Eu posso dizer que nunca participei do fisl, o Fórum Internacional de Software Livre, de maneira tão intensa e tão presente como neste ano. Desde de 2004 eu acompanho o evento e desde 2005 inscrevo propostas de palestras e/ou eventos comunitários. O FISL é um evento que vai se reinventando a cada ano. Quem não observa com atenção não percebe as sutilezas que tornam o evento cada vez mais um encontro de comunidades e não mais congresso de TI.
A epopéia do fisl2010 começa com a inscrição de propostas. O Papers, foi revisto em um trabalho pesado da equipe do temário que pensou em um novo método de escolha das propostas, e que deu certo. Neste ano o público inscrito recebeu tokens que davam direito a cerca de 5 votos nas propostas submetidas em esquema de “match”, o que eles chamaram de torneio suíço, em contraponto aos outros anos quando tínhamos uma “banca” de jurados que davam notas para as palestras submetidas. Não vou me estender muito sobre o tema, mas vale um dado relevante: a 3 anos eu não conseguia ter nenhuma proposta de palestra aprovada no evento. Neste ano foram 4 propostas aprovadas, duas delas entre as 3 primeiras mais votadas na trilha.
Minhas palestras sempre foram de caráter mais ligado a política ou educação, e nunca passavam. Neste ano o cenário foi diferente. Além dessas ainda fui convidado para mais 2 painéis, além de coordenar mais duas palestras. Enfim, uma agenda lotada.
Pirataria é Compartilhamento: a Proposta do Partido Pirata Internacional
Minha primeira palestra no evento foi sobre o Partido Pirada. Com a sala quase lotada foi legal a experiência de apresentar a proposta de um novo partido político dentro de um evento de Software Livre. A Jhéssica que também faz parte do partido coordenou a mesa e ainda deu uma ajuda na palestra falando sobre como foi a conferência internacional que aconteceu em Bruxelas em abril.
O depoimento dela foi fiel ao que aconteceu, porém alguns amigos criticaram pelo fato de ter sido muito negativo em uma palestra que tinha como objetivo apresentar e trazer novas pessoas. As perguntas foram previsíveis: por que Pirata, a dificuldade de registro e a falta de um projeto mais completo de país. Teve até um perguntando sobre legalização da maconha. Bom eu acho que me saí bem nas respostas. No final dezenas de botons foram vendidos. Vamos ver o movimento no site nos próximos dias.
Tecnologias Livres na Educação a Distância
Para essa mesa eu tinha um pouco de preocupação, mas também muita esperança. Coloquei dois palestrantes que nunca tinha encontrado pessoalmente e o resultado foi bom. O Diogo Ferreira apresentou o case do Conselho Nacional de Justiça utilizando o Moodle para treinar milhares de funcionários do STJ. O Gilvan foi rápido ao falar um pouco das características do Moodle e um breve preview da palestra do dia seguinte.
O Alencar do Instituto Paulo Freire foi bem mostrando a aplicação do Noosfero, uma rede social livre desenvolvida pela CoLivre de Salvador, nos cursos do Instituto. O próximo passo do IPF me interessa muito: integrar o Moodle com o Noosfero. Isso promete. E eu falei sobre a importância da adoção de formatos abertos na EAD, com destaque para o absurdo de termos docentes exigindo que alunos entreguem trabalhos de aula em formato Office 2007. As apresentações foram rápidas e com isso tivemos 20 minutos de boas perguntas. O debate rendeu.
Como fazer jornalismo com Software Livre
Eu mediei essa mesa e saí um pouco frustrado, confesso. Ela foi apresentada por um rapaz que faz parte da TV Software Livre e ele fez apenas uma demonstração básica de ferramentas livres pra edição de vídeo e imagens, mas nada muito aprofundado. A palestra também não estava cheia. Penso que o tema poderia ser mais bem explorado.
Debate sobre Lan Houses
Essa apareceu de última hora, tinha pouca gente, mas foi produtiva. O debate sobre a questão das lan houses é sem dúvida um tema e uma pendência que não pode ficar fora das eleições deste ano. Eu destaquei o fato de que é muito difícil, para quem precisa, estudar em uma lan house, além do fato de que muitos candidatos já estão de olho neste público para as suas campanhas. O Mário Brandão da ABCID destaca que hoje é necessário, porém difícil, conseguir ter uma adoção efetiva de softwares livres nas lan-houses. De fato, precisamos olhar para este tema com muita atenção.
Moodle 2.0
A palestra mais cheia de todas. No auditório externo todas cadeiras ocupadas e muita gente no chão. Tinha umas 250 pessoas ou mais. O Gilvan apresentou os principais recursos do Moodle 2.0 que deveria ter saido nesta semana, mas atrasou de novo. A palestra foi baseada na versão RC. O mais interessante do novo Moodle é a sua integração com redes sociais.
O ambiente deixa de ser apenas uma sala de aula virtual e passa a ser um espaço de maior integração com outras mídias. Importar documentos do Google Docs e fotos do Flickr é trivial. Porém para quem já tem o Moodle nas versões 1.x em ambiente de produção, é melhor aguardar alguns meses até que saia a versão 2.0.1 ou 2.1 e que sejam mais estáveis. Muito da estrutura de dados do Moodle foi alterado e convém ter paciência e um cuidado especial nesse upgrade.
Web-Design e Joomla
Coordenei a única palestra sobre Joomla, o gerenciador de conteúdo mais utilizado no país, no fisl que foi ministrada pelo grupo de usuários Joomla Brasília e se focou mais nos aspectos de design e usabilidade. Eles chamaram atenção para os temas “piratas” que podem trazer vulnerabilidades indesejadas para o seu site. Boa palestra.
A Reforma da Lei de Direito Autoral no contexto do Software Livre
Nunca na história do fisl uma atividade deu tanto trabalho para a organização. A atividade da Rede em defesa da reforma da LDA deixou a turma do temário de cabelo em pé com as sucessivas mudanças que tive de pedir.
Primeiro ela foi alocada em conflito com a palestra do @samadeu que, até então, faria parte da mesa. Depois ela foi alocada muito cedo em um dia que eu não podia e depois, com muito custo conseguimos um lugarzinho as 11h do sábado e finalmente a mesa ocorreu. Com composição diferente: Luis Moncau da FGV, Anderson Alencar do IPF e Alexandre Oliva da FSF-LA me ajudaram a conduzir um painel que eu achei excelente. Não foi técnico nem para o lado do software livre e nem para o lado jurídico e conseguiu trazer para o debate gente que estava no fisl e nem sabia que tínhamos uma consulta sobre a LDA em curso. Depois pretendo fazer um post específico dessa mesa no blog da rede: www.reformadireitoautoral.org
Software Livre na EAD
A minha última participação, nesta maratona, foi o que eu classifiquei como um talk show junto com o @henriquecrang da Unirio falando sobre as práticas de software na EAD, em especial no CEDERJ e na UAB. Um consenso é que estamos avançando na adoção de software livre nesses cursos, mas ainda falta algumas políticas vindas de cima para efetivar essa ação.
O fisl sempre é um espaço ótimo pra reencontrar amigos e ficar ao par de novidades de nossa área, mas neste ano a sensação de ser um evento pela e para a comunidade faz dele sem dúvida um evento único. Bem diferente a meu ver da Campus Party que segue uma tendência exclusivamente comercial, apesar de ter bons nomes a frente.
Por Leandro Chemalle
Fonte Trezentos














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