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Assim Falou Stallman

28 de Maio de 2009, 0:00 , por Software Livre Brasil - 22 comentários | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Tradução de Erik Kohler da entrevista "Thus Spake Stallman" de Richard Stallman para o slashdot.org

Richard Stallman

Na segunda-feira, 17 de Abril de 2003, nós solicitamos perguntas para Richard M. Stallman. Aqui, enfim, estão suas respostas. Aviso: A entrevista abaixo contém conceitos maduros e opiniões fortes. A leitura pode não ser adequada para leitores facilmente irritáveis cujas opiniões conflitam com as do Sr. Stallman.

Pergunta: Vamos assumir por um momento que o software livre se torna a maneira pela qual os negócios acontecem. Toda companhia, se ela quiser manter o valor das ações, abre o código, torna seu código livre. Qual o próximo passo? Para onde você vai daí? O que você faz para uma repetição? Ou será isso o “fim da guerra” e neste ponto, com o GPL protegendo nossa liberdade, você volta a programar?

Richard M. Stallman: Software não-livre não é o único problema do mundo. Eu tomei a responsabilidade de trabalhar neste problema porque (1) ele apareceu para mim (eu não poderia ser neutro exceto saindo do meu campo), (2) eu tive uma idéia de como poderia cuidar dele efetivamente, e (3) ninguém mais estava nem mesmo trabalhando nisso.

Está claro que outros problemas como fundamentalismo religioso, superpopulação, danos ao meio-ambiente, a dominação das empresas sobre o governo, ciência, pensamento e sociedade, são muito maiores que software não-livre. Mas muitas outras pessoas já estão trabalhando neles, e eu não tenho nenhuma grande aptidão ou idéias de como endereçá-los. Para mim, parece melhor continuar trabalhando no assunto de software livre. Até porque software livre conta como um aspecto da dominação da sociedade pelas empresas.

Se em minha vida o problema do software não-livre fosse resolvido, eu poderia talvez relaxar e escrever software novamente. Mas eu devo entretanto tentar ajudar a lidar com os problemas maiores do mundo. Lutar contra um sistema perverso é regozijante, e agora eu tenho uma atração por isso. Poderia doar meu tempo para a ACLU [American Civil Liberties Union], Anistia Internacional, Americanos Unidos pela Separação da Igreja e Estado, ou ZPG [Zero Population Growth, atual Population Connection], se eu for de algum uso para eles.

(Em 1988, George Bush chamou Mike Dukakis de “um membro que carrega o cartão da ACLU”, de fato comparando a Lei de Direitos com o Comunismo e seus defensores com os Comunistas. Este insulto à Constituição dos EUA inspirou-me, assim como a muitos outros, a unir-me à ACLU. Vamos torcer para que o “arbusto” não seja presidente; um Bush já foi muito.)

Ou eu poderia trabalhar lutando pelas liberdades que são apropriadas para outro tipo de informação publicada. Isto poderia incluir dicionários e enciclopédias, livros-texto, documentos científicos, músicas e outras coisas.

P: Há algum bom estudo de caso de grandes corporações que abriram o código proprietário desenvolvido internamente?

RMS: É apropriado que você tenha usado a terminologia do Movimento do Código Aberto para esta questão, porque este é o tipo de questão que eles estariam mais interessados. Este movimento, fundado em 1988, argumenta que “código aberto” é bom porque é mais lucrativo para desenvolvedores de software. Eles colecionam exemplos para justificar esta afirmativa, e podem ajudá-lo.

Eu não sou a melhor pessoa para você procurar este tipo de ajuda, porque eu concentro-me em outra coisa. Em vez de tentar convencer gerentes de TI que é mais lucrativo respeitar nossa liberdade – não sei se isto é verdade – eu tento convencer usuários de computador que eles deveriam insistir em software que respeita a liberdade deles.

Eu não sou afiliado ao Movimento do Código Aberto. Eu fundei o Movimento do Software Livre, que vem trabalhando para aumentar a liberdade e cooperação desde 1984, e está preocupado não somente com benefícios práticos mas com a questão ética e social: em encorajar as pessoas a cooperarem com seus próximos, ou proibir a cooperação. O Movimento do Software Livre levanta questões de liberdade, comunidade, princípio e ética, que o Movimento do Código Aberto intencionalmente evita.

O que o Movimento do Código Aberto explicitamente diz está correto, até onde vai; mas fico muito descontente com o que eles deixam para trás. Apelando somente para benefícios práticos, como o desenvolvimento de software poderoso e confiável, eles implicam por omissão que nada mais importante está em jogo.

O Movimento do Código Aberto parece pensar que o software proprietário é uma solução quase ótima (pelo menos, normalmente quase ótima). Para o Movimento do Software Livre, o software proprietário é o problema, e o software livre é a solução. Software livre é muitas vezes poderoso e confiável, e eu fico feliz por estas coisas aumentarem seu efeito atrativo; mas eu escolheria um software livre, simples e não confiável em vez de um programa proprietário cheio de funcionalidades e confiável, que não respeitasse minha liberdade.

Eric Raymond disse publicamente que se “código aberto” não é melhor (ele quer dizer, mais lucrativo) para desenvolvedores de software, ele deve falhar:

“Ou código aberto é um ganho conjunto para os produtores e consumidores em questões de interesses próprios ou não o é. Se for, você não pode perder; se não for, você não pode (e não deveria) ganhar.”

(Citado em Salon, setembro ou outubro de 1998.) Implícita nesta colocação está a crença de Eric que o software proprietário é legítimo, e sua rejeição da idéia de que software livre é imperativo para a liberdade, ética ou responsabilidade social.

Imagine alguém dizendo, “Se uma imprensa sem censura não é melhor para editores assim como para leitores, ela não pode (e não deve) prevalecer.” Isto iria mostrar que a pessoa não entende liberdade de imprensa como uma questão de liberdade. Para pessoas que dão valor à liberdade civil, estas visões são absurdas. (Este exemplo não é inteiramente artificial, pois donos de meios de comunicação e anunciantes progressivamente excluem alguns assuntos e opiniões da cobertura jornalística.)

Embora eu não vá me juntar ao Movimento do Código Aberto, eu concordo que eles fazem algumas coisas boas. Eles podem ser os melhores a sugerirem algo útil para dizer ao seu gerente de TI.

P: Hoje todos estão ouvindo os críticos sobre como o código aberto também está prejudicando a comunidade. Desconsiderando isto, você alguma vez em seus sonhos mais loucos no início de sua “cruzada” imaginou que o código aberto seria um “movimento”?

RMS: Eu pensei no software livre como um movimento anos antes do projeto GNU. Eu entendi o software livre como um modo de viver ao juntar-me a uma comunidade de programadores que já viviam desta forma. Minha contribuição, onde eu levei as coisas adiante, foi em pensar tem termos éticos e políticos sobre o contraste entre nosso modo de viver e a maneira que a maioria dos usuários de computadores viviam. Eu fiz do software livre um movimento.

Mas nunca imaginei que o Movimento do Software Livre iria gerar uma alternativa diluída, o Movimento do Código Aberto, que se tornaria tão conhecido que as pessoas iriam me perguntar sobre “código aberto” pensando que eu trabalho sob esta bandeira.

Se nós do Movimento do Software Livre nos juntarmos com eles, as pessoas pensarão que estamos patrocinando suas idéias, não as nossas. Por esta razão, eu não quero discutir meu trabalho ou as idéias que defendo sob a rubrica do “código aberto”. Se as pessoas estão associando-me a eles, eu tenho que corrigir este erro. O trabalho que faço é software livre; se você quer discutir isso comigo, vamos conversar usando o termo “software livre”.

P: O que aconteceria, hipoteticamente, se você pleiteasse a GPL e perdesse a causa? Você tem um Plano B?

RMS: Dependeria dos detalhes da decisão. Talvez mudássemos algumas palavras na GPL. Talvez somente diríamos “Que pena, o copyleft não pode ser feito corretamente neste estado ou país em particular.” Isto seria desafortunado, mas não necessariamente um desastre.

Por exemplo, há companhias na China que distribuem versões do sistema GNU/Linux na China, e violam a GPL completamente, ao não distribuir o código fonte. Na prática, não podemos obrigar os infratores na China a usarem a GPL, porque a China não apóia muito a lei do copyright. (Esta política faz sentido para China – da mesma forma, os EUA não reconheciam copyrights estrangeiros quando eram um país em desenvolvimento.) Mas eu não acho que isto signifique que em geral a GPL é falha.

