Abordar em nossa apresentação o Paradigma Ético-estético e a Filosofia da diferença pode parecer uma tarefa fácil, já que não podemos negar a influência desse paradigma em nossas formações enquanto mestrandos. No entanto, por conta dessa grande influência, não é difícil cairmos em um discurso fechado, pouco crítico e com clichês, onde o mesmo se apresenta enquanto única maneira de pensarmos o mundo, ou seja, perdendo os diversos nuances e diferenças que os outros paradigmas podem nos trazer enquanto produção de conhecimento. Assim, cairíamos no problema da recognição, onde, como afirma Friedrich Nietzsche em sua “Gaia Ciência”: “conhecer é tornar familiar”. É claro que o filósofo alemão está fazendo uma crítica à noção de conhecimento tal qual o homem criou para si, onde não há o estranhamento, muito menos produção do novo, mas o mero reconhecimento, onde achamos aquilo que nós mesmos escondemos. Portanto, pensando novamente em nossa apresentação, podemos dizer que fazer o elogio àquilo que a primeira vista nos constitui e não nos colocarmos a navegar em mares estranhos, seria abrir mão de uma filosofia da diferença, ou seja, uma contradição na nossa tarefa, sendo essa perspectiva que torna essa apresentação um tanto quanto difícil.

Já que falamos da crítica acerca do conhecimento – um tema importante para a filosofia da diferença – podemos iniciar apresentando que relação há entre conhecimento, diferença e estranhamento. Primeiramente, todo processo de conhecimento, pelo menos dentro de uma epistemologia tradicional, parte da idéia de que percebemos pela sensibilidade e conceituamos racionalmente, isto é, partimos do sensível para o inteligível, do singular para o universal. Dessa forma, o singular é subsumido ao universal, entretanto, esse movimento se dá em uma homogeneização do singular – do diferente. Podemos usar um exemplo que Nietzsche apresenta no texto chamado “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral”, onde afirma que “Todo conceito surge pela igualação no não-igual. Tão certo como uma folha nunca é totalmente igual a uma outra, é certo ainda que o conceito de folha é formado por meio de uma arbitrária abstração dessas diferenças individuais (…)”. Nesse sentido, comparando duas folhas de duas árvores distintas, teríamos um conceito de folha, que seria uma abstração, onde nenhuma folha singular seria o conceito de folha, pois ao conceitualizar, deixou-se de fora as diferenças entre ambas, limitando-se às semelhanças. Ou seja, o conceito de folha serviria tanto para indicar uma folha tirada de uma árvore x, em uma estação x, pela pessoa x, da espécie x, quanto uma folha tirada de uma árvore y, em uma estação y, pela pessoa y, da espécie y; de forma que nessa experiência cognitiva, criamos uma entidade abstrata que não dá conta da diversidade da existência, da singularidade das coisas. Conseqüentemente, há neste processo uma limitação no qual o conhecimento humano é extremamente limitado e arbitrário, como escrevera Nietzsche, é humano, demasiadamente humano.

A reflexão apresentada por Nietzsche pode ser considerada como a força motriz das diversas filosofias da diferença, podendo-se até afirmar que ela toma corpo na filosofia de Martin Heidegger. Todavia, para sermos mais diretos, podemos dizer que a filosofia da diferença traz o movimento de volta à filosofia. Não a partir do movimento hegeliano, que utiliza a diferença de forma identitária, ou seja, o diferente é aquilo que não é idêntico, sendo o oposto de identidade. Ora, se diferença é oposição a algo, ela é algo, pois se afirma enquanto oposição, é algo-oposição, ela é aquilo que o movimento da identidade vai se apropriar para continuar a caminhar, em suma, em relação à diferença, “se correr a identidade pega, se ficar a identidade come”.

