Este blog pretende funcionar como um espaço de discussão das questões relacionadas a cultura livre e colaborativa, representadas aqui sobretudo pelo defesa do software livre, do p2p e pela defesa do anonimato na rede. Ele é gerenciado por uma militante do software livre e aprendiz de historiadora, que desenvolve pesquisas sobre as implicações da cibercultura na contemporaneidade. Me interessa aqui, parafraseando o Wu Ming, atingir, pescar, distribuir, contar e, no fundo, pretender a dignidade para aqueles que defendem a liberdade na rede e fora dela.


Minha participação no FISL 15

12 de Maio de 2014, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

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Esse ano fui palestrante convidada da décima quinta edição do Fórum Internacional de Software Livre, o FISL. Eu não sabia ainda o que esperar do evento já que, por incrível que pareça, nunca tinha participado. Sou usuária de software livre desde 2007 e não sei porque cargas d’água eu nunca havia ido no FISL, mas enfim, o que importa é que esse ano eu consegui ir e vou contar para vocês algumas das minhas impressões.

Sempre ouvi falar que o FISL era um evento “mais político” que o Latinoware, que geralmente é classificado como “mais técnico”. Esse segundo eu já participo representando o KDE desde 2011 e posso falar com um pouco mais de conhecimento de causa. Mas realmente percebo essa diferença entre os dois. E isso tem muito a ver com o contexto histórico no qual se originou o FISL, a história desse evento se confunde com a história do desenvolvimento do movimento software livre aqui no Brasil. No entanto, isso não significa dizer que o FISL é superior ao Latinoware ou vice-versa, apenas que possuem perfis diferentes.

Na edição desse ano me parece que o evento estava afetado por uma polêmica que tomou conta da internet nos últimos dias, a de que o movimento software livre no Brasil tinha morrido. Na grade de programação havia uma mesa dedicada a discutir o tema. Fiz questão de assistir a ela, até porque sabia que o meu querido amigo Fred estaria lá na mesa disposto a se contrapor a essa ideia absurda de que deveríamos velar o defunto do nosso movimento.

Uma fala em particular me deixou bastante incomodada nessa palestra, era a de um dos membros da mesa que afirmava, sem muito pudor, que os ativistas de software livre que usam facebook, gmail, ubuntu, iphone e por aí vai, são todos “idiotas”. E aquilo foi como se ele dissesse que eu com meu trabalho de 7 anos para a causa do software livre, assim como tantos outros ativistas espalhados mundo afora, não fôssemos dignos de ser considerados ativistas legítimos porque usamos algumas dessas ferramentas.

Imaginei um novato que ainda usa windows/mac/etc chegando no evento super animado e interessado em saber como entrar na comunidade e se deparando com uma palestra em que a pessoa diz que ele não serve para o movimento software livre porque ele não é 100% livre. Já pensou? Bom, se a gente continuar a hostilizar todo mundo que usa tecnologias proprietárias e não souber como apresentar o software livre a essas pessoas de uma forma mais interessante, aí sim acho que o movimento vai morrer. Hostilizar as pessoas chamando-as de “idiota” é um tiro no pé. As pessoas tendem a querer se integrar a comunidades onde eles se sentem acolhidas e não hostilizadas.

Esse ativista, que se colocou numa posição melhor e superior a de todos nós, parece não ter consciência do processo de construção de toda militância política. Ele tem afirmado que “não mudou”, como se ele sempre tivesse sido esse “radical livre” que diz ser agora. Pois bem, eu não gosto de alimentar polêmicas mas vamos voltar a alguns anos atrás quando  essa mensagem foi enviada para a lista do PSL-Brasil:

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Ok, agora vocês se quiserem saber um pouco melhor o que aconteceu nessa palestra, assistam o vídeo dela aqui. Poderão ver a minha resposta e a de muitas outras pessoas que não concordaram com essa ideia de que o movimento morreu e de que somos todos idiotas.