P: Você alguma vez pensou em tomar alguma atitude mais conciliatória para as coisas? A frase “Não Se Esforce por Coisas Pequenas” (estou falando do assunto “GNU/Linux”) tem algum significado para você?

RMS: A razão pela qual continuo pedindo às pessoas para usar o termo “GNU/Linux” para a combinação do sistema operacional GNU com o kernel, Linux, é porque é um detalhe pequeno e importante. Faz uma grande diferença para a efetividade do Projeto GNU em divulgar a filosofia do Movimento do Software Livre.

Chamar todo o sistema de “Linux” leva as pessoas a pensarem que o desenvolvimento do sistema começou em 1991 pelo Linus Torvalds. Isto é o que a maioria dos usuários parece pensar. Os poucos usuários que sabem sobre o Projeto GNU normalmente pensam que nós temos um papel secundário – por exemplo, eles dizem a mim, “É claro que sei sobre o GNU – o GNU desenvolveu algumas ferramentas que são parte do Linux.”

Isto leva os usuários a tirarem seu direcionamento filosófico das visões “apolíticas” do Linus, ao invés do Projeto GNU. Eles tendem a adotar o objetivo de aumentar a popularidade do “Linux” (o que Linus jocosamente chama de “dominação mundial”), ao invés de divulgar a liberdade. Ironicamente, estes usuários do sistema GNU amam tanto o sistema que deixam de lado a liberdade pela qual nós desenvolvemos o sistema, em nome do sucesso do mesmo. Você pode chamar isso de “sucesso” para o GNU, mas não é sucesso para a liberdade.

Empresas que distribuem o “Linux” estão ativamente encorajando as pessoas a adotarem o sucesso como objetivo, e sacrificando a liberdade para isso. Veja http://www.zdnet.com/filters/printerfriendly/0,6061,2552025-2,00.html para um exemplo claro em um pronunciamento recente do CEO da Caldera. Eles podem fazer isso mais e mais facilmente e efetivamente quando a audiência deles não relaciona o sistema “Linux” com este inconveniente, idealista e intransigente Projeto GNU. A habilidade de evitar as preocupações com liberdade ao usar o termo “código aberto” também é conveniente para eles: eles podem pedir implicitamente às pessoas para desistirem de sua liberdade, sem reconhecer explicitamente esta implicação da conduta que eles recomendam.

Conforme as empresas se tornam mais envolvidas com software livre, elas irão estar diante de uma escolha: ou fazer negócios de uma maneira que contribua com a comunidade, como a Red Hat faz na maior parte das vezes, ou basear seu negócio em extensões proprietárias, como a Oracle faz e a Corel faz na maior parte. Estará a cargo do público – a comunidade – fazer as empresas respeitarem nossa liberdade, ao recompensar as empresas que assim fazem. O futuro da nossa comunidade depende acima de tudo no que nós damos valor. Se as pessoas adotam o valor da popularidade ou sucesso, nós iremos terminar com muitas pessoas usando um sistema que é baseado no GNU e Linux combinado com vários softwares proprietários.

Eu peço a você para chamar o sistema de GNU/Linux para que você ajude a informar os usuários do sistema que ele existe por causa do idealismo do Projeto GNU. Usuários que conhecem este desejo provavelmente dão uma olhada em nossas opiniões, e alguns deles irão concordar. Algum tempo depois, eles podem lutar pela liberdade.

P: Existem algumas coisas que você meio que se preocupa, mas não muito?

RMS: Sim, muitas – mas eu não discuto estas coisas.

P: Que tipo de coisas você faz em seu tempo livre, você as encara com a mesma intensidade que você tem pelo software livre?

RMS: Eu gosto de leitura, música, comer comidas deliciosas, ver a beleza natural. Eu também gosto de dançar, principalmente dança folclórica dos Bálcãs, mas um problema no tornozelo significa que eu não posso mais fazer isso. Também gosto de partilhar carinho com alguém que eu adoro, mas somente ocasionalmente tenho chance para fazer isso.

P: O quanto aplicável você pensa que a GPL é para estas outras coisas? (em relação aos conceitos embutidos na GPL). E quais são os aspectos essenciais em uma licença que deseja carregar o mesmo tipo de liberdade que a GPL?

