaborativas.

Colo abaixo um pequeno texto que rabisquei pensando nessas questões.

A ideia de uma infraestrutura autônoma que funcionaria como espaço de identidade e documentação para ações e projetos, além de promover o intercâmbio entre as diferentes iniciativas, sempre habitou o imaginário da rede MetaReciclagem. Ao longo da última década, fizemos um série de experiências nesse sentido. Foram pelo menos quatro gerações de servidores, e talvez uma dezena de combinações de serviços de rede, CMSs e websites. Esses serviços sempre funcionaram como espaços de memória e articulação, mas em todas suas encarnações faltavam muitas coisas.

Por volta de 2009, quando ganhamos o Prêmio de Mídia Livre, decidiu-se dividir a aplicação dos recursos em algumas áreas: o que veio a se tornar MutGamb como esforço de documentação no sentido de oferecer uma alternativa narrativa para a demanda de explicitação de algum tipo de limite (ainda que fluido) para a MetaReciclagem; o eixo MetaRecursos / MicroReciclagem que pretendia oferecer orientação para projetos em busca de recursos, além de promover um programa de microfinanciamento de ações de MetaReciclagem; e por fim a Infralógica, que configuraria uma série de ações para melhorar as ferramentas de comunicação da rede.

Desde meados de 2007, já havíamos trocado praticamente todos os sites que tínhamos simultaneamente antes (um site estático em HTML, um planet, uma instalação coletiva de wordpress-mu, um moodle, um scuttle, talvez outros) por um site em drupal (só mantivemos o scuttle, administrado até hoje pelo wille em um servidor separado). À época, muitas iniciativas de MetaReciclagem haviam se atomizado - criavam seus próprios blogs, mas não dialogavam entre si nem pela lista nem por outras ferramentas. A aposta no drupal estava naturalmente relacionada à familiaridade com o sistema que alguns de nós tínhamos. Mas era também uma tentativa de integrar grande parte das necessidades da rede em um sistema integrado e abrangente. É possível que tenha sido nessa época que tentamos criar um vocabulário comum (esporos, conectazes, infralógica, etc.). De certa forma, me parece que tudo isso foi uma busca por integração de ações que se denominavam MetaReciclagem, na sequência de uma perda de identidade depois que muitxs de nós havíamos trabalhado em grandes projetos de governo, oferecido oficinas, feito experiências diversas. Existia ali uma posição algo paradoxal: para reforçar a importância das ações espalhadas pelo Brasil, o site assumia uma grande centralização: o wiki foi jardinado (até certo ponto), as ferramentas todas tinham uma interface comum, a administração e manutenção do site ficaram na minha mão. Centralização para criar espaço comum, e possibilitar que as pontas se apropriassem dele. Foi uma aposta, que não sei dizer se estava certa.

Esse impulso inicial em busca de articulação e criação de base comum influenciaria grande parte do que tentaríamos fazer depois de receber o prêmio Mídia Livre. A partir de 2009, então, organizamos um grupo de trabalho que alcançou algumas coisas: saiu da aletta (servidor mantido pelo descentro) que então já mostrava sinais de exaustão, padronizou a instalação e atualizou a versão do drupal para uma mais recente; fez um estudo de recursos do site, interface e usos; otimizou uma série de detalhes; desenvolveu um frontend e telas; montou um theme do drupal. Havia um questionamento sobre a pertinência de continuarmos imaginando a lista como espaço privilegiado de interação, quando sabíamos que os emails condicionam as conversas a um determinado tipo de retórica e impostação que já ficavam ultrapassadas para a molecada que chega hoje na rede. Ficava claro também que a lista era também um espaço complicado para se pensar em arquivo, memória e busca. Fizemos um monte de reuniões via IRC, alguns encontros presenciais de trabalho, uma reunião no Bailux durante o Encontrão Transdimensional. Algumas pessoas trabalharam para implementar aquelas mudanças iniciais, e elas deram uma nova cara para o site.

Havia muitos outros planos, mas fomos atropelados por uma série de coisas. As duas mais difíceis foram o falecimento de dpadua no fim de 2009, e o desaparecimento de mais de um terço dos recursos do prêmio por dificuldades com a associação proponente. Essas duas situações imobilizaram tanto o eixo Infralógica quanto o MicroReciclagem. MutGamb encontrou caminhos, no ano seguinte ganhou a segunda edição do Prêmio e o resto todxs que leem isso já conhecem. Já a Infralógica perdeu aquele ímpeto inicial, e hoje nem seria adequado tentar retomar do ponto onde paramos. Além de toda a transformação no cenário, no papel das ferramentas colaborativas e nos recursos técnicos disponíveis, a própria MetaReciclagem passou por uma profunda virada do avesso, com todo o processo do MutGamb Fim do Mundo.

Me parece que hoje em dia não faz mais sentido almejar um vocabulário e uma infraestrutura focados na integração ou no reforço do comum. A MetaReciclagem ganhou tração como uma espécie de força pendular - as pessoas por vezes se aproximam, se identificam, organizam encontros e usam esse nome; e outras vezes se afastam, fragmentam - e isso é adequado às condições de hoje. Mas o site atual não reflete isso. A intenção deste projeto é propor e buscar caminhos mais apropriados (pessoas, recursos, tecnologia) para implementá-los.

Hoje, mais do que nunca (e ainda mais reforçado pela paranoia pós-Snowden), parece ser a hora de retomar a importância de ter uma infraestrutura autônoma, gerenciada coletivamente, que possibilite a diversidade e ofereça segurança e estabilidade para as pessoas e grupos fazerem suas próprias articulações e documentação. É importante buscar a possibilidade de hospedar o sistema em algum servidor (ou mais de um) no Brasil. É importante documentar as soluções técnicas, compartilhar o código, explicar as decisões conceituais, garantir a governança do sistema.

No caminho vamos descobrir se essa conversa toda é relevante para mais alguém. Se for, ótimo: vamos precisar de ajuda de todas as pessoas que tenham algo a contribuir. Senão, pelo contrário, também é bom saber: largamos a nau ao vento e seja o que o futuro quiser.