Vamos falar agora sobre as minhas palestras :)

Como havia dito, fui convidada para palestrar no evento e dei uma primeira palestra  (A tecnoutopia do software livre: uma história do projeto técnico e político do GNU) sobre a minha dissertação no espaço Paulo Freire, um espaço maravilhoso dedicado a discussões relacionadas a educação e tecnologia livre. Foi uma experiência muito boa palestrar lá, exatamente por poder falar diretamente com pessoas envolvidas com educação. Acredito que o tema do software livre não pode e não deve ser dissociado das discussões que perpassam educação, acesso e produção de conhecimento,  entre outros. Infelizmente no espaço Paulo Freire as palestras não são gravadas e para quem não pôde ir ao evento ou assistir as atividades do espaço, não vai ser possível saber o que rolou por lá :(

Disponibilizo aqui os slides da palestra que foi apresentada lá:

A segunda palestra foi sobre a história do Projeto GNU, aproveitei a ocasião do aniversário de 30 anos do Projeto e a finalização da minha pesquisa de mestrado sobre ele para apresentar os principais fatos que marcaram sua criação. Acho que muitas pessoas na comunidade ainda desconhecem a história desse movimento, portanto, penso que seja importante tal palestra para que a gente possa deixar claro, inclusive, contra o que estamos lutando e o que o GNU pretende. Aqui estão também os slides desta segunda palestra:

Quem quiser assistir ao vídeo da palestra completa basta clicar aqui.
Eu também estava no FISL representando a comunidade KDE, portanto, participei das atividades como colaboradora da comunidade aqui no Brasil. Fizemos um encontro comunitário, que foi gravado e pode ser assistido aqui. Nele falamos um pouco sobre o que esperar da nova versão do Plasma que será lançada em julho e tiramos algumas dúvidas sobre Qt.
Bom, o que eu posso dizer do evento é que foi muito produtivo para mim enquanto militante e pesquisadora do software livre, assim como para a comunidade KDE. A  nossa participação, mais uma vez, nesse que é um dos principais eventos de software livre da América Latina, só reafirma que a nossa comunidade está atuante e que sempre procura marcar presença com programação de alto nível para os seus usuários. Esperamos vocês em outubro no Latinoware, onde comemoraremos os 18 anos do KDE :)



Minha dissertação sobre o Projeto GNU

31 de Março de 2014, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Olá! Quem acompanha esse desatualizado blog sabe que eu estava trabalhando nos últimos tempos em uma pesquisa de mestrado sobre a história do Projeto GNU e da criação do software livre. A ideia era construir um trabalho que apresentasse o contexto histórico, sobretudo da indústria do software, no momento em que o projeto de Richard Stallman foi criado, mas também investigar como o movimento software livre representava nos dias de hoje uma utopia que mobilizava tanto a esquerda quanto a direita.

O resultado disso vocês podem conferir abaixo. Coloquei o resumo do trabalho pra que vocês se familiarizem um pouco melhor antes de fazer o download.

Resumo:

Ao longo dos períodos históricos a técnica tem desempenhado um papel importante na formulação de demandas sociais. Os indivíduos sempre depositaram nas tecnologias suas expectativas e desejos para a construção de uma realidade diferente. O mesmo tem acontecido hoje com as tecnologias digitais. Muitos grupos sociais atribuem a elas um papel de possibilitadoras de uma sociedade mais justa e mais democrática, onde o conhecimento seja algo irrestrito e pertença a todos. Neste trabalho pretendemos apresentar, a partir de uma perspectiva histórica, esse debate contemporâneo em torno das tecnologias digitais como tecnologias emancipadoras. Para tal, trabalharemos com o Projeto GNU, representante do movimento software livre, idealizado na década de 1980 por Richard Stallman, e que se insere nesse debate através da sua defesa, não só de uma informática livre, mas do conhecimento livre como um todo. Entendemos que esse projeto é um dos principais representantes da tendência atual de depositar nas tecnologias digitais a expectativa de uma sociedade melhor. Investigamos as características desse discurso do Projeto GNU e buscamos perceber de que forma ele foi se construindo ao longo do tempo, assim como também quais práticas sociais o acompanham e quais indivíduos são seus portadores. Identificamos neste discurso a presença de palavras-chave historicamente mobilizadoras e que permitem que ele seja incorporado tanto por grupos de esquerda quanto de direita. Além disso, ao se colocar como um projeto político e defender uma sociedade diferente da que temos hoje, o Projeto GNU, com sua causa do software livre, é representante de uma verdadeira utopia moderna.

Link para download da dissertação: A tecnoutopia do software livre: uma história do projeto técnico e político do GNU.




Os drones e um novo tipo de guerra

13 de Dezembro de 2013, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

As guerras do século XX inauguraram novas formas de combate com o uso de armas nucleares, aviões para ataques aéreos, submarinos, computadores para cálculos balísticos etc. As tecnologias inventadas neste século potencializaram o poder bélico e o resultado disso foi que este foi o século mais assassino da história, com estimativas de 187 milhões de mortos. O casamento entre ciência e tecnologia produziu esses efeitos assustadores. Pela primeira vez substituíam-se os combates corpo a corpo, travados entre militares apenas, pelos ataques a civis através do uso de armas de destruição em massa. O século XXI vem seguindo essa tendência, o uso de drones, que são veículos aéreos não tripulados com ou sem poder de fogo, é a nova “moda” da indústria bélica. Esse tipo de arma pode fazer estragos em qualquer região inimiga sem causar estragos no exército do país que está atacando. É uma intervenção militar “perfeita”, porque não há baixas de soldados. Como se diz no linguajar deles, é um ataque de “precisão cirúrgica”. Bom, nem tão preciso assim, se considerarmos a série de “erros” que (quem pilota) esses robôs de combate já cometeram: aqui e aqui estão dois recentes.

Não por acaso quem mais usa drone para fins militares hoje são os Estados Unidos. E não por acaso também, quem mais sofre com esse uso são os países do Oriente Médio, como Paquistão, Iêmen, Afeganistão e Iraque. Logo abaixo temos um infográfico publicado hoje pelo Estadão sobre o uso global de drones. Nele é possível perceber que ainda predomina na maior parte do mundo o uso de drones sem poder de fogo. EUA, China, Grã-Bretanha, Itália e Israel, no entanto, se destacam pelo uso desses veículos aéreos com artilharia.

arte_drones_web

Clique na imagem para aumentá-la.

 

Os drones, no entanto, não são exclusivamente armas de guerra, há muitas outras funções exercidas por essas máquinas atualmente. Assim como os aviões, inventados no começo do século XX, que foram apropriados pela guerra e acabaram se tornando também armas bélicas, os veículos aéreos sem piloto são uma estranha mistura dos inofensivos aeromodelos com as bombas voadoras inventadas pelos alemães na Segunda Guerra. Quem se interessar por conhecer melhor a variedade de drones e sua variedade de usos, pode dar uma olhada nesse ótimo documentário que a Vice fez sobre esses robôs aéreos:




Porque o software livre não é coisa de comunista

5 de Fevereiro de 2013, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

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Fonte da Imagem

Não é raro encontrarmos esse tipo de afirmação por aí, sempre que participo de eventos de tecnologia, que não são necessariamente de software livre, vez ou outra alguém faz esse tipo de afirmação descabida: “software livre é coisa de comunista, ou de socialista, ou de anarquista”.  Muitas vezes ignora-se até a distinção entre essas três correntes de pensamento. Bem, quem faz esse tipo de afirmação parece não saber muito sobre software livre e/ou sobre comunismo ou as outras correntes citadas. Me senti um pouco provocada a escrever um texto com algumas considerações sobre isso, já que faço parte de comunidades de software livre e também sou pesquisadora do tema, e já fui chamada muitas vezes de comunista/anarquista por isso!

Não acho que software livre seja coisa de comunista, anarquista ou socialista, e posso explicar porque. Como também não acho que esse tipo de ideia seja propagada de forma inocente, como sendo apenas fruto de ignorância histórica, acho que existe uma intenção de desqualificar o movimento, como se ao chamá-lo de “coisa de comunista” o colocasse num patamar de clubinho de esquerda ou alguma outra qualificação que tem a intenção de ser difamatória. Não acho que o movimento software livre seja comunista, porque classificá-lo assim é encerrá-lo numa coisa menor, é homogeneizar um movimento que possui tantos ativistas e atividades diferentes que não apenas estas relacionadas à defesa do comunismo. Ele não é coisa de comunista porque na verdade ele é para todos, é um movimento onde cabem todos os tipos de correntes de pensamentos, mesmo as opostas. Há pessoas de esquerda no software livre assim como há pessoas de direita, e é essa diversidade que o tem tornado bem sucedido. O software livre é uma solução para toda a sociedade, não apenas para a esquerda comunista ou para qualquer outro grupo.

No começo dos anos 80, quando Richard Stallman anunciou ao mundo a sua ideia de criar um sistema operacional completamente livre, ou seja, passível de ser usado, estudado, alterado e compartilhado, sem que fosse necessário qualquer tipo de permissão prévia do detentor de copyright do software para isso; ele o fez porque acreditava que o conhecimento compartilhado é a chave para o desenvolvimento social,  e impedir que as pessoas possam fazer isso é uma autossabotagem, um tiro no pé:

Eu estou tentando mudar a forma como as pessoas abordam o conhecimento e a informação em geral. Eu acho que tentar se apropriar do conhecimento, tentar controlar se as pessoas estão autorizadas a usá-lo, ou tentar impedi-las de compartilhá-lo,  é sabotagem. É uma atividade que beneficia a pessoa que a faz às custas do empobrecimento de toda a sociedade. [Richard Stallman em entrevista à BYTE em 1986]

Richard Stallman não propôs o software livre porque queria abolir a propriedade privada, como o querem os comunistas. A sua intenção, como ele bem destacou acima, é aproveitar as possibilidades que as tecnologias digitais nos oferecem e, através delas, mudar a forma como estamos nos relacionando com o conhecimento. Em que isso tem a ver diretamente com o comunismo? A ideia central com a qual o software livre se relaciona não é a da gratuidade, mas a da liberdade de uso. Portanto, o software livre pode ser vendido, ou seja, alguém que produz determinado software pode vendê-lo do preço e da forma que quiser, isso é capitalismo básico. Não há no software livre a condenação da transformação do conhecimento [software, no caso] em produto e nem a condenação da ideia de se obter lucro com ele, desde que isso não  se torne um obstáculo para que o software seja compartilhado. Não importa se o software é comercial ou não, o que importa é que ele respeite as liberdades essenciais dos seus usuários.

O que movimento software livre representa, portanto, não é um projeto comunista, ele representa um projeto social inclusivo, no qual todos possam ter livre acesso ao conhecimento, sem distinção de orientação política, sexual, de questões de cor ou de credo. Querer pintá-lo como um movimento de panelinha ou de única orientação ideológica é um grande erro.




Revista sobre software livre na universidade

20 de Janeiro de 2013, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Olá meus caros!

Esse mês foi publicada a 29 edição da Revista Advir, uma revista da ASDUERJ (Associação de Docentes de UERJ). O tema escolhido para essa edição foi  “Software livre na universidade, sociedade digital e a questão da autoria”. Entre os vários artigos que compõem a publicação está um de minha autoria, sob o título de “Software livre, direitos autorais e conhecimento livre: como a nossa sociedade está mudando sua relação com o conhecimento”.

 

CAPA29

 

Espero que apreciem a discussão feita pelos estudiosos que colaboraram na construção de pontos de vistas desse tema tão importante atualmente. O download da revista pode ser feito aqui. Divulguem por aí! ;-)