RMS: Eu não tenho uma resposta simples para isso. As questões éticas sobre cópia e modificação de trabalhos dependem do tipo de trabalho e de como as pessoas o usam. Há uma similaridade básica entre todos os tipos de trabalhos que podem estar em um arquivo no computador: você sempre pode copiá-los, a não ser que alguém o obstrua. Também há diferenças. Novelas, gravações musicais, dicionários, livros-texto, documentos científicos, ensaios e softwares não são usados da mesma maneira.

Eu não tenho as mesmas visões para todos estes tipos diferentes de trabalho. Livros-texto e dicionários devem ser livres no mesmo forte sentido que software: as pessoas devem ter a liberdade de publicar versões melhoradas deles. Para documentos científicos, acho que todos deveriam poder espelhá-los, mas não vejo razão para permitir versões modificadas (isto seria cuidar de registro histórico). Para alguns tipos de obras, como novelas, eu não tenho certeza de que tipos de liberdade são essenciais.

Entretanto, uma certa liberdade mínima é essencial para qualquer tipo de obra publicada que está em um arquivo ou computador: a liberdade de ocasionalmente fazer cópias para outras pessoas. Negar às pessoas esta liberdade básica é intrusivo e antisocial, e somente métodos ao estilo Soviético podem obrigar esta proibição.

P: Atualmente estou tentando convencer um fabricante de hardware a prover código fonte legível e documentação do hardware para programadores de drivers livres. Em sua opinião, qual é a melhor e/ou mais efetiva maneira de agir neste sentido? A opinião pública? Argumentos econômicos? Mostrar a alta qualidade de drivers livres? Ou eu deveria aconselhar as pessoas a mover para fabricantes de hardware mais iluminados.

RMS: Eu acho que é melhor usar uma combinação de abordagens:

Informá-los que as pessoas que desejam liberdade terão que comprar outro hardware para o qual drivers livres estão disponíveis (o que não é uma ameaça, porque nós não iríamos fazer isso como uma punição mas para fazer o trabalho com software livre).

Dizer que a comunidade está incentivando as pessoas a fazerem uma engenharia reversa para escrever drivers livres (deste modo, obstinação pode ser inútil).

Oferecer a eles a boa vontade e apoio comercial da comunidade se eles cooperarem.

Perguntá-los quais são seus interesses, e fazer sugestões de forma criativa para que eles possam cooperar o suficiente para possibilitar-nos escrever o software livre logo, enquanto parcialmente atingindo estes interesses.

Eu gostaria de ter uma página em www.gnu.org que listasse os produtos de hardware e mostrasse se eles são suportados por um sistema GNU/Linux completamente livre. (Incluir *BSD também seria bem vindo.) Escrever e manter atualizada esta página seria um trabalho substancial. Se você quiser ter a iniciativa para desenvolver esta página, por favor mande-me um email.

P: (de Bruce Perens) – Estou preocupado porque as restrições da GPL sobre obras derivadas não acompanharam as mudanças da tecnologia de software.

RMS: Estou trabalhando na versão 3 da GPL, mas não é algo que deveria ser apressado. Eu a coloquei de lado por quase um ano para trabalhar na Licença GNU de Documentação Livre, mas agora planejo retornar a ela.

Bruce: o exemplo mais nefasto é o CORBA, que permite que criemos obras derivadas de componentes que não estão no mesmo espaço de endereço, porém trabalham como se estivessem. Eu prefiro não ver meu trabalho GPL no programa proprietário de alguém, simplesmente porque ele foi transformado em servidor para evitar minhas restrições de licença.

RMS: Se as pessoas podem escrever software não-livre que faz uso de componentes CORBA livres, isto é ruim de uma forma: significa que o trabalho não-livre deles pode ser feito em cima de nosso trabalho. Mas usar o nosso software livre através do CORBA não torna nossos programas não-livres. Portanto não é tão ruim quanto estender nosso programa com o código não-livre deles.

Eu acho que será difícil reivindicar que um programa está coberto pelas nossas licenças porque ele usa CORBA para se comunicar com nosso código. Talvez em casos de um acoplamento íntimo poderíamos convencer a justiça deste ponto de vista, mas em geral acredito que não poderíamos.

Bruce: Um problema mais comum são as bibliotecas dinâmicas que são distribuídas separadamente do executável. Você afirma que a justiça manteria estes como sendo dispositivos usados explicitamente para contornar as restrições de licença, mas isto seria arriscado, e não é substituto para uma linguagem explícita sobre o que é e o que não é considerado uma obra derivada na GPL.

RMS: Nós não temos uma definição sobre o que é considerado uma obra derivada. Isto é problema da lei de copyright, decidido pela justiça. Quando a lei do copyright assegura que uma determinada coisa não é derivada de nosso trabalho, então nossa licença para este trabalho não se aplica a ele. O que quer que nossas licenças digam, elas funcionam somente para obras que são derivadas do nosso código.

Uma licença pode dizer que nós iremos tratar um certo tipo de obra como se ela não fosse derivada, mesmo que a justiça pense que ela seja. A LGPL faz isso em certos casos, de fato declinando o uso de algum poder que a justiça nos daria. Mas não podemos dizer à justiça para tratar um certo tipo de obra como se fosse derivada, se a justiça pensar que ela não é.

Eu acho que nós temos um bom argumento de que a ligação dinâmica não trivial cria uma obra combinada (isto é, derivada). Eu tenho uma idéia de como mudar a GPL para fazê-la mais clara e mais objetiva, mas preciso ver se podemos trabalhar os detalhes de uma maneira que nossos advogados acreditem que irá realmente funcionar.

Bruce: Há também o problema dos Provedores de Serviço de Aplicativos, que tornam uma obra disponível para pessoas usarem sem distribuí-la, e portanto não estaria sob qualquer obrigação para tornar o código fonte de suas modificações disponível. Será que eu preciso ver minha obra sob GPL abusada desta maneira?

RMS: Eu também sinto que estes servidores não estão jogando limpo com nossa comunidade, mas este problema é muito difícil de ser resolvido. É difícil para uma licença baseada em copyright fazer um requerimento a estes servidores que realmente seja adotado. A dificuldade é que estes servidores não estão distribuindo o programa, somente rodando-o. Por isso é difícil impor qualquer condição sob o copyright que afete o que eles possam fazer.

Recentemente tive uma idéia para um método indireto que talvez funcione. Eu prefiro não falar sobre ele até que nosso advogado descubra se isso realmente pode funcionar.

Bruce: Parece que existem muitas novas tecnologias que a GPL não está acompanhando.

RMS: Você faz isto parecer que resolver estes problemas fosse apenas uma questão de trabalhar duro para mudar a GPL. Mas a GPL só pode usar a lei do copyright como ela existe. As recentes mudanças na lei do copyright nos EUA para “acompanhar” a tecnologia, como na DMCA, foram comandadas por corsários do software, e foram feitas para ajudá-los a restringir a liberdade dos usuários, não para ajudar-nos a protegê-la. Elas permitem aos donos do copyright a restringir a mera execução de um programa – mas somente se algum tipo de controle de licenças difícil de contornar ou um controle de acesso obriga as restrições. A liberdade do software livre significa que mesmo que colocássemos esta restrição artificial em um programa, o usuário poderia facilmente passar por ela – e isto é uma boa coisa! Mas isto significa que o novo poder legal não está disponível para uso do copyleft.

A DMCA é um exemplo perfeito do dano feito quando empresas dominam o governo e a sociedade. Uma parte da lei diz explicitamente que somente atividades comercialmente significantes são consideradas importantes (para legitimar um programa que é normalmente usado para contornar meios tecnológicos de controle dos usuários) – mostrando um preconceito explícito contra usos educacionais, recreativos, comunitários, militares e religiosos.

P: Que tipo de posição você toma sobre aplicações como o Napster?

RMS: O Napster é ruim porque é software proprietário, mas não vejo nada antiético no trabalho que ele faz. Por qual motivo você não deveria mandar uma cópia de alguma música para um amigo? Eu não toco música de arquivos em meu computador, mas ocasionalmente eu gravei fitas de discos e as dei para meus amigos.

P: Em particular, acho que o GTK Napster segue a GPL padrão. Eu só queria saber o que acontece quando alguém como o Metallica ganha uma ação contra o Napster que possui uma contraparte sob a GPL como o GTK Napster? Será que eles podem agir sobre ele?

RMS: Eu não sei quem irá ganhar estas ações, mas eu não vejo nada que poderia dar aos programas livres qualquer proteção especial deste tipo de opressão. Parece-me que se eles vencerem contra o Napster, eles irão provavelmente vencer qualquer programa que faça algo similar.

Se eles não vencerem usando a lei corrente, podemos esperar que as gravadoras musicais adquiram novas leis que possam usar para suprimir estes programas no futuro – e desaprovar músicos famosos como o Metallica (somente músicos famosos têm muito de sua renda advinda do copyright) que irão dizer que copiar música é como matar o bebê deles.

Nós também podemos esperar tentativas ferozes para capturar indivíduos que usam o Napster e prendê-los. A Guerra Contra Cópia se tornará mais cruel.

A Guerra Contra as Drogas continuou por uns 20 anos, e nós vemos poucas esperanças de paz, apesar do fato de que ela falhou totalmente e deu aos EUA um índice de aprisionamento quase igual ao da Rússia. Eu temo que a Guerra Contra Cópia possa durar décadas também. Para terminá-la, precisaremos repensar o sistema de copyright, baseado na visão da Constituição de que ela pretendia beneficiar o público, e não os donos do copyright. Hoje, um dos benefícios que o público quer é o uso de computadores para trocar cópias.

O Metallica justifica sua ação judicial dizendo que eles pensam ser um absurdo que as músicas deles tenham se tornado uma “commodity”. Aparentemente eles acham que música é uma commodity quando compartilhada entre fãs, mas não quando grandes companhias vendem cópias através das lojas de discos. Que absurdo hipócrita!

Este tipo de besteira é normalmente digno de risadas. Mas o Metallica está apresentando isso como uma desculpa para atacar nossa liberdade, e isto não é coisa para se dar risadas. Eu incentivo as pessoas a escreverem cartas para periódicos que cobrem esta história, demonstrando desgosto pela ação do Metallica e rejeitando as suas posições.

P: A batalha sobre CSS tem sido sobre se as pessoas têm o direito de usar software (eu considero os DVDs softwares porque eles são programas lidos por um chip de computador) quando ele é controlado pelo sistema de controle de conteúdo CSS, mesmo depois que elas o compraram. Eu espero que eles percam na justiça, mas não está claro neste ponto se eles irão, entretanto, minha questão é outra, um tópico relacionado.

Suponha que uma encriptação muito forte, quase inquebrável, tenha sido usada em um DVD de Software tradicional (isto é, alguma coisa como software da M$ ou outras companhias de software, só que no formato DVD) e um CCA de DVD foi usado dizendo, “Você não está autorizado a acessar o conteúdo de quaisquer DVDs a não ser que você use nosso software de desencriptação licenciado. Ah, e nosso software de desencriptação de DVD contém uma licença de software que pode ser compelida legalmente (sob a UCITA) que declara que você não pode fazer engenharia reversa em nenhum conteúdo que você tenha desencriptado usando nosso software de desencriptação.” Como o Software Livre lidaria com isso?

RMS: Com leis como esta, não haveria nenhum modo legal de resolver o problema. O Digital Millenium Copyright Act chega perto do que você imagina, e pode ser suficiente para proibir software livre para esta tarefa. (Eu não sei ao certo, e acho que a resposta ainda não é conhecida.) Pode ser necessário desenvolver este software em países que não possuam estas leis.

P: Será que agora é necessário ter uma filosofia de Hardware Livre que declara que “Hardware que exista em conjunto com um sistema de software proprietário deve ser substituído por padrões de Hardware Livre” ou algo similar?

RMS: Eu concordo – mas será difícil fazer com que as companhias de filmes lancem filmes para este hardware. Fundamentalmente, a única solução será quando uma quantidade suficiente do público passe a acreditar em liberdade para mudar as leis que servem de base para negar nossa liberdade.

P: Eu estive lendo suas opiniões por algum tempo, e embora elas façam sentido por elas mesmas, elas criam outras certas questões. O que mais me interessa são suas noções meta-éticas.

Você freqüentemente fala de noções como certo ou errado como se fossem coisas objetivas; você acredita que elas sejam assim?

RMS: Eu penso sobre certo ou errado como baseado em como o que nós podemos fazer afeta outras pessoas – as implicações de imaginarmos nós mesmo na situação das pessoas que são afetadas por nossas ações.

As pessoas podem chegar a diferentes conclusões sobre as implicações. Eu não acredito em relativismo; eu não acredito que qualquer conclusão seja tão válida quanto qualquer outra. Se eu e outra pessoa discordamos, pelo menos um de nós está errado. Infelizmente, não há maneira de obter certeza absoluta sobre o que está certo e o que está errado. Nós apenas podemos fazer o nosso melhor para descobrir.

