A minissérie Dalva e Herivelto da Rede Globo nos mostrou um pouco da música brasileira da década de 1940 e não poderia faltar nesse panorama a canção Ai que saudades da Amélia de Ataulfo Alves e Mario Lago. Depois de escutar a música inserida no contexto de época comecei a matutar com meus botões: quem inventou essa associação da Amélia com o estereotipo da rainha do lar? Em décadas recentes, Amélia virou sinônimo de mulher submissa ao marido tirano, presa à rotina do lar, totalmente ultrapassada, enfim, uma escrava do lar. As feministas de plantão não perdiam a oportunidade de esbravejar:

— Tá me achando com cara de Amélia? Pois saiba que sou mulher emancipada.

No entanto, se prestarmos atenção não é essa a mensagem que está na música. Faça o teste. Leia a letra da canção apresentada no final do post e ignore que se trata de uma canção de 1942. Para começar, ela nos fala de outra mulher, a sucessora da Amélia que não é nomeada na canção, mas que tem lá seus defeitos e nem de longe se compara à virtuosa Amélia. A sucessora é uma sem noção, como diriam os jovens de hoje. Ela não é um exemplo do feminismo, porque apesar de exigente, não reivindica direitos e, sim, luxo e riqueza. Amélia, ao contrário, é uma pessoa que apoia o amado mesmo na pobreza. Amélia não tem vaidade, o que pode ser um defeito para a mulher bem posicionada na vida, mas certamente é um desprendimento útil para quem enfrenta a miséria. Não seria ousado afirmar que Amélia era uma mulher devotada ao seu amor e companheira para todas as horas. Nos dias de hoje será que existem mais Amélias ou sucessoras?

Não sei o que Ataulfo Alves e Mario Lago diriam sobre emancipação da mulher, nem o que a Amélia pensava sobre relações conjugais modernas. Acredito também que a sucessora da canção não é o modelo de mulher defendido pela causa feminista, que nunca fez a apologia do consumismo e do interesse. Agora que já temos uma perspectiva histórica tanto da música como dos movimentos de emancipação feminina acho que dá para dizer de novo: ai que saudades da Amélia.

Ai que saudades da Amélia
Composição de Ataulfo Alves e Mário Lago
Lançamento: 1942

Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Nem vê que eu sou um pobre rapaz
Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo que você vê você quer
Ai, meu Deus, que saudade da Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado
Dizia: Meu filho, que se há de fazer

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado
Dizia: Meu filho, que se há de fazer

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade