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Jornal do Comércio RS: ‘Brasil está na rota das revoltas hiperconectadas’

6 de Janeiro de 2014, 9:49 , por Marcelo D'Elia Branco - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Jornal do Comércio RS
ENTREVISTA ESPECIAL
 Notícia da edição impressa de 06/01/2014

‘Brasil está na rota das revoltas hiperconectadas’, diz Branco

Jimmy Azevedo

JONATHAN HECKLER/JC
“A internet ‘desintermedeia’ as relações; o ser humano pode se comunicar de forma global”
“A internet ‘desintermedeia’ as relações; o ser humano pode se comunicar de forma global”

Profissional de Tecnologia da Informação “desde sempre” e ativista pela liberdade do conhecimento. É assim que o porto-alegrense Marcelo Branco, de 52 anos, se autodenomina. Branco é ativista do movimento Software Livre, organizador do Campus Party Brasil, maior evento de internet e inovação tecnológica do mundo. Também atuou na campanha de mídias sociais de Dilma Rousseff (PT) nas eleições presidenciais de 2010, o que não vai se repetir em outubro deste ano.

Em 2009, Branco liderou o movimento pela criação de um projeto que estabelecesse o Marco Civil da Internet no Brasil. Foi justamente em Porto Alegre, durante uma visita oficial do então presidente Lula (PT), que a solicitação foi feita ao petista e ao então ministro da Justiça, Tarso Genro (PT).

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, concedida na Casa de Cultura Mario Quintana, um dos palcos do Conexões Globais, Branco avalia a importância da internet nas mobilizações de junho, bem como o papel das redes sociais (Twitter e Facebook) para a democratização da informação. Nos dias 24 e 25 de janeiro, Branco estará à frente, pelo terceiro ano consecutivo, do projeto Conexões Globais, que será realizado na Capital. 

Jornal do Comércio – Quais os efeitos da comunicação e conexão virtual para as mobilizações populares ocorridas no Brasil em 2013?

Marcelo Branco – Acho que o Brasil entra definitivamente na rota das revoltas hiperconectadas. As revoltas que têm como base de mobilização social a internet. Revoltas que transbordam das redes sociais para as ruas, e isso está completando três anos, um ciclo, né? Começa pela Tunísia, que foi a primeira revolução, depois veio todo o mundo árabe, em seguida a Espanha, tudo em 2011, depois Occupy Wall Street (Nova Iorque). Então, 2011 foi um ano em que o mundo inteiro sofreu pela primeira vez manifestações gigantescas e que os protagonistas não eram as organizações conhecidas, tradicionais, os sindicatos, os partidos políticos, as associações. Depois isso se repete em 2012, no México, com o movimento “Soy 132”. Finalmente 2013 foi o ano do Brasil e da Turquia. Então, existem traços comuns entre todas essas revoltas. Em países com conjunturas e realidades sociais diferentes, governos diferentes, democracia, ditadura, países em crise econômica como Espanha, países em ascensão, de certa forma estabilidade econômica, como Turquia e Brasil, que não estão vivendo uma situação tão grave na economia como os demais países, mas existe uma característica em comum. A primeira é essa: a internet “desintermedeia” as relações. Pela primeira vez foi possível o ser humano se comunicar de forma global sem intermediação de nenhum veículo. No passado, na era industrial, sempre que o humano precisava dar uma dimensão pública para as suas visões, protestos, necessariamente isso precisava passar por um veículo intermediário. A internet, não só para política, ela “desintermedeia” as relações, na medida que o ser humano tem uma capacidade de comunicação global sem necessitar passar por um veículo intermediário. Então o ser humano é mídia de massa, mídia social, e ele consegue interconectar a partir de ideias comuns, com milhares e milhões de pessoas, ao redor do mundo, sem necessidade de estar vinculado a uma organização tradicional.

JC – O entendimento da população está crescendo, através das abordagens nas redes sociais, sobre o poder ainda muito conservador das oligarquias da imprensa brasileira?

Branco – Quando a gente fala em veículos de comunicação de massa - rádio, TV e jornal - e seu desafio, então na comunicação também essa intermediação do conteúdo, ela sofre uma crise, mas a mídia não se comportou da mesma forma que a indústria fonográfica, que passou a criminalizar as bandas, que passaram a ser criminosas pela indústria. No caso da mídia de massas não, ela acaba fazendo todo um processo, revisando seu papel e incorporando os novos valores como complemento da mídia tradicional, broadcast, porque rádio, TV e jornal são veículos de comunicação pelos quais um mesmo conteúdo é enviado para milhares de pessoas. Como veículo, então, não é o problema da necessidade de se reinventar na forma de fazer comunicação, não está na linha editorial.