As generalizações que obtemos de nossas consciências são nossos valores. Nossas conclusões específicas sobre ética derivam destes valores; argumentos sobre ética surgem deles. Meus argumentos sobre software livre, ou qualquer outra coisa, iniciam-se dos valores que eu acredito. Eles são endereçados às pessoas que pelo menos em parte compartilham destes valores. Quando as pessoas rejeitam estes valores persistentemente, não há nada que eu possa dizer a elas. Mas algumas vezes as pessoas irão começar a compartilhar meus valores quando eu explico a elas as situações nas quais os valores estão baseados. Elas podem então imaginar os mesmos sentimentos que eu senti ou imaginei.

P: Existem direitos “naturais”, e qual é a natureza da sua existência?

RMS: Eu acho que existem direitos naturais, no sentido de que as pessoas são eleitas a eles independentemente do que os governos dizem a respeito deles. Liberdade de expressão é um bom exemplo; acho que as pessoas são eleitas para a liberdade de expressão, e a censura é uma coisa errada. Este é um exemplo que eu penso que a maioria das pessoas que leia isso concorda. Também acredito que a liberdade para partilhar software e outras informações publicadas é um direito natural.

Também há direitos artificiais, direitos que não são naturais. Eu concordo com o sistema legal dos EUA, por exemplo, na visão de que o copyright é um direito artificial, e não um direito natural. Pode ser razoável ter um tipo limitado de sistema de copyright para alguns tipos de obras, mas isto é uma concessão feita para beneficiar o público, não um direito de autores e editores. Este sistema deve ser limitado de modo que ele não entre em conflito sério com outros direitos naturais das pessoas.

P: Se for assim, como isso se encaixa com seu ateísmo? Se não, você acha que declarações éticas têm algum fundamento além do gosto pessoal?

RMS: Pessoas religiosas freqüentemente dizem que a religião oferece absoluta certeza sobre o certo e errado; “deus lhe diz” o que é o quê. Mesmo supondo que o deus previamente mencionado existe, e que os crentes realmente sabem o que os deuses pensam, isto ainda não daria certeza, porque qualquer ser, não importa o quão poderoso, ainda pode estar errado. Se deuses existem ou não, ainda assim não há nenhuma maneira de se ter absoluta certeza sobre ética.

Sem absoluta certeza, o que nós podemos fazer? Fazemos o melhor que pudermos. Injustiça está acontecendo agora; sofrimento também. Nós temos escolhas para fazer agora. Insistir em absoluta certeza antes de aplicarmos a ética em decisões de nossas vidas é uma maneira de escolhermos sermos imorais.


Tags deste artigo: drm stallman filosofia gnu gpl liberdade

22 comentários

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  • Eu minorfernandgoncalves
    31 de Julho de 2010, 15:00

    Visualizado 766 x. E nada foi dito !!!

    Paz e Bem Comunidade.

    Setecentas e sessenta e seis visualizações da entrevista de RMS re-publicada neste sítio e nenhum comentário à suas afirmações me deixa 'curioso' em saber a motivação de não comentarem, interagirem, opinarem, partilharem pensamentos sobre o que disse Stallman.

    Para mim, que falo por ai existir uma tal Filosofia GNU/Linux e ainda estou 'degustando' o conceito de Liberdade de Expresão (Informação) apresentada nesse prato a 'La Stallmam', não partilhar esse quitute filosófico, deixa parecer que 'posta a mesa, os convivas não apreciaram os pratos'.

    Certa ou errada minha percepção é válida. Até que se prove o contrário!!!


  • Aurium minorAurium
    31 de Julho de 2010, 17:09

    A Filosofia é GNU

    GNU/Linux é um "arranjo tecnológico". GNU é o projeto que inaugurou o ideal de Software Livre (apesar de não ser o primeiro projeto de SL) e ergueu a bandeira ideológica da liberdade de acesso, uso, colaboração e compartilhamento de forma consciente e explicita. Essa comunidade trata de divulgar a filosofia que geriu o GNU e cresceu com ele.

    Pois é mesmo estranho que bobagens corriqueiras atraiam mais comentários que artigos e debates que tentam ir mais a fundo no entendimento do mundo... mas é válido notar que esse é um texto histórico e muitos já o comentaram e derivaram em posts de blogs. ;-)


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