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Ecovilas, Inspiração Para a Vida Urbana: O exemplo de Lebensgarten Steyerberg

20 de Julho de 2018, 0:35 , por Jason Daniel Lang Achermann - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Em meio ao crescente aumento da violência, destruição ambiental, poluição, pobreza e desisigualdade social de muitas cidades do Brasil e do mundo na atualidade, as Ecovilas se consolidam como exemplos de que é possivel viver em comunidade de maneira mais consiente e menos impactante em termos socioambientais. O texto a seguir relata a experiência da Ecovila de Lebensgarten Steyerberg, a mesma foi fundada em um local onde funcionava uma fabrica de munições para guerra. A iniciativa transformou toda a dinâmica da comunidade a partir da introdução de práticas sustentáveis nas suas construções e ações diárias, e entrou para a “Lista das 100 melhores práticas” da ONU Habitat.

 Capa 3

As ecovilas têm suas origens no movimento de contracultura da década de 1960, sendo comunidades intencionais, formadas por pessoas que buscam experimentar e vivenciar novas formas de organização da vida social, tendo em vista a sustentabilidade como base para esse processo. Em muitos casos são idealizadas por integrantes de organizações não governamentais; ativistas ambientais, sociais e políticos. Essas experiências podem ser também entendidas como um exemplo prático dos movimentos ecologistas da década de 1980. Nesse período surgem, nos EUA e Europa, diversos movimentos atuantes em relação à conservação ambiental, qualidade de vida, políticas ecologicamente corretas, etc[1].

As ecovilas têm surgido em todas as partes do mundo, em sua grande maioria no meio rural, uma vez que a problemática ambiental nas cidades tem crescido e se aprofundado cada vez mais, com a escassez de recursos naturais não poluídos, inviabilizando o desenvolvimento de experiências sustentáveis mais profundas[2]. Ainda assim, mesmo que em minoria, as experiências urbanas têm crescido associadas a processos de revitalização de espaços abandonados na cidade, a exemplo da ecovila Lebensgarten, na Alemanha, ou a princípio pela mudança de hábitos de moradores de determinada comunidade, fazendo surgir os ecobairros como núcleo de novas práticas socioambientais dentro da cidade. Assim, as ecovilas também podem ser entendidas como uma metamorfose de determinadas localidades em busca da sustentabilidade, emergindo uma nova identidade, com sentimentos, tradições e história própria.

A ecovila de Lebensgarten Steyerberg, criada em 1986, fica numa área onde no passado existia uma fábrica de munições da Segunda Guerra Mundial. Fica localizada próxima à Vila de Steyerberg, na Alemanha (figura 1 a 3). Por volta de 1939 existiam cerca de 27 edifícios, que eram habitados principalmente por trabalhadores soviéticos e poloneses. Depois da guerra o local passou a fazer parte das forças de ocupação britânicas. Atualmente vivem cerca de 100 pessoas na Ecovila de Lebensgarten, algumas delas já viviam lá antes da fundação[3].

Figura 1 a 3 1

Figura 1 a 3 – Localização geográfica da Ecovila de Lebensgarten Steyerberg[4].

 

A área da ecovila possui 30 hectares e hoje conta com 63 residências, onde a maioria das que já existiam foram reformadas com materiais ecológicos (figura 4 e 5). O passado obscuro do local trouxe desafios e proporcionou aos novos moradores a experiência de cura, onde todos buscaram ao seu modo, uma forma de afastar as energias negativas ligadas ao passado, fortalecendo também seus laços enquanto comunidade, na medida em que se apoiavam cotidianamente. Esse contexto levou à proximidade e integração entre eles, sendo determinantes para o que chamaram de “processo de cicatrização”[5].

 Figura 4 e 5

Figura 4 e 5 – Edificações e pessoas na ecovila Lebensgarten [6].

 

A Ecovila foi criada por Declan Kennedy, arquiteto, design permacultor e ex-presidente da GEN (Rede Global de Ecovilas), com o objetivo de permitir que as pessoas convivessem em harmonia dentro de um estilo de vida mais saudável. A palavra “Lebensgarten” significa jardim da vida. Segundo Declan Kennedy, a ecovila é baseada na filosofia de que o mundo é um espelho do que as pessoas são. Dessa forma adota o princípio de que a mudança externa parte de uma mudança interna, através da consciência individual. Esta é a ideia base de desenvolvimento sustentável presente na ecovila. Buscam um estilo de vida em que todos se apoiam mutuamente para o desenvolvimento de seus talentos e habilidades, além de cooperação com a Natureza. A comunidade foi baseada em Findhorn, não possui religião, respeitando todos os caminhos espirituais, e as decisões são tomadas coletivamente por consenso através de reuniões [7].

Como em muitas outras experiências sustentáveis, a ecovila de Lebensgarten também vive economicamente de workshops e cursos. Cada membro é responsável por si, possuindo independência financeira. Alguns deles possuem atividades externas e contribuem com a comunidade através de doações. Os outros trabalham internamente, através de oficinas de artesanato, escritório de arquitetura e planejamento ecológico, livraria, comércio de materiais de construção ecológicos, contabilidade, serviços pessoais, dentre outros. Os idosos da comunidade realizam trabalhos internos e recebem pensão do governo. A alimentação segue a dieta vegetariana, e parte dos alimentos consumidos são cultivados no próprio local em parceria com os bioagricultores da região (figura 6 e 7).

Figura 6 e 7

Figura 6 e 7 – Produção de alimentos na ecovila Lebensgarten [8].

Há mais de 10 anos os moradores da ecovila também vêm desenvolvendo cada vez mais a permacultura (recuperando espaços que antes foram usados com monocultura) através do projeto Permakulturpark am Lebensgarten Steyerberg (PaLS), que tornou-se uma ONG em 2013 e tem envolvido também aqueles que visitam o local através de educação e atividades práticas. A comunidade também adotou tecnologias de baixo impacto e práticas cotidianas mais ecológicas. Hoje conta com sistemas fotovoltaicos, sistemas de captação de água da chuva e compartilham os carros usados [9].

As ecovilas são consideradas pela ONU “modelos de excelência de vida sustentável”. No ano de 1998 a ecovila Lebensgarten, assim como Findhorn, entrou para a “Lista das 100 melhores práticas” editada pelo Programa Habitat. É também uma das fundadoras da GEN, participando desta rede desde 1994, mantendo contato com comunidades alemãs e de outras nacionalidades. Iniciativas como a ecovila Lebensgarten além de transformarem seus próprios espaços, contribuem para fortalecer movimentos de transição para a sustentabilidade, que crescem cada vez mais de diversas formas em todo o mundo.

Por Lays Britto[10].

 

[1] CASTELLS, Manuel. El reverdecimiento del yo: el movimiento ecologista. La factoría, n. 5, p. 135-158, 1998.

[2] Rede Global de Ecovilas. Disponível em: < http://gen.ecovillage.org> Acesso: julho, 2015.

[3] [5] [7] [9]LEBENSGARTEN STEYERBERG e. V. Disponível em: <http://lebensgarten.de/> Acesso: 14/03/2016.

[4] [6] [8]  BRITTO, Lays. Eco-urbanismo: As práticas das Ecovilas no Brasil atual. Salvador: FAPESB, 2013. (Termo de outorga No.: 1008/2012. Pedido No.: 4783/2012).

[10] Arquiteta e Urbanista, Mestra em Desenvolvimento Regional e Urbano.

 

 

 


Tags deste artigo: Sutentabilidade Ecovilas

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