JC - O que é então?

Branco - É uma questão estrutural. Então, muitos dizem que “a mídia está em crise porque os jornais são conservadores”. Pode ser um elemento, mas essa crise na forma de se fazer a mídia, de forma broadcast, única e exclusivamente, é uma questão estrutural. Pela primeira vez, a humanidade tem um cenário nas mídias em que a plataforma de mídia do público é a mesma plataforma de mídia do editor. Então, se o editor tem possibilidade de botar um vídeo, escrever um texto no blog, ou no portal do veículo, mandar fotos, o “público” do outro lado tem as mesmas possibilidades, da sua casa. Então isso muda a natureza da comunicação. A comunicação em rede ou a comunicação nas mídias sociais não é uma comunicação de transmissão de conteúdo e de informação. O resultado para a comunicação ter sucesso, na publicidade também, é o quanto se consegue engajar o público na construção do conteúdo ou na construção da publicidade. Esse é o desafio das agências tradicionais que trabalharam historicamente vendendo mídia e vendendo percentual daquele anúncio para grandes veículos de massa, e hoje elas encontram dificuldades de trabalhar nas novas mídias. Então se se fizer peças publicitárias ou conteúdo jornalístico maravilhosos e tentar simplesmente empurrar isso - “bomba aí” no Face, no Twitter, nos canais de mídia social - não dá um bom resultado. O que dá um bom resultado? Conseguir envolver, através das mídias, teu público na construção da notícia, no comentário, mandando fotos. Muitas vezes esse público pode até ser o protagonista da construção do conteúdo.


JC – Sobre a experiência na eleição da presidente Dilma Rousseff, em 2010, qual o desafio dos políticos em termos de comunicação via redes sociais?

Branco – Tem duas coisas. É claro que nas eleições a internet vai ser mais importante do que sempre foi. Em 2010, já foi decisiva para a campanha da Dilma, mas  vai ser mais importante. Os partidos políticos e os candidatos que não tiverem uma boa estratégia nas mídias sociais vão estar muito prejudicados nas suas campanhas. Não que não possam vencer, mas eles vão estar perdendo um espaço de disputa política importante. Fazendo uma retrospectiva da campanha da Dilma, também foi diferente. A campanha do (presidente norte-americano Barak) Obama, em 2008, foi feita com o Obama falando com os eleitores através de uma estratégia de “e-mail marketing” segmentada. Obama dizia: “Você que é colorado, mora em Cachoeirinha e tem menos de 18 anos”. Uma carta chegava na casa do eleitor. Então esse foi o sucesso do Obama. No caso das mídias sociais no Brasil nas eleições de 2010, tanto o fenômeno que aconteceu na campanha da Dilma quanto o fenômeno que aconteceu na campanha (à presidência) da Marina Silva (então PV, hoje PSB), eram os eleitores querendo falar com a candidata. Não foi possível centralizar a campanha numa agência ou numa coordenação de campanha. Isso  foi muito importante, porque pela primeira vez os eleitores retomam, digamos assim, o controle da linha política da campanha. Isso acontecia na internet.

JC – As redes sociais interferem na conduta dos políticos? Pela internet, as pessoas fiscalizam, debatem, se mobilizam, como ocorreu pela cassação do deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), que tem postura homofóbica e discriminatória.

Branco – O caso do Marco Feliciano é um absurdo, quer dizer, o cara que coordena uma comissão de direitos humanos com uma visão completamente contra os diretos humanos é a antítese dos direitos humanos, um cara racista, homofóbico. Esses são elementos que geraram a indignação de junho. Não é só esse caso, mas quantos Marcos Felicianos temos comandando comissões, indicados por lobbys de suas corporações, das suas seitas ou das suas religiões? Esses temas vão estar em debate e acho que esse é o tensionamento hoje que existe no governo da presidenta Dilma. A resposta que ela deu (em junho), o discurso político até agora... Foi a única líder mundial reconhecendo a legitimidade das manifestações. A única coisa que faltou, por parte da presidenta, foi uma crítica dura às forças policiais. Essa é a questão que estamos vivendo hoje no Brasil, a forma violenta e brutal que as forças de repressão agem durante manifestações democráticas. Foi essa violência da polícia que deu vazão para as ações dos black blocs.

JC - O governador Tarso Genro foi muito criticado pelos manifestantes vítimas de ações violentas da Brigada Militar...

Branco – É, acho que foi a única coisa que ele pecou, porque a pauta não era estadual, nem nacional, a pauta principal no mundo inteiro, inclusive na Turquia, é a pauta local, então o tema dessas manifestações, no Brasil, na Turquia, na Espanha, trouxe à tona de novo a questão da privatização do espaço urbano. A questão da mobilidade urbana está na pauta. É a pauta dos cicloativistas, é a pauta dos ecologistas, é a pauta da tarifa de transporte coletivo, então não foi uma pauta nacional. O que levou os manifestantes para a frente do Palácio Piratini foi exatamente a ação das forças de segurança pública. Então, independentemente da análise por parte das pessoas que acham que foi correta a ação da Brigada, que foi na medida certa, tenho divergências em relação a isso, acho que a Brigada agiu de forma violenta, de forma não democrática, e a Polícia Civil, quando invadiu a residência de várias lideranças anarquistas, também agiu de forma equivocada.

JC – O Marco Civil da Internet continua parado no Congresso Nacional. Como avalia o projeto?

Branco – É um projeto exemplar. Ele foi uma reação a uma lei repressiva da internet, o “AI-5 Digital” do senador (Eduardo) Azeredo (PSDB-MG), e foi aqui em Porto Alegre, em 2009, que começou o processo do marco civil. O então presidente da República Luiz Inácio da Silva (PT) esteve no Fórum Internacional do Software Livre e recebeu vários ativistas e manifestantes que eram contra a lei do senador Azeredo e pediam que o Brasil estabelecesse um código, uma nova carta magna para internet. E naquela oportunidade, em junho de 2009, na PUC, diante de milhares de ativistas do movimento Software Livre, se pediu ao então ministro Tarso Genro, da Justiça, que começasse a elaborar um Código Civil para a Internet, o chamado Marco Civil da Internet. Esse marco civil foi exemplar.

JC - Por quê?

Branco - Porque, numa plataforma colaborativa do Ministério da Cultura, ele foi construído em duas etapas, em que milhares de pessoas contribuíram na construção do texto inicial. Primeiramente “o que deveria estar no texto”, essa foi a primeira consulta pública. Milhares de internautas contribuíram colocando a neutralidade e tal. Na segunda, a Fundação Getulio Vargas, junto com o Ministério da Justiça, elaborou uma pré-redação, que também sofreu milhares de contribuições. Então o marco civil foi a primeira lei construída usando as ferramentas da internet para elaboração de uma política pública, e esse texto foi o texto que a presidenta Dilma mandou para o Parlamento. O marco civil é um exemplo concreto, e talvez seja um grande case mundial, de construção de uma lei extremamente complexa, usando a internet como plataforma e a população participando da construção das políticas públicas. Os parlamentares percorreram as capitais com novos debates, e, nesses debates, o lobby contra a neutralidade não apareceu, o lobby foi subterrâneo, silencioso, a forma tradicional de fazer política dos lobbys dentro do parlamento. A neutralidade na rede é o coração do Marco Civil da Internet.

JC – Como tem acompanhado a espionagem do governo norte-americano em dados sigilosos do governo brasileiro?

Branco – Isso é gravíssimo. Nós, da comunidade Software Livre, estamos denunciando isso há vários anos. Tem o Echelon (rede de espionagem global), que é outro projeto de espionagem por satélite, dos cabos. Isso é gravíssimo, é inaceitável para o Estado Democrático de Direito, inaceitável para uma sociedade pós-republicana. São práticas ilegais de espionagem, pode-se dizer que é grampo. Estamos sendo grampeados pelo governo norte-americano, isso é inaceitável.

JC – Pretende atuar na campanha à reeleição de Dilma?

Branco – Não, não, não faço mais campanha eleitoral. Estou trabalhando na iniciativa privada, tenho alguns clientes. Trabalho com comunicação e mídia social, mas, em campanhas eleitorais, minha experiência de 2010 foi o suficiente.

Perfil

Marcelo Branco atua na área de Tecnologia da Informação há 25 anos. É professor honorário do Cevatec (Instituto Superior Tecnológico - Centro de Informática da Universidade de Ciências e Humanidades), no Peru, além de ser membro do Conselho Científico do Programa Internacional de Estudos Superiores em Software Livre na Universidade Aberta da Catalunha. Foi coordenador do projeto Software Livre Brasil, através do qual também organizou o Fórum Internacional de Software Livre, e foi diretor do Campus Party Brasil por três anos. Deixou as duas funções para se dedicar à coordenação de campanha nas redes sociais de Dilma Rousseff (PT) nas eleições de 2010. Trabalhou 18 anos na Embratel em projetos de redes de alta velocidade. Na Procempa, na Capital, entre 1996 e 1998, implantou a Divisão de Telecomunicações da prefeitura. No Estado, foi diretor-técnico da Procergs. Em 2002, coordenou a Divisão de Informática da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), que começou a operar com plataforma tecnológica totalmente livre. 


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