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Distros Nacionais: o caminho é profissionalizar

13 de Agosto de 2010, 0:00 , por Software Livre Brasil - 22 comentários | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Esta semana acompanhei as discussões no site http://br-linux.org sobre o suposto avanço do nome Ubuntu em popularidade, suplantando o nome Linux (http://br-linux.org/2010/ubuntu-ultrapassando-a-popularidade-do-linux-acho-que-nao/) e sobre a “morte” das distros nacionais (http://br-linux.org/2010/distribuicoes-nacionais-estao-morrendo-–-e-kurumin-ainda-e-a-mais-popular). Os pontos que me chamam a atenção em todo este discurso é: 1) usuários GNU/Linux brasileiros que opinam sobre distros tendem a menosprezar as iniciativas nacionais e incensar as distros estrangeiras; 2) o Ubuntu é o que hoje por ter toda uma estrutura empresarial por trás dele, a Canonical; 3) por conta do disposto no primeiro item, algumas distros nacionais, como a GoblinX/ImagineOS e DreamLinux, optaram por se dedicar a mercados falantes de língua inglesa e vão bem, obrigado; 4) distros mantidas por empresas possuem desenvolvimento continuado, por serem sustentáveis.

Não há como negar que ninguém vive de “brisa amorosa”: todo e qualquer projeto, para manter-se vivo, precisa ser auto-sustentável. Todos as grandes distros conhecidas possuem uma empresa ou fundação amparando-as financeiramente e com infra-estrutura. O interesse é claro: criar um ecossistema de produtos e serviços ao redor da distro ou gerar conhecimento e aplicações que alimentarão seus produtos principais – e pagos. A visão é e será sempre o lucro, e isso não é ruim.

No geral, os críticos têm razão ao afirmar que a maioria das distros nacionais nem mereceriam o título de distribuição, uma vez que são, no máximo, personalizações ou remasterizações de uma outra distro maior e mais utilizada.

O que não cabe, porém, é atacar e minimizar estas iniciativas que, bem ou mal, atendem aos interesses de nichos de mercado, mesmo que este seja o próprio ego do mantenedor. Por outro lado, fala-se muito em contribuir para as distros principais, mas há um ponto geralmente omitido por muitos críticos: nem sempre sua distro favorita terá interesse em implementar a sugestão que você ofereceu, por motivos os mais diversos. O Ekaaty Linux surgiu por esse motivo: a equipe do Fedora não aceitou a sugestão de alguns embaixadores brasileiros, os quais decidiram pela criação de uma outra distribuição que contemplasse as mudanças, gerando mais estabilidade do sistema e maior facilidade de uso, divergindo em muitos aspectos do Fedora original.

Podemos usar uma analogia semelhante a que Stallman usou em Revolution OS, o filme: a culinária. Suponhamos que você foi a um restaurante e saboreou uma deliciosa carne de sol. A carne é muito boa e tal, mas você gostaria que colocassem um pouco de queijo ralado ao servir a carne. O garçom lhe traz o queijo ralado em uma vasilha e permite que coloque a vontade. Você passa a adorar a carne de sol e sempre come naquele restaurante, pedindo o queijo ralado. Sugere a outras pessoas que frequentem aquele restaurante, pois a carne de sol com queijo ralado de lá é maravilhosa. As pessoas vão e gostam. O número de pessoas que querem a carne de sol com queijo ralado cresce, mas o restaurante mantém no cardápio a carne sem o queijo. Então você sugere que eles sirvam a carne já com o queijo, como um prato diferenciado. Contudo, o dono do restaurante argumenta: “há 20 anos que sirvo carne de sol sem queijo e ninguém reclamou. Vou oferecer o queijo apenas se solicitarem” e não aceita a sugestão. Então você e alguns dos que queriam que a carne já viesse com o queijo resolvem abrir um restaurante para oferecer carne de sol com queijo ralado. Ambos os restaurantes são sustentáveis, possuem clientela constante e não há prejuízo nem pra um, nem pra outro.

Contudo, alguém observando de fora os acontecimentos diz: “Que desperdício de mão de obra! E ainda divide a clientela! Por que o pessoal que serve carne de sol com queijo não se junta com a que serve carne de sol sem queijo para servir uma melhor carne de sol? Acho que esse pessoal deveria fechar as portas, é um empreendimento morto! Vão pra casa comer sua carne de sol com queijo e ajudem o restaurante a servir carne de sol sem queijo!” Parece absurdo, não? Mas é o que muitos fazem ao criticar iniciativas brasileiras de novas distros. Ninguém é obrigado a comer carne de sol com queijo ralado, mas ninguém pode impedir alguém de abrir um restaurante para servir este prato específico.

Observem que aqui há um componente extra: estamos falando de empreendimento. E as distros nacionais que vigoram hoje falham justamente neste aspecto. Muitos mantenedores encaram a coisa como um hobby, algo para fazer nas horas vagas, sem critério ou planejamento. E querem obter reconhecimento e usuários dessa forma. É uma doce ilusão. Não estamos mais em 1991. Nenhum de nós é Linus Torvalds. E nem estamos desenvolvendo um kernel novo. Distros novas que querem vingar precisam: 1) ter propósito, visão de futuro e valores que contemplem o público-alvo, e não os mantenedores/desenvolvedores; 2) entender e obedecer as leis do mercado (produto, preço e prazo); 3) ter equipes dedicadas ao desenvolvimento e suporte técnico; e 4) identificar e manter fontes de recursos para dar sustentabilidade ao projeto. Não entrarei em detalhes sobre estes tópicos, pois existe vasta literatura na área de Administração que trata destes e de outros assuntos relevantes.

Se a finalidade de “fazer” uma distro é só para satisfazer o ego do mantenedor, pode esquecer o que está escrito aqui. Mas se a intenção é fazer uma séria concorrência com as distros tradicionais, angariar usuários e buscar seu lugar ao sol no mundo do Software Livre, este texto é só um pontapé inicial. Uma distribuição é um empreendimento e deve ser sempre encarado como tal.

 


Tags deste artigo: br-linux.org linux ekaaty brasil distribuições desenvolvimento empreendedorismo

22 comentários

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  • 9be17b975fcfef25c88706fe46a30c30?only path=false&size=50&d=404Christian Tosta(usuário não autenticado)
    14 de Agosto de 2010, 12:11

    Grande!

    Excelente Adriano. Falou muito bem.


  • 995028 10151969949393893 1191286765 n minorAdriano
    25 de Maio de 2012, 16:02

    Precisamos dar o exemplo

    É preciso que todos os envolvidos com desenvolvimento de distros/spins/respins/forks passem a agir imbuídos desse espírito. Não dá mais pra ficar enxugando gelo.


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