Deixando um pouco Nietzsche de lado, podemos deleuzear… O mundo retoma o seu movimento, o não-ser e o devir “voltam a habitar o solo da terra”, o mundo passa a ser um conflito de forças, o ser não é o ente estático, o ser é o constante fora que irrompe por dentro, que rasga o véu apolíneo que a vontade de saber insiste em jogar sobre o fogo dionisíaco. Isso pode parecer um pouco místico, mas é pensamento enquanto reflexão filosófica. O homem socrático quis apagar o caos. O movimento do conhecer, até então, escondia em si o instinto de preservação. Tornar toda existência inteligível para fugir das malhas da angústia, esse era o peso moral do ato de conhecer. Pensando desde esse ponto de vista, a diferença é aquilo que não está para o plano da conceituação, quando algo é conceitualizado a diferença se apaga – essa é a dimensão trágica da nossa cognição. O que é diferente é aquilo que nos afeta, é aquilo que nos tira do chão, é aquilo que retorna enquanto força. Aquilo que ao afetar um sujeito, o implode em sua “sujeitice”, o tornando estranho de si – é a embriaguez dionisíaca em sua força mais ampla. A diferença, por mais que possa soar paradoxal, pois estamos tentando conceituá-la, é a própria vontade de potência nietzscheana, a explosão de multiplicidades que sempre retorna e retorna…

A filosofia da diferença, entretanto, representa uma opção ao pensamento tradicional? É ela própria um martelo que ao destruir incorpora tudo que já se pensou? O elogio da singularidade não tornaria os filósofos da diferença singulares? Não seria uma contradição se dizer nietzscheano ou deleuzeano? Ao fazer um elogio da diferença enquanto estranhamento, não teríamos, no caso da nossa apresentação, de elogiar aquilo que não acreditamos, aquilo que nos incomoda, aquilo que evitamos? Ora, a singularidade dos filósofos do futuro são os seus juízos, as suas teorias. Como diz Nietzsche a respeito dos filósofos do futuro – os espíritos livres – “o meu juízo é só meu, ninguém tem direito a ele”. Não seríamos mais nietzscheanos sendo nós mesmos? E, se pensarmos nos filósofos que foram afetados pelo pensamento de Nietzsche, não honraríamos Foucault, Deleuze e Heidegger se fossemos nós mesmos? Afinal de contas, como diz Foucault, não somos mais livres do que pensamos? Enfim, se somos livres para sermos o que somos e pensarmos aquilo que nos inquieta, não seríamos artistas? Se o conhecimento, a partir desses filósofos, é uma produção, uma invenção, não poderíamos tomar todos os outros paradigmas como partes de uma aquarela rizomática onde pintamos o nosso próprio paradigma? Não nos tornaríamos ator e pintor de nossa própria existência? O pesquisador enquanto artista, eis aquilo que um paradigma ético-estético pode produzir.

Entendemos que este paradigma é problematizador por natureza em sua postura de produção de conhecimento, onde podemos observar o quanto sua produção cresce à medida que questiona e constrói conceitos no entre com os outros paradigmas que temos enquanto conhecimento do mundo. Um escrito de Fernando Pessoa vem conosco

O fenômeno da minha despersonalização instintiva a que aludi em minha carta anterior, para explicação da existência dos heterônimos, conduz naturalmente a essa definição. Sendo assim, não evoluo, viaJo. Vou mudando de personalidade, vou (aqui é que pode haver evolução) enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo. Por isso dei essa marcha em mim como comparável, não a uma evolução, mas a uma viagem: não subi de um andar para outro; segui, em planície, de um para outro lugar. (Fernando Pessoa)

O que podemos relacionar deste texto do poeta Fernando Pessoa com os paradigmas que fomos trabalhando ao longo de nossos encontros? Pois bem, ao que parece, nosso poeta ao descrever sua capacidade de criar novas personalidades para fingir compreender o mundo, ou, antes, fingir que se pode compreendê-lo, nos remete às criações dos paradigmas e seus conhecimentos. No caso, enquanto formas de entendimentos de mundo, formas de apanhar o mundo enquanto objeto para ter certo controle sobre ele, valendo-se de uma visão do mesmo para desenvolver tratados, esquemas, pesquisas de maneira a poder construir mais e mais conhecimento. Neste sentido, entendemos que Fernando Pessoa é um “esquizo” quando propõe agenciamentos maquínicos ao criar novos personagens, novas verdades de visão de mundo. A cada personalidade criada, um mundo aberto em suas verdades, verdades paralelas, dissonantes, conflitantes que ao longo de sua obra vão discutindo umas com as outras sem, de maneira nenhuma, chegar a um consenso. O consenso entre elas é o não senso. O importante é criar, dar diversidade ao mundo, transformando-o em mundos diversos.

Além disso, Pessoa nos fala que a criação de seus personagens é como um viajar, um se descobrir transeunte. Ao que tudo indica, o paradigma ético-estético faz tal movimento quando percorre outros paradigmas no sentido de problematizá-los. E a partir de tais problematizações é que vai se construindo, criando e, como em Fernando Pessoa, evoluindo enquanto planície – rasteiro como rizoma. O paradigma ético-estético seria como o cão vira-lata: transita por todas as raças, misturando-as e criando outras possibilidades de cachorros. Afinal, de qual raça de cachorro podemos esperar filhotes que não nascem iguais aos pais?

Usando outro poeta, Cazuza, também podemos pensar mais sobre o paradigma que temos que dar conta. Em sua música intitulada Ritual, escrevera assim:

Pra que buscar o paraíso

Se até o poeta fecha o livro

Sente o perfume de uma flor no lixo

E fuxica

Fuxica

Este fuxicar do poeta no lixo é estar disposto a mexer naquilo que já está descartado, no que já é passado, trazendo deste fuxico novas concepções do que já se tornou lixo. É reutilizar o que já está dado de uma maneira nova, colocando novas percepções, adotando novas posições sobre algum assunto que já perdera seu colorido. Neste caso, uma das falas mais contundentes de Deleuze é quando comenta os roubos de conceitos de outros autores, onde não os utiliza para dizer o mesmo, mas os fuxica para tirar deles novas possibilidades de conceitos e de entendimento de mundo.

Outro artista que relacionamos com o paradigma ético-estético é Duchamp. Responsável pela criação do conceito ready made, que seria o roubo de um elemento do cotidiano – num primeiro momento sem relação com a arte – para a produção de uma obra artística. A relação que podemos ver, assim como de Fernando Pessoa e de Cazuza para com a esquizoanálise, está no sentido de pensar o mundo enquanto atrator caótico, numa disposição de olhá-lo enquanto processo de criação constante. Deformando as formas para criar novas formas, problematizando os conceitos para olharmos os mesmos através de outras perspectivas.

Deste modo, colocar em discussão a construção de uma paradigma ético-estético e a forma de apresentá-lo, ou seja, pensar o processo de construção, também é problematizar os conceitos-ferramenta, as concepções de objeto e de sujeito imanentes a essa produção. Assim, como num plano de imanencia, não há dissociação entre produção e produto, entre processo e resultado. Tudo está presente num mesmo plano que se dobra, desdobra e redobra criando formas de existencia, saberes, mundos, etc. Pesquisar passa então por experimentar modos de existência, produzir novas dobras neste fora, na linha que se dobra. Assim, sujeito, sociedade, objeto, pesquisador, carregam uma multiplicidade que é imanente, substântiva, e não caracteristica, qualidade. Ontologia multipla do vira-lata que carrega em si forças pré-individuais de um plano comum e multiplas que se atualizam em modos singulares de ser vira-lata.

E o sujeito e o objeto como ficam?

Ficam?

Passam?

Perpassam?

Ultrapassam…

Por onde? Como?

Com…..compondo?

Suely Rolnik nos diz “..é no encontro dos corpos que a diferenças se produz..”

Então é no encontro que a diferença pode diferir….

É no encontro com o outro, estes tantos outros que o sujeito e o objeto podem se constituir…..é na composição, no entrosamento, no enosamento, no fazimento e no desfazimento que algo se produz.

É no fora…

Não…é no dentro..

Ou será no fora do dentro ou no dentro do fora….

Mas tudo está aí na superfície…

Ou, como diz Deleuze, “o mais profundo é a pele”

Está tudo aí no fora o tempo todo, é na dobra do fora que a interioridade é encapsulada, mas ainda assim é de um fora que se fala…

Guattari propunha quebrar com a noção de sujeito, porque esta remete á noção de individualidade. …Vamos falar em Agenciamentos Maquínicos de Enunciação…

Somos todos efeitos de um tempo, de uma produção social, de uma produção discursiva, de mecanismos e artifícios humanos e inumanos, maquinicos, …..

…..somos parte desta rede…deste rizoma social….

..não estamos fora nem dentro…

Não somos começo nem fim

Somos meio

Sujeito e objeto se fazem no ato, no momento…

Se produzem conforme as marcas que vão se produzindo no seu corpo,

Conforme as diferenças que disparam…

As rupturas que se engendram

Os buracos que se abrem dando passagem ao inédito das produções….

Por isso ético ….estético….diferença….

Autores: Sara Hartmann, Luciana Barone, Marcos Goulart, Fernanda Streppel, Lúcia Almeida, Fúlvia Spohr e Francis